20 de fevereiro de 2008

As coisas custam dinheiro: tabaco, suicídio (outra vez?) e ortografia

Há que ter respeito pelo dinheiro. Como venho de uma família não muito endinheirada, fui educado no respeito dessa coisa que só consideram vil e abjecta aqueles que não sabem dar valor ao que ela custa a ganhar e não têm consciência do que implica a sua falta. A expressão que a minha avó usava para referir a ostentação e o esbanjamento era “fazer pouco da miséria”. Não é por ter sido educado assim, no entanto, que mantenho esse valor do respeito pelo dinheiro (que a educação, só por si, é base fraca para uma moral…), mas porque tenho perfeita consciência de que é ele – ou a sua falta – que manda na vida das pessoas. É claro que, portuguesinho que sou, não fui habituado a ter em conta o aspecto económico de qualquer questão. Mas devo sobretudo à minha mulher, de mentalidade nórdica, o ter-me chamado a atenção para a leviandade que é discutir seja lá o que for sem fazer contas. E surpreende-me agora que se deixe de lado o aspecto económico de certas discussões…

Quando se fala de tabaco ou de suicídio, por exemplo (é mesmo só por exemplo!), os argumentos apresentados a favor ou contra pretendem-se, quase sempre, de ordem exclusivamente moral. Invoca-se a liberdade individual, inclusive de autodestruição, para defender o direito a fumar e a suicidar-se, e condena-se o o fumo ou o suicídio com base nas implicações desses actos para os outros. Por mim, está muito bem que a condenação de qualquer acto seja feita com base nas suas repercussões na vida daqueles que o não escolheram. Aliás, vejo mal em que mais se possa basear uma moral que não assente nalguma revelação divina. Mas acho sempre que se esquecem de fazer contas. Quando aparece algum argumento económico é a favor do tabaco, que, dizem os fumadores militantes, dá de comer a muita gente. É um argumento fraco, que permite defender desde a escravatura à pornografia infantil. Mas o facto é que o tabaco tem custos para toda a gente, não só para quem fuma activa ou passivamente. E o suicídio também tem custos económicos. Pode argumentar-se que qualquer morte o tem. É certo – e as granizadas também, se vamos por aí. Mas se há muitas mortes que são como as granizadas, há outras que não. O suicídio é uma morte auto-infligida e pode discutir-se como se discutem as doenças auto-infligidas, como a ressaca de bebedeira – ou o cancro dos fumadores… Não que a discussão seja fácil, que não é, nem eu tenho nada de muito concreto a propor – a não ser que, na argumentação, não se esqueçam de ter em conta os custos.

Agora, para ser coerente, tenho de aplicar a todos os domínios, sem nenhuma excepção, esta minha ânsia de contabilização da discussão da coisa pública. Uma reforma ortográfica, por exemplo. A discussão das reformas ortográficas, que é quase sempre bastante pouco racional, torna-se ainda menos racional pela falta de contabilização. Que custos reais tem uma reforma assim? Com um bocadinho de boa vontade até as implicações em termos de gastos de tinta podiam ser calculadas… Quanto dinheiro teriam os países de língua francesa e inglesa poupado em tinta se tivessem alguma vez racionalizado a ortografia em vez de continuar a escrever as palavras como elas se pronunciavam há 500 anos? Claro, depende de quando o tivessem feito... Digamos há 100 anos. Teriam poupado uma quantia maior do que o orçamento geral de estado de Moçambique para 2008? É bem capaz…

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