9 de outubro de 2007

Herbert Quain e April March: Borges como inspirador de 2 fracassos online

George Simmers afirma que o seu hipertexto “Histories”, publicado na revista digital Snakeskin web magazine, tem uma estrutura que lhe foi inspirada pela novela April March, de Herbert Quain, publicada em 1936. Simmers diz não ter conseguido obter nenhum exemplar da referida novela, pelo que se não inspira directamente na sua leitura, mas antes na descrição que dela faz Jorge Luis Borges no seu texto “Exame da obra de Herbert Quain”, de 1941. É difícil decidir aqui se Simmers acredita mesmo que Quain e a sua obra têm existência real ou se apenas pretende desenvolver a ficção de Jorge Luis Borges. Para quem não esteja a par da questão quainina (eu diria em inglês “acquainted with Quain”, que gracinha…), no entanto, é necessário explicar aqui que nunca houve nenhum Herbert Cain fora da obra de Jorge Luis Borges, como ele, aliás, deixa claro no seu prefácio a Ficciones (Madrid: Alianza Editorial, 2005):
Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resatus; e assim também Butler em The Fair Heaven; obras que têm a imperfeição de ser livros também não menos tautológicos do que os outros. Mais razoável, mais inepto, mais indolente, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários. São estas “Tlön, Uqbar, Orbius Tertius”; e o “Exame da obra de Herbert Quain”.
No seu conto, Borges explica que April March, a obra de Quain que aqui nos interessa, começa com uma conversa numa estação de caminho de ferro; que os três capítulos subsequentes descrevem versões alternativas do que poderia ter precedido essa conversa; e que três outros grupos de três capítulo imaginam o que poderia ter ocorrido antes de cada um dos capítulos da segunda camada da narrativa. Acrescenta que a obra de Quain se ramifica em géneros diferentes e narrativas radicalmente diversas umas das outras, e que, das nove novelas que constituem a novela, “uma é de carácter simbólico; outra, sobrenatural; outra, policial; outra, psicológica; outra, comunista; outra, anticomunista, etc.”, e que a novela 9, que considera a melhor, é de natureza fantástica.

Simmers explica que diverge de Quain em vários aspectos da sua narrativa: escreve em verso e em “secções” mais curtas, que são, na realidade, estrofes de dez versos; as múltiplas narrativas que constituem “Histories” não se diversificam em diversos géneros e são antes coerentes entre elas; e o seu texto oferece ao leitor que, recuando no tempo, avança pela narrativa adentro apenas uma escolha binária em cada entroncamento da história, em vez da ramificação tripartida do recuo narrativo de Quain. O texto compõe-se, no total, de 64 histórias possíveis, diz ele. Ora estas notas de Simmers à sua obra merecem-me alguns comentários:

Não é verdade que o texto se componha de 64 histórias possíveis. O texto inclui antes 160 sequências narrativas diferentes. Como acontece com a maior parte dos autores, Simmers desconhece a obra que criou e que acabou, pelos vistos de fugir ao seu controlo. É interessante notar que as secções que constituem os três primeiros níveis da novela e uma secção do meio não se repetem, mas as restantes secções ocorrem em quantidades muito variáveis. A simetria não é para Simmers a obsessão que era para Quain!

“Histories” não é, ao contrário de April March e ao contrário do que pretendia Simmers ao escrevê-la, uma narrativa que se desdobra, às arrecuas, em várias narrativas. É isso sim, uma única narrativa apresentada em diversas versões, algumas das quais são amputadas de determinadas secções. Dizer que as “várias histórias” são “coerentes entre elas” é não querer admitir o óbvio – elas são sempre a mesma história, com mais ou menos informação sobre determinado período da vida da protagonista.

Quanto a cada secção do texto de Simmers se ir desdobrando em duas secções anteriores, em vez de se ramificar em três possíveis capítulos precedentes, como acontece em April March, é interessante constatar que foi o próprio Borges a incentivar esta estrtura: “Já publicada [a novela], Quain arrependeu-se da ordem ternária e predisse que os homens que o imitassem optariam pela binária e os demiurgos e os deuses pela infinita: infinitas histórias, infinitamente ramificadas”. A ordem ternária, no entanto, não foi completamente abandonada, pelo menos se pensarmos que (como poderão verificar se tiverem paciência para isso), o número de fins (princípios?) possíveis é apenas três.

É de notar, além disso, que a narrativa à rebours é perfeitamente desnecessária e, em última análise, empobrecedora. Dos hipotéticos relatos de Quain, diz-nos Borges que “quem os ler em ordem cronológica (…) perde o sabor peculiar do estranho livro”. E eu acrescento que é até bem provável que se passe o mesmo com todas as narrativas que são efectivamente concebidas da frente para trás. Veja-se o caso do filme Memento, de Christopher Nolan, que, nos tempos mais recentes, é uma das mais famosas histórias contadas do fim para o princípio: Memento perde não só a graça mas também a aparente coerência quando se o vê na “versão cronológica” que é um bónus escondido de uma edição limitada em DVD. No caso do relato de Simmers, provavelmente porque é uma história concebida cronologicamente e com a ordem das secções que a constituem invertida só posteriormente, só há a ganhar em lê-lo do fim para o princípio, ou seja desde os três meses de idade da protagonista até à sua morte na idade adulta.

Mas enfim, tudo isto seria sem a mínima importância, se “Histories” tivesse alguma graça. E não tem. Leia-se ele como se ler, o texto nunca deixa de ser, na minha opinião, profundamente desinteressante…

“Histories” não é o único texto na Internet baseado na hipotética obra de Quain. Em The as yet incomplete History of Nick Fowkes, encontrávamos, até Janeiro deste ano, o The Herbert Quain Project Online Story, esse claramente, um desenvolvimento consciente da ficção borgiana, às vezes com intenções humorísticas. Mas o projecto morreu, não restando dele mais do que a sua história. O Herbert Quain Project Online Story consistia em escrever uma história que se desenrolasse para trás, se ramificasse num número finito mas ilimitado de histórias, e fosse escrita por várias pessoas. De facto, a ideia era que qualquer pessoa podia colaborar nestas quainianas novelas. Para quem conheceu o site, não espanta que ele tenha morrido: o singular projecto nunca resultou em nada interessante; e o dono do site teve, valha-nos isso, o bom senso de fazer o que George Simmers também já deveria ter feito há algum tempo – dar cabo do projecto quainiano.

Bem tinha advertido Borges: Vale mais imaginar apenas textos destes do que escrevê-los de facto. Não posso senão concordar completamente com ele. Aliás, no que respeita a Herbert Quain, tem dado melhores resultados pegar na ficção que o conto de Borges inaugura e desenvolvê‑la, em vez de tentar dar corpo à fictícia obra do inexistente irlandês. Bem mais interessantes do que as duas obras “quainianas” que referi é o texto “Reexame da obra de Herbert Quain”, de Luiz Duarte d'Almeida, que encontrei também na Internet (aqui, quase ao fim da página).

Agora: podemos perguntar-nos a nós próprios por que é que April March foi uma fonte de inspiração mais prolífica do que outras obras fictícias do fictício Quain? A final de contas, a ideia que estrutura The God of the Labyrinth é, no mínimo, tão sedutora como a da história que se ramifica para trás: a ideia de que, depois de resolvido um enigma policial complexo, a frase final obriga o leitor a reconsiderar a sua interpretação dos factos descritos no livro e a procurar outra solução para o que, até esse momento, cria desvendado. A ideia de The secret mirror (uma peça de teatro em que o primeiro acto é em quase tudo igual ao segundo, mas em que neste segundo acto se revela que o primeiro é uma peça escrita por uma das personagens do segundo acto e baseada na sua vida real, isto é, no segundo acto da peça) não é menos apelativa para qualquer escritor em crise de enredos próprios. E a última obra de Quain, Statements, também é um bom desafio de levar à escrita uma ideia: a novela em que são subliminarmente insinuados vários argumentos de modo a que o leitor, sem saber que os leu entre as linhas do livro, creia tê-los inventado. Porque é que ninguém se propôs recriar estes (perdoem-me a cacofonia) cenários literários? Porque são mais difíceis de concretizar? Não me parece uma boa razão. Concretizar bem seja lá que ideia for tem sempre o mesmo grau de dificuldade; concretizá-la mal, como se fez nos dois primeiros casos referidos acima, é sempre igualmente fácil.

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