1 de outubro de 2007

A história de uma cena de várias aventuras

Quando a gente só conhece o que vem depois sem saber o que lhe está por trás, pode ficar com a sensação de que o pai sai ao filho… Além disso, descobrir as origens depois de se lhe conhecerem os desenvolvimentos tira ao nosso contacto tardio com essas ditas origens muita da surpresa que, pela sua originalidade, originalmente causaram; mas não faz mal nenhum, ainda assim, conhecer a história das coisas, ou faz? Eu cá, pelo menos, gosto desse efeito: «Ah, mas então é daqui que isto vem?».

Bom, tomem lá uma passagem de um romance de aventuras: 
     Mas aquele era um singular e confuso caso! (…) Necessitavam pois uma evidência. E quem melhor lha poderia dar que os homens das estrelas, senhores das grandes artes mágicas, que tinham trazido Ignosi ao país, e sabiam decerto os segredos?
     – Se ele é o herdeiro legítimo, os homens que o trouxeram das estrelas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por ele! (…) Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!
     Um milagre! A situação era terrível e grotesca. Exigir-se um milagre a três honestos e ingénuos mortais, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortais de fazer o milagre – ou de perder a vida!... Voltei‑me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risível e perigoso lance.
     – Parece-me que se pode arranjar, disse John, depois de um curto silêncio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.
     Abri a porta da cubata, os chefes saíram. E apenas os passos morreram na sombra:
     –Temos o eclipse! Exclamou o nosso admirável John.
     Era o eclipse que ele descobrira na véspera, folheando o almanaque (o Livro de Bordo), e que nesse dia, às duas e quarenta minutos, devia ser visível em toda a África.
     – Aí está o milagre! Afirmava John. É anunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por ele, nós faremos desaparecer o sol!
Já viram isto nalgum lado, não foi? Provavelmente, em muitos lados até. Desde Tintin e o Templo do Sol até ao Apocalypto de Mel Gibson, eclipses destes tem havido mais do que os chapéus dos palermas, pelo que o excerto acima não nos parece senão mais uma versão do batido tema. Mas é a versão original! Trata-se de um excerto de King Solomon's Mines de H. Rider Haggard, As minas de Salomão na tradução de Eça de Queirós, que aqui aparece. Foi daqui que veio tudo o resto. Ou mais ou menos… Quero dizer: foi com certeza Rider Haggard que tornou famosa a cena na literatura de aventuras e foi a partir destas Minas de Salomão que ela se fixou no nosso imaginário. Mas parece que a cena original, numa obra muitíssimo menos divulgada do que a de Haggard, tem Cristóvão Colombo, nem mais!, como protagonista e é ao seu filho Hernando que se deve atribuir a origem do motivo na literatura.

Na sua Historia del almirante (às vezes também chamada Vida del almirante Cristóbal Colón, é conforme a edição…), Hernando Colón, filho ilegítimo de Cristóvão Colombo, conta no capítulo 103, “De lo que hizo el Almirante después que los rebeldes partieron a la Española, e de su ingenio para valerse de um eclipse” (traduzo eu): 
[O Almirante] lembrou-se de que ao terceiro dia havia de haver um eclipse da lua, ao começo da noite, e mandou que um índio de Española que estava connosco chamasse os índios principais da província, dizendo que queria falar com eles de uma festa que havia determinado fazer-lhes. Havendo chegado os caciques no dia antes do eclipse, disse-lhes pelo intérprete, que éramos cristãos e críamos em Deus, que vive no céu e nos tem por súbditos, o qual cuida dos bons e castiga os maus, e (…), no que dizia respeito aos índios, vendo Deus o pouco cuidado que tinham de trazer abastecimentos, (…) estava irritado com eles, e tinha resolvido enviar-lhes uma grandíssima fome e peste. Como eles talvez não lhe dessem crédito, queria mostrar-lhes disto um evidente sinal, no céu, para que mais claramente conhecessem o castigo que lhes viria da sua mão. Portanto, que estivessem aquela noite com grande atenção ao nascer da lua, e a veriam aparecer cheia de ira, inflamada, denotando o mal que queria Deus enviar-lhes. Acabado o discurso, foram-se embora os índios, uns com medo, e outros crendo que seria coisa vã.
Mas começando o eclipse ao nascer da lua, quanto mais esta subia, mais aquele aumentava, e como tinham a isto grande atenção os índios, causou-lhes tão grande assombro e medo que com fortes alaridos e gritos iam correndo, de todas partes, aos navios, carregados de vitualhas, suplicando ao Almirante que rogasse a Deus com fervor para que não descarregasse neles a sua ira, prometendo que dali em diante lhe trariam com suma diligência tudo quanto necessitasse. O Almirante disse-lhes que queria falar um pouco com o seu Deus; encerrou-se enquanto o eclipse crescia e os índios gritavam que os ajudasse. Quando o Almirante viu acabar-se o aumento do eclipse, e que em breve voltaria a diminuir, saiu da sua câmara dizendo que já havia suplicado ao seu Deus, e orado por eles; que lhe havia prometido, em nome dos índios, que seriam bons daí em diante e que tratariam bem os cristãos, levando-lhes abastecimentos e as coisas necessárias; que Deus lhes perdoava e, em sinal do perdão, veriam que acabava a ira e a agitação da lua. Como o efeito correspondia às suas palavras, os índios agradeciam muito ao Almirante, louvavam o seu Deus, e assim estiveram até que passou o eclipse. De ali em diante, tiveram grande cuidado de lhes fornecer quanto necessitassem, louvando continuamente o Deus dos cristãos.

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