2 de fevereiro de 2008

A vida real? Pode ser, está muito bem. Mas… e uma sinfonia?

Uma vez, um amigo meu, depois de me escrever, numa carta, que “o velho Billy [Shakespeare] era o poeta da condição humana”, quis emendar-se, na carta seguinte, afirmando que “não era uma observação esclarecedora por aí além, porque toda a poesia deve ser sobre a condição humana. Que mais existe?” Para este amigo, texto ou filme que não seja sobre como foi ou como é a vida das pessoas no mundo real não tem interesse nenhum. O maravilhoso, a ficção científica, a aventura fantasista, o puro prazer estético da arquitectura da forma, nada disso lhe diz nada. Para quê perder tempo com coisas que não existem?

Ora eu, embora não tendo nada contra a literatura que fale da vida real das pessoas, não entendo bem essa atitude. Bem vistas as coisas, da vida das pessoas está o mundo cheio e, portanto, para conhecer a realidade da condição humana ninguém precisa de ler livros nem de ver filmes, basta-lhe estar no mundo; e quem queira reflectir sobre as coisas sérias da vida e aprender sobre o mundo à sua volta talvez ganhe mais lendo ensaios filosóficos ou trabalhos históricos e científicos do que romances. O que a ficção nos abre, precisamente, é a possibilidade de viver em mundos e tempos diferentes deste em que vivemos. Isto é (mais uma vez…) uma banalidade. Mas também não é aqui que quero chegar. É antes daqui que eu quero partir, para chegar à música.

Naturalmente, esse tal amigo meu não gosta de música. Quer dizer, não é que a música o incomode, mas não tem especial interesse por música. Gosta de letras de alguma canções (quando falam da vida das pessoas), mas o suporte musical dessas letras importa-lhe pouco. E como havia de ser doutra maneira, se lhe interessa só a arte que fale das coisas humanas? Afinal de contas, não há nada que fale menos da vida das pessoas do que a música – da vida das pessoas e do mundo em geral. E no entanto…

Se a diferença de capacidades entre o Homo e outros animais é realmente qualitativa ou apenas quantitativa, eis o que tem sido e continua a ser objecto de uma grande discussão: a linguagem humana é uma característica única no reino animal ou apenas um sistema semelhante ao de muitos animais, apenas com um grau maior de complexidade? A autoconsciência e a consciência dos outros, tal como a temos, é de um tipo essencialmente diferente da consciência dos outros animais ou apenas mais sofisticada? Etc., etc. etc. Ora, se há uma capacidade humana sem paralelo nenhum no resto do mundo animal, é com certeza a da música, esse produto tão secundário da nossa evolução!... Paradoxo curioso: a música não diz absolutamente nada aos seres humanos ou sobre eles, nem lhes serve para absolutamente nada – e é, ainda assim, uma marca fundamental de humanidade.

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