29 de janeiro de 2008

Antes e depois de Colombo: tomatl, chocolatl e ahaucatl

Susanne Vega tem uma cantiga chamada “The world before Columbus” que, diz ela, é uma canção de amor dedicada à sua filha Ruby. A ideia de base da cantiga é que o mundo antes de Colombo – que é, obviamente, o mundo sem Ruby – era cruel, escuro e chato...

Agora, passando da cantiga à História, duvido que o mundo antes de os europeus começarem a viajar regularmente para a América e a colonizá-la fosse realmente mais escuro e mais cruel que depois, mas que era mais chato, era sem dúvida, sobretudo do ponto de vista da comida. Não que se morresse à fome, mas a dieta era um bocadinho menos variada. Na Europa, comia-se trigo, aveia, cevada, beterraba, ervilhas, lentilhas, favas, grão, amêndoas e melão, que nos tinham vindo do Médio Oriente em tempos muito recuados; trigo-sarraceno, nativo do Sudoeste Asiático; milho painço, chegado da Ásia já na Idade do Ferro; pêssegos, oriundos da China; centeio, provavelmente originário da Anatólia, como as maçãs; e peras, couves, castanhas, nozes, avelãs e cenouras, que, esses sim, são petiscos indígenas do continente. Na África (subsaariana, entenda-se, porque o norte de África, no aspecto alimentar é mais como a Europa) havia variedades de milhete que são daqui originárias, especialmente uma variedade chamada ragi ou milho miúdo indiano e a que os brasileiros chamam pé-de-galinha, originária da Etiópia e que era alimento de base antes da chegada do milho; mas também sorgo, bananas, que tinham vindo da Ásia, e vários frutos indígenas de que desconheço o nome e vocês também. Arroz, já se comia tanto na Europa como em África – na Europa, comia-se a variedade de origem asiática e em África outra variedade nativa deste continente.

Mas custa-nos, aos europeus, imaginar uma vida sem tomate, batata, feijão, chocolate e abóbora; e, para os africanos de hoje, é também com certeza impossível conceber África sem mandioca, batata-doce, abacate, papaia, ananás, piripiri e amendoim – e sobretudo sem milho; mas era assim que era o mundo antes de virem estes produtos todos das Américas Central e do Sul.

O milho é há vários séculos a base da alimentação em toda a África subsaariana. Costuma dizer-se que não há hábitos mais difíceis de mudar do que os hábitos alimentares, mas a introdução do milho em África, na primeira metade do séc. XVII ou talvez ainda no séc. XVI, parece ser uma excepção – toda a gente se rendeu rapidamente aos charmes do cereal americano. O milho foi introduzido aqui na África Austral principalmente pelos portugueses mas também pelos neerlandeses e isso nota-se até no inglês da zona: na África do Sul e no Zimbábuè, pelo menos, o milho não se chama maize, como no Reino Unido, nem corn como nos Estados Unidos, mas sim mealies (ou mielies), no plural. A palavra vem do mielie africâner, que vem, por sua vez, como é bom de ver, do português milho.

A que se deve o sucesso do milho? A ser fácil de cultivar, sem dúvida, e a não ter sabor por aí além. Aqui em Moçambique chama-se sadza, úchua ou chima, ou outros nomes, conforme a língua da região, à massa de milho (massa é que é a palavra própria em português de Moçambique) que praticamente toda a gente come praticamente todos os dias. É um acompanhamento tão neutro como o arroz ou as batatas, e é assim que têm de ser, ao que dizem, todos os alimentos de base. Já li algures que é precisamente essa a razão pela qual os africanos preferem o milho branco ao milho amarelo: tem menos sabor.

Bom, das vezes que dei a provar a africanos a minha polenta, feita com farinha grossa de milho amarelo cozida em caldo de carne com pedaços de legumes lá dentro durante quarenta e cinco minutos, em lume muito brando, e polvilhada depois com queijo ralado antes de se a pôr a arrefecer devagar num recipiente de madeira, eles acham sempre que “Ena, isto é melhor do que massa!”. Mas talvez se fartassem mais depressa de polenta do que da sua massa, se a comessem todos os dias…

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