25 de outubro de 2008

A razão e o sentimento: vai-te mundo, cada vez a melhor

Desde os ensinamentos de Sidarta Gautama (que dizem que foi buda…) aos trabalhos de vários cientistas modernos, inúmeras vezes tem sido posta em causa a pertinência da velha dicotomia entre o racional e o irracional, o sentido e o pensado, a razão e os sentimentos. Não pretendo defender aqui que a ruptura entre os dois domínios existe de facto, mas digo que, como ferramenta conceptual, ela é importante; e a distinção pode fazer-se com bastante clareza se a linha divisória entre os dois domínios for a capacidade de transmissão do que nos vai dentro. A experiência e os sentimentos são tão pessoais e intransmissíveis como os bilhetes de identidade ou de avião. Há muito quem pense que há formas de os transmitir através de outros tipos de discursos que não a linguagem normal (através da música ou da poesia, por exemplo), mas não há nenhuma prova de que essa transmissão seja possível. O que há, na maior parte dos casos, é antes uma ilusão de transmissão de experiências e sentimentos. Mesmo a partilha de uma vivência concreta não garante uma comunhão da experiência: o medo que eu senti nas estradas de montanha da Bolívia não foi partilhado por muitos dos meus companheiros nessas viagens. O conhecimento, as ideias, o racional, é o que, de dentro de nós, pode ser recebido por todos os outros sem perdas significativas na transmissão e acumular-se como propriedade de todos os humanos.

Pode argumentar-se que o mais importante de cada um para os outros é a maneira como age relativamente a eles. A sua vida moral, digamos assim. E parece-me que o progresso nas relações entre pessoas tem resultado mais de uma discussão racional do que de alguma evolução dos sentimentos. Como o nota Steven Pinker (video aqui, texto aqui) e ao contrário do que postula o senso comum nas catastrofistas conversas que nos enchem o quotidiano, há uma clara e constante diminuição da violência ao longo da história da humanidade. É claro, não é impossível que tenha havido uma evolução da maneira como sentimos os outros, com causas específicas que não estamos ainda em condições de compreender, e que essa evolução tenha tido influência benéfica na nossa relação com eles. Não é impossível, mas não me parece muito plausível. Parece-me muito mais provável que qualquer alteração no nosso sentir (a existir) seja mais um produto das mudanças (racionalmente motivadas, entenda-se) da nossa organização social do que a sua causa. Além disso, creio que é possível demonstrar, contra todos os milenarismos que vêm na acumulação de conhecimentos e na evolução técnica que ela permite a desgraça da humanidade, que o progresso técnico tem contribuído tanto como o progresso moral para melhorar a vida das pessoas. Se há menos gente a sofrer agora do que há 500 anos, é porque a servidão e a escravatura foram abolidas, a justiça social e a igualdade foram aumentando, a violência é cada vez mais encarada como algo a banir, mas também porque melhorou a higiene e evoluíram a medicina, as técnicas de produção, etc.

Aonde quero eu chegar com este delírio? A uma conclusão simples: o Homo sapiens continua provavelmente a sentir pouco mais ou menos como sentia há 100 000 anos atrás, mas evoluíram muito o seu conhecimento e as suas instituições – o que é transmissível, comunicável, passível de ser efectivamente discutido. E ainda bem!

Seja bem-vindo o que vier por bem

Fala-se muitas vezes de “puristas da língua”, mas purista é um conceito que, aplicado às línguas, não faz grande sentido, simplesmente porque não há estados puros nem variantes puras de uma língua.

O estado presente de uma língua nunca é senão uma ponte entre o que ela era e o que ela há-de ser. Pode até acontecer que uma língua se afaste do que era o suficiente para começar a ser considerada, a determinada altura, uma outra língua; mas não se pode, excepto no caso das línguas inventadas, datar o nascimento de uma língua. Em última análise, se existem línguas neolatinas, por exemplo, é apenas porque o latim se foi transformando de maneiras diversas em diversas zonas, à margem da norma latina, naturalmente. O que significa apenas que, se toda a gente tivesse apenas continuado a falar “bem” latim... não havia português.

Não sei se importa aos puristas que as palavras puras das língua neolatinas venham muitas vezes de palavras latinas que os puristas do latim da época não teriam dúvidas em considerar espúrias. E o mesmo a gramática. O que deve ter chocado os puristas do latim terem-se perdido as marcas de caso dos nomes, terem entrado os auxiliares nas formas verbais, tudo isso... «Estão a dar cabo da nossa língua!», devem eles ter gritado (exactamente como o fazem agora os puristas, de cada vez que se espalha no idioma uma palavra inglesa ou que se começa a generalizar uma estrutura que eles considerem errada…)! Mas enganaram‑se. O latim estava apenas a transformar-se e a transformar‑se em novos idiomas que são, apesar de tudo, suficientemente puros para que haja puristas a defendê‑los!...

É tudo uma questão de memória. Hoje, ninguém ou praticamente ninguém se revolta contra o uso, em português, de palavras como constatar, que foi já criticado por detestável galicismo. Ou como, sei lá, lanche, por exemplo, que encontramos nas obras de Eça de Queirós ainda escrito lunch, como aliás lunchar (aliás, pelo número de palavras estrangeiras que usa, ficamos a saber que Eça de Queirós não era nenhum purista)… E centenas de outras palavras e estruturas. Vejam o caso do infinitivo pessoal. É verdade que a discussão sobre a origem do infinitivo flexionado está longe de ter terminado, mas, venha ele de onde vier, é sempre um qualquer tipo de inconcebível “abastardamento” que está na origem daquilo que muita gente não hesita em considerar uma das maiores originalidades da língua portuguesa…

As pessoas também se hão‑de esquecer de que foram um dia estrangeirismos os estrangeirismos que hoje alguns criticam, que foram já consideradas construções erradas as construções “erradas” que vingarem… E os puristas dessa época defenderão uma língua “pura” diferente da que defendem os puristas de hoje, que é também diferente da língua “pura” que defendiam os puristas de antigamente…

Por que não chamar antes pelo seu verdadeiro nome, e um nome com mais sentido, a atitude de quem não gosta que a língua mude? Em política, chama-se conservador a alguém que quer conservar o estado de coisas actual. O melhor é, simplesmente, deitar fora a ideia de purismo e aplicar também à língua o conceito de conservadorismo: em vez de purista da língua digamos linguisticamente conservador.

Eu cá, que não o sou (com a idade, até conversador já deixei de ser…), estou aberto a inovações. Não só às inevitáveis (porque a língua tem uma vida própria que não conseguimos regular, por mais que tentemos), mas também a todas as voluntariamente introduzidas – que seja muito bem-vindo o que vier por bem! Usem a palavra inglesa input, aportuguesem-no ou não em inpute, ou usem antes o neologismo insumo, que mesmo os puristas, perdão, os conservadores hão-de considerar bem formado*, o facto é que alguma dessas palavras começa a fazer muita falta em português, em certos contextos. O mesmo com a estrutura germânica em que se junta a preposição ao verbo em vez de se a juntar ao sintagma que ela introduz, que dá, de vez em quando, um jeitão, quando é de encurtar, e aumentar a legibilidade de, certas frases que se trata (Brincalhão!). Por exemplo…

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* Estou em crer que o neologismo insumo foi criado em castelhano e só posteriormente importado para o português, primeiro no Brasil, mas não tenho a certeza…

23 de outubro de 2008

As palavras são como as cerejas: Macequece, Twain e Rhodes

No outro dia, na estrada da vila de Manica para Penhalonga, vimos uma tabuleta nova, a indicar a «Fortaleza de Macequece, património histórico», e decidimos ir lá fazer uma visita.

Macequece é, provavelmente, o lugar mais importante da região, porque foi lá que durante vários séculos se localizou a célebre feira onde se trocava sobretudo ouro pelos produtos vindos de além-Índico. O controlo da feira sempre foi considerado prioritário na estratégia político-militar da região e disputaram-no, ora com diplomacia ora com mosquetes e azagaias, vários reinos com interesses nesta parte de África, desde os reinos shonas ligados ao Muenemutapa ou dele derivados até ao reino* de Portugal. Macequece é, pois, um nome com ressonâncias míticas.

Como podem imaginar, o património histórico moçambicano não está especialmente bem preservado [E quem muito colonialistamente pensar logo que, «pois, “eles” deram cabo de tudo», que se desengane, que a preservação do património histórico foi também nula no tempo colonial, sim?]. O facto é que há muitos factores a concorrer para a pouca preservação desse património. A falta de dinheiro, o não ser considerado prioridade, com certeza (e é relativamente compreensível), mas também, muito simplesmente, o facto de ele ser objectivamente mais difícil de preservar aqui do que noutros sítios, por causa do clima ou devido às próprias características dos edifícios antigos. As cortes dos reis, as aringas fortificadas, as casas dos prazos, tudo isso era feito de “materiais precários”, como se chama agora aqui ao pau-a-pique com cobertura vegetal. Tudo altamente perecível e, por isso, perecido. Mas mesmo algumas coisas mais sólidas, como a fortaleza de São Caetano de Sofala, foram completamente destruídas por uma erosão imparável (há quem diga que se usaram, nos fins do séc. XIX, pedras das muralhas da fortaleza para construções ali nas proximidades, na Beira e até em Maputo, mas não sei até que ponto é que isso é lenda…). Resumindo: o facto é que pouco resta, ou nada, do que houve antes do cimento colonial.

Desculpem a excursão. Dizia eu que o património histórico moçambicano não está especialmente bem conservado, de maneira que, quando vi a placa, não fiquei à espera de encontrar nenhum local histórico no sentido em que nós o entendemos no mundo rico, com turistas, guias e souvenirs. Por outro lado, fiquei muito contente por constatar que, apesar de tudo, já começa a haver sinais na estrada a indicar monumentos. As pinturas rupestres de Chinhamapere, por exemplo, já têm também uma tabuleta a indicá-las a quem passa na estrada de Manica para a fronteira de Machipanda.

O caminho para a fortaleza de Macequece é caminho para 4×4, especialmente quando vierem as chuvas. O forte não impressiona por aí além. É um quadrado de muros de pedra rudimentares de cerca de metro e meio de altura, com uma dezena de pequenas espingardeiras. Tem uma casinha, a um dos cantos, e, no meio, uma haste de bandeira e uma placa colonial, a louvar os soldados que ali combateram em Maio de 1891. Contra quem, não diz. E eu não fazia ideia de que batalha pudesse ser aquela. Devia ser, pensei eu, uma batalha pelo domínio efectivo do território, que a conferência de Berlim (leia-se, a Grã-Bretanha) tinha exigido às potências coloniais. Contra algum grande senhor feudal indo-afro-português que recusasse a administração portuguesa, ou contra os soldados de Ngungunhane... Quando cheguei a casa fui buscar a minha História de Moçambique, para ver de que se tratava [Newitt, Malyn, A history of Mozambique. London: Hurst, 1997. Todas as citações de Malyn Newitt que se seguem são desta obra]. Afinal, a batalha tinha sido entre o exército português e o exército da British South Africa Company, que é como quem diz, do Sr. Cecil Rhodes.
Ao ultimato da Grã-Bretanha a Portugal em Janeiro de 1890, seguiu-se um período de negociações. “Durante o que era, para todos os efeitos, uma suspensão da lei internacional”, para o dizer como diz Newitt, parece que a lei estava mais suspensa para uns do que para outros. “Embora Salisbúria exigisse que os Portugueses se abstivessem de qualquer actividade nas zonas sujeitas a negociação, ninguém impediu Rhodes e os seus agentes de avançarem com as suas actividades”.
A história é demasiado longa para a contar em pormenor aqui no blogue, mas eis um resumo: A 15 de Novembro, as tropas de Rhodes aprisionam os dois senhores afro-portugueses donos da primeira Companhia de Moçambique e com interesses na mesma Mashonaland que Rhodes queria controlar, e ocupam Macequece. “A intenção de Rhodes era garantir para a British South Africa Company todo o território que pudesse e, se possível, criar um corredor até ao mar. Em África, pensava ele, a posse era nove décimos da lei.” No dia anterior, Portugal e a Inglaterra tinham assinado um modus vivendi, válido por 6 meses até à assinatura do tratado final reconhecendo a validade da divisão de territórios acordada 3 meses antes, em que se definia nomeadamente que o território agora ocupado por Rhodes estava sob administração portuguesa. Rhodes não só recusa abandonar o território ocupado, mas faz avançar as suas tropas até ao Púnguè – em direcção ao mar! Entre 14 de Novembro de 1980 e 28 de Maio do ano seguinte, altura em que foi assinado o tratado que dava a Moçambique a sua forma actual, houve vários conflitos entre as tropas de Rhodes e os portugueses. A batalha de Macequece evocada pela placa na fortaleza é o mais importante desses conflitos. Os portugueses foram derrotados e obrigados a fugir e, quando parecia eminente uma nova batalha, a 29 de Maio, as tropas da British South Africa Company receberam ordens de retirada: era preciso respeitar o tratado assinado na véspera. Diz Malyn Newitt: “A satisfação última para Portugal deve ter sido a raiva de Cecil Rhodes perante o acordo que efectivamente o deixou desamparado na sua pirataria territorial”.
No seu relato de viagens Following the Equator, escrito em 1895 e publicado em 1987, Mark Twain passa os capítulos referentes à sua visita à África Austral em campanha aberta contra Rhodes. Eis a passagem final dessa diatribe, numa tradução que, infelizmente, não está à altura do apuramento retórico do original:
Sei muito bem que, seja o Sr. Rhodes o patriota e homem de estado nobre e digno de adoração que as multidões crêem que ele é, ou Satanás reencarnado, como o resto do mundo o considera, continua a ser a figura mais imponente do império britânico fora de Inglaterra. De cada vez que se põe de pé no Cabo da Boa Esperança, a sua sombra chega ao Zambeze. É o único colono dos domínios britânicos cujos afazeres são objectos de crónica e de discussão em todos os meridianos do globo, e cujos discursos, em versão integral, são telegrafados dos confins da Terra; e é o único forasteiro sem sangue real cuja chegada a Londres pode competir, na atenção que recebe, com um eclipse.
Que seja um homem extraordinário, e não um acidente da fortuna, nem os seus mais encarniçados inimigos da África do Sul estavam dispostos a negar, pelo que os ouvi testemunharem. Toda a África do Sul parecia tremer de medo dele – tanto amigos como inimigos. É como se fosse o delegado de Deus, por um lado, e o delegado de Satã, pelo outro, dono das pessoas, capaz de as fazer [ricas?] ou de as arruinar com um sopro apenas, venerado por muitos, odiado por muitos, mas nunca maldito por ninguém, entre os prudentes, e, mesmo pelos indiscretos, em retraídos murmúrios apenas.
Qual é o segredo da sua formidável supremacia? Diz um que é a sua prodigiosa riqueza – uma riqueza que, gotejando sob a forma de salários e outras receitas, sustenta multidões, e as compele a interessada e leal vassalagem; diz outro que é o seu magnetismo pessoal e a sua persuasiva argumentação, que hipnotizam e escravizam todos os que se movimentam nos círculos da sua influência; diz outro que são as suas majestosas ideias, os seus vastos esquemas para o engrandecimento territorial de Inglaterra, a sua ambição patriótica e abnegada de alargar a beneficente protecção britânica e o seu justo domínio aos sertões pagãos de África e iluminar a escuridão africana com a glória do nome da Grã-Bretanha; e diz outro que ele quer a terra e a quer só para ele, e que a crença de que a há-de ter e há-de acolher os amigos no rés-do-chão é que constitui o segredo que chama a ele tantos olhares e o conserva no zénite onde nada lhe obstrui o panorama.
Pode escolher-se a versão que se queira. São todas ao mesmo preço. Uma coisa é certa: mantém a proeminência e um vasto culto, faça lá o que fizer. Engana o Duque de Fife – é o que o Duque diz – mas isso não destrói a lealdade que o Duque tem por ele. Engana os reformistas numa confusão imensa com o seu Raid, mas a maior parte deles julga que ele fez por bem. Choraminga pelos desgraçados dos joanesburgueses, tão sobrecarregados de impostos, e faz deles seus amigos; ao mesmo tempo, cobra aos colonos da sua Companhia 50 por cento, e ganha deles assim tanto afecto e tanta confiança que se sentem abalados pelo desespero de cada vez que se ouve dizer que vai fechar a Companhia. Ataca e rouba e mata e escraviza os matabeles e recebe por isso enormes ovações dos cristãos da Companhia. Endrominou a Inglaterra para que comprasse papéis velhos da Companhia com notas do Banco de Inglaterra, tonelada a tonelada, e os burlados ainda queimam incenso em sua honra como se do Deus Supremo da Fartura se tratasse. Fez tudo o que conseguiu idear para ser atirado por terra; faz mais do que o necessário para provocar a derrocada de dezasseis grandes homens de tipo normal; e, no entanto, continua de pé até hoje, na vertigem do seu pináculo sob a cúpula celeste, permanentemente, ao que parece, a maravilha do nosso tempo, o mistério da nossa era, arcanjo com asas para meio mundo, satanás de cauda para o outro meio.
Admiro-o, confesso francamente; e quando chegar a sua hora, hei-de comprar um bocado da corda, só para guardar como recordação.
Para quem acredite no poder mágico dos nomes, a triste sina do Zimbábuè está traçada desde o momento em que deram ao território o nome de Rhodesia, que é (fica claro que eu não sou dos que consideram Rhodes um anjo) como chamar-lhe Escroquelândia, uma coisa assim… Ou, como diz Mark Twain, “Rhodesia é um nome adequado para aquela terra de pirataria e pilhagem”.
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* Uma curiosidade a propósito da palavra reino: em suaíli (e talvez também noutras línguas africanas, não sei), português diz-se reno. É impossível deduzir desse facto que “o reino” fosse a expressão mais utilizada pelos portugueses para referir a sua terra, mas era, com certeza, uma das mais usadas. À batata comum chama-se aqui batata reno, talvez para a distinguir da batata-doce, que é provavelmente mais utilizada. Ambos os produtos, no entanto, são americanos e é plausível que tenham sido trazidos para aqui ao mesmo tempo, provavelmente pelos portugueses.

22 de outubro de 2008

De almas e penas

Quanto mais reflicto sobre a ideia de livre-arbítrio, mais ela me parece complicada. Se partirmos do princípio, como eu parto, que aquilo que concebemos como actividade mental não é senão o resultado de processos físico-químicos, temos de aceitar que qualquer estado dessa actividade mental tem forçosamente de ser determinado por esses processos. Se não acreditarmos, como eu não acredito, nalgum tipo de eu metafísico “essencial” que escape às leis da matéria – uma alma, um espírito, pouco importa que nome se lhe dê – não se vê bem o que possa estar de fora desses processos mentais determinados a decidir o que vamos pensar ou fazer a cada momento. O facto, porém, é que, com perfeita consciência de o estarmos a fazer, ponderamos escolhas, pesamos prós e contras, decidimos. Ou temos, pelo menos, a ilusão de o fazer…

Por outro lado, quanto mais reflicto sobre a relação entre livre-arbítrio e moral, mais me parece estranho o postulado (pelos vistos bastante na moda pelo menos entre advogados nos EUA) segundo o qual uma pessoa, como não tem de facto livre-arbítrio, não pode ser condenada pelos seus crimes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou antes, de uma coisa não se pode inferir a outra. Creio que a base em que assenta esta (a meu ver…) confusão é a concepção do sistema penal como retaliação, de que eu discordo completamente. A meu ver, a lei prevê castigos para quem a não cumpra por duas razões essenciais, uma de ordem preventiva – o castigo tem uma enorme capacidade dissuasora – e outra de ordem, digamos, ontológica – não pode haver lei se não houver castigo para o seu incumprimento.

A primeira razão (sobre a qual já aqui escrevi uma vez, embora num con-texto muito diferente deste) continua a fazer sentido mesmo que não se acredite na possibilidade de livre-arbítrio, uma vez que a consciência do “perigo” que se corre ao quebrar a lei entra muito pavlovianamente na computação inconsciente e involuntária das acções de qualquer um. Quanto à segunda razão, ela é independente de se acreditar ou não no livre-arbítrio. Como diz a minha amiga Clara, em Portugal não há escolaridade obrigatória porque não há, na prática, punição para quem não manda os filhos à escola. “Isto é proibido, mas não te acontece nada, se o fizeres” é uma pretensa proibição. De facto, não é proibição nenhuma. Por isso, se achamos que se deve proibir, por hipótese, matar seres humanos, pouco importa se acreditamos ou não que quem o faz decide livremente o seu crime ou é compelido pela sua incontrolável mente a ser um assassino. O que a lei tem de punir, para poder existir, não é esse aglomerado de processos físico-químicos que uma pessoa é, mas as suas acções, independentemente de elas terem sido decididas por uma alma à imagem e semelhança de deus ou geradas por uma actividade biológica ingovernável. Só que, por impossibilidade de uma acção punitiva mais incisiva e mais justa, é a pessoa que tem de ser punida. Não há alternativa.

A questão é, obviamente, muito mais complexa do que este textinho parece que quer fazer crer. Este textinho não faz senão defender, de forma rudimentar, a ideia simples de que não se pune para retaliar, mas sim para tentar evitar a ocorrência do crime, e que sem punição não há lei. É óbvio que, mesmo que aceitemos estas premissas, ficam em aberto questões tão complexas como a quantidade e o tipo de castigo aplicável, as circunstâncias que devem ser consideradas atenuantes nas diferentes infracções, e os diferentes graus de responsabilidade num delito. Segundo uma personagem de um filme que eu vi ontem, um soldado tem de ter mais medo do seu comandante que do exército inimigo – para lhe obedecer em tudo e cegamente…; se não, de cada vez que dispara sobre um inimigo está a cometer um homicídio…

21 de outubro de 2008

Coisas da minha avó

A minha saudosa avó materna tinha umas quantas expressões curiosas.

Pial de pote, por exemplo. A expressão “correcta” para designar o lugar onde, nas casas antigas, se colocava a bilha da água fresca é poial de pote (poial é da família de pódio e significa “lugar onde se põe algo” ou “banco de pedra”), mas a minha avó chamava-lhe pial de pote. Chamem-lhe erro, se quiserem, mas não é um “erro” disparatado, porque pode facilmente imaginar-se que pial se relacione com (seria peal, nesse caso, e outra maneira, enfim, de dizer pedestal); ou então que derive de pia – a final de contas, é de um suporte de um recipiente de água que se trata…

Além de usar a expressão para referir o pequeno suporte de cimento e mármore que tínhamos na cozinha, a minha avó usava também pial de pote na fase Está aqui debaixo do pial de pote a enfeitar a cantareira!, que respondia a perguntas sobre o paradeiro de algum objecto e que significava, no falar lisboeta dela, “Eu sei lá onde é que essa porcaria está!”. A frase também tem duas coisas que se lhe digam: A primeira é que ou é uma redundância (se o pote da água e o cântaro forem uma e a mesma coisa, e, por conseguinte, o poial de pote e a cantareira apenas dois nomes de um mesmo espaço), ou então havia, nas casas mais antigas do que aquelas que eu conheci, por baixo do poial de pote, uma cantareira. A outra é que, tendo em conta sobretudo o tom com que ela o dizia, a frase tem com certeza conotações malandrecas, que deixo as minhas leitoras e os meus leitores adivinharem quais são. [Isto confirma que, como dizia não me lembro quem, não há menos figuras de retórica na linguagem das vendedeiras do mercado do Forno do Tijolo (a minha avó era de Sapadores) que na de qualquer obra muito literária... Mas isso é outra conversa…]

Outra expressão da minha avó de que eu gosto muito é Não penhas dúvidas! Mas isso existe, perguntarão vocês. Se existe? Pois se vos digo que é uma expressão que a minha avó usava! Não é uma frase muito canónica, é verdade, mas é muito mais expressiva e mais rica do que as duas frases com que concorre mais directamente, porque as funde numa só: não ter dúvidas e não pôr dúvidas são coisas diferentes e pode pedir-se a alguém que nos acredite sem duvidar ou que cale as dúvidas que possa ter. Mas é mais eficaz juntar-se Não tenhas dúvidas! e Não ponhas dúvidas! numa frase só: “Aconselho-te a não duvidares, mas, se o fizeres, guarda isso lá para ti, sim?”

Outra coisa que a minha avó fazia era tentar dar sentido ao que para ela não fizesse sentido, de maneira que as palavras estrangeiras eram sistematicamente aportuguesadas, da forma mais lógica possível. Quando apareceu o Seven up, por exemplo, ela começou logo a tratar por Sabe a nada o novo tipo de pirolito. Então mas se aquilo de facto não tinha grande sabor…

Finalmente, gosto muito da expressão Ó filho, tu ainda és de bom tempo! Ao contrário das anteriores, esta expressão não a ouvi só à minha avó, e conheço-lhe até uma variante mais divulgada, ainda és do bom tempo. É, claramente, uma referência a uma mítica Idade de Ouro em que não havia maldade nas pessoas, em que os seres humanos eram ingénuos e puros como os anjos, os meninos, os patos, os ursos ou os camelos, que são alguma das metáforas mais comuns hoje em dia para quem se deixe endrominar com facilidade…

Mas que sou de bom tempo, sou, não penham dúvidas! Ainda sou do tempo dos piais de pote e das cantareiras, muito antes de aparecer o sabe a nada…

Estamos então de acordo: discordamos um do outro

I
Diz-se muitas vezes que determinados conceitos como, por exemplo bom ou mau (ou homem ou casa, mas eu não quero agora ir por aí…) significam coisas diferentes de cultura para cultura. Há quem postule que isso implica uma impossibilidade de diálogo efectivo entre seres humanos com conceitos diferentes – do que é “bom” ou “mau”, por exemplo. Mas penso que se trata de uma formulação errada da questão.

Tanto contra quem afirme que o significado de, por exemplo, condenável é relativo a cada cultura como contra quem afirme, pelo contrário, que é possível estabelecer definições universais do que é condenável, pode argumentar‑se que condenável tem um único significado – é um termo de desaprovação – para toda a gente no mundo (e por isso há, para todas elas, actos condenáveis) mas a relação entre o conceito e os actos individuais e concretos a que a noção se pode aplicar (a que actos se pode aplicar a noção, a que actos não se pode aplicar, em que actos há instabilidade na sua aplicação) pode variar, ou não, de cultura para cultura – mas também de indivíduo para indivíduo ou de grupo de indivíduos para grupo de indivíduos no seio de uma determinada cultura, ao sabor de circunstâncias materiais (a classe económica, por exemplo) ou impulsos outros (afectivos em sentido lato) que não apenas os padrões de comportamento “regulares” dessa cultura.

A questão do significado de condenável e do seu pretenso relativismo (com tantas e tão importantes implicações morais) não é em nada diferente da questão do significado de saboroso, por exemplo (ou qualquer outra noção, mais ou menos abstracta), que é um significado único (é saboroso para qualquer pessoa o que ela degusta com prazer) mas que se predica sobre coisas diferentes, consoante os gostos de quem usa a palavra, e que são em parte determinados pelos hábitos alimentares.

O que eu escrevi até aqui não são senão banalidades. Espero que seja menos banalidade o que vou escrever a seguir, que é aonde eu queria chegar: Com a mesma facilidade com que se vê nesse desacordo um sinal de incomunicação, pode ver-se nele um sinal de efectiva comunicação e defender-se que a melhor prova de que o significado de um determinado conceito é o mesmo para pessoas de duas culturas diferentes (ou para duas pessoas da mesma cultura) é precisamente a possibilidade de elas discordarem sobre a que fenómenos do mundo real ele se aplica.

II
Não acredito na relatividade dos conceitos, nem noutras insuperáveis barreiras que se possam postular. Evidentemente, comunicar nunca é fácil, nem com os mais próximos de nós, e nunca se faz sem ruído e sem perdas. Isso é ponto assente. Mas não há nenhuma dramática impossibilidade de comunicação entre seres humanos de culturas diferentes. E o que muitas vezes passa por incomunicação são apenas desacordos. Se tu dizes que isto é bom e eu digo que isto é mau, estamos a comunicar sem problemas – a comunicar o nosso desacordo um com o outro.

Agora, dirão vocês, mas esta conversa não é mesmo picuinhice? Na prática, qual é a diferença? É um a dizer que sim e o outro a dizer que não!... Eu digo que defender que os humanos conseguem comunicar entre eles, por muito que não de uma forma perfeita e por muito que estejam às vezes em desacordo, ou considerar antes que, quando tentamos comunicar com alguém diferente de nós, há um verdadeiro des-entendimento, uma real impossibilidade de intercompreensão são posições muito diversas – são posições que resultam de duas concepções muito diferentes do mundo e têm implicações diferentes ao nível da nossa acção quotidiana. Aqui em Moçambique, por exemplo, a segunda postura leva alguns “ocidentais” a desistir pura e simplesmente de comunicar com os “africanos”. “Eles nunca nos hão-de compreender e nós nunca havemos de os compreender a eles…”.

É claro que nem toda a gente põe a tónica na “ruptura entre modelos mentais” com intenções declaradamente discriminatórias. Há quem o faça (o relativismo cultural foi adoptado por muitos racistas), mas também há quem defenda essas teorias da incomunicabilidade e não tenha uma atitude discriminatória. O que eu digo é que a ideia em si, se não implica forçosamente estabelecer hierarquias na espécie humana, é, em última análise, sempre segregacionista. O que eu repito é que respeitar os outros, mais do que deixá-los viver sossegados a sua “incompreensível” vidinha, é considerá-los interlocutores ao mesmo nível que nós na discussão do mundo que queremos – para eles e para nós e para todos os seres humanos.

III
Quero agora ressalvar, mais para mudar o tom à conversa e lhe dar um final mais sorridente, que já participei em desentendimentos e incompreensões tão grandes que parecem de facto cisões entre maneiras incompatíveis de conceber o mundo. Quando trabalhava na Suíça, no início dos anos 80, o meu patrão, que era de Gruyère, tinha, pelos vistos, uma noção muito gruyerense de queijo (neste caso concreto, de fromage, pois que a discussão foi em francês). Para ele, fromage referia exclusivamente o produto lácteo fabricado na terra dele; os outros chamavam-se vacherin, cantal, emmental, que sei eu, mas não eram fromage… Não o consegui convencer de que, para os não-gruyerenses, a noção de fromage englobava todas essas variantes… E esqueci-me de lhe perguntar se, na maneira gruyerense de ver o mundo, käse ou formaggio se podiam referir ao vacherin… Mas enfim, isto são mais pegas no paleio. Sem grandes implicações morais…

Porquê escrever porque? Por que não escrever antes por que?

Uma questão ortográfica muito debatida é a da grafia dos vários porque/por que (e respectivas variantes porquê/por quê, quando possíveis). Não vou tratar extensivamente a questão (para um bom resumo da problemática e indicação das propostas ortográficas maioritárias em Portugal e no Brasil, ver um texto de Cláudia Pinto), mas apenas comentar o aspecto mais polémico da questão, o da grafia do porque/por que em frases do tipo “porque/por que fizeste isso?”

O que é especial nesta questão de porque vs por que em frases interrogativas directas é que não há consenso entre especialistas da gramática normativa, de maneira que não resta a cada um senão escolher a ortografia que mais lhe agrada. O que se pode e deve saber é que no Brasil é habitual escrever por que em duas palavras, ao passo que o mais comum em Portugal é escrever porque numa palavra – se bem que haja, tanto no Brasil como em Portugal, gramáticos que discordem da “norma” dos seus países.

Como diz Cláudia Pinto e muito bem, «a ortografia é um conjunto de regras convencionadas, e, como tal, artificiais». As normas ortográficas reflectem umas vezes melhor e outras vezes pior os factos linguísticos, e, neste caso, a norma ortográfica brasileira reflecte melhor do que a norma portuguesa os factos linguísticos – na minha opinião... Pelo menos, não consigo vislumbrar nenhuma razão propriamente linguística para escrever porque numa palavra só, na situação referida. [Aliás, em última análise, não há nenhuma razão propriamente linguística para escrever porque numa palavra só em situação nenhuma, mas não quero entrar agora nessa discussão...] Se se admitir, como faz a norma brasileira, que porque não é, no fundo, senão por que (a preposição por mais o interrogativo (o) que), por que faz parte do mesmo paradigma que para que, com que, etc.: Por que fizeste isso? Para que fizeste isso? Com que fizeste isso? De que fizeste isso? É isto que eu acho que porque/por que é de facto, e por isso é que eu digo que, na minha opinião, a “norma” brasileira reflecte melhor os factos linguísticos.

Agora, como os factos linguísticos importam pouco quando se discute ortografia, deixemos de lado a questão da motivação linguística e sejamos mais práticos: há alguma vantagem em escrever de uma ou de outra maneira? Há um argumento lógico a favor da opção porque: permite distinguir, na escrita (na oralidade, há outras maneiras de o fazer), frases interrogativas do tipo «Por que esperas?» (=De que estás à espera?) de outras do tipo «Porque esperas?» (=Que motivo tens para esperar?), se bem que este problema se coloque muito poucas vezes na prática. A favor da opção por que, há o argumento da facilidade: é menos confuso para muita gente pensar que é sempre por que, menos quanto se trate de conjunção causal (ou do nome porquê).

Insisto então: num caso destes, a escolha é de cada um. Se alguém vos perguntar (por escrito) “porque escreves tu porque em duas palavras?”, podem sempre responder (por escrito): “E por que escreves tu por que numa só?” Ou vice-versa, claro está…