2 de setembro de 2008

Sobre a importância do futuro quando nos espreita, como espreita sempre, o nosso fim

Não sei com que idade é que nos assalta (ou nos pode assaltar) a consciência aguda da morte, mas tenho provas de que pode ser bastante cedo: a minha filha mais nova, que tem quatro anos feitos há um mês, tem andado muito preocupada com a morte. Com a sua morte, entenda-se. Tem-me feito perguntas sobre a morte e tem insistido, com um tom de voz que parece revelar uma verdadeira preocupação, que não quer morrer.

Pergunto-me a mim mesmo até que ponto o meu realismo e o realismo da mãe ajudam à aflição da menina. Uma coisa que ela quer saber é quando é que se “volta” depois de morrer [Onde terá ela ido buscar a ideia de que se volta? Será uma ideia inata?] e nós temos-lhe sempre respondido que nunca se volta – que, quando se morre, nunca mais se volta… Não sei se a promessa de uma vida outra depois desta vida alivia de alguma forma, numa criança, a angústia fundamental que vem da consciência da sua condição perecível. Num adulto, sei bem que não, porque há vários estudos que revelam que os materialistas duros não se revelam mais angustiados perante a morte do que quem crê na imortalidade da alma ou na reencarnação… Mas, a uma criança, não sei se a sossega a mentira da vida eterna. O que sei é que não se deve mentir, nem a crianças nem a adultos. E da morte ninguém volta.

A morte, por ser o fenómeno mais importante da nossa vida consciente, é um assunto a que não há volta a dar. A questão que me coloco é: para que serve a consciência da morte? Para termos cuidado, respondo-me eu, que não sou dado a grandes delírios metafísicos, é para isso que ela serve; para ter cuidado connosco próprios, mas sobretudo com os outros: pouparmo-nos para não faltarmos a quem fazemos falta, fazer seguros de vida, coisas assim… E para, a partir da consciência de que a morte é o maior drama de cada um, recusar toda a morte humana que esteja na nossa mão evitar. Agora preocuparmo-nos com a nossa morte pessoal e intransmissível, esbracejar na ansiedade que causa imaginarmos o mundo sem a nossa consciência dele [tem sido notada várias vezes esta curiosidade: não nos angustia que o mundo tenha sido sem nós, mas só que venha a ser sem nós…], o melhor é treinarmo-nos bem para deitar fora tudo isso. E digo treinarmo-nos bem, porque não é exercício fácil. Aliás, muitas vezes nem com muito treino lá se chega….

Há muito quem defenda que devemos viver cada dia da nossa vida como se fosse o último, mesmo que nada nos anuncie um fim próximo. Eu penso exactamente o contrário: mesmo que tenhamos a certeza absoluta de que é chegado o último dia da nossa vida, devemos vivê-lo como se tivéssemos ainda muitos anos à nossa frente. Nunca perder de vista o futuro, mesmo quando sentimos a morte chegar, é uma componente essencial da nossa satisfação; e do bem-estar dos outros, que é a parte principal dessa satisfação… É uma parte fundamental do treino de que eu falava aí atrás. Perante a ideia obsessiva da nossa morte e a urgência de aproveitar ao máximo o dia que bem pode ser último, desfaz-se o valor de, sei lá…, fazer bem feito o nosso trabalho, lavar os dentes aos miúdos, tomar nota por escrito do que nos vem à cabeça, tentar melhorar a vida de alguém. Dito de outra maneira, desfaz-se o valor de qualquer investimento no futuro. Viver cada dia como se fosse o último é render-se à morte, abdicar do único combate que importa; é esquecer que é nos outros, nos que cá ficam depois de nós, que continuamos a viver depois de mortos.

1 comentário:

ninguem disse...

bem vindo de volta ,oh inefável!