5 de junho de 2008

Topónimos e gentílicos: mas que grande confusão!

Fiquei ontem a saber nas Ciberdúvidas que um dos “Erros mais frequentes” em português é o uso de azeri em vez de azerbaijanês (por muito que, explica-se, «o Dicionário Houaiss já ateste o barbarismo, preferindo azerbaidjano»). Curioso: eu nem sabia que as referências aos habitantes ou à língua do Azerbaijão eram em número suficiente para poderem, mesmo que todas erradas, ser um erro frequente, mas enfim… Googlo (guglo?) azerbi em páginas em português e dou com cerca de 373000 páginas, as primeiras das quais são duas páginas da Wikipédia sobre, respectivamente, a língua e o povo do Azerbaijão. Googlo azerbaijanês e aparecem-me 248 ocorrências. Experimento com azerbaidjano e o número de ocorrências sobe para cerca de 2710. Tiro o d a azerbaidjano e vejo que a taxa de ocorrência de azerbaijano é a mais elevada a seguir a azeri, com cerca de 35300 páginas em Google. É óbvio que, sobretudo para a palavra azeri, muitas das ocorrências assinaladas pelo motor não são, de facto, ocorrências da palavra em textos em português. Ainda assim, fica-se com uma ideia clara da taxa de frequência das várias palavras concorrentes.

A questão que uma pessoa se coloca de imediato é: Mas por quê, digam-me lá, azerbaijanês e não uma das outras formas? Azeri é com certeza recusado porque não segue a formação típica dos gentílicos em português. Muito bem. Mas então, pode usar-se para designar a língua? É que o meu dicionário regista, por exemplo, hindi e romani como nomes de línguas… E por quê azarbaijanês e não azerbaijano, então, que parece ser uma forma muito mais utilizada de facto?

Tudo isto é muito curioso. Zulu e bantu não se devem escrever, é zulo e banto. Está bem. Mas hindu aceita-se… De certeza que não é *hindo que se deve escrever? Noutra entrada do mesmo glossário de “Erros mais frequentes”, explica-se que é nicaraguano e zimbabuense que se deve dizer e escrever (e não, presumo eu, nicaraguense e zimbabueano), mas também não se percebe bem por quê. Se os nicaraguenses se chamam a eles próprios nicaraguenses, e esse gentílico obedece às boas regras de formação dos gentílicos em português e tem uma taxa de ocorrência muito maior (cerca de 68900 páginas em Google, contra 488 de nicaraguano), para quê inventar outra palavra? Quanto a zimbabueano e zimbabuense, a primeira forma ocorre também mais (cerca de 4240 páginas em Google contra cerca de 1030 para zimbabuense), mas há outra questão que é aqui importante: quem é que, das pessoas de língua portuguesa, costuma falar das pessoas do Zimbábuè? Os moçambicanos, naturalmente. E, em Moçambique, é sempre zimbabueano que se diz, nunca zimbabuense. Como a palavra zimbabueano não de está de modo nenhum mal construída, por que é que os outros países de língua portuguesa não adoptam a forma moçambicana? Seria o mais lógico e é o que eu faço. O mesmo com malauiano, por exemplo, que é o que se diz aqui.

Agora, já devem ter reparado que eu escrevi Zimbábuè e não Zimbabwe ou Zimbabué. Também tenho uma boa razão para isso. A terminação em e àtono aberto é estranha ao português, mas é comum nas línguas da África Austral, pelo que há, em Moçambique, já desde o tempo colonial, uma tradição gráfica que permite escrever essa sonoridade estrangeira. Assim, existem muitas localidades moçambicanas cujo nome é oficialmente grafado com è final: Alto Molócuè, Guruè, Púnguè, Báruè, Vila Ulônguè, etc. O que faz sentido é estender esta tradição ortográfica a topónimos estrangeiros da região: Zimbábuè, Lilônguè, etc.

Já o caso de Malawi é mais complicado. Se se quer aportuguesar, as possibilidades são várias: Maláui, Malávi, talvez até Marávi (em textos históricos, os povos que estão na origem do nome são às vezes referidos como maraves). Mas também se pode escrever Malawi, porque não? [Já agora, a grafia oficial do nome do país é Malaŵi, com acento circunflexo no w, mas isso não dá jeito nenhum…]

Pois é, isto de gentílicos e topónimos é complicado. O acordo ortográfico proposto, estive a lê-lo ontem, diz que se devem utilizar as formas aportuguesadas dos topónimos consagradas pelo uso. Eu acho bem, mas nem sempre é fácil saber que forma é essa e se o uso de facto a consagra ou não. Constato, por exemplo, que houve muitos aportuguesamentos clássicos de topónimos que caíram em desuso nos últimos 50-100 anos, e fico sem saber se são aconselhados ou não. Não me importava nada, com toda a franqueza, de contribuir para a revitalização do seu uso, passando a escrever, por exemplo, o clássico Lião em vez do Lyon que propõe o Livro de Estilo do Público, Francoforte em vez de Frankfurt, e, sobretudo, o delicioso Badalhouce em vez de Badajoz

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