24 de setembro de 2008

Precipitação gelada ou Um texto meu (quase só) com palavras alheias

Digo eu, para introduzir a questão: é comum afirmar-se que “a língua esquimó” tem muito mais palavras do que qualquer outra língua para dizer “neve”*. Já ouvi esta afirmação em muitas levianas conversas de café, mas também em contextos que se pretendiam bem mais rigorosos...

Diz sl0throp sobre esta pretensa inflação vocabular:
[É] um mito perpetuado por uma série de linguistas, começando com Franz Boas em 1911, que afirmou haver quatro “palavras” para neve na língua esquimó. As línguas esquimós formam palavras de uma maneira diferente do inglês, e não se podem comparar as duas línguas palavra e palavra. Em esquimó, um radical pode transformar-se num número quase infinito de “palavras” juntando-se-lhe múltiplos sufixos.
Acrescenta yerricde:  
Um dialecto inglês médio tem tantas palavras para dizer neve como um dialecto inuktitut médio. Com dez minutos de Google, encontrei estes radicais para “precipitação gelada”: snow (…) / sleet / slush / avalanche / blizzard / ice / freeze, frozen / hail (…) A lista aumenta substancialmente se os termos técnicos dos praticantes de esqui forem incluídos (…). A lenda urbana em questão deriva da natureza aglutinadora da língua inuktitut; como a definição do que é e do que não é uma palavra é um pouco nebulosa, palavras compostas (comparem com o inglês snowball, snowflake, snowstorm, snowblind, snowfall, snowman, snowdrift, snowplow, etc.) são contadas e recontadas.
E afirma gn0sis:  
Toda a gente já ouviu dizer que os esquimós têm quarenta palavras para dizer neve; algumas pessoas também sabem que isto é uma lenda urbana. O que provavelmente não sabem, porém, é que o finlandês tem de facto mais de 40 palavras para neve – pelo menos se esticarmos um pouco a definição de forma a incluir todas as formas de precipitação gelada.
gn0sis apresenta em seguida, depois de explicar que “não estão incluídas quaisquer palavras compostas e [que tentou] até evitar incluir várias palavras com a mesma raiz”, uma lista de palavras finlandesas, a que poupo aqui as minhas leitoras e os meus leitores (têm o link aí atrás, é só ir lá ver), cujo rigor não tenho forma nenhuma de verificar: 40 de finlandês standard; mais 13 de finlandês regional (que só as pessoas de um determinada região compreendem); e, por fim, mais 3 que podem ou não referir-se a “precipitação gelada” consoante o contexto (mas nem todas as palavras designam neve em sentido estrito, longe disso – algumas designam tipos e formações de gelo; outras, formas intermédias entre o gelo e a neve e a chuva, coisas que eu não conheço…). E remata:
E qual é a conclusão disto tudo? Forçosamente, nada de especial. É bastante evidente que uma língua falada num clima do Norte, como o da Finlândia, desenvolve muitas formas concisas para explicar condições atmosféricas comuns. (…) Acrescento, como nota pessoal, que como qualquer finlandês citadino típico que passa a maior parte do tempo dentro de casa no conforto do aquecimento central, acho a maior parte deste vocabulário tão esquisito e inútil como o meu caro leitor provavelmente acha.
Mas é claro! É claro que é porque vivem na neve e têm de a referir amiúde e com precisão que os esquimós têm muitas palavras para neve – como os finlandeses! Mas… será mesmo assim? A verdade, pelos vistos, é que a neve não é uma coisa importante por aí além para os esquimós, como explica Willem J. de Reuse, antropólogo e esquimologista da Universidade do Arizona (é assim que se diz eskimologist? Ou diz-se antes esquimólogo?):
Os esquimós falam de neve tantas vezes como um tuaregue do Saara fala de chuva – por outras palavras, não muito frequentemente. Lembrem-se de que o Árctico é tecnicamente um deserto; isto é, há muito pouca precipitação, embora qualquer neve que caia fique no chão e seja espalhada pelo vento em formas estranhas, para as quais há, claro está, uma terminologia técnica, usada sobretudo por caçadores que precisam de usar estas coisas como pontos de referência. Neve (enquanto cobertura do solo ou precipitação) não é realmente muito importante para os esquimós. Sugiro que comecemos a procurar nalgumas das línguas dos grupos subárcticos do Canadá (Cree, Chipewyan); essas pessoas vivem em neve profunda, e provavelmente falam muito mais de neve.
Quanto ao gelo (que, afinal, também é água no estado sólido, só que não é precipitação), já é outra coisa, pelo menos para alguns esquimós. Ainda Willem J. de Reuse:
Os esquimós que caçam no gelo (tais como os esquimós yupik da Sibéria (…)) têm uma terminologia técnica incrivelmente pormenorizada para condições do gelo, icebergs, espessura e movimentos do gelo. Para os caçadores esquimós, estas coisas são realmente uma questão de vida ou de morte. Por isso, os esquimós têm de facto muitas palavras para “gelo”, e, como no caso de “neve”, trata-se de uma terminologia técnica baseada nalguns radicais que significam de facto “gelo” e em muitos radicais que não significam fundamentalmente “gelo”. Então, pelo menos nalgumas línguas esquimós, como o esquimó yupik da Sibéria Central, há de facto mais expressões (ou, se quiserem, “palavras”) para “gelo” do que para “neve”. (…) A conclusão é que a terminologia técnica para coisas que interessam os esquimós não é diferente da terminologia técnica pertinente para, digamos, os suíços que fazem relógios de cuco.
Para terminar com chave de ouro o “meu” texto, dou a palavra a Geoffrey K. Pullum, autor do texto mais corrosivo que eu conheço sobre a “grande fraude do vocabulário esquimó” (“The great eskimo vocabulary hoax”), um texto que é leitura suficiente para quem queira ficar bem informado sobre a questão (e que é, em vários aspectos, exemplar, pelo que acho que toda a gente que se interesse por questões de língua em geral o devia ler):
Algum dia, talvez até em breve, alguém lhe dirá que os esquimós têm muitas palavras, ou dezenas de palavras, ou montes de palavras, ou centenas de palavras, para designar neve. Deve então, caro leitor, decidir aqui e agora se vai deixar passar isso em claro (…).
A última vez que isso me aconteceu (…) foi em Julho de 1988 no campus de Irvine da Universidade da Califórnia, onde estava a assistir ao curso anual do Instituto de Gestão dessa universidade. Não apenas um, mas dois professores do Instituto conseguiram de alguma forma (não me perguntem como) enfiar o esquimológico embuste nas suas entediantes exposições sobre psicologia da gestão e resolução de problemas administrativos. Da primeira vez, tentei objectar e vieram fixar-se em mim os olhares do professor e dos colegas; da segunda vez, sobrepondo-se por uma vez a discrição à audácia, escondi a cara nas mãos durante um minuto, fechei o dossier e saí discretamente da sala.
Não seja cobarde como eu. Levante-se e diga o seguinte ao orador: o Dicionário da Língua Esquimó da Gronelândia Ocidental de C. W. Schultz-Lorentzen (1927) dá apenas dois radicais que podem ser relevantes para neve: qanik, que significa “neve no ar” ou “flocos de neve”, e aput, que significa “neve no solo”. Acrescente em seguida que estaria interessado em saber se o orador pode citar mais algum.

Não há-de ficar lá muito bem visto na sala. A sua intervenção terá um efeito que se pode mais ou menos comparar a despejar 200 quilos de papa de aveia grossa dentro de um cravo num recital de música barroca. Mas estará a defender a verdade, a responsabilidade, e o nível exigível de provas em linguística.
E pronto, consegui dizer o que queria, praticamente sem usar palavras minhas – e usando até, em parte, palavras que não faço ideia de quem serão (maldito anonimato!)…
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* Outra variante bastante divulgada da mesma lenda é que o esquimó tem várias palavras mais nuanceadas do que qualquer outra língua para designar a(s) cor(es) que nós referimos como “branco”…

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