8 de fevereiro de 2008

Evolução e revolução, fama e anonimato: facas de desossar e facas de fazer filetes

O mundo parece que avança sempre aos sacões. Ou quase sempre. Os cabelos brancos não vão aparecendo um a um. De repente, aparece uma mão-cheia deles e depois podem passar-se semanas em que não se nota mais alteração nenhuma. As crianças também é aos pulos que crescem. Há períodos em que crescem de repente e depois são capazes de não crescer nada durante algum tempo, até outro período de crescimento. Quer dizer, as coisas não são bem assim… Na realidade, o que há são períodos de crescimento mais rápido e períodos de crescimento mais lento. Mas é assim que um observador desprevenido vê a coisa – solavancos, rupturas… E, como o cabelo e os miúdos, as sociedades. A economia, os sistemas sociais, tudo está em permanente mudança, mas há períodos em que a mudança é óbvia, em que se vê um salto. Evolução, revolução, é já velha a discussão…

O mesmo se passa, claro está, com o saber e com a aplicação prática desse saber. De vez em quando, há uma revolução, um avanço repentino. E alguém que é responsável da descoberta ou da invenção. Se for modesto, o que esse inovador dirá é que o avanço só é possível por ele se apoiar “nos ombros dos gigantes” que trabalharam no mesmo assunto antes dele e graças ao trabalho de muita gente anónima que faz a parte chata do trabalho de acumulação do conhecimento: alimentar e preservar as imensas bases de dados que permitem as grandes conclusões revolucionárias. É como os detectives e os seus ajudantes, a mesma coisa – tem de haver quem verifique impressões digitais e registos de matrículas de automóveis para depois os cherlocolmes poderem fazer as suas brilhantes deduções e descobrir que o assassino, afinal, não era o mordomo, mas sim o namorado da amante.

Quando se trata de conhecimentos, técnicas ou criações estéticas que se foram desenvolvendo em cada sociedade ao longo de muito tempo, temos a sensação de que essa “cultura de um povo” não é produto do trabalho de ninguém em especial. A música tradicional é um exemplo óbvio. Temos a impressão de que uma canção tradicional não foi escrita por ninguém, que foi “o povo” que fez a música e a letra, grande compositor e grande poeta que ele é. Mas é uma ilusão. Foi uma pessoa concreta que criou uma melodia e uma pessoa concreta que fez uma letra, e foram outras pessoas concretas que introduziram alterações concretas nessa letra e nessa música. O mesmo com o mobiliário tradicional, os bolos tradicionais e a maneira tradicional de matar um porco. Tradicional quer dizer “de autor desconhecido”. Sabemos quem inventou as amêijoas à Bulhão Pato, mas, se o Bulhão Pato não fosse quem era, as amêijoas seriam hoje, provavelmente, amêijoas à lisboeta ou uma coisa assim.

Pois é... Uma pessoa maravilha-se com o génio dos Newtons, dos Darwins, dos Edisons ou dos Franklins, mas esquece-se sempre de se maravilhar com o génio dos génios desconhecidos. Os vários tipos de facas, por exemplo, quem os terá inventado? Alguém foi, ou meia dúzia de pessoas, no máximo, porque não é nada provável que a catana, por hipótese (ponhamos que é essa a forma primitiva do objecto faca, que não é de certeza…), tenha “evoluído”, à razão de milímetro por geração, até se diferenciar em cutelo, faca de desossar, faca de serrilha para pão e faca de filetes. Mas quem? O facto é que uma faca de desossar é uma obra de se lhe tirar o chapéu, uma maravilha técnica. Ou uma faca de fazer filetes. Experimentem fazer filetes com uma faca rígida de carne ou de legumes ou desossar um peru assado com uma faca de fruta ou de pão e verão se eu não tenho razão…

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