5 de março de 2008

As palavras da língua e as palavras do dicionário

Parece que Camões foi criticado, na sua época, por inventar demasiadas palavras. Introduziu tantos neologismos nos seus escritos que, dizem, estes eram difíceis de ler para um português da altura. O que é curioso é que uma grande parte desses neologismos camonianos ficaram para sempre – o que prova, mais do que a pertinência dessas invenções, o poder de Camões... Mas enfim, acho que ninguém tem dúvidas de que, sendo Camões quem é, qualquer palavra que ele tenha usado, tenha ela sido inventada por ele ou não, tenha ela ficado no idioma ou não, tem, com certeza, direito a ser dicionarizada. O mesmo algumas palavras abstrusas de Aquilino Ribeiro ou de Camilo Castelo Branco. Até aí, muito bem. Mas…. E as palavras que usa quem não é figura de vulto da literatura? Aí, as opiniões, pelos vistos, divergem muito. Em relação a muitas delas, pelos vistos, a opinião predominante é que não têm direito a fazer oficialmente parte do corpus da língua: não se encontram em dicionário nenhum….

É um facto facilmente observável: os dicionários de português estão cheios de palavras que ou já não fazem efectivamente parte da língua ou nunca fizeram realmente parte da língua mas que talvez um escritor famoso tenha usado uma vez ou duas, vá lá uma pessoa saber…, enquanto que palavras que todos usamos todos os dias continuam a ser recusadas pelos lexicógrafos. Às vezes, enchem‑se as páginas dos dicionários com palavras que parecem ter como fim único que se possa dizer depois «Ah, o português é uma língua muito rica, tem não sei quantas mil palavras!». Quem viu ou ouviu já coisas como (selecção perfeitamente aleatória) apartadiço, aparvajar, apascaçar‑se e coisas deste estilo? “A Maria anda muito apartadiça, não sei o que ela terá...”; “Lá ‘tás tu a aparvajar outra vez...” ou “De vez em quando, apascaça-se, o rai’ do rapaz...”. Para verem que eu não estou a exagerar, apartadiço ocorre 28 vezes em Google, só em dicionários e listas de vocabulário, nem uma única vez num texto, aparvajar simplesmente não ocorre e apascaçar-se ocorre 15 vezes, também só em dicionários e listas de palavras. Aliás, para manter o mesmo número de palavras e continuar a afirmar assim, orgulhosamente, a riqueza do português, podiam substituir-se as palavras que ninguém usa nem nunca usou por aquelas que se usam todos os dias milhares, milhões de vezes, mas às quais continua a ser vedada a entrada nos dicionários… No meu dicionário, pelo menos (que é suficientemente completo para ter apartadiço, aparvajar e apascaçar‑se), não encontro nem berlaitada (980 ocorrências em Google), nem janado (4 273 occorrências), nem marado (177 000 ocorrências em Google), para dar três exemplos também ao calhas... Curioso: ao calhas (13 400 ocorrências em Google) também não vem no meu dicionário… Por que será?

Já agora, ainda sobre dicionários e palavras, uma coisa que nunca deixa de me surpreender: há sempre gente que quer fazer contas à “riqueza” das línguas comparando o número de palavras dicionarizadas. Mas como é que se pode fazer isso quando as tradições são tão diferentes no que diz respeito a inclusão ou exclusão de “estrangeirismos” (abram um dicionário inglês, ao calhas, e um francês, e vejam o que são consideradas palavras inglesas e o que são consideradas palavras francesas) e, sobretudo, à maneira de escrever palavras: nas línguas germânicas é fácil e normal, por exemplo, fazer de dois nomes outro nome, mas nas línguas latinas o fenómeno é muito mais raro. E depois, o que é uma palavra? As formas flexionais de um verbo ou de um nome, são palavras diferentes? Se eu e mim são palavras diferentes, então o finlandês, em que há 16 formas para cada nome, ena, tem palavras que nunca mais acabam… Depressa, devagar, afinal, portanto, senão, etc., só são palavras por convenção ortográfica. E as “locuções” de cor ou em cima só não o são também por convenção. Couve-flor é uma palavra ou duas? E couve coração de boi, quantas palavras são? Podia encher um blogue inteiro com exemplos, mas fico por aqui.

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