8 de outubro de 2007

A manteca de Bernières

Eis um excerto de Señor Vivo and the Coca Lord de Louis de Bernières (traduzo eu do inglês original):
Os espanhóis que viajam pela América Latina têm às vezes dificuldades em comprar manteiga. Pedem ‘mantequilla’, e são olhados com surpresa. Quando explicam que é uma coisa para barrar no pão, o proprietário da loja diz «Ah, o que você quer é ‘manteca’», e o espanhol pensa que lhe estão a propor banha e diz «Não, não é isso que eu quero». A conversa continua e a confusão vai aumentando, até que o dono da loja mostra um bocado de manteiga e diz «Isto é manteca, é isto que a gente aqui barra no pão». O espanhol mira o produto com desconfiança; é uma coisa esbranquiçada e de facto mais parece banha do que manteiga, mas tem a textura e a consistência de manteiga. É de facto surpreendente. O espanhol compra a manteca e barra-a no pão, para experimentar, e chega à conclusão de que nem é uma coisa assim tão má, com um sabor entre a banha e a manteiga.
Ficamos então a saber que, além de não querer fazer o seu TPC, Bernières nem sequer aprendeu a dizer manteiga no tempo em viveu na Colômbia – é que, ainda por cima, ele viveu na Colômbia! De todos os países de língua oficial espanhola da América Latina, só na Argentina (e talvez também no Uruguai, não sei…) se chama manteca à manteiga. Em todos os outros países é mantequilla, tal e qual como em Espanha. Ora, como os argentinos até exportam manteiga para outros países sul-americanos, escrevem de facto mantequilla nas embalagens ou nas latas da sua manteiga de exportação, ao lado do seu idiossincrático manteca. Não acredito que haja muitos argentinos que não saibam que o nome castelhano da manteiga fora do seu país é mantequilla. Mas mais: Pelo menos na Bolívia, no Peru e na Colômbia – não a conheço noutros países latino-americanos – a manteiga, quer importada da Argentina, quer nacional, não é nada que se pareça com banha. É manteiga, tal como nós a entendemos na Europa, simplesmente. E mais ainda: mesmo que manteca fosse a palavra do castelhano da América Latina para designar o que se chama em Espanha mantequilla, a explicação dada no livro, baseada no que de Bernières chama a “história social da palavra” e que dá a entender que se começou a usar a designação depreciativa de banha para um produto considerado inferior, não tem ponta por onde se lhe pegue. Por muito que lhe custasse ter ido à procura da história da palavra (5 minutos na Internet?), deveria ter pelo menos tido em conta dois pormenores óbvios: que mantequilla é um diminutivo de manteca e que há outros falares ibéricos em que a manteiga tem um nome muito mais próximo de manteca do que de mantequilla.

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