23 de dezembro de 2008

Tecnologia inapropriada

É conhecido: um dos (muitos…) problemas do trabalho de desenvolvimento é o uso de tecnologias pouco ou nada adaptadas à realidade local. Um exemplo claro: vejam o que acontece quando se usa em Chimoio, com 30 graus e 90% de humidade, tecnologia sueca de Natal, nomeadamente uma pepparkakshus, uma simpática casinha doce que as crianças montam e decoram.


Os inconscientes arquitectos, após a conclusão do projecto


A casa construída


A casa construída, passadas alguma horas


A casa construída, passadas mais alguma horas

19 de dezembro de 2008

Por que é que o Spybot-S&D (passe a publicidade...) é gratuito?

Não sei se haverá quem leia na íntegra as condições de utilização do software que descarrega da net. Deviam sempre ler-se, pois deviam, mas são uma grande seca, como todos os contratos, e chega até a parecer que são redigidas assim precisamente para a malta desistir de as ler...

Uma excepção é a licença do anti-spyware Spybot Search & Destroy (passe a publicidade...), em que o seu autor, Patrick Michael Kolla, começa por explicar “porque o Spybot-S&D é gratuito” (o que se segue não é nenhuma tradução minha, como acho que se percebe, é a transcrição do texto da licença quando se escolhe o português como língua de instalação e utilização):

I.a. Dedicatória: O Spybot-S&D é dedicado à garota mais maravilhosa do mundo :)

I.b. Binário: O que você recebe na compra de um programa? Um monte de zeros e uns, e nada mais. Se eles fossem distribuídos como arte, eu poderia entender o pagamento por eles. Mas se o objetivo principal é ganhar dinheiro - através de taxas ou anúncios - então eu não concordo!

I.c. Conclusão: Isso significa que eu garanto a licença de uso do Spybot-S&D pelo tempo que você quiser. Mas se você gostou do programa, eu lhe peço duas coisas: reze por mim (aproveite e reze pela garota mais maravilhosa do mundo também :) ) para o seu deus - ou o que quer que você acredite - e nos deseje sorte.

O resto da licença é relativamente standard.

Do you speak English? Atão amanda a corda!

Um dos muitos bons argumentos que há contra a monarquia é o argumento humanitário: coitados dos reis e das rainhas e dos príncipes e das princesas!, que vêem a sua privacidade constantemente devassada e que só muito relativamente têm direito a escolher que vida querem ter…

Oiço e vejo muitos argumentos contra o imperialismo da língua inglesa (que, na maior parte dos casos, são mais expressão pura de paixões vagas que verdadeiros argumentos), mas nunca vi ninguém defender, contra a expansão do inglês, um argumento do mesmo tipo do argumento humanitário contra a monarquia. A verdade, no entanto, é que um purista do inglês pode perfeitamente argumentar que quem sofre com essa expansão – e muito mais do que as línguas que ela pretensamente afecta – é o próprio inglês… Nunca tinham pensado nisso? Eu, que passo a vida a traduzir textos em inglês escritos por pessoas das mais variadas nacionalidades, é o que penso muitas vezes…

Diz-se muitas vezes que as pessoas de língua inglesa nunca aprendem a falar outras línguas e é bem capaz de não ser apenas preconceito, mas não o sei confirmar. Diz-se também que, em parte, isso se deve a que, podendo comunicar com tanta gente na sua própria língua, lhes falta a motivação para aprender a língua dos outros – e é, acho eu, afirmação com visos de verdade. Ainda há pouco tempo, aliás, um amigo britânico que me veio visitar deu precisamente essa explicação para o facto de, como muitos compatriotas seus, não saber falar outras línguas. Mas quando se formula de outro modo a incapacidade dos anglófonos, acusando-os de “não terem jeito nenhum para línguas”, aí já não posso concordar. Quanto mais não seja, porque as pessoas de língua inglesa são as melhores que eu conheço a compreender a sua língua falada seja lá como for – uma competência linguística que falta a muita gente de outros idiomas… É o reverso da medalha, claro está, e resulta de uma vida inteira de prática de ouvir a sua língua falada com toda a classe de sotaques estrangeiros, cada qual mais arrevesado que o que o outro… Os falantes do inglês são bons nisso e são bons a aceitar que o inglês pode ser falado e escrito assim, daquela maneira esquisita como nós o falamos e escrevemos; a aceitar, até, que sejam pessoas de outras línguas a inventarem na língua deles palavras e expressões novas, algumas provavelmente tão estrangeiras que os arrepiam… Não imagino um português ou um francês a aceitar sem protestar, na sua língua, os erros bárbaros (aqui no sentido primeiro de típico de estrangeiros) que infestam constantemente todo o tipo de documentos e discursos em inglês.

Nunca os seres humanos tiveram as possibilidades que têm hoje de comunicarem uns com os outros. Se isto se deve, obviamente, sobretudo ao progresso tecnológico, ajuda também muito a este avanço o facto de haver finalmente uma língua (e uma língua viva, ademais) que um quarto da população do globo consegue, melhor ou pior, usar como língua franca. Evidentemente, que o inglês se tenha tornado língua de comunicação não resulta de nenhum plano altruísta. Mas não vale a pena pensar nisso, até porque provavelmente não há boas razões para uma língua se expandir. Mas as línguas de comunicação artificiais sempre funcionaram mal, e ninguém quer viver na situação dos americanos antes de chegarem os europeus às terras deles, com 900 línguas para uns 50 milhões de pessoas*. Quero eu dizer que, independentemente das razões pelas quais há finalmente uma língua de comunicação de grande sucesso à escala mundial, é uma sorte que a haja – e uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Um bocadinho de respeito, então, por essa língua franca, em vez de nos acomodarmos apenas, como tanta gente tem tendência a fazer, em soluções mais ou menos crioulizadas de comunicação. Sigamos o exemplo de Joseph Conrad, para quem o inglês era a quarta língua, e uma língua que só começou a aprender já homem feito, e que conseguiu, ainda assim, tornar-se um dos mestres da língua inglesa (sem nunca perder, porém, o forte sotaque polaco…). Um bocadinho de respeito pelo inglês, dizia eu, e tenhamos sempre presente, não custa nada, que este inglês que falamos e escrevemos não é uma língua nossa – e também não é bem a língua dos seus falantes nativos…

[À laia de apêndice: É interessante notar que os portugueses acreditam sinceramente que têm uma pronúncia menos marcada em inglês do que os falantes de outras línguas. É natural que existam vantagens naturais dos falantes nativos de uma língua na pronúncia de uma determinada língua estrangeira. A crença na “boa pronúncia” do inglês pelos portugueses, no entanto, não tem grande fundamento: tem apenas a ver com a inconsciência dos nossos próprios erros, porque somos surdos a distinções que não existem na nossa língua.]

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* 900 línguas é um cálculo modesto, há quem fale de milhares... Tudo depende do que se considere uma língua, claro, de maneira que não existe nada como “o verdadeiro número”. Quanto ao número de habitantes da América quando lá chegaram os europeus, 50 milhões é um número prudente, porque é médio: há quem diga muito menos, há quem diga muito mais. O que é sempre verdade, usem-se que cálculos de número de línguas e de número de habitantes se usarem, é que havia uma enorme diversidade linguística na América pré-colombiana. E ainda hoje há casos estranhos de incomunicação linguística nas Américas. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um artigo que li há uns anos [“O Português de Contato no Parque Indígena do Xingu”, de Charlotte Emmerich, in Revista Internacional da Língua Portuguesa, nº 5/6, Dezembro de 1991] sobre dois grupos étnicos do Alto Xingu, que partilham o mesmo espaço geográfico, têm economias, tradições e crenças – numa palavra, vidas – iguais... e têm línguas tão diferentes que recorrem ao português para comunicarem um com o outro.

13 de dezembro de 2008

As palavras são como as cerejas (2): dinheiro, desenvolvimento, vigarices e literatura fantástica

Segundo um site do governo moçambicano, eis a proposta aprovada de Orçamento Geral do Estado de Moçambique para 2008:
Receitas do Estado: 38 815 956,00 meticais (± 1 574 683 840 USD)
Despesas do Estado: 89 002 643,45 meticais (± 3 610 654 960 USD)
Défice: 50 186 687,45 meticais (± 2 035 971 120 USD)

Não sei até que ponto é que o governo de Moçambique estará de facto a trabalhar com o orçamento previsto, mas, se tiver esse dinheiro para gastar este ano, é quase o dobro daquele que o CIA Factbook apresentava para 2007, 1 822 000 000 (não consigo confirmar este número, porque o link para o orçamento de 2007 no portal do Governo de Moçambique não funciona).
Partamos do princípio de que as despesas do Estado moçambicano são de facto os tais cerca de 3 600 000 000 USD. Isto significa que Moçambique, com os seus mais de 20 milhões de cidadãos, tem um orçamento cerca de 85 vezes mais pequeno do que o dos Países Baixos (que, com 16 milhões e meio de habitantes, tinham, em 2007, cerca de 306 500 000 000 USD para gastar) e cerca de 25 vezes mais baixo do que o de Portugal (que tem cerca de metade da população de Moçambique, e tinha, em 2007, 93 090 000 000 USD para gastar*). E as receitas do Estado moçambicano durante um ano dão para fazer cinco filmes como o Pirates of the Caribean: At World’s End (sem contar despesas de promoção).
Uma ideia que reúne amplo consenso em vários sectores de opinião (tão amplo, aliás, que eu não me atrevo a duvidar dela…) é que uma parte deste dinheiro é mal gasta. O que é interessante verificar é que – sobretudo tendo em conta que faltam em Moçambique muitas infra-estruturas que existem há muito tempo nos Países Baixos ou em Portugal e que Moçambique é cerca de 19 vezes maior do que os Países Baixos e 9 vezes maior do que Portugal – mesmo que o dinheiro público fosse todo ele gerido da melhor maneira possível, continuava a ser muito, muito pouco dinheiro, ou não?
[Tenho um amigo que diz que se devia entregar, durante alguns anos, a gestão de países como Moçambique a uma equipa de gestão considerada das melhores do mundo, para ela provar que é de facto uma grande equipa de gestão…]
Estabelece-se muitas vezes uma relação directa entre “corrupção” e “subdesenvolvimento”, e é provavelmente verdade que a extorsão e os desvios de fundos tendem, por razões óbvias, a ser prática mais generalizada nos países pobres; mas, por outro lado, a dimensão das vigarices talvez se possa também encarar como um bom indicador de desenvolvimento. Num país como Moçambique, por muito que haja muita malta a gamar, ninguém gama o que se gama na Dinamarca, quando lá se gama... Não sei se têm acompanhado a história de Stein Bagger e da empresa IT Factory, incluindo as histórias paralelas de Asger Jensby e da sua esposa Eva Snare. Uma pesquisa rápida em Google diz-me que os meios de informação portugueses não têm dado à história grande destaque, mas é história que vale mesmo a pena seguir. Como isto aqui não é um blogue de notícias, deixo-vos aqui um link para um resumo da história em inglês, já um bocadinho desactualizado, e o conselho de fazerem pesquisa e manterem-se actualizadas/os, porque a história evolui muito todos os dias e de maneira imprevisível. Para vos abrir o apetite: o valor da fraude pode, diz-se, chegar aos 1 000 000 000 USD. A ver vamos…
Um dos episódios engraçado dessa história, e que pode ser contado como anedota independente, é que, quando Stein Bagger (depois de ter desaparecido no Dubai e reaparecido em Nova Iorque, onde pediu emprestado um carro a um amigo sueco para atravessar os Estados Unidos de costa a costa, sabe-se lá por quê…) se entregou à polícia de Los Angeles, dizendo que era perseguido pela Interpol e que tinha roubado mil milhões de coroas, os agentes que o receberam na esquadra não o levarem mesmo nada a sério – porque não têm grande informação sobre os criminosos perseguidos pela Interpol; porque não é todos os dias que ali se vem entregar um criminoso daquele calibre; e, sobretudo, porque, numa zona daquelas, o que não falta é malta a acusar-se de todo o tipo de crimes, só para ter direito a uma sopinha e dormida à borla. Mas adiante…
A história de Stein Bagger não fica nada atrás de nenhum grande romance policial: o enredo central, o crime propriamente dito, é tão inconcebível e tão complexo como o dos thrillers mais sofisticados; e a surpresa que quotidianamente vai criando no leitor o desvendar dos muitos mistérios entrelaçados que constituem a história seria criação digna de qualquer grande autor/a de suspense. Quer dizer, se não fosse mesmo verdade, a história da IT Factory podia bem ter sido inventada, sei lá… dado o contexto escandinavo e a importância da informática na história… por Stieg Larsson, por exemplo…
Um louvor do fantástico, então, para terminar: Vivam os livros de areia de que nunca se pode ler duas vezes a mesma página, os golens, os semideuses, e as viagens no tempo! Se queremos escrever (ou filmar, ou desenhar…) uma história, seja para distrair apenas, seja para dizer coisas que achamos importantes, vale mais inventar personagens, situações e mundos que não existam fora da escrita, do cinema ou do desenho. Para quê fazer arte que conte a realidade?, se a realidade está permanentemente ao nosso alcance, e se não há ficção realista que, em estranheza, horror ou encanto, consiga competir com ela! A sério.
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* Estes números, referidos pela Wikipedia e tirados, ao que parece, do CIA Factbook, podem não ser exactos, mas também não se devem afastar muito da realidade…

25 de novembro de 2008

Ficção científica

[Ficção científica não é o título deste texto – é o seu género. Trata-se da apresentação de uma hipótese que, por ser baseada em pouco mais do que a minha tendência para o devaneio, deve ser encarada assim – como ficção científica. Um delírio, enfim.]

Um senhor chamado V. S. Ramachandran, um dos investigadores desse fascinante apetrecho cerebral que são os neurónios-espelho, sugere num texto do ano passado, “The neurology of self-awareness”, que a consciência de si próprio pode muito bem ter origem na consciência dos outros. Quer dizer, do ponto de vista evolutivo, tenho mais vantagem em desenvolver a capacidade de formular hipóteses e juízos sobre o que os outros pensam e sentem do que formular essas hipóteses e juízos sobre o que eu próprio penso e sinto. Com as palavras de Ramachandran:
Sugiro que a consciência de si próprio é simplesmente usar os neurónios-espelho para “olhar para mim mesmo como se outra pessoa estivesse a olhar para mim” (…). O mecanismo dos neurónios-espelho (...), que originalmente evoluiu para nos ajudar a adoptar a perspectiva de outra pessoa, foi virado para dentro, para olharmos para nós próprios. Isto é essencialmente a base de coisas como “introspecção”. Pode não ser coincidência que usemos expressões como “self-conscious” [literalmente “consciente de si próprio”, mas significando “tímido” ou “pouco natural”] quando o que queremos de facto dizer é que alguém tem consciência de que os outros têm consciência dele. Ou que digamos “estou a reflectir” quando queremos dizer que estamos conscientes de estarmos a pensar. Por outras palavras, a capacidade de se virar para dentro para introspecção ou reflexão pode bem ser um tipo de extensão metafórica da capacidade dos neurónios-espelhos de ler outras mentes. Parte-se muitas vezes do princípio tácito de que a capacidade exclusivamente humana de elaborar uma “teoria de outras mentes” (ver o mundo da perspectiva de outrem, “ler a mente”, tentar descobrir quais são as intenções de alguém, etc.) deve vir depois de um preexistente sentido de si próprio. Estou aqui a defender que é exactamente o contrário que é verdade: a “teoria de outras mentes” evoluiu primeiro como resposta a necessidades de ordem social e só mais tarde, bónus inesperado, veio a capacidade de introspecção dos próprios pensamentos e intenções.
V. S. Ramachandran diz depois que não se considera muito original ao defender estas ideias, porque elas fazem parte do espírito dos tempos que correm. Ora outra ideia que faz parte do espírito dos tempos é que existe uma dualidade natural na nossa concepção de nós mesmos que leva, em última análise, à ideia de uma essência de nós com as mesmas características que o conceito metafísico de alma. Já aqui referi uma vez, a (des)propósito de uma coisa completamente diferente, as ideias de Paul Bloom sobre esse tema. No artigo “The duel between body and soul”, (New York Times, Setembro de 2004), diz ele, por exemplo:
Perguntei uma vez ao meu filho Max, de seis anos, o que pensava do cérebro, e ele disse que é muito importante e que participa em muito pensamento – mas não é de lá que vêm o sonho ou sentir-se triste, ou gostar do seu irmão. Max disse que isso é ele que faz, embora admita que o cérebro o possa ajudar. Estudos de psicologia do desenvolvimento sugerem que crianças jovens não encaram o seu próprio cérebro como fonte de experiência consciente e de vontade. Vêem-no antes como uma ferramenta que se usa para determinadas operações mentais. É uma prótese cognitiva, acrescentada à alma para aumentar a sua capacidade de cálculo.

Esta maneira de ver as coisas pode não ser muito diferente da de muitos adultos. As pessoas ficam muitas vezes surpreendidas ao descobrirem que certas partes do cérebro se revelam activas – acendem – num scanner quando se pensa em religião, sexo ou raça. Esta surpresa mostra o pressuposto tácito de que o cérebro participa nalguns aspectos da vida mental, mas não noutros. Mesmo os especialistas, ao descreverem esses resultados, caem na linguagem dualista: “Penso sobre sexo e isso activa tal e tal parte do meu cérebro” – como se houvesse dois acontecimentos distintos, primeiro o pensamento e depois a actividade cerebral.
Discordo de Bloom nalgumas das suas posições sobre a predisposição natural dos seres humanos para a religião, mas tenho tendência a concordar com ele na questão do dualismo, porque é precisamente isso que observo constantemente na maneira como as pessoas – incluindo eu próprio, claro está – vão “naturalmente” parar a uma concepção de si próprias segundo a qual há um verdadeiro eu essencial e outros eus que o são menos, ao sabor das circunstâncias. “Uma pessoa passa-se!”,“Eu não me reconheço no que fiz!”, “Nós conseguimos convencer-nos a nós próprios de muita coisa, se quisermos!”, “O que importa é livramo-nos do que nos impingem e sermos nós próprios!”, “Temos de aprender a aceitar-nos como realmente somos”, etc., etc.... E isto para não entrar já em questões mais complexas como a da entidade que escolhe, quando falamos de livre arbítrio...

E se a consciência de nós nunca se tiver completado? Se a condição para conseguir virar para dentro a capacidade de formular teorias sobre as mentes alheias for a impossibilidade de identificar a entidade que formula a teoria sobre a mente que observa com a entidade possuidora dessa mesma mente? A cisão do eu, a ficção dualista de base, estaria assim explicada. A consciência de nós próprios talvez não se possa com propriedade chamar assim – talvez continue a ser sempre consciência de outro alguém, mesmo que lhe chamemos eu.

Dos dois limites que temos, mais um terceiro

Diz-se muitas vezes que alguém “se superou a si próprio”, que “foi além das suas próprias capacidades”, mas, logicamente, é apenas de um pretenso limite que se está a falar. Chamemos-lhe daqui para a frente “o primeiro limite”, para simplificar o texto. O primeiro limite é, então, um limite aparente, mas de uma aparência muito convincente, tão convincente que nos parece uma barreira real. Provavelmente, porque é o limite do razoável, digamos assim; porque, de cada vez que o passamos, estamos a fazer-nos mal a nós próprios. Não podemos, pois, permitir-nos atravessá-lo de ânimo leve; tem de nos surgir como bastante insuperável. O que é interessante é que a natureza, mãe carinhosa que é, nos apetrechou com mecanismos especiais para nos ajudar a passar para além desse primeiro limite. Por exemplo:

A fome avisa-nos de que precisamos de comida. Quanto mais tempo passamos sem comer, mais fome temos, naturalmente. Até que ultrapassamos a tal barreira e, ao fim de três, quatro, cinco dias sem comer (depende das pessoas), deixamos de ter fome. Carinhosa, a mãe natureza, dizia eu. É que, se não for por curiosidade intelectual ou por obediência a qualquer estranho preceito místico que deixamos de comer, mas apenas por falta de comida, não nos ajuda nada o tormento da fome. Então, ultrapassamos esse primeiro limite e deixamos de ter fome, e é capaz de nos ser assim mais fácil arranjar com que nos alimentarmos.

O mesmo com o esforço físico. Andar ou correr muito, por exemplo. Estamos tão cansados que já não aguentamos mais. Temos de parar, descansar, as pernas já não respondem, o cérebro começa a aquecer, a aquecer. Mas depois, se nos conseguirmos controlar o suficiente para desobedecer aos avisos do corpo sobre as fronteiras do razoável, podemos continuar a andar ou a correr muito mais tempo. Sem grandes problemas. Também isto é sem interesse quando uma pessoa se cansa a andar ou a correr por gosto. Mas imaginem que é de uma situação de guerra que se trata ou de fugir de qualquer outro perigo que nos ameace a vida. Ainda bem que a mãe natureza é carinhosa e nos faz esquecer que estamos a ir longe demais no nosso esforço, porque mais vale dar um bocadinho cabo da vida do que perdê-la.

E com o sono passa-se algo semelhante, como toda a gente sabe. Muito tempo sem dormir e a pesada sonolência inicial é substituída por um estado nervoso de permanente alerta, em que não conseguimos já dormir, por mais que tentemos e apesar da exaustão. Esse estado de alerta, para lá do limite do sono, pode também ser a nossa salvação em muitas situações de perigo.

A ideia que eu tenho é que não é só para além da fome, do esgotamento físico ou do sono que se pode passar, mas também para além de todas as sensações negativas. De toda a dor, digamos assim. Quando chegamos ao insuportável, dessensibilizamo-nos, para poder seguir em frente. Pensem em quem viu morrer à sua volta todos os seus e multidões mais de pessoas, em quem viu literalmente desmoronar-se o seu mundo; pensem em quem foi vítima de crueldades maiores do que estamos habituados a conceber. Como ficar preso na dor pode ser fatal, desenvolvemos a capacidade natural de ultrapassar a primeira barreira e continuar.

Depois, há uma altura em que a falta de alimentos no corpo nos impede de não sentir fome. Atingimos o segundo limite, e comemos ou caímos. A certa altura de corrermos para além do cansaço, caímos mesmo para o chão. Atingimos também o segundo limite. Ao fim de muito tempo de alerta permanente, caímos de sono. É inútil sequer tentarmos manter-nos despertos, porque atingimos o segundo limite. E o segundo limite dos outros males menos físicos, digamos assim, que forma tem ele? Provavelmente, atingimos esse segundo limite quando a dor nos faz perder a razão.

Para além deste segundo limite, não há mais nada. Que se o ultrapasse e – mais ou menos literalmente, conforme a situação – é a morte. O terceiro limite, portanto. Que, vendo bem, é que é o limite que conta. Porque às três tem vez, não é verdade?

17 de novembro de 2008

Lendas portuguesas: rosas húngaras e amendoeiras andaluzas

A lenda das rosas

Havia em Paris (talvez ainda haja...) um bar chamado Lèche-Vin, que era todo decorado com imagens de santinhos e santinhas, excepto a casa de banho, cujas paredes eram forradas a fotografias pornográficas. Uma noite, enquanto saboreava uma bière de garde, chamou‑me a atenção uma das santinhas na parede mesmo ao meu lado. Ou melhor, o que me chamou a atenção não foi tanto a santa mas o texto que tinha por baixo: “Há muito tempo, transformaram-se bocados de pão em rosas nas pregas do vestido de Santa Roseline, padroeira dos Cartuxos”.

Vim a saber mais tarde, à leitura de um romance de Somerset Maugham sobre uma parte da vida de Maquiavel (Then and now) que (traduzo eu) “[Isabel da Hungria,] proibida pelo seu cruel marido de acudir aos necessitados, encontrou-o na rua um dia em que levava com ela pão para os pobres. Suspeitando que ela estava a desobedecer às suas ordens, ele perguntou‑lhe o que levava no cesto e ela, assustada, disse-lhe que eram rosas. Ele arrancou-lhe o cesto da mão e quando o abriu constatou que ela tinha dito a verdade. Os pães tinham-se milagrosamente transformado em rosas de cheiro doce.” Não sei se isto se terá passado com o marido, como conta a lenda, ou antes com o cunhado, porque foi o cunhado que, depois da morte do marido, a acusou publicamente de andar a gastar o dinheiro das propriedade da família deles, na Turíngia.

Seja como for, acho que perceberam onde é que eu quero chegar: estas histórias são iguais entre si e iguais à lenda que todos conhecem e que se conta de Isabel, esposa do nosso rei Dinis. Seguindo um critério cronológico, a milagreira original deve ser Isabel da Hungria e não a de Portugal, já que a santa húngara, tia-avó da portuguesa, viveu umas quantas décadas antes dela. E mesmo Santa Rosaline de Villeneuve (1263-1329), a outra candidata ao milagre das rosas, é ligeiramente mais velha do que Isabel de Aragão (1271-1336); e, sobretudo tendo em conta que o milagre das rosas que se lhe atribui se deu na sua juventude, também o pão se lhe transformou em rosas no regaço antes de o mesmo extraordinário acontecimento se ter dado com a Isabel de D. Dinis...

Mas enfim, o que mais me interessa nesta história é analisar com que tipos de atitudes compactua Deus, se assumimos que o milagre é produto da intervenção divina: O marido (ou o pai, no caso de Roseline de Villeneuve) não quer que a santa pratique a caridade; e quando o homem aparece, a santa, em vez de assumir o bem que faz, tenta disfarçá-lo, submissa ao poder masculino. O milagre devia ser, acho que estamos nisso todos de acordo, cair do céu um martelo em cima da cabeça do homem, e que lhe abrisse um fenda no crânio por onde o Espírito Santo pudesse entrar, começando então o ex‑sovina a contribuir voluntariamente do seu bolso com qualquer coisinha para os mais desfavorecidos – e já não digo instituir um sistema social justo nos seus domínios, que, mesmo para milagre, é pedir demais a Deus… Mas, não! O que Deus faz, milagre dos milagres, é ajudá‑la a mentir para se safar de um raspanete do pouco caridoso marido (ou pai).

A lenda das amendoeiras

Dispenso‑me de comentar a moralidade deste nosso criador e passo antes a traduzir do inglês um texto que encontrei num “livro de factos” das Selecções do Reader’s Digest (AAVV, Reader’s Digest Book of Facts. Cape Town: Reader’s Digest Association of South Africa – Printbak Books, 1989, p.63.)
Um rei árabe mandou uma vez plantar com amendoeiras toda a encosta de uma colina – para agradar à sua esposa favorita. Este rei, Almotamid, que reinou na região à volta de Sevilha em meados do século XI, quando Espanha era, em grande parte, uma colónia moura, mandou fazer esta plantação perto de Córdoba, porque a sua mulher – uma escrava cristã chamada Itimad – nunca tinha visto neve. Na Primavera, as pétalas caídas das flores das amendoeiras cobriam de branco as encostas, o mais parecido como neve que se conseguia no clima temperado do Sul de Espanha.
Esta versão da história diverge, pois, da que nós que conhecemos como “portuguesa” e como “A lenda das amendoeiras” por não se passar no Algarve (embora, de facto, o reino de Al-Mutamid abrangesse também o Algarve) e no pormenor importante de que Al-Mutamid quer mostrar a I’timad que aspecto tem a neve, ao passo que na versão portuguesa (pelo menos, como eu a conheço) o rei mouro não identificado quer, com a “neve” artificial, matar as saudades que a sua nórdica esposa sente das paisagens de Inverno da sua terra natal. Na minha opinião, esta versão da história é muito mais bonita. Agora, a história é provavelmente tirada do Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de Don Juan Manuel. Se assim for, a versão original, que vem em pouco mais de um parágrafo do “Exemplo XXX” desta obra, não é bem nem como a do livro das selecções do Reader’s Digest nem como a que eu aprendi na escola (traduzo eu), mas mais próxima desta do que daquela:
(…) um dia, estando em Córdova no mês de Fevereiro, caiu uma neve; e quando Ramaiquía a viu, começou a chorar. E perguntou-lhe o rei por que chorava. E ela disse-lhe que porque nunca a deixava estar em terra onde visse neve. E o rei, para lhe agradar, mandou pôr amendoais por toda a serra de Córdoba; para que, como Córdoba é terra quente e não neva aí todos os anos, em Fevereiro aparecessem floridos os amendoais, que parecem neve, para lhe fazer perder os desejos da neve.
Agora, pergunto eu, por que é que Al-Mutamid não levou I’timad à Sierra Nevada, que fica ali perto? Apaixonado, talvez, mas de paixão preguiçosa.

Para terminar, como as palavras são como as ginjinhas, e a propósito de origens desconhecidas de histórias conhecidas, uma curiosidade: Sabiam que foi ao Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de que eu falava aí atrás, que H. C. Andersen foi buscar a história, que toda a gente pensa que foi ele que inventou, de um rei que andava nu convencido de que andava bem vestido?

Português de Lisboa (2): a propósito do “lisboetês” e da pronúncia padrão

O texto com mais fortuna desta Travessa... é, a julgar pelos comentários, um que publiquei a 12-02-2008 chamado “Português de Lisboa: ao que isto chegou”. De facto, é o texto mais comentado por pessoas que eu não conheço. Como o espaço de comentários se presta mal a comentar comentários e como os comentários que quero fazer até talvez possam ter interesse para alguém além das pessoas cujos comentários comento (presunção e água benta…), serve este texto para comentar os dois últimos comentários desse texto: num deles, um senhor ou senhora Anónimo, um dos mais prolíficos comentadores de blogues que há, diz que as regras do sotaque lisboeta não são bem assim como eu digo que elas são; no outro, Armando Silava (talvez Armando Silva com uma escapadela da tecla, não sei…), acrescenta, com toda a pertinência, uma característica do falar de Lisboa às que eu tinha enunciado e dá-me a conhecer o texto “Crónica do falar lisboetês”, de Vital Moreira, publicado no Público a 4 de Janeiro de 2000. [Este texto é fácil de encontrar online, mas deixo-vos aqui um link para ele nas Ciberdúvidas, porque podem depois, através dos links que tem ao fim, aceder ao comentário de Baptista Bastos (“Contra o «sotaque único»”, in Diário Económico, 7 de Janeiro de 2000), ao segundo texto de Vital Moreira comentando o comentário de Baptista Bastos e desenvolvendo o seu primeiro texto (“Crónica do falar lisboetês (Bis)”, in Público, 11 de Janeiro de 2000) e ainda a um comentário de Eduardo Cintra Torres a Vital Moreira (“O lisboetês, o coimbrês e outros sotaques (I)”, in Público, 17 de Janeiro de 2000).]

É verdade que a minha descrição do falar de Lisboa em “Português de Lisboa: ao que isto chegou” é pouco rigorosa. Em parte, por ignorância minha, seguramente, mas em parte porque não quis entrar muito em pormenores técnicos, até porque acho que, mesmo sem esses pormenores, o que escrevo já é grande seca para muita gente. Também é verdade que pode facilmente parecer que aí faço, de forma abusiva, generalizações a partir de sociolectos específicos. Mas quero dizer, em minha defesa, que o deixo claro, quando digo que me refiro àquilo que, muito bairristamente chamo “o verdadeiro sotaque da Lísbia” e que, só pelo nome, se vê bem que é mais do Alto Pina ou da Meia Laranja que das Avenidas Novas. Que me desculpem os lisboetas que não falem da maneira lisboeta que eu, reinadio, descrevo. Não são menos lisboetas que eu, com toda a certeza.

A descrição tem também algumas lacunas. Uma das lacunas óbvias é eu não dar conta do conhecido fenómeno para que o Sr. Armando Silava, apoiando-se em parte no referido texto de Vital Moreira, me chama a atenção: o da assimilação do som [s] pelo som [ch] quando este se segue àquele (nascer pronunciado [nacher] ou pois são pronunciado [poichão]. Também trato muito pouco a vertente lexical da questão. Do ponto de vista do vocabulário, o falar de Lisboa deve ter seguramente algumas particularidades, mas não sei outras que não sejam o seu calão – que é um fenómeno mais de certas classes ou grupos de Lisboa do que propriamente da zona de Lisboa em geral – e que está, creio eu, em vias de extinção. Não sei, mas a ideia que tenho é que cada vez se ouve mais um calão mais genérico, fusão de muitos calões e sobre o qual eu sei muito pouco ou nada. Agora, tirando essas pequenas falhas, creio que até faço uma listagem relativamente completa das principais características do sotaque de Lisboa…

Posto isto, passo à etapa seguinte deste texto, que é comentar os textos de Vital Moreira no Público. Com 8 anos de atraso, é verdade, mas não importa: a Travessa... não é um blogue de actualidades.... se bem que a discussão das questões que esses textos levantam continue perfeitamente actual...

O que eu digo no meu texto de Fevereiro passado sobre o português de Lisboa é, em certa medida, o oposto do que Vital Moreira diz na sua “Crónica do falar lisboetês”. Eu digo que o tal “verdadeiro português da Lísbia” está a desaparecer e a ser substituído por uma papa standard, amorfa e sem graça, que, por muito que se fale em Lisboa, já não é lisboeta nem é nada; Vital Moreira postula que há uma abusiva expansão do português de Lisboa, que está a dar cabo de outras variantes e uniformiza a maneira de falar português.

Convém explicar aqui que o que parece ser a minha posição no outro texto é, em parte, um artifício retórico para tentar construir um texto saudosista o mais elegante possível, a lamentar o desaparecimento de um certo falar da ralé por que eu, como muitos outros lisboetas, tínhamos (e temos) um carinho especial. É claro que tenho perfeita consciência de que o português de Lisboa é mais poderoso do que as outras variantes e que as influencia. Concordo também com Vital Moreira, como aliás deixei claro no início do texto de Fevereiro, que me choca a atitude arrogante de muitos lisboetas que acham que eles é que falam da maneira “normal” e “correcta” e que, como ele escreve, «[reduzem] tudo o resto (...) a desprezíveis “provincianismos”, que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país)». Há outras afirmações de Vital Moreira, porém, que me levantam muitas dúvidas; ou com as quais não posso concordar.

A primeira questão é saber o que é de facto influência do português de Lisboa sobre os outros falares e o que é uma tendência geral da evolução do português europeu, que o falar de Lisboa segue tanto como os outros falares. Como eu referia já no outro texto, dos traços que podemos considerar característicos da pronúncia do dialecto de Lisboa (ou que podíamos há 30 ou 40 anos atrás, talvez), poucos são os que se difundem – e há alguns que se perdem. Ora os mais importantes daqueles que se estão indubitável e imparavelmente a difundir não são de facto exclusivos do português de Lisboa. É extremamente provável que o r gutural venha a substituir completamente o r apical múltiplo “rolado”, mas, nesse caso, não é mais o r de Lisboa que se está a difundir do que o r do Porto, já que eles são iguais. Quando metade da população portuguesa vive concentrada nas áreas metropolitanas das duas cidades principais, talvez até fosse mais correcto falar da expansão de um r gutural metropolitano. É verdade que há cada vez mais tendência para a consonantização na sua “versão dura”, que é mais própria de certas regiões, entre as quais Lisboa, do que outras, mas é extremamente duvidoso que se trate do alastramento de um fenómeno localizado. De facto, o fechamento das vogais átonas é uma das tendências fortes, se não mesmo a tendência mais importante, da evolução do português europeu em geral nos últimos 500 anos.

Não quero dizer com isto que não se possa falar de um domínio do português de Lisboa na rádio e na televisão e que esse domínio não seja um factor importante na evolução do português. Mas o “português de Lisboa” falado na rádio e na televisão é um “português de Lisboa” asséptico e reajustado (que, aliás, à medida que se espalha por todo o país nem com aspas é já “português de Lisboa”…). Que o alastramento desse novo português dominante contribua (juntamente com outros factores que não são de desprezar, como o aumento do nível de educação formal) para terraplanar dialectos, com certeza que sim. Até, como eu dizia no meu outro texto, para dar cabo também do verdadeiro dialecto de Lisboa. Vital Moreira, que não é da Lísbia, não o sente. Eu, que sou e vivo no estrangeiro, noto-o bem de cada vez que lá vou de férias…

Quero, já agora, acrescentar que, por um lado, não é nada invulgar, pelo contrário, que o dialecto da região mais poderosa tenha um papel preponderante na evolução da língua. É assim a vida – da língua! No caso concreto do português, com a passagem da capital e do poder económico e político para o Sul, os dialectos meridionais começaram a ter um influência cada vez maior na evolução da língua e há mudanças muito importantes que têm origem nos falares do Sul, como a anulação da oposição entre ch pronunciado [tch] e x pronunciado [ch]. A influência do falar de Lisboa ter-se-ia acentuado muito com o aparecimento e a difusão da rádio e, depois, da televisão, se não tivesse sido contrabalançada, durante algum tempo, pela imposição de um padrão aos meios de comunicação – uma espécie de received pronunciation à portuguesa, que se queria a de um pretenso “falar correcto da zona de Coimbra”. Isto foi no tempo do Estado Novo, mas não creio que se tratasse de uma ideia especialmente fascista, porque se assistiu a fenómenos do mesmo tipo na comunicação social de países democráticos. Era antes o espírito do tempo. Mas que esse Zeitgeist ficava bem ao ruralismo salazarista, lá isso ficava... Seja como for, o facto é que não entravam na rádio rr guturais e outras sonoridades demasiado… urbanas, modernas, talvez… Não é preciso ser-se muito velho para se lembrar, como ainda me lembro de quando o português de Lisboa era proscrito na rádio – e na televisão, quando ela começou –, por reles e ordinário. Como eram muitas outras variantes, note-se. Na rádio falava-se (e ainda se fala um bocado...), em Lisboa, em Londres ou em Montreal com a pronúncia… da rádio!

Mas adiante: Escreve Vital Moreira: «Não consta, por exemplo, que o Queen’s English esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino». Bom, também não é lisboeta das docas que se fala na televisão, isso posso eu garantir, mas, ditas as coisas desta maneira, sou obrigado a dar razão a Vital Moreira. Penso, no entanto, que esta passagem pode levar muita gente a compreender o que não deve, de maneira que convém esclarecer que há evoluções da norma britânica nos últimos tempos. Também no Reino Unido, o espírito dos tempos, no que toca a pronúncias aceitáveis na comunicação social, é outro e a received pronunciation já não é de modo algum tão importante como norma. A rádio abriu-se, por exemplo, a que os seus trabalhadores falem cada um o seu inglês. Quando se trata de futebol, por exemplo, nunca ouço comentadores que falem received pronunciation. Além disso, mesmo para os que a cultivam, a received pronunciation mudou muito nos últimos tempos para passar a reflectir a maneira como as pessoas falam de facto. Aliás, a transcrição fonética das palavras nas edições mais recentes de alguns dicionários atestam bem essas mudanças da pronúncia standard: tenho um dicionário em já não se escreve que a pronúncia standard de cat é [kæt], mas sim [kat], que é como toda a gente diz de facto na Grã-Bretanha, excepto meia dúzia de snobes com quem a malta goza porque vêem chaleiras a pastar no campo*. Mas mais: Não é fácil comparar a situação do inglês do Reino Unido com a do português de Portugal, até porque a variação sociolectal na Grã-Bretanha é muito grande e, em última análise, mais importante, pelo menos para o sentir britânico, do que a variação dialectal. Mas já ouviram alguma inglesa ou algum inglês de menos de 30 anos, seja lá de que classe for, que pronuncie consistentemente o t de get ou what ou, enfim, depois de qualquer vogal com paragem glotal? Não, porque não há. Ora isto era uma marca de falares muito específicos há apenas umas décadas. Não se pode afirmar que fosse apenas uma característica do sotaque cockney, mas era – e é – com certeza uma das suas características. Quer dizer, também se estão a espalhar pronúncias contra as quais haverá com certeza britânicos a reagir, provavelmente argumentando, como Vital Moreira, que essas coisas não se passam noutros países**. Não dou muitos anos até que mesmo os mais conservadores locutores da BBC perguntem ao repórter no local: “Bu’ tell us, Mark, we’re all a bi’ worried abou’ wha’s going on, and we’ve go’ so much contradictory information, so wha’s actually happening?” E não quero explorar agora a fundo essa questão, mas podem encontrar-se muitos exemplos de como, noutras línguas, características que são, na origem, do sotaque da região mais poderosa, se espalham de tal maneira que já ninguém as reconhece como sendo especificamente desse região. E entram na rádio e na televisão. Repito: é muito normal que o dialecto da região mais poderosa funcione como dialecto de prestígio e que, por isso, se espalhe.

Está bem, dirão vocês, vistas as coisas dessa maneira, também é natural que uma pessoa mais forte imponha a uma pessoa mais fraca a sua vontade. Mas, por ser “natural”, é aceitável? Vital Moreira refere a questão moral de base, mas o que o preocupa muito concretamente no que ele considera ser a «imposição», por Lisboa, ao resto do país, do «seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós» é que «[1] este falar português, cada vez mais cheio de “chês” e de “jês”, é francamente desagradável ao ouvido, [2] afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e [3] torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras». Estas preocupações de Vital Moreira merecem-me também vários comentários.

O primeiro é sobre a beleza do português europeu moderno, a que ele chama “lisboetês”. A beleza, diz o provérbio e digo eu, está nos olhos de quem olha. Neste caso, nos ouvidos de quem ouve. Eu, por acaso, apaixonado por línguas que sou, nunca encontrei maneira de falar fosse que língua fosse de que não gostasse. Mas isso sou eu, e ninguém é obrigado a gostar de todos os dialectos de todas as línguas. Mas volto às perguntas que já aqui fiz uma vez: há algum aparelho que registe a eufonia? É alguma coisa suficientemente palpável para que valha a pena invocá-la quando se discute política linguística? E quem é que decide o que é bonito e o que é feio? E com que direito se bane o que se acha feio em nome do que se acha bonito?

O segundo comentário é sobre o afastamento da pronúncia da escrita. Vital Moreira vê as coisas, na minha opinião, de uma forma algo estranha, porque a língua evolui sempre e naturalmente, de maneira que a única maneira de resolver o problema do hiato entre o que se diz e o que se escreve é exactamente ao contrário do que ele propõe: adaptar a escrita à evolução da pronúncia. Se não, tinha de se postular que se falasse inglês como na época de Chaucer, porque é essa pronúncia que a grafia do inglês reflecte, e exigir aos franceses que não pronunciem [muá] a palavra moi, mas sim [moi], como no francês antigo, para não se afastarem da escrita. Está bem, estou a brincar, mas estou a brincar muito a sério. Só que, no caso do português, as necessidades de actualização da escrita para acompanhar a evolução da língua são poucas ou nenhumas, porque, é importante não esquecer isso, a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas fonológica e, assim sendo, a escrita do português continua a traduzir bastante bem o sistema que subjaz à pronúncia, por muito que esta tenha evoluído.

O terceiro comentário é sobre o lado prático da questão, o estarmos a afastar-nos dos outros falares ibero-romanos. Não vale a pena lutar contra os factos linguísticos. Pode tentar-se, mas é em vão. As variantes americanas das línguas europeias têm uma série de traços conservadores de pronúncia – e algumas inovações – que fazem com que as variantes europeias das mesmas línguas, em que se deram muito mais inovações desde a separação, se afastem delas a grande velocidade. A impossibilidade de intercompreensão é já um facto em muitos casos, dependendo da exposição dos falantes de uma variedade à outra (os britânicos compreendem melhor os americanos do que ao contrário, mas os quebequenses compreendem melhor os franceses do que estes compreendem aqueles), de fenómenos fonéticos idiossincráticos (a redução vocálica do português europeu) ou de uma mistura das duas coisas (os brasileiros compreender-nos-iam melhor, apesar da consonantização, se nos ouvissem mais...). E não tenho a certeza de que pronunciar bem todos os ee mudos ajude muito brasileiros e espanhóis a compreender-nos. Mas mesmo que os diversos portugueses, os diversos castelhanos, os diversos franceses e os diversos ingleses (falados, pelo menos, na escrita o caso é diferente) acabem por se tornar línguas diferentes (como acontece normalmente às variantes de uma mesma língua, se lhes for dado tempo suficiente e houver autonomia dos territórios onde elas se falam!), qual é o problema? Se há tantas línguas que morrem, porque não há-de haver outras que nasçam?

Quanto à questão propriamente moral (política, de facto), a pronúncia não tem implicações éticas por aí além, nem se resolvem problemas sociais impondo maneiras de falar. Diz Vital Moreira:
Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de “agenda” como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.
Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados “directos”, transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do que uma menção de passagem num breve flash do noticiário regional do dia seguinte.
O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e tutti quanti não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa.
Não quero debater aqui a questão da sobrevalorização de Lisboa e do que lhe diz respeito nos meios de comunicação social portugueses, até porque há muito que não os acompanho, mas não me custa mesmo nada aceitar que essa sobrevalorização exista e que estejam também sobrerrepresentados os lisboetas entre os profissionais da comunicação. A questão do espaço relativo e da importância relativa das diversas regiões e dos seus profissionais nos media, porém, resolve-se com políticas efectivas que definam de forma mais justa a atribuição de tempo de antena, digamos assim, a cada região, às suas coisas e à sua gente. Não é cultivando um português padrão que não é português de ninguém que o problema se resolve.

O estabelecimento da variante padrão e das variedades de prestígio de uma língua sempre foi, e continua a ser, feito de formas muito pouco democráticas. Mas eu, que acredito na democracia, acho que a norma linguística devia, precisamente, obedecer a princípios democráticos. Democráticos, lógicos e simples, e em que não interferissem gostos e subjectividades várias! Não se deve impor como norma uma pronúncia artificial e falada (e nem em todas as circunstâncias) por uma percentagem ínfima da população (2% no caso da received pronunciation, uma percentagem provavelmente semelhante no caso do português da universidade de Coimbra, mas não sei…). Uma regulamentação democrática da pronúncia padrão pode limitar-se a duas regras simples:
1. Na rádio, na televisão e no espaço público em geral, não se impõem nem propõem pronúncias standard – cada um fala como fala e está muito bem assim.
2. Naquilo em que é preciso realmente usar uma pronúncia estandardizada, como dicionários e manuais de português para estrangeiros, usa-se a pronúncia maioritária: é considerado padrão o que for dito de facto por mais gente. Se, por exemplo, em venho e telha, mais de 50% dos portugueses pronunciarem o som grafado com a letra e como [ê], é essa a norma; se o pronunciarem [â], é isso que registam os dicionários. Este levantamento é extremamente fácil de fazer e muito barato (se é que não está já feito…), e deve ser actualizado com uma periodicidade a definir, digamos, de 10 em 10 anos, ou de 20 em 20. Além de ser a única forma democrática de estabelecer uma norma de pronúncia, é também a única maneira de sairmos da discussão emotiva e sem rigor, e começarmos a guiar-nos por factos.

Um último comentário, já fora desta discussão, à ideia de Vital Moreira (e de mais pessoas) de que «a língua portuguesa caminhou de norte para sul». Porquê? No Sul não havia zonas romanizadas? As pessoas falavam o quê? A língua portuguesa não caminhou de lado nenhum para lado nenhum. Digamos antes, por favor, que a língua portuguesa resulta dos falares romances das zonas que vieram a ser Portugal, sim? Até para não sermos tentados a acusar de arrogância linguística outros portugueses que não sejam os de Lisboa...

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* É uma anedota tão conhecida como pateta sobre a pronúncia, nos sotaques posh, isto é, snobes, de certos aa (que toda a gente pronuncia exactamente como o [á] aberto português) com um som próximo do nosso [é] aberto, de maneira que cattle, “gado”, soa praticamente como kettle, “chaleira”.

** Uma formulação famosa desta crítica por Alan Jay Lerner no musical My fair lady: “Norwegians learn Norwegian, / the Greeks are taught their Greek, / in France every Frenchman knows his language from a to z (…) / Arabians learn Arabian with the speed of summer lightning, / the Hebrews learn it backwards, / which is absolutely frightening; / but use proper English and you're regarded as a freak. / Why can't the English, / why can't the English, / learn to speak?”

6 de novembro de 2008

Histórias de arenques e bacalhaus

Quando se faz história de temas em vez de se fazer história de nações e dos seus líderes, os objectos de estudo que eu vejo são sempre abstractos. Há história do medo, da democracia, da família, da vida privada, das doenças, da contracepção, do diabo, etc., etc., etc., mas nenhum desses temas de mentalidades e instituições tem cheiro que não seja metafórico e vago. Nada que se possa comparar com o apetitoso cheiro – nauseabundo, dirão alguns, eu sei… – do arenque e do bacalhau, de que li há pouco tempo duas histórias (uma de cada um, claro está…): Cod: A Biography of the Fish That Changed the World, de Mark Kurlansky* (London: Penguin, 1998) e Herring - A History Of The Silver Darlings, de Mike Smylie (London: The History Press LTD, 2004). São dois livros, perdão..., dois peixes fundamentais para a história da Europa e de mais alguns lugares do mundo.

[Esclareço também que, ao contrário do que eu dizia noutro texto desta Travessa (e espero que isso não tenha sido claro para ninguém, porque a minha intenção, nesse texto, era precisamente que não se distinguisse o que era irónico do que não o era…), acho mesmo que toda a gente devia comer peixe e sopa, e tudo com azeite cru, em vez de porcarias que só fazem é mal!]

As duas histórias de peixes de que aqui falo agora têm várias coisas em comum: são ambas de escrita escorreita e leitura fácil; são as duas pouco académicas e, a espaços, de rigor duvidoso (mais a primeira do que a segunda), mas têm ambas também muita informação interessante e suficientemente documentada; têm as duas muitas receitas, de gastronomias várias e algumas delas muito antigas; e são ambas ilustradas com muitas e bonitas fotografias, desenhos e gravuras (mais a segunda do que a primeira). Eis uma selecção um bocado ao calhas de coisas que se podem aprender nestes livros: aprende-se, por exemplo, que, ao contrário do que possam imaginar alguns ecologistas ingénuos, há muito tempo que se come comida transportada de bem longe; aprende-se que muitas receitas de cozinha que muita gente considera exclusivas do seu país (pastéis de bacalhau, por exemplo…) não são de uma exclusividade assim tão exclusiva como isso tudo…; aprende-se como James I de Inglaterra teve a ideia de delimitar águas territoriais e como a ideia se foi desenvolvendo; que o arenque constituía uma parte importante da alimentação dos soldados do império britânico; que era, em muitos sítios, em arenques que se pagavam tributos feudais e dízimas; que o arenque é um dos produtos cujo comércio está na origem da criação da Liga Hanseática; aprende-se que as cabeças do bacalhau eram, antigamente, a parte mais valorizada desse peixe (fresco, entenda-se); aprende-se como os pescadores foram tranquila e obstinadamente esvaziando os mares de peixe (mas isso já toda a gente sabe, não é?); e como os gostos foram mudando à medida que a Europa se ia desenvolvendo, até o peixe deixar de fazer parte da dieta quotidiana da esmagadora maioria dos seus habitantes (Portugal e Espanha ainda são, ao que parece, uma ainda-bem-que-excepção). E aprende-se também que – ao contrário do que pensam muitos portugueses e embora se tivessem fartado de o pescar, ninguém lhes tira isso – não foram os portugueses os mais importantes pescadores de bacalhau** (e, claro, de arenque também não o podiam ser, que não é peixe das nossas águas nem das nossas tradições), mas tiveram, em certas épocas um papel muito importante na conservação de ambos os peixes, que foi o de fornecerem sal – e o sal favorito dos produtores: no início do século XIV, o sal de Aveiro era o sal preferido para salgar bacalhau de boa qualidade; na mesma altura, era proibido aos neerlandeses usar o chamado “sal de Lisboa” (que era de facto de Setúbal) para a salmoura do arenque de barrica, mas, nos séculos seguintes, era esse mesmo sal considerado o melhor para esse fim.

Agora, certo já de sermos o sol, o sul e muito o sal, o que tenho de fazer a seguir é arranjar um livro sobre a “rechinante sardinha” (deve haver…), que é, aliás, também da família dos arenques. De facto, os dois peixes são tão parecidos no sabor e na textura que eu não percebo por que é que não se comem arenques assados na brasa nos países do Norte e por que é que não se faz conserva de sardinha em molhos à base de vinagre, sal e açúcar nos países do Sul. Tenho de ser eu, está visto, a acabar com esses prconceitos. E depois digo-vos o resultado, sim?
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* Está traduzido em português americano e em português europeu. A edição portuguesa é O Bacalhau: biografia do peixe que mudou o mundo. Lisboa: Terramar, 2000.

** De facto, os portugueses praticamente não pescaram bacalhau entre o século XVI e o século XIX, e, mesmo no período áureo da pesca do bacalhau, dos anos 40 aos anos 70 do século XX, quando Portugal conseguiu chegar a ser o primeiro produtor mundial de bacalhau seco e salgado, não deixou nunca de importar bacalhau. Para um resumo da história da pesca do bacalhau, ver, por exemplo, o documentário da RTP Faina maior, a pesca do bacalhau, do historiador Fernando Rosas, com a participação do historiador Álvaro Garrido, especialista do tema.

3 de novembro de 2008

Universais de religiosidade – todos os deuses são humanos!

Paralelamente a muitas outras discussões sobre religião, há uma, muito interessante e cada vez mais aguerrida, entre quem acha que a religião é algo natural, inerente à condição humana – ou até que constitui uma construção adaptativa, com vantagens para a espécie –, e quem acha que a religião não é de modo algum um traço essencial da nossa humanidade e que passamos todos bem sem ela. A discussão tem tido muitas vertentes e há algumas sobre as quais não sei pronunciar-me. Por exemplo, na sequência de um interessantíssimo texto de Paul Bloom, houve no Reality Club um debate também muito interessante sobre o papel do nosso dualismo inato na religiosidade. Vários estudiosos concordam que, já de bebés, consideramos que há uma parte essencial de nós – uma alma, digamos assim, para simplificar –, que é distinta da nossa mente; mas nem todos concordam que esse dualismo inato implique que seja inata a religiosidade – ou a predisposição para ela.

Há outros estudos, porém, da predisposição humana para a religiosidade, que são facilmente comentáveis mesmo por quem não seja um especialista do assunto – como eu não sou. Já aqui uma vez comentei o postulado de que a vantagem mnemónica das histórias de seres sobrenaturais é uma explicação eficaz do sucesso das religiões. Agora, tenho de criticar a ideia do senhor Pascal Boyer no seu artigo “Religion: Bound to believe”, publicado na revista Nature (Nº 455, 1038-1039, de 23 October 2008, agora, só a pagar…) de que, no inconsciente dos crentes, todos os deuses de todas as religiões têm determinadas características, uma das quais é… serem humanos (traduzo eu):
O pensamento e o comportamento religiosos podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais, como a música, os sistemas políticos, as relações familiares ou as alianças étnicas. Há descobertas da psicologia cognitiva, das neurociências, da antropologia cultural e da arqueologia que prometem mudar a nossa maneira de ver a religião. […] Uma descoberta importante é que as pessoas só têm consciência de algumas das suas ideias religiosas. […] A psicologia cognitiva mostra que [as suas crenças religiosas conscientes] são sempre acompanhadas por uma série de pressupostos tácitos que, em geral, não estão disponíveis para inspecção consciente. // Por exemplo, há experiências que mostram que a maior parte das pessoas tem expectativas altamente antropomórficas relativamente aos deuses, sejam quais forem as suas crenças explícitas. Quando lhes contam uma história em que um deus resolve vários problemas ao mesmo tempo, acham esse conceito bastante plausível, uma vez que os deuses são, em geral, descritos como tendo poderes cognitivos ilimitados. Recordando a história momentos mais tarde, a maior parte das pessoas diz que o deus resolveu uma situação antes de passar à situação seguinte. As pessoas também esperam implicitamente que as mentes dos seus deuses funcionem como mentes humanas, mostrando os mesmos processos de percepção, memória, raciocínio e motivação. Essas expectativas não são conscientes, e são muitas vezes contraditórias relativamente às suas crenças explícitas.

Ora, mas então, o que isso quer dizer é que as pessoas são naturalmente realistas; o que isso quer dizer é que, como tem sido apontado muitas vezes, e até pelo próprio Pascal Boyer, se não estou em erro, os seres humanos têm, já à nascença, uma ideia bastante clara do que é possível e impossível neste mundo; o que isso quer dizer é que, mesmo que apenas intuitivamente, as pessoas sabem que não existem seres com as propriedades e as capacidades que as religiões atribuem aos seus deuses! É só isso. Por outras palavras, isso não é evidência de que a religião seja natural nos seres humanos, mas, pelo contrário, de que ela é, para os seres humanos, contra natura. Ou seja, essas descobertas que Pascal Boyer chama em defesa do seu postulado de que “o pensamento e o comportamento religiosos podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais” provam, afinal, que o que é natural no pensamento humano é não aceitar no sobrenatural qualidades que não sejam perfeitamente naturais…

E o medo que temos de não passar de bichos… Pela minh'alma!

Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade, depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hess e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite):
(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspecto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens, em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas, era duas vezes maior do que em resposta à fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os poucos que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia. 
“Ficou tudo histérico na aula”, tinha-me contado a minha colega, “quando o professor aventou a possibilidade de a nossa concepção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”

Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reacção é típica: ninguém quer ser considerado um animal. E muito menos uma máquina… Lembro-me de que, mais por provocação que por estar convencido do valor de verdade da proposta, costumava postular que, se toda a gente acha que “aquela triste e leda madrugada” é uma frase de génio, deve ser porque se encaixa directamente nalguma organização preferencial dos sons que trazemos connosco à nascença*… Escusado dizer que toda a gente se chocava – avaliarmos, assim, maquinalmente, a beleza de Camões?

O facto é que querer desalmar a humanidade, retirar-lhe aquilo que a diviniza (a alma é, ao que dizem, o que têm em as pessoas em comum com deus…) continua a ser muito mal visto em pleno século XXI. Donde nos virá este medo essencial de sermos só um emaranhado complexo de músculos e nervos? Uma das vertentes mais fortes deste preconceito é a recusa das características congénitas de carácter. No outro dia, em casa de um amigo, discutia-se a preguiça de uma amiga comum. “Ela é exactamente como o pai dela”, explicou ele. E perguntou-lhe a filha de 13 anos: “Achas que a preguiça é hereditária?” “De que é culturalmente transmissível, não tenho dúvida nenhuma!” Ora ele não tem, à partida, mais razões para acreditar que – pelo menos naquele caso – a preguiça seja mais cultural do que geneticamente transmitida. Mas, como toda a gente, favorece a priori a hipótese de que seja o meio e não o património genético a determinar esse traço de personalidade. É estranho!

Ou antes, não é estranho, porque é o que toda a gente faz. Se se fala de uma pessoa com problemas sociais que vem de uma família disfuncional, o normal é ver na disfuncionalidade da família a razão de ordem ambiental para os problemas das pessoas, e nunca admitir como hipótese que ela tenha herdado fisicamente essa disfuncionalidade. Ora, à partida, enquanto não se souber bem o que faz de cada um nós o que ele é, as duas hipóteses têm, pelo menos, o mesmo valor: 50% de probabilidades cada uma. E 50% é precisamente uma percentagem muitas vezes prudentemente apontada para contabilizar a influência na personalidade de cada um dos factores, o ambiental e o genético…

É claro, estou a exagerar quando digo que não percebo por que é que existe essa sistemática desvalorização do genético em relação ao adquirido. De facto, tenho algumas propostas de explicação: uma é o terror do pseudo-cientismo racista à maneira nazi; outra é a apropriação pelo senso comum das teorias psicanalíticas e afins; outra é que nos sentimos menos bichos e menos máquinas se nos acreditarmos mais determinados pelo meio do que pelos genes... Agora, por conservadorismo não é. Podia pensar-se que isto de começar a considerar a herança genética uma componente fundamental da maneira de ser da cada um é moda nova, e que ir contra essa forma de ver as coisas é ater-se à tradição, mas, de facto, as coisas não são nada assim. Existe, desde há muito, em todas as sociedades, uma consciência clara do valor do herdado: não só se fabricam raças de cães com “personalidades” específicas, como se diz que a Maria sai mais ao pai e o Zé mais à mãe – por exemplo porque gosta de dormir até tarde ou porque tem medo do mar. No outro dia, dei por mim a pensar que podemos até fazer uma releitura “geneticista” do refrão «Filho és, pai serás, como fizeres, assim acharás»: Para o provérbio ter algum sentido, ou admitimos que é Deus que nos recompensa ou nos castiga pelo bem ou pelo mal que fizemos aos nossos pais (e esta é, desculpem-me os crentes, uma leitura completamente disparatada!) ou então os nossos filhos tratar-nos-ão como nós tratámos os nossos pais – porque herdaram de nós essa maneira de ser…

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* A ideia de universais de organização preferencial dos sons da língua não é minha: inspirava-se a minha provocadora proposta na “Regra do segundo mais pesado” do linguista francês Claude Hagège (L’homme de paroles, Paris: Fayard, 1985). Hagége notou que, em compostos do tipo mais ou menos ou tal pai, tal filho, aparece «em segunda posição o termo mais pesado, isto é, aquele que tem um maior número de sílabas, ou as consoantes ou vogais mais longas ou mais posteriores, ou as consoantes com um espectro acústico que apresente as mais fortes concentrações nas frequências baixas». É preciso notar que a proposta de Hagège não explica de modo algum porque é que “aquela triste e leda madrugada” soa melhor do que, por exemplo, “aquela leda e triste madrugada”. Mas isso também é irrelevante para esta conversa...

25 de outubro de 2008

A razão e o sentimento: vai-te mundo, cada vez a melhor

Desde os ensinamentos de Sidarta Gautama (que dizem que foi buda…) aos trabalhos de vários cientistas modernos, inúmeras vezes tem sido posta em causa a pertinência da velha dicotomia entre o racional e o irracional, o sentido e o pensado, a razão e os sentimentos. Não pretendo defender aqui que a ruptura entre os dois domínios existe de facto, mas digo que, como ferramenta conceptual, ela é importante; e a distinção pode fazer-se com bastante clareza se a linha divisória entre os dois domínios for a capacidade de transmissão do que nos vai dentro. A experiência e os sentimentos são tão pessoais e intransmissíveis como os bilhetes de identidade ou de avião. Há muito quem pense que há formas de os transmitir através de outros tipos de discursos que não a linguagem normal (através da música ou da poesia, por exemplo), mas não há nenhuma prova de que essa transmissão seja possível. O que há, na maior parte dos casos, é antes uma ilusão de transmissão de experiências e sentimentos. Mesmo a partilha de uma vivência concreta não garante uma comunhão da experiência: o medo que eu senti nas estradas de montanha da Bolívia não foi partilhado por muitos dos meus companheiros nessas viagens. O conhecimento, as ideias, o racional, é o que, de dentro de nós, pode ser recebido por todos os outros sem perdas significativas na transmissão e acumular-se como propriedade de todos os humanos.

Pode argumentar-se que o mais importante de cada um para os outros é a maneira como age relativamente a eles. A sua vida moral, digamos assim. E parece-me que o progresso nas relações entre pessoas tem resultado mais de uma discussão racional do que de alguma evolução dos sentimentos. Como o nota Steven Pinker (video aqui, texto aqui) e ao contrário do que postula o senso comum nas catastrofistas conversas que nos enchem o quotidiano, há uma clara e constante diminuição da violência ao longo da história da humanidade. É claro, não é impossível que tenha havido uma evolução da maneira como sentimos os outros, com causas específicas que não estamos ainda em condições de compreender, e que essa evolução tenha tido influência benéfica na nossa relação com eles. Não é impossível, mas não me parece muito plausível. Parece-me muito mais provável que qualquer alteração no nosso sentir (a existir) seja mais um produto das mudanças (racionalmente motivadas, entenda-se) da nossa organização social do que a sua causa. Além disso, creio que é possível demonstrar, contra todos os milenarismos que vêm na acumulação de conhecimentos e na evolução técnica que ela permite a desgraça da humanidade, que o progresso técnico tem contribuído tanto como o progresso moral para melhorar a vida das pessoas. Se há menos gente a sofrer agora do que há 500 anos, é porque a servidão e a escravatura foram abolidas, a justiça social e a igualdade foram aumentando, a violência é cada vez mais encarada como algo a banir, mas também porque melhorou a higiene e evoluíram a medicina, as técnicas de produção, etc.

Aonde quero eu chegar com este delírio? A uma conclusão simples: o Homo sapiens continua provavelmente a sentir pouco mais ou menos como sentia há 100 000 anos atrás, mas evoluíram muito o seu conhecimento e as suas instituições – o que é transmissível, comunicável, passível de ser efectivamente discutido. E ainda bem!

Seja bem-vindo o que vier por bem

Fala-se muitas vezes de “puristas da língua”, mas purista é um conceito que, aplicado às línguas, não faz grande sentido, simplesmente porque não há estados puros nem variantes puras de uma língua.

O estado presente de uma língua nunca é senão uma ponte entre o que ela era e o que ela há-de ser. Pode até acontecer que uma língua se afaste do que era o suficiente para começar a ser considerada, a determinada altura, uma outra língua; mas não se pode, excepto no caso das línguas inventadas, datar o nascimento de uma língua. Em última análise, se existem línguas neolatinas, por exemplo, é apenas porque o latim se foi transformando de maneiras diversas em diversas zonas, à margem da norma latina, naturalmente. O que significa apenas que, se toda a gente tivesse apenas continuado a falar “bem” latim... não havia português.

Não sei se importa aos puristas que as palavras puras das língua neolatinas venham muitas vezes de palavras latinas que os puristas do latim da época não teriam dúvidas em considerar espúrias. E o mesmo a gramática. O que deve ter chocado os puristas do latim terem-se perdido as marcas de caso dos nomes, terem entrado os auxiliares nas formas verbais, tudo isso... «Estão a dar cabo da nossa língua!», devem eles ter gritado (exactamente como o fazem agora os puristas, de cada vez que se espalha no idioma uma palavra inglesa ou que se começa a generalizar uma estrutura que eles considerem errada…)! Mas enganaram‑se. O latim estava apenas a transformar-se e a transformar‑se em novos idiomas que são, apesar de tudo, suficientemente puros para que haja puristas a defendê‑los!...

É tudo uma questão de memória. Hoje, ninguém ou praticamente ninguém se revolta contra o uso, em português, de palavras como constatar, que foi já criticado por detestável galicismo. Ou como, sei lá, lanche, por exemplo, que encontramos nas obras de Eça de Queirós ainda escrito lunch, como aliás lunchar (aliás, pelo número de palavras estrangeiras que usa, ficamos a saber que Eça de Queirós não era nenhum purista)… E centenas de outras palavras e estruturas. Vejam o caso do infinitivo pessoal. É verdade que a discussão sobre a origem do infinitivo flexionado está longe de ter terminado, mas, venha ele de onde vier, é sempre um qualquer tipo de inconcebível “abastardamento” que está na origem daquilo que muita gente não hesita em considerar uma das maiores originalidades da língua portuguesa…

As pessoas também se hão‑de esquecer de que foram um dia estrangeirismos os estrangeirismos que hoje alguns criticam, que foram já consideradas construções erradas as construções “erradas” que vingarem… E os puristas dessa época defenderão uma língua “pura” diferente da que defendem os puristas de hoje, que é também diferente da língua “pura” que defendiam os puristas de antigamente…

Por que não chamar antes pelo seu verdadeiro nome, e um nome com mais sentido, a atitude de quem não gosta que a língua mude? Em política, chama-se conservador a alguém que quer conservar o estado de coisas actual. O melhor é, simplesmente, deitar fora a ideia de purismo e aplicar também à língua o conceito de conservadorismo: em vez de purista da língua digamos linguisticamente conservador.

Eu cá, que não o sou (com a idade, até conversador já deixei de ser…), estou aberto a inovações. Não só às inevitáveis (porque a língua tem uma vida própria que não conseguimos regular, por mais que tentemos), mas também a todas as voluntariamente introduzidas – que seja muito bem-vindo o que vier por bem! Usem a palavra inglesa input, aportuguesem-no ou não em inpute, ou usem antes o neologismo insumo, que mesmo os puristas, perdão, os conservadores hão-de considerar bem formado*, o facto é que alguma dessas palavras começa a fazer muita falta em português, em certos contextos. O mesmo com a estrutura germânica em que se junta a preposição ao verbo em vez de se a juntar ao sintagma que ela introduz, que dá, de vez em quando, um jeitão, quando é de encurtar, e aumentar a legibilidade de, certas frases que se trata (Brincalhão!). Por exemplo…

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* Estou em crer que o neologismo insumo foi criado em castelhano e só posteriormente importado para o português, primeiro no Brasil, mas não tenho a certeza…

23 de outubro de 2008

As palavras são como as cerejas: Macequece, Twain e Rhodes

No outro dia, na estrada da vila de Manica para Penhalonga, vimos uma tabuleta nova, a indicar a «Fortaleza de Macequece, património histórico», e decidimos ir lá fazer uma visita.

Macequece é, provavelmente, o lugar mais importante da região, porque foi lá que durante vários séculos se localizou a célebre feira onde se trocava sobretudo ouro pelos produtos vindos de além-Índico. O controlo da feira sempre foi considerado prioritário na estratégia político-militar da região e disputaram-no, ora com diplomacia ora com mosquetes e azagaias, vários reinos com interesses nesta parte de África, desde os reinos shonas ligados ao Muenemutapa ou dele derivados até ao reino* de Portugal. Macequece é, pois, um nome com ressonâncias míticas.

Como podem imaginar, o património histórico moçambicano não está especialmente bem preservado [E quem muito colonialistamente pensar logo que, «pois, “eles” deram cabo de tudo», que se desengane, que a preservação do património histórico foi também nula no tempo colonial, sim?]. O facto é que há muitos factores a concorrer para a pouca preservação desse património. A falta de dinheiro, o não ser considerado prioridade, com certeza (e é relativamente compreensível), mas também, muito simplesmente, o facto de ele ser objectivamente mais difícil de preservar aqui do que noutros sítios, por causa do clima ou devido às próprias características dos edifícios antigos. As cortes dos reis, as aringas fortificadas, as casas dos prazos, tudo isso era feito de “materiais precários”, como se chama agora aqui ao pau-a-pique com cobertura vegetal. Tudo altamente perecível e, por isso, perecido. Mas mesmo algumas coisas mais sólidas, como a fortaleza de São Caetano de Sofala, foram completamente destruídas por uma erosão imparável (há quem diga que se usaram, nos fins do séc. XIX, pedras das muralhas da fortaleza para construções ali nas proximidades, na Beira e até em Maputo, mas não sei até que ponto é que isso é lenda…). Resumindo: o facto é que pouco resta, ou nada, do que houve antes do cimento colonial.

Desculpem a excursão. Dizia eu que o património histórico moçambicano não está especialmente bem conservado, de maneira que, quando vi a placa, não fiquei à espera de encontrar nenhum local histórico no sentido em que nós o entendemos no mundo rico, com turistas, guias e souvenirs. Por outro lado, fiquei muito contente por constatar que, apesar de tudo, já começa a haver sinais na estrada a indicar monumentos. As pinturas rupestres de Chinhamapere, por exemplo, já têm também uma tabuleta a indicá-las a quem passa na estrada de Manica para a fronteira de Machipanda.

O caminho para a fortaleza de Macequece é caminho para 4×4, especialmente quando vierem as chuvas. O forte não impressiona por aí além. É um quadrado de muros de pedra rudimentares de cerca de metro e meio de altura, com uma dezena de pequenas espingardeiras. Tem uma casinha, a um dos cantos, e, no meio, uma haste de bandeira e uma placa colonial, a louvar os soldados que ali combateram em Maio de 1891. Contra quem, não diz. E eu não fazia ideia de que batalha pudesse ser aquela. Devia ser, pensei eu, uma batalha pelo domínio efectivo do território, que a conferência de Berlim (leia-se, a Grã-Bretanha) tinha exigido às potências coloniais. Contra algum grande senhor feudal indo-afro-português que recusasse a administração portuguesa, ou contra os soldados de Ngungunhane... Quando cheguei a casa fui buscar a minha História de Moçambique, para ver de que se tratava [Newitt, Malyn, A history of Mozambique. London: Hurst, 1997. Todas as citações de Malyn Newitt que se seguem são desta obra]. Afinal, a batalha tinha sido entre o exército português e o exército da British South Africa Company, que é como quem diz, do Sr. Cecil Rhodes.
Ao ultimato da Grã-Bretanha a Portugal em Janeiro de 1890, seguiu-se um período de negociações. “Durante o que era, para todos os efeitos, uma suspensão da lei internacional”, para o dizer como diz Newitt, parece que a lei estava mais suspensa para uns do que para outros. “Embora Salisbúria exigisse que os Portugueses se abstivessem de qualquer actividade nas zonas sujeitas a negociação, ninguém impediu Rhodes e os seus agentes de avançarem com as suas actividades”.
A história é demasiado longa para a contar em pormenor aqui no blogue, mas eis um resumo: A 15 de Novembro, as tropas de Rhodes aprisionam os dois senhores afro-portugueses donos da primeira Companhia de Moçambique e com interesses na mesma Mashonaland que Rhodes queria controlar, e ocupam Macequece. “A intenção de Rhodes era garantir para a British South Africa Company todo o território que pudesse e, se possível, criar um corredor até ao mar. Em África, pensava ele, a posse era nove décimos da lei.” No dia anterior, Portugal e a Inglaterra tinham assinado um modus vivendi, válido por 6 meses até à assinatura do tratado final reconhecendo a validade da divisão de territórios acordada 3 meses antes, em que se definia nomeadamente que o território agora ocupado por Rhodes estava sob administração portuguesa. Rhodes não só recusa abandonar o território ocupado, mas faz avançar as suas tropas até ao Púnguè – em direcção ao mar! Entre 14 de Novembro de 1980 e 28 de Maio do ano seguinte, altura em que foi assinado o tratado que dava a Moçambique a sua forma actual, houve vários conflitos entre as tropas de Rhodes e os portugueses. A batalha de Macequece evocada pela placa na fortaleza é o mais importante desses conflitos. Os portugueses foram derrotados e obrigados a fugir e, quando parecia eminente uma nova batalha, a 29 de Maio, as tropas da British South Africa Company receberam ordens de retirada: era preciso respeitar o tratado assinado na véspera. Diz Malyn Newitt: “A satisfação última para Portugal deve ter sido a raiva de Cecil Rhodes perante o acordo que efectivamente o deixou desamparado na sua pirataria territorial”.
No seu relato de viagens Following the Equator, escrito em 1895 e publicado em 1987, Mark Twain passa os capítulos referentes à sua visita à África Austral em campanha aberta contra Rhodes. Eis a passagem final dessa diatribe, numa tradução que, infelizmente, não está à altura do apuramento retórico do original:
Sei muito bem que, seja o Sr. Rhodes o patriota e homem de estado nobre e digno de adoração que as multidões crêem que ele é, ou Satanás reencarnado, como o resto do mundo o considera, continua a ser a figura mais imponente do império britânico fora de Inglaterra. De cada vez que se põe de pé no Cabo da Boa Esperança, a sua sombra chega ao Zambeze. É o único colono dos domínios britânicos cujos afazeres são objectos de crónica e de discussão em todos os meridianos do globo, e cujos discursos, em versão integral, são telegrafados dos confins da Terra; e é o único forasteiro sem sangue real cuja chegada a Londres pode competir, na atenção que recebe, com um eclipse.
Que seja um homem extraordinário, e não um acidente da fortuna, nem os seus mais encarniçados inimigos da África do Sul estavam dispostos a negar, pelo que os ouvi testemunharem. Toda a África do Sul parecia tremer de medo dele – tanto amigos como inimigos. É como se fosse o delegado de Deus, por um lado, e o delegado de Satã, pelo outro, dono das pessoas, capaz de as fazer [ricas?] ou de as arruinar com um sopro apenas, venerado por muitos, odiado por muitos, mas nunca maldito por ninguém, entre os prudentes, e, mesmo pelos indiscretos, em retraídos murmúrios apenas.
Qual é o segredo da sua formidável supremacia? Diz um que é a sua prodigiosa riqueza – uma riqueza que, gotejando sob a forma de salários e outras receitas, sustenta multidões, e as compele a interessada e leal vassalagem; diz outro que é o seu magnetismo pessoal e a sua persuasiva argumentação, que hipnotizam e escravizam todos os que se movimentam nos círculos da sua influência; diz outro que são as suas majestosas ideias, os seus vastos esquemas para o engrandecimento territorial de Inglaterra, a sua ambição patriótica e abnegada de alargar a beneficente protecção britânica e o seu justo domínio aos sertões pagãos de África e iluminar a escuridão africana com a glória do nome da Grã-Bretanha; e diz outro que ele quer a terra e a quer só para ele, e que a crença de que a há-de ter e há-de acolher os amigos no rés-do-chão é que constitui o segredo que chama a ele tantos olhares e o conserva no zénite onde nada lhe obstrui o panorama.
Pode escolher-se a versão que se queira. São todas ao mesmo preço. Uma coisa é certa: mantém a proeminência e um vasto culto, faça lá o que fizer. Engana o Duque de Fife – é o que o Duque diz – mas isso não destrói a lealdade que o Duque tem por ele. Engana os reformistas numa confusão imensa com o seu Raid, mas a maior parte deles julga que ele fez por bem. Choraminga pelos desgraçados dos joanesburgueses, tão sobrecarregados de impostos, e faz deles seus amigos; ao mesmo tempo, cobra aos colonos da sua Companhia 50 por cento, e ganha deles assim tanto afecto e tanta confiança que se sentem abalados pelo desespero de cada vez que se ouve dizer que vai fechar a Companhia. Ataca e rouba e mata e escraviza os matabeles e recebe por isso enormes ovações dos cristãos da Companhia. Endrominou a Inglaterra para que comprasse papéis velhos da Companhia com notas do Banco de Inglaterra, tonelada a tonelada, e os burlados ainda queimam incenso em sua honra como se do Deus Supremo da Fartura se tratasse. Fez tudo o que conseguiu idear para ser atirado por terra; faz mais do que o necessário para provocar a derrocada de dezasseis grandes homens de tipo normal; e, no entanto, continua de pé até hoje, na vertigem do seu pináculo sob a cúpula celeste, permanentemente, ao que parece, a maravilha do nosso tempo, o mistério da nossa era, arcanjo com asas para meio mundo, satanás de cauda para o outro meio.
Admiro-o, confesso francamente; e quando chegar a sua hora, hei-de comprar um bocado da corda, só para guardar como recordação.
Para quem acredite no poder mágico dos nomes, a triste sina do Zimbábuè está traçada desde o momento em que deram ao território o nome de Rhodesia, que é (fica claro que eu não sou dos que consideram Rhodes um anjo) como chamar-lhe Escroquelândia, uma coisa assim… Ou, como diz Mark Twain, “Rhodesia é um nome adequado para aquela terra de pirataria e pilhagem”.
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* Uma curiosidade a propósito da palavra reino: em suaíli (e talvez também noutras línguas africanas, não sei), português diz-se reno. É impossível deduzir desse facto que “o reino” fosse a expressão mais utilizada pelos portugueses para referir a sua terra, mas era, com certeza, uma das mais usadas. À batata comum chama-se aqui batata reno, talvez para a distinguir da batata-doce, que é provavelmente mais utilizada. Ambos os produtos, no entanto, são americanos e é plausível que tenham sido trazidos para aqui ao mesmo tempo, provavelmente pelos portugueses.

22 de outubro de 2008

De almas e penas

Quanto mais reflicto sobre a ideia de livre-arbítrio, mais ela me parece complicada. Se partirmos do princípio, como eu parto, que aquilo que concebemos como actividade mental não é senão o resultado de processos físico-químicos, temos de aceitar que qualquer estado dessa actividade mental tem forçosamente de ser determinado por esses processos. Se não acreditarmos, como eu não acredito, nalgum tipo de eu metafísico “essencial” que escape às leis da matéria – uma alma, um espírito, pouco importa que nome se lhe dê – não se vê bem o que possa estar de fora desses processos mentais determinados a decidir o que vamos pensar ou fazer a cada momento. O facto, porém, é que, com perfeita consciência de o estarmos a fazer, ponderamos escolhas, pesamos prós e contras, decidimos. Ou temos, pelo menos, a ilusão de o fazer…

Por outro lado, quanto mais reflicto sobre a relação entre livre-arbítrio e moral, mais me parece estranho o postulado (pelos vistos bastante na moda pelo menos entre advogados nos EUA) segundo o qual uma pessoa, como não tem de facto livre-arbítrio, não pode ser condenada pelos seus crimes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou antes, de uma coisa não se pode inferir a outra. Creio que a base em que assenta esta (a meu ver…) confusão é a concepção do sistema penal como retaliação, de que eu discordo completamente. A meu ver, a lei prevê castigos para quem a não cumpra por duas razões essenciais, uma de ordem preventiva – o castigo tem uma enorme capacidade dissuasora – e outra de ordem, digamos, ontológica – não pode haver lei se não houver castigo para o seu incumprimento.

A primeira razão (sobre a qual já aqui escrevi uma vez, embora num con-texto muito diferente deste) continua a fazer sentido mesmo que não se acredite na possibilidade de livre-arbítrio, uma vez que a consciência do “perigo” que se corre ao quebrar a lei entra muito pavlovianamente na computação inconsciente e involuntária das acções de qualquer um. Quanto à segunda razão, ela é independente de se acreditar ou não no livre-arbítrio. Como diz a minha amiga Clara, em Portugal não há escolaridade obrigatória porque não há, na prática, punição para quem não manda os filhos à escola. “Isto é proibido, mas não te acontece nada, se o fizeres” é uma pretensa proibição. De facto, não é proibição nenhuma. Por isso, se achamos que se deve proibir, por hipótese, matar seres humanos, pouco importa se acreditamos ou não que quem o faz decide livremente o seu crime ou é compelido pela sua incontrolável mente a ser um assassino. O que a lei tem de punir, para poder existir, não é esse aglomerado de processos físico-químicos que uma pessoa é, mas as suas acções, independentemente de elas terem sido decididas por uma alma à imagem e semelhança de deus ou geradas por uma actividade biológica ingovernável. Só que, por impossibilidade de uma acção punitiva mais incisiva e mais justa, é a pessoa que tem de ser punida. Não há alternativa.

A questão é, obviamente, muito mais complexa do que este textinho parece que quer fazer crer. Este textinho não faz senão defender, de forma rudimentar, a ideia simples de que não se pune para retaliar, mas sim para tentar evitar a ocorrência do crime, e que sem punição não há lei. É óbvio que, mesmo que aceitemos estas premissas, ficam em aberto questões tão complexas como a quantidade e o tipo de castigo aplicável, as circunstâncias que devem ser consideradas atenuantes nas diferentes infracções, e os diferentes graus de responsabilidade num delito. Segundo uma personagem de um filme que eu vi ontem, um soldado tem de ter mais medo do seu comandante que do exército inimigo – para lhe obedecer em tudo e cegamente…; se não, de cada vez que dispara sobre um inimigo está a cometer um homicídio…

21 de outubro de 2008

Coisas da minha avó

A minha saudosa avó materna tinha umas quantas expressões curiosas.

Pial de pote, por exemplo. A expressão “correcta” para designar o lugar onde, nas casas antigas, se colocava a bilha da água fresca é poial de pote (poial é da família de pódio e significa “lugar onde se põe algo” ou “banco de pedra”), mas a minha avó chamava-lhe pial de pote. Chamem-lhe erro, se quiserem, mas não é um “erro” disparatado, porque pode facilmente imaginar-se que pial se relacione com (seria peal, nesse caso, e outra maneira, enfim, de dizer pedestal); ou então que derive de pia – a final de contas, é de um suporte de um recipiente de água que se trata…

Além de usar a expressão para referir o pequeno suporte de cimento e mármore que tínhamos na cozinha, a minha avó usava também pial de pote na fase Está aqui debaixo do pial de pote a enfeitar a cantareira!, que respondia a perguntas sobre o paradeiro de algum objecto e que significava, no falar lisboeta dela, “Eu sei lá onde é que essa porcaria está!”. A frase também tem duas coisas que se lhe digam: A primeira é que ou é uma redundância (se o pote da água e o cântaro forem uma e a mesma coisa, e, por conseguinte, o poial de pote e a cantareira apenas dois nomes de um mesmo espaço), ou então havia, nas casas mais antigas do que aquelas que eu conheci, por baixo do poial de pote, uma cantareira. A outra é que, tendo em conta sobretudo o tom com que ela o dizia, a frase tem com certeza conotações malandrecas, que deixo as minhas leitoras e os meus leitores adivinharem quais são. [Isto confirma que, como dizia não me lembro quem, não há menos figuras de retórica na linguagem das vendedeiras do mercado do Forno do Tijolo (a minha avó era de Sapadores) que na de qualquer obra muito literária... Mas isso é outra conversa…]

Outra expressão da minha avó de que eu gosto muito é Não penhas dúvidas! Mas isso existe, perguntarão vocês. Se existe? Pois se vos digo que é uma expressão que a minha avó usava! Não é uma frase muito canónica, é verdade, mas é muito mais expressiva e mais rica do que as duas frases com que concorre mais directamente, porque as funde numa só: não ter dúvidas e não pôr dúvidas são coisas diferentes e pode pedir-se a alguém que nos acredite sem duvidar ou que cale as dúvidas que possa ter. Mas é mais eficaz juntar-se Não tenhas dúvidas! e Não ponhas dúvidas! numa frase só: “Aconselho-te a não duvidares, mas, se o fizeres, guarda isso lá para ti, sim?”

Outra coisa que a minha avó fazia era tentar dar sentido ao que para ela não fizesse sentido, de maneira que as palavras estrangeiras eram sistematicamente aportuguesadas, da forma mais lógica possível. Quando apareceu o Seven up, por exemplo, ela começou logo a tratar por Sabe a nada o novo tipo de pirolito. Então mas se aquilo de facto não tinha grande sabor…

Finalmente, gosto muito da expressão Ó filho, tu ainda és de bom tempo! Ao contrário das anteriores, esta expressão não a ouvi só à minha avó, e conheço-lhe até uma variante mais divulgada, ainda és do bom tempo. É, claramente, uma referência a uma mítica Idade de Ouro em que não havia maldade nas pessoas, em que os seres humanos eram ingénuos e puros como os anjos, os meninos, os patos, os ursos ou os camelos, que são alguma das metáforas mais comuns hoje em dia para quem se deixe endrominar com facilidade…

Mas que sou de bom tempo, sou, não penham dúvidas! Ainda sou do tempo dos piais de pote e das cantareiras, muito antes de aparecer o sabe a nada…