3 de junho de 2008

O maia do Iucatão e o louvor da miscigenação

O mundo evoluiu o suficiente, nas últimas décadas, para ter sido proscrita a defesa da “pureza” racial. No domínio das línguas, porém, é quase sempre a “pureza” que ouço defender. O problema é que também para as línguas a miscigenação é, provavelmente, não só louvável como até necessária. Aqui vai uma pequena contribuição para essa discussão.

Eis uma das conclusões de um estudo de Francisco Raga sobre castelhanização do maia do Iucatão*:
No caso das línguas maias, podemos falar de uma relação inversamente proporcional entre “vitalidade” e “pureza” das línguas. A maioria de línguas maias de Guatemala e Chiapas, circunscritas aos âmbitos afectivos, apresentam um grau de castelhanização relativamente escasso, mas a sua sobrevivência a curto ou médio prazo encontra‑se seriamente ameaçada. O maia iucateco, pelo contrário, é uma das línguas indígenas da América Central que apresentam maior vitalidade; uma das poucas que estão a abandonar os âmbitos exclusivamente privados ou afectivos, e a entrar num contacto mais directo com o espanhol. No entanto, este mesmo contacto está a levar a língua a um rápido e profundo processo de castelhanização. Provavelmente, uma das línguas ameríndias que enfrentará a passagem do século XXI com melhores perspectivas de sobrevivência será o maia iucateco, se é que nessa altura ainda se poderá continuar a chamar assim.
Não compreendo bem a última frase: não vejo porque é que a língua há‑de mudar de nome apenas por evoluir. A latinização do inglês, sobretudo através do francês, por muito que tenha resultado em quase cinquenta por cento de vocabulário latino, nunca levou a que se lhe chamasse francês. Aliás, o facto de o inglês se ter “miscigenado” com as dezenas e dezenas e dezenas de línguas com que esteve em contacto e de que o francês é apenas o exemplo mais importante, nunca o fez perder a sua identidade e o único efeito que teve sobre a língua foi (no decorrer aliás do que prevê a teoria exposta aqui por Francisco Raga) dar‑lhe vigor. Mas, tirando esta última frase manchada de uma afectividade qualquer muito pouco científica, o resto é como que a confirmação no domínio das línguas do que o conhecimento biológico prevê: a miscigenação como fonte de fortalecimento.

Nos exemplos que dei, o maia iucateco ou o inglês não foram assimilados por nenhuma outra língua, apenas se modificaram, fortalecendo‑se. Quero insistir nisto para deixar claro que não estou a fazer uma apologia da assimilação cultural, mas antes fazer a apologia de um dinamismo cultural, por oposição a posições passadistas e puristas que não contribuem em nada para a melhoria real da vida de ninguém – nem da vida de nenhuma língua...

Para resumir – num estilo talvez exageradamente romântico, mas que fica bem a uma conclusão –, diria que só deixando, a cada momento, de se ser o que se é, é que se pode continuar a sê-lo.
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* Raga Gimeno, Francisco, “Proceso de castellanización en maya yucateco”, in Calvo Pérez, Julio & Juan Carlos Godenzzi (compiladores), Multilingüismo y educación bilingüe en América y España, Cuzco: Centro de Estudios Regionales Andinos Bartolomé de Las Casas, 1997, traduzo eu.

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