17 de novembro de 2008

Português de Lisboa (2): a propósito do “lisboetês” e da pronúncia padrão

O texto com mais fortuna desta Travessa... é, a julgar pelos comentários, um que publiquei a 12-02-2008 chamado “Português de Lisboa: ao que isto chegou”. De facto, é o texto mais comentado por pessoas que eu não conheço. Como o espaço de comentários se presta mal a comentar comentários e como os comentários que quero fazer até talvez possam ter interesse para alguém além das pessoas cujos comentários comento (presunção e água benta…), serve este texto para comentar os dois últimos comentários desse texto: num deles, um senhor ou senhora Anónimo, um dos mais prolíficos comentadores de blogues que há, diz que as regras do sotaque lisboeta não são bem assim como eu digo que elas são; no outro, Armando Silava (talvez Armando Silva com uma escapadela da tecla, não sei…), acrescenta, com toda a pertinência, uma característica do falar de Lisboa às que eu tinha enunciado e dá-me a conhecer o texto “Crónica do falar lisboetês”, de Vital Moreira, publicado no Público a 4 de Janeiro de 2000. [Este texto é fácil de encontrar online, mas deixo-vos aqui um link para ele nas Ciberdúvidas, porque podem depois, através dos links que tem ao fim, aceder ao comentário de Baptista Bastos (“Contra o «sotaque único»”, in Diário Económico, 7 de Janeiro de 2000), ao segundo texto de Vital Moreira comentando o comentário de Baptista Bastos e desenvolvendo o seu primeiro texto (“Crónica do falar lisboetês (Bis)”, in Público, 11 de Janeiro de 2000) e ainda a um comentário de Eduardo Cintra Torres a Vital Moreira (“O lisboetês, o coimbrês e outros sotaques (I)”, in Público, 17 de Janeiro de 2000).]

É verdade que a minha descrição do falar de Lisboa em “Português de Lisboa: ao que isto chegou” é pouco rigorosa. Em parte, por ignorância minha, seguramente, mas em parte porque não quis entrar muito em pormenores técnicos, até porque acho que, mesmo sem esses pormenores, o que escrevo já é grande seca para muita gente. Também é verdade que pode facilmente parecer que aí faço, de forma abusiva, generalizações a partir de sociolectos específicos. Mas quero dizer, em minha defesa, que o deixo claro, quando digo que me refiro àquilo que, muito bairristamente chamo “o verdadeiro sotaque da Lísbia” e que, só pelo nome, se vê bem que é mais do Alto Pina ou da Meia Laranja que das Avenidas Novas. Que me desculpem os lisboetas que não falem da maneira lisboeta que eu, reinadio, descrevo. Não são menos lisboetas que eu, com toda a certeza.

A descrição tem também algumas lacunas. Uma das lacunas óbvias é eu não dar conta do conhecido fenómeno para que o Sr. Armando Silava, apoiando-se em parte no referido texto de Vital Moreira, me chama a atenção: o da assimilação do som [s] pelo som [ch] quando este se segue àquele (nascer pronunciado [nacher] ou pois são pronunciado [poichão]. Também trato muito pouco a vertente lexical da questão. Do ponto de vista do vocabulário, o falar de Lisboa deve ter seguramente algumas particularidades, mas não sei outras que não sejam o seu calão – que é um fenómeno mais de certas classes ou grupos de Lisboa do que propriamente da zona de Lisboa em geral – e que está, creio eu, em vias de extinção. Não sei, mas a ideia que tenho é que cada vez se ouve mais um calão mais genérico, fusão de muitos calões e sobre o qual eu sei muito pouco ou nada. Agora, tirando essas pequenas falhas, creio que até faço uma listagem relativamente completa das principais características do sotaque de Lisboa…

Posto isto, passo à etapa seguinte deste texto, que é comentar os textos de Vital Moreira no Público. Com 8 anos de atraso, é verdade, mas não importa: a Travessa... não é um blogue de actualidades.... se bem que a discussão das questões que esses textos levantam continue perfeitamente actual...

O que eu digo no meu texto de Fevereiro passado sobre o português de Lisboa é, em certa medida, o oposto do que Vital Moreira diz na sua “Crónica do falar lisboetês”. Eu digo que o tal “verdadeiro português da Lísbia” está a desaparecer e a ser substituído por uma papa standard, amorfa e sem graça, que, por muito que se fale em Lisboa, já não é lisboeta nem é nada; Vital Moreira postula que há uma abusiva expansão do português de Lisboa, que está a dar cabo de outras variantes e uniformiza a maneira de falar português.

Convém explicar aqui que o que parece ser a minha posição no outro texto é, em parte, um artifício retórico para tentar construir um texto saudosista o mais elegante possível, a lamentar o desaparecimento de um certo falar da ralé por que eu, como muitos outros lisboetas, tínhamos (e temos) um carinho especial. É claro que tenho perfeita consciência de que o português de Lisboa é mais poderoso do que as outras variantes e que as influencia. Concordo também com Vital Moreira, como aliás deixei claro no início do texto de Fevereiro, que me choca a atitude arrogante de muitos lisboetas que acham que eles é que falam da maneira “normal” e “correcta” e que, como ele escreve, «[reduzem] tudo o resto (...) a desprezíveis “provincianismos”, que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país)». Há outras afirmações de Vital Moreira, porém, que me levantam muitas dúvidas; ou com as quais não posso concordar.

A primeira questão é saber o que é de facto influência do português de Lisboa sobre os outros falares e o que é uma tendência geral da evolução do português europeu, que o falar de Lisboa segue tanto como os outros falares. Como eu referia já no outro texto, dos traços que podemos considerar característicos da pronúncia do dialecto de Lisboa (ou que podíamos há 30 ou 40 anos atrás, talvez), poucos são os que se difundem – e há alguns que se perdem. Ora os mais importantes daqueles que se estão indubitável e imparavelmente a difundir não são de facto exclusivos do português de Lisboa. É extremamente provável que o r gutural venha a substituir completamente o r apical múltiplo “rolado”, mas, nesse caso, não é mais o r de Lisboa que se está a difundir do que o r do Porto, já que eles são iguais. Quando metade da população portuguesa vive concentrada nas áreas metropolitanas das duas cidades principais, talvez até fosse mais correcto falar da expansão de um r gutural metropolitano. É verdade que há cada vez mais tendência para a consonantização na sua “versão dura”, que é mais própria de certas regiões, entre as quais Lisboa, do que outras, mas é extremamente duvidoso que se trate do alastramento de um fenómeno localizado. De facto, o fechamento das vogais átonas é uma das tendências fortes, se não mesmo a tendência mais importante, da evolução do português europeu em geral nos últimos 500 anos.

Não quero dizer com isto que não se possa falar de um domínio do português de Lisboa na rádio e na televisão e que esse domínio não seja um factor importante na evolução do português. Mas o “português de Lisboa” falado na rádio e na televisão é um “português de Lisboa” asséptico e reajustado (que, aliás, à medida que se espalha por todo o país nem com aspas é já “português de Lisboa”…). Que o alastramento desse novo português dominante contribua (juntamente com outros factores que não são de desprezar, como o aumento do nível de educação formal) para terraplanar dialectos, com certeza que sim. Até, como eu dizia no meu outro texto, para dar cabo também do verdadeiro dialecto de Lisboa. Vital Moreira, que não é da Lísbia, não o sente. Eu, que sou e vivo no estrangeiro, noto-o bem de cada vez que lá vou de férias…

Quero, já agora, acrescentar que, por um lado, não é nada invulgar, pelo contrário, que o dialecto da região mais poderosa tenha um papel preponderante na evolução da língua. É assim a vida – da língua! No caso concreto do português, com a passagem da capital e do poder económico e político para o Sul, os dialectos meridionais começaram a ter um influência cada vez maior na evolução da língua e há mudanças muito importantes que têm origem nos falares do Sul, como a anulação da oposição entre ch pronunciado [tch] e x pronunciado [ch]. A influência do falar de Lisboa ter-se-ia acentuado muito com o aparecimento e a difusão da rádio e, depois, da televisão, se não tivesse sido contrabalançada, durante algum tempo, pela imposição de um padrão aos meios de comunicação – uma espécie de received pronunciation à portuguesa, que se queria a de um pretenso “falar correcto da zona de Coimbra”. Isto foi no tempo do Estado Novo, mas não creio que se tratasse de uma ideia especialmente fascista, porque se assistiu a fenómenos do mesmo tipo na comunicação social de países democráticos. Era antes o espírito do tempo. Mas que esse Zeitgeist ficava bem ao ruralismo salazarista, lá isso ficava... Seja como for, o facto é que não entravam na rádio rr guturais e outras sonoridades demasiado… urbanas, modernas, talvez… Não é preciso ser-se muito velho para se lembrar, como ainda me lembro de quando o português de Lisboa era proscrito na rádio – e na televisão, quando ela começou –, por reles e ordinário. Como eram muitas outras variantes, note-se. Na rádio falava-se (e ainda se fala um bocado...), em Lisboa, em Londres ou em Montreal com a pronúncia… da rádio!

Mas adiante: Escreve Vital Moreira: «Não consta, por exemplo, que o Queen’s English esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino». Bom, também não é lisboeta das docas que se fala na televisão, isso posso eu garantir, mas, ditas as coisas desta maneira, sou obrigado a dar razão a Vital Moreira. Penso, no entanto, que esta passagem pode levar muita gente a compreender o que não deve, de maneira que convém esclarecer que há evoluções da norma britânica nos últimos tempos. Também no Reino Unido, o espírito dos tempos, no que toca a pronúncias aceitáveis na comunicação social, é outro e a received pronunciation já não é de modo algum tão importante como norma. A rádio abriu-se, por exemplo, a que os seus trabalhadores falem cada um o seu inglês. Quando se trata de futebol, por exemplo, nunca ouço comentadores que falem received pronunciation. Além disso, mesmo para os que a cultivam, a received pronunciation mudou muito nos últimos tempos para passar a reflectir a maneira como as pessoas falam de facto. Aliás, a transcrição fonética das palavras nas edições mais recentes de alguns dicionários atestam bem essas mudanças da pronúncia standard: tenho um dicionário em já não se escreve que a pronúncia standard de cat é [kæt], mas sim [kat], que é como toda a gente diz de facto na Grã-Bretanha, excepto meia dúzia de snobes com quem a malta goza porque vêem chaleiras a pastar no campo*. Mas mais: Não é fácil comparar a situação do inglês do Reino Unido com a do português de Portugal, até porque a variação sociolectal na Grã-Bretanha é muito grande e, em última análise, mais importante, pelo menos para o sentir britânico, do que a variação dialectal. Mas já ouviram alguma inglesa ou algum inglês de menos de 30 anos, seja lá de que classe for, que pronuncie consistentemente o t de get ou what ou, enfim, depois de qualquer vogal com paragem glotal? Não, porque não há. Ora isto era uma marca de falares muito específicos há apenas umas décadas. Não se pode afirmar que fosse apenas uma característica do sotaque cockney, mas era – e é – com certeza uma das suas características. Quer dizer, também se estão a espalhar pronúncias contra as quais haverá com certeza britânicos a reagir, provavelmente argumentando, como Vital Moreira, que essas coisas não se passam noutros países**. Não dou muitos anos até que mesmo os mais conservadores locutores da BBC perguntem ao repórter no local: “Bu’ tell us, Mark, we’re all a bi’ worried abou’ wha’s going on, and we’ve go’ so much contradictory information, so wha’s actually happening?” E não quero explorar agora a fundo essa questão, mas podem encontrar-se muitos exemplos de como, noutras línguas, características que são, na origem, do sotaque da região mais poderosa, se espalham de tal maneira que já ninguém as reconhece como sendo especificamente desse região. E entram na rádio e na televisão. Repito: é muito normal que o dialecto da região mais poderosa funcione como dialecto de prestígio e que, por isso, se espalhe.

Está bem, dirão vocês, vistas as coisas dessa maneira, também é natural que uma pessoa mais forte imponha a uma pessoa mais fraca a sua vontade. Mas, por ser “natural”, é aceitável? Vital Moreira refere a questão moral de base, mas o que o preocupa muito concretamente no que ele considera ser a «imposição», por Lisboa, ao resto do país, do «seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós» é que «[1] este falar português, cada vez mais cheio de “chês” e de “jês”, é francamente desagradável ao ouvido, [2] afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e [3] torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras». Estas preocupações de Vital Moreira merecem-me também vários comentários.

O primeiro é sobre a beleza do português europeu moderno, a que ele chama “lisboetês”. A beleza, diz o provérbio e digo eu, está nos olhos de quem olha. Neste caso, nos ouvidos de quem ouve. Eu, por acaso, apaixonado por línguas que sou, nunca encontrei maneira de falar fosse que língua fosse de que não gostasse. Mas isso sou eu, e ninguém é obrigado a gostar de todos os dialectos de todas as línguas. Mas volto às perguntas que já aqui fiz uma vez: há algum aparelho que registe a eufonia? É alguma coisa suficientemente palpável para que valha a pena invocá-la quando se discute política linguística? E quem é que decide o que é bonito e o que é feio? E com que direito se bane o que se acha feio em nome do que se acha bonito?

O segundo comentário é sobre o afastamento da pronúncia da escrita. Vital Moreira vê as coisas, na minha opinião, de uma forma algo estranha, porque a língua evolui sempre e naturalmente, de maneira que a única maneira de resolver o problema do hiato entre o que se diz e o que se escreve é exactamente ao contrário do que ele propõe: adaptar a escrita à evolução da pronúncia. Se não, tinha de se postular que se falasse inglês como na época de Chaucer, porque é essa pronúncia que a grafia do inglês reflecte, e exigir aos franceses que não pronunciem [muá] a palavra moi, mas sim [moi], como no francês antigo, para não se afastarem da escrita. Está bem, estou a brincar, mas estou a brincar muito a sério. Só que, no caso do português, as necessidades de actualização da escrita para acompanhar a evolução da língua são poucas ou nenhumas, porque, é importante não esquecer isso, a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas fonológica e, assim sendo, a escrita do português continua a traduzir bastante bem o sistema que subjaz à pronúncia, por muito que esta tenha evoluído.

O terceiro comentário é sobre o lado prático da questão, o estarmos a afastar-nos dos outros falares ibero-romanos. Não vale a pena lutar contra os factos linguísticos. Pode tentar-se, mas é em vão. As variantes americanas das línguas europeias têm uma série de traços conservadores de pronúncia – e algumas inovações – que fazem com que as variantes europeias das mesmas línguas, em que se deram muito mais inovações desde a separação, se afastem delas a grande velocidade. A impossibilidade de intercompreensão é já um facto em muitos casos, dependendo da exposição dos falantes de uma variedade à outra (os britânicos compreendem melhor os americanos do que ao contrário, mas os quebequenses compreendem melhor os franceses do que estes compreendem aqueles), de fenómenos fonéticos idiossincráticos (a redução vocálica do português europeu) ou de uma mistura das duas coisas (os brasileiros compreender-nos-iam melhor, apesar da consonantização, se nos ouvissem mais...). E não tenho a certeza de que pronunciar bem todos os ee mudos ajude muito brasileiros e espanhóis a compreender-nos. Mas mesmo que os diversos portugueses, os diversos castelhanos, os diversos franceses e os diversos ingleses (falados, pelo menos, na escrita o caso é diferente) acabem por se tornar línguas diferentes (como acontece normalmente às variantes de uma mesma língua, se lhes for dado tempo suficiente e houver autonomia dos territórios onde elas se falam!), qual é o problema? Se há tantas línguas que morrem, porque não há-de haver outras que nasçam?

Quanto à questão propriamente moral (política, de facto), a pronúncia não tem implicações éticas por aí além, nem se resolvem problemas sociais impondo maneiras de falar. Diz Vital Moreira:
Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de “agenda” como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.
Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados “directos”, transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do que uma menção de passagem num breve flash do noticiário regional do dia seguinte.
O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e tutti quanti não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa.
Não quero debater aqui a questão da sobrevalorização de Lisboa e do que lhe diz respeito nos meios de comunicação social portugueses, até porque há muito que não os acompanho, mas não me custa mesmo nada aceitar que essa sobrevalorização exista e que estejam também sobrerrepresentados os lisboetas entre os profissionais da comunicação. A questão do espaço relativo e da importância relativa das diversas regiões e dos seus profissionais nos media, porém, resolve-se com políticas efectivas que definam de forma mais justa a atribuição de tempo de antena, digamos assim, a cada região, às suas coisas e à sua gente. Não é cultivando um português padrão que não é português de ninguém que o problema se resolve.

O estabelecimento da variante padrão e das variedades de prestígio de uma língua sempre foi, e continua a ser, feito de formas muito pouco democráticas. Mas eu, que acredito na democracia, acho que a norma linguística devia, precisamente, obedecer a princípios democráticos. Democráticos, lógicos e simples, e em que não interferissem gostos e subjectividades várias! Não se deve impor como norma uma pronúncia artificial e falada (e nem em todas as circunstâncias) por uma percentagem ínfima da população (2% no caso da received pronunciation, uma percentagem provavelmente semelhante no caso do português da universidade de Coimbra, mas não sei…). Uma regulamentação democrática da pronúncia padrão pode limitar-se a duas regras simples:
1. Na rádio, na televisão e no espaço público em geral, não se impõem nem propõem pronúncias standard – cada um fala como fala e está muito bem assim.
2. Naquilo em que é preciso realmente usar uma pronúncia estandardizada, como dicionários e manuais de português para estrangeiros, usa-se a pronúncia maioritária: é considerado padrão o que for dito de facto por mais gente. Se, por exemplo, em venho e telha, mais de 50% dos portugueses pronunciarem o som grafado com a letra e como [ê], é essa a norma; se o pronunciarem [â], é isso que registam os dicionários. Este levantamento é extremamente fácil de fazer e muito barato (se é que não está já feito…), e deve ser actualizado com uma periodicidade a definir, digamos, de 10 em 10 anos, ou de 20 em 20. Além de ser a única forma democrática de estabelecer uma norma de pronúncia, é também a única maneira de sairmos da discussão emotiva e sem rigor, e começarmos a guiar-nos por factos.

Um último comentário, já fora desta discussão, à ideia de Vital Moreira (e de mais pessoas) de que «a língua portuguesa caminhou de norte para sul». Porquê? No Sul não havia zonas romanizadas? As pessoas falavam o quê? A língua portuguesa não caminhou de lado nenhum para lado nenhum. Digamos antes, por favor, que a língua portuguesa resulta dos falares romances das zonas que vieram a ser Portugal, sim? Até para não sermos tentados a acusar de arrogância linguística outros portugueses que não sejam os de Lisboa...

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* É uma anedota tão conhecida como pateta sobre a pronúncia, nos sotaques posh, isto é, snobes, de certos aa (que toda a gente pronuncia exactamente como o [á] aberto português) com um som próximo do nosso [é] aberto, de maneira que cattle, “gado”, soa praticamente como kettle, “chaleira”.

** Uma formulação famosa desta crítica por Alan Jay Lerner no musical My fair lady: “Norwegians learn Norwegian, / the Greeks are taught their Greek, / in France every Frenchman knows his language from a to z (…) / Arabians learn Arabian with the speed of summer lightning, / the Hebrews learn it backwards, / which is absolutely frightening; / but use proper English and you're regarded as a freak. / Why can't the English, / why can't the English, / learn to speak?”

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