9 de setembro de 2008

Como é que se diz polibã em francês?

Um senhor chamado Terrence Sejnowski escreveu uma vez: “Nunca pensei que me tornaria omnisciente na vida, mas, com Google a melhorar continuamente e a informação online a aumentar, alcancei a omnisciência para todos os efeitos práticos”. A afirmação parece, à primeira vista, um bocado exagerada, mas a verdade é que é exactamente o que eu sinto. Tenho cada vez mais a sensação de que as barreiras ao meu saber se encontram em mim, na capacidade que tenho de colocar questões, de pensar em investigações possíveis. A informação, essa, está cada vez mais disponível. Compare-se a informação que está hoje online com a que informação online de há, digamos, três anos, e a diferença é abismal. Tão abismal que uma pessoa não pode deixar de se maravilhar – dentro de meia dúzia de anos, todo o saber humano há-de estar na Internet. Omnisciência, portanto, pelo menos para quem, como eu, não acredite que a palavra possa significar mais do que, precisamente, a soma de todos os saberes humanos. E isto é uma introdução despropositadamente pomposa para um texto sobre a palavra polibã. “A palavra polibã?” Isso mesmo: a palavra polibã.

Tive de traduzir um texto onde aparecia a palavra polibã e comecei a interrogar-me sobre a origem de tão estranha palavra. Antes de mais, convém esclarecer que polibã é a grafia proposta pelo meu dicionário Porto Editora, que aceito de bom grado, e que coexiste, no dito dicionário, com a grafia poliban, que deve ser a mais comum em Portugal. Mas donde virá uma palavra assim? O dicionário Porto Editora não propõe etimologia nenhuma, o que é estranho, porque costuma propor sempre etimologias, algumas até bastante fantasiosas, mesmo para muitas palavras de origem obscura…

A primeira intuição de qualquer pessoa é que se trata de uma palavra francesa, porque banho é bain em francês e um polibã está obviamente relacionado com banho. Mas não é uma palavra francesa. Qualquer busca rápida em Google vos diz aquilo que eu já suspeitava mesmo antes de iniciar a pesquisa, pela simples razão de que nunca ouvi a palavra em francês. É conhecida a incapacidade portuguesa de distinguir o som final de bain do som final de ban, que são sons bem diferentes em francês, e o normal seria que a palavra, a existir em francês, fosse *polybain – provavelmente um nome de uma marca construído com um primeiro elemento designando uma qualquer substância plástica começada por poly- e um segundo elemento bain, “banho”. Mas não há *polybain em página nenhuma em francês. Ou antes sim, numa única página quebequense. Uma ocorrência em Google significa “isto não existe” e inaugura apenas o mistério (que não me apetece investigar, sinceramente) de saber quem teria escrito polybain no Canadá e por quê (algum português que lá vive?).

Posta de lado a hipótese da origem francesa da palavra, restava-me continuar a tentar a hipótese de se tratar de uma marca, talvez até portuguesa. Experimentem o que quiserem: polyban, polybam, polibam, dêem a volta que quiserem à coisa: as variações ortográficas dão-vos sempre e apenas páginas portuguesas com uma ortografia mais ou menos criativa, ou alguns nomes de famílias, empresas ou produtos que não têm nada a ver com chuveiros. Podem também experimentar com ll dobrados (e até bb dobrados, se quiserem), o resultado não é melhor...

A hipótese seguinte, motivada aliás, por uma alternativa que se ouve em Portugal à forma [polibã], que é [polivã], era que o b fosse uma deturpação de outro som. A ser isso verdade, devia ser uma deturpação de um v ou de um p. Mas a hipótese não se confirmou: mais umas quantas pesquisas com várias variações com v e p em vez de b também não dão nada que tenha a ver com polibãs.
Comecei a pensar que, ná, dali não levava nada. Não que isso me importasse muito, porque o conhecimento da origem da palavra polibã não é nada que contribua muito para a felicidade de ninguém, como se costuma dizer. Além disso, o tempo investido na pesquisa também não tinha sido muito, uns dez minutitos, se tanto, de maneira que não havia muito a lamentar. Nesta altura, a minha melhor hipótese era que polibã fosse uma abreviatura de uma palavra mais comprida designando uma substância plástica. Se assim fosse, Google não me podia ajudar, porque Google não procura palavras a partir de uma parte dessas palavras… A não ser que a palavra aparecesse cortada nalguma página, mas isso era passar a pente fino todas as páginas com todas as variantes que eu tinha tentado e já requeria uma disponibilidade que eu não tinha.

De repente, decidi dar ao motor de busca uma última chance. Há muito tempo que Google me estava a propor a alternativa polybeam, mas polybeam parecia-me tão sem relação com polibã que tinha, até aí, ignorado a proposta; mas agora, por descargo de consciência, dei-lhe uma clicadela. E estava o mistério resolvido. Ou seja, não posso ter a certeza absoluta de que o mistério estava de facto resolvido, mas tinha finalmente chegado a uma excelente hipótese. Polybeam era, de facto, o nome de uma marca britânica de produtos de casa de banho (entre várias outras coisas). Não percebo bem se a marca refere apenas o material ou não, mas é certo que uma das coisas em que a Polybeam se especializou foi a cabina de chuveiro a que os portugueses chamam polibã, precisamente. Quando se sabe isto, o resto da história é fácil de reconstruir, sobretudo tendo em conta o (des)conhecimento do inglês de que quem trabalha quer com a venda quer com a montagem de artigos de casa de banho – que o [polibi:m] original, provavelmente já pronunciado de várias maneiras estranhas ([polibiã] é uma que me ocorre imediatamente) se tivesse transformado em [polibã], sobretudo quando designa um chuveiro de caixa, é a mais natural das coisas.

Para os dicionários, portanto: polibã n. m. espaço de um quarto de banho, etc, etc. (…) (de Polybeam ®).

Já agora: como desde 2005 que a marca já não existe, porque a firma foi comprada pela Off Site Solutions (RT) Limited, não digam que têm um polibã na casa de banho, mas antes um ofessaite, sim? Ah, e polibã em francês é cabine douche, acho eu...

1 comentário:

ninguem disse...

pela mesma ordem mística das coisas, se chama , nos Açores, aos aspiradores, a vaca adelina. pois