20 de fevereiro de 2008

Cavalo verde, cibório e cancro: Não seja malcriado, está bem?

Um tipo de expressões curiosas e às vezes intraduzíveis literalmente (mas nunca literalmente intraduzíveis, note‑se) são as palavras tabus. O que é considerado ordinarice ou palavrão pode variar bastante não só de língua para língua, como de variante para variante da mesma língua. Em francês do Canadá, cavalo verde é um palavrão; tanto em francês do Canadá como em castelhano de Espanha, cibório (o vaso grande onde se guarda o santíssimo sacramento) também é uma bojarda; e em dinamarquês, cancro é uma palavra mesmo muito feia!

Trocando por miúdos: Joual* vert!, em francês do Québec, é uma palavrão leve, rural e antigo, que se pode usar como exclamação ou nas expressões mettre quelqu’un en beau joual vert ou être en beau joual vert, que significam, respectivamente” “arreliar alguém” ou “estar arreliado”; ciboire (pronunciado [cibuerre]) já é, também no francês do Canadá, um palavrão mais forte e copón, a palavra que lhe corresponde em castelhano, é um quantificador pouco cortês em Espanha, onde se diz que uma coisa é del copón como nós dizemos que é “do caralho” (pode dizer-se, por exemplo, sei lá, que “se armó una bronca del copón”); e kræft, “cancro” em dinamarquês (pronunciar [crraft]), é uma das poucas palavras “feias” que expressam fortemente, nesta língua, raiva, indignação, zanga em geral...

Não tenho ideia de como serão os palavrões em línguas distantes, mas é muito provável que venham, em todas as línguas das três áreas de vocabulário que os fornecem na nossa língua e nas que lhe são mais próximas: a sexualidade, a religião e a excreção**– com muito poucas excepções como o kræft dinamarquês...

A preponderância da sexualidade sobre a religião ou vice-versa varia de país para país, podendo até acontecer que haja países onde um desses campos de vocabulário não dê nunca origem a palavrões – que é o caso de Portugal, onde, como sabem, não há palavras feias relacionadas com a religião. Más notícias, portanto, para quem quer sempre ver na língua, em todos os seus aspectos, um reflexo da sociedade. Eu não acredito, sinceramente, que Portugal seja assim tão radicalmente menos religioso do que os outros países latinos. Mas basta atravessar a fronteira e já temos a hostia, o copón e mais umas quantas expressões menos limpas sobre a Virgem e Deus. Se continuarmos a atravessar fronteiras e formos até Itália, o número de expressões tabus que têm Deus ou a Virgem Maria como protagonista aumenta ainda mais. No francês europeu, em geral é mais como em português, e o sexo volta a predominar, embora em certas zonas seja também considerado tabu invocar em fúria (mais do que apenas em vão) o santo nome de Deus. O francês canadiano bate, no entanto, todos os recordes de palavrões de origem religiosa – para vos dar aqui a lista completa das correspondentes portuguesas das palavras mais descorteses em francês canadiano, temos, para além do já referido cibório, Cristo, virgem, baptismo, (santo) sacramento, hóstia (como em Espanha!) e cálice (o da missa, claro). Imaginem! Já os anglófonos, se é de exprimir arrelias que se trata, preferem, como nós, palavras relacionadas com sexo, mas também pode não ser bonito pronunciar o nome de Cristo, em certos contexto e com certas entoações...

E depois há também, como eu dizia, a excreção, que, nas línguas mais próximas, é uma área de expressões tabu mais consensual. Merda, por exemplo, é uma palavra tabu em todas as línguas que conheço – se bem que nunca seja um dos palavrões mais fortes.

Agora, da mesma maneira que variam as palavras tabu de país para país, também varia muito a atitude relativamente a essas palavras e a censura a que elas, mais ou menos oficialmente, são sujeitas nos meios de comunicação social. Portugal ou a Grã-Bretanha, por exemplo, têm ainda uma atitude muito conservadora no que diz respeito a palavrões e a melhor maneira de não ver uma canção difundida na rádio ou na televisão é pôr uma ou duas bojardas na letra... Já em França, nada de semelhante se passa, e muitos dos grandes autores de canções fizeram e fazem canções com palavrões, sem que isso choque seja lá quem for.

Além de predominar na rádio e na televisão, a atitude conservadora que referi acima reflecte‑se também em dicionários e correctores ortográficos. Não deixa de ser curioso que muitos dicionários e correctores ortográficos de português não tragam palavras tabus. O meu dicionário da Porto Editora de 2004 é o primeiro que tenho a trazer todas essas palavras, o que já é um avanço em relação à edição que eu tinha antes, de 2000, se não me engano, que ainda não as trazia. Aliás, traz até, como deve, sentidos tabus de palavras que não são palavrões, como tomates, por exemplo. A entrada cona é um bocado limitada, porque indica apenas o sentido de “vagina” e se esquece de expressões como ser um conas (ou um coninhas, ou um conas de sabão) ou ter uma cona muito funda, mas enfim, a próxima edição será com certeza melhor… O dicionário Priberam online conhece cu, vá lá mas, dos outros palavrões mais comuns, nem sombras…*** O meu corrector ortográfico, que é o Proofing Tools da Microsoft, de pudibundo que é, também não conhece essas palavras portuguesas. Curiosamente, reconhece as palavras tabus espanholas e francesas, mas desconhece, por exemplo, o inglês cunt, o que é muito estranho, porque as “palavras de quatro letras” inglesas há muito que se encontram em qualquer dicionário… O que irá na cabeça destes gajos da Microsoft?

Na minha, porém, sei eu bem o que vai… A relação que eu tenho (que muitas pessoas têm…) com estas palavras é tão estranha que eu juro que me fartei de discutir comigo mesmo sobre se seria ou não “apropriado” pôr este texto no meu blogue…
___________

*Joual é uma deformação canadiana de cheval. Por ser tão estranha e tão marcadamente canadiana, é esta palavra que dá, precisamente, o nome à variante dialectal canadiana: quando se fala um francês que se afasta do francês standard, marcado por expressões e uma pronúncia tão diferentes que muitos francófonos europeus não compreendem, diz‑se que se fala joual.

**Para um apanhado da questão, sem nada de muito surpreendente mas com bastante informação interessante sobre estudos concretos desta problemática, podem ler o artigo de Steven Pinker de 2007 “Why we curse. What the F***?”. Sei que o assunto é tratado também no seu último livro, The Stuff of Thought: Language as a Window Into Human Nature (Nova Iorque: Viking, 2007 ) mas não sei como, porque ainda não o li. Aqui em Chimoio, não se apanha, como dizem os moçambicanos.

*** Nota de 15 de Abril de 2013: O dicionário Priberam em linha mudou muito desde 2008: agora conhece muitos palavrões! Tanto no Priberam como no Porto Editora em linha, porém, cona continua a ser apenas a vagina.

1 comentário:

Ana disse...

ADOREI o teu texto!