25 de novembro de 2008

Ficção científica

[Ficção científica não é o título deste texto – é o seu género. Trata-se da apresentação de uma hipótese que, por ser baseada em pouco mais do que a minha tendência para o devaneio, deve ser encarada assim – como ficção científica. Um delírio, enfim.]

Um senhor chamado V. S. Ramachandran, um dos investigadores desse fascinante apetrecho cerebral que são os neurónios-espelho, sugere num texto do ano passado, “The neurology of self-awareness”, que a consciência de si próprio pode muito bem ter origem na consciência dos outros. Quer dizer, do ponto de vista evolutivo, tenho mais vantagem em desenvolver a capacidade de formular hipóteses e juízos sobre o que os outros pensam e sentem do que formular essas hipóteses e juízos sobre o que eu próprio penso e sinto. Com as palavras de Ramachandran:
Sugiro que a consciência de si próprio é simplesmente usar os neurónios-espelho para “olhar para mim mesmo como se outra pessoa estivesse a olhar para mim” (…). O mecanismo dos neurónios-espelho (...), que originalmente evoluiu para nos ajudar a adoptar a perspectiva de outra pessoa, foi virado para dentro, para olharmos para nós próprios. Isto é essencialmente a base de coisas como “introspecção”. Pode não ser coincidência que usemos expressões como “self-conscious” [literalmente “consciente de si próprio”, mas significando “tímido” ou “pouco natural”] quando o que queremos de facto dizer é que alguém tem consciência de que os outros têm consciência dele. Ou que digamos “estou a reflectir” quando queremos dizer que estamos conscientes de estarmos a pensar. Por outras palavras, a capacidade de se virar para dentro para introspecção ou reflexão pode bem ser um tipo de extensão metafórica da capacidade dos neurónios-espelhos de ler outras mentes. Parte-se muitas vezes do princípio tácito de que a capacidade exclusivamente humana de elaborar uma “teoria de outras mentes” (ver o mundo da perspectiva de outrem, “ler a mente”, tentar descobrir quais são as intenções de alguém, etc.) deve vir depois de um preexistente sentido de si próprio. Estou aqui a defender que é exactamente o contrário que é verdade: a “teoria de outras mentes” evoluiu primeiro como resposta a necessidades de ordem social e só mais tarde, bónus inesperado, veio a capacidade de introspecção dos próprios pensamentos e intenções.
V. S. Ramachandran diz depois que não se considera muito original ao defender estas ideias, porque elas fazem parte do espírito dos tempos que correm. Ora outra ideia que faz parte do espírito dos tempos é que existe uma dualidade natural na nossa concepção de nós mesmos que leva, em última análise, à ideia de uma essência de nós com as mesmas características que o conceito metafísico de alma. Já aqui referi uma vez, a (des)propósito de uma coisa completamente diferente, as ideias de Paul Bloom sobre esse tema. No artigo “The duel between body and soul”, (New York Times, Setembro de 2004), diz ele, por exemplo:
Perguntei uma vez ao meu filho Max, de seis anos, o que pensava do cérebro, e ele disse que é muito importante e que participa em muito pensamento – mas não é de lá que vêm o sonho ou sentir-se triste, ou gostar do seu irmão. Max disse que isso é ele que faz, embora admita que o cérebro o possa ajudar. Estudos de psicologia do desenvolvimento sugerem que crianças jovens não encaram o seu próprio cérebro como fonte de experiência consciente e de vontade. Vêem-no antes como uma ferramenta que se usa para determinadas operações mentais. É uma prótese cognitiva, acrescentada à alma para aumentar a sua capacidade de cálculo.

Esta maneira de ver as coisas pode não ser muito diferente da de muitos adultos. As pessoas ficam muitas vezes surpreendidas ao descobrirem que certas partes do cérebro se revelam activas – acendem – num scanner quando se pensa em religião, sexo ou raça. Esta surpresa mostra o pressuposto tácito de que o cérebro participa nalguns aspectos da vida mental, mas não noutros. Mesmo os especialistas, ao descreverem esses resultados, caem na linguagem dualista: “Penso sobre sexo e isso activa tal e tal parte do meu cérebro” – como se houvesse dois acontecimentos distintos, primeiro o pensamento e depois a actividade cerebral.
Discordo de Bloom nalgumas das suas posições sobre a predisposição natural dos seres humanos para a religião, mas tenho tendência a concordar com ele na questão do dualismo, porque é precisamente isso que observo constantemente na maneira como as pessoas – incluindo eu próprio, claro está – vão “naturalmente” parar a uma concepção de si próprias segundo a qual há um verdadeiro eu essencial e outros eus que o são menos, ao sabor das circunstâncias. “Uma pessoa passa-se!”,“Eu não me reconheço no que fiz!”, “Nós conseguimos convencer-nos a nós próprios de muita coisa, se quisermos!”, “O que importa é livramo-nos do que nos impingem e sermos nós próprios!”, “Temos de aprender a aceitar-nos como realmente somos”, etc., etc.... E isto para não entrar já em questões mais complexas como a da entidade que escolhe, quando falamos de livre arbítrio...

E se a consciência de nós nunca se tiver completado? Se a condição para conseguir virar para dentro a capacidade de formular teorias sobre as mentes alheias for a impossibilidade de identificar a entidade que formula a teoria sobre a mente que observa com a entidade possuidora dessa mesma mente? A cisão do eu, a ficção dualista de base, estaria assim explicada. A consciência de nós próprios talvez não se possa com propriedade chamar assim – talvez continue a ser sempre consciência de outro alguém, mesmo que lhe chamemos eu.

Dos dois limites que temos, mais um terceiro

Diz-se muitas vezes que alguém “se superou a si próprio”, que “foi além das suas próprias capacidades”, mas, logicamente, é apenas de um pretenso limite que se está a falar. Chamemos-lhe daqui para a frente “o primeiro limite”, para simplificar o texto. O primeiro limite é, então, um limite aparente, mas de uma aparência muito convincente, tão convincente que nos parece uma barreira real. Provavelmente, porque é o limite do razoável, digamos assim; porque, de cada vez que o passamos, estamos a fazer-nos mal a nós próprios. Não podemos, pois, permitir-nos atravessá-lo de ânimo leve; tem de nos surgir como bastante insuperável. O que é interessante é que a natureza, mãe carinhosa que é, nos apetrechou com mecanismos especiais para nos ajudar a passar para além desse primeiro limite. Por exemplo:

A fome avisa-nos de que precisamos de comida. Quanto mais tempo passamos sem comer, mais fome temos, naturalmente. Até que ultrapassamos a tal barreira e, ao fim de três, quatro, cinco dias sem comer (depende das pessoas), deixamos de ter fome. Carinhosa, a mãe natureza, dizia eu. É que, se não for por curiosidade intelectual ou por obediência a qualquer estranho preceito místico que deixamos de comer, mas apenas por falta de comida, não nos ajuda nada o tormento da fome. Então, ultrapassamos esse primeiro limite e deixamos de ter fome, e é capaz de nos ser assim mais fácil arranjar com que nos alimentarmos.

O mesmo com o esforço físico. Andar ou correr muito, por exemplo. Estamos tão cansados que já não aguentamos mais. Temos de parar, descansar, as pernas já não respondem, o cérebro começa a aquecer, a aquecer. Mas depois, se nos conseguirmos controlar o suficiente para desobedecer aos avisos do corpo sobre as fronteiras do razoável, podemos continuar a andar ou a correr muito mais tempo. Sem grandes problemas. Também isto é sem interesse quando uma pessoa se cansa a andar ou a correr por gosto. Mas imaginem que é de uma situação de guerra que se trata ou de fugir de qualquer outro perigo que nos ameace a vida. Ainda bem que a mãe natureza é carinhosa e nos faz esquecer que estamos a ir longe demais no nosso esforço, porque mais vale dar um bocadinho cabo da vida do que perdê-la.

E com o sono passa-se algo semelhante, como toda a gente sabe. Muito tempo sem dormir e a pesada sonolência inicial é substituída por um estado nervoso de permanente alerta, em que não conseguimos já dormir, por mais que tentemos e apesar da exaustão. Esse estado de alerta, para lá do limite do sono, pode também ser a nossa salvação em muitas situações de perigo.

A ideia que eu tenho é que não é só para além da fome, do esgotamento físico ou do sono que se pode passar, mas também para além de todas as sensações negativas. De toda a dor, digamos assim. Quando chegamos ao insuportável, dessensibilizamo-nos, para poder seguir em frente. Pensem em quem viu morrer à sua volta todos os seus e multidões mais de pessoas, em quem viu literalmente desmoronar-se o seu mundo; pensem em quem foi vítima de crueldades maiores do que estamos habituados a conceber. Como ficar preso na dor pode ser fatal, desenvolvemos a capacidade natural de ultrapassar a primeira barreira e continuar.

Depois, há uma altura em que a falta de alimentos no corpo nos impede de não sentir fome. Atingimos o segundo limite, e comemos ou caímos. A certa altura de corrermos para além do cansaço, caímos mesmo para o chão. Atingimos também o segundo limite. Ao fim de muito tempo de alerta permanente, caímos de sono. É inútil sequer tentarmos manter-nos despertos, porque atingimos o segundo limite. E o segundo limite dos outros males menos físicos, digamos assim, que forma tem ele? Provavelmente, atingimos esse segundo limite quando a dor nos faz perder a razão.

Para além deste segundo limite, não há mais nada. Que se o ultrapasse e – mais ou menos literalmente, conforme a situação – é a morte. O terceiro limite, portanto. Que, vendo bem, é que é o limite que conta. Porque às três tem vez, não é verdade?

17 de novembro de 2008

Lendas portuguesas: rosas húngaras e amendoeiras andaluzas

A lenda das rosas

Havia em Paris (talvez ainda haja...) um bar chamado Lèche-Vin, que era todo decorado com imagens de santinhos e santinhas, excepto a casa de banho, cujas paredes eram forradas a fotografias pornográficas. Uma noite, enquanto saboreava uma bière de garde, chamou‑me a atenção uma das santinhas na parede mesmo ao meu lado. Ou melhor, o que me chamou a atenção não foi tanto a santa mas o texto que tinha por baixo: “Há muito tempo, transformaram-se bocados de pão em rosas nas pregas do vestido de Santa Roseline, padroeira dos Cartuxos”.

Vim a saber mais tarde, à leitura de um romance de Somerset Maugham sobre uma parte da vida de Maquiavel (Then and now) que (traduzo eu) “[Isabel da Hungria,] proibida pelo seu cruel marido de acudir aos necessitados, encontrou-o na rua um dia em que levava com ela pão para os pobres. Suspeitando que ela estava a desobedecer às suas ordens, ele perguntou‑lhe o que levava no cesto e ela, assustada, disse-lhe que eram rosas. Ele arrancou-lhe o cesto da mão e quando o abriu constatou que ela tinha dito a verdade. Os pães tinham-se milagrosamente transformado em rosas de cheiro doce.” Não sei se isto se terá passado com o marido, como conta a lenda, ou antes com o cunhado, porque foi o cunhado que, depois da morte do marido, a acusou publicamente de andar a gastar o dinheiro das propriedade da família deles, na Turíngia.

Seja como for, acho que perceberam onde é que eu quero chegar: estas histórias são iguais entre si e iguais à lenda que todos conhecem e que se conta de Isabel, esposa do nosso rei Dinis. Seguindo um critério cronológico, a milagreira original deve ser Isabel da Hungria e não a de Portugal, já que a santa húngara, tia-avó da portuguesa, viveu umas quantas décadas antes dela. E mesmo Santa Rosaline de Villeneuve (1263-1329), a outra candidata ao milagre das rosas, é ligeiramente mais velha do que Isabel de Aragão (1271-1336); e, sobretudo tendo em conta que o milagre das rosas que se lhe atribui se deu na sua juventude, também o pão se lhe transformou em rosas no regaço antes de o mesmo extraordinário acontecimento se ter dado com a Isabel de D. Dinis...

Mas enfim, o que mais me interessa nesta história é analisar com que tipos de atitudes compactua Deus, se assumimos que o milagre é produto da intervenção divina: O marido (ou o pai, no caso de Roseline de Villeneuve) não quer que a santa pratique a caridade; e quando o homem aparece, a santa, em vez de assumir o bem que faz, tenta disfarçá-lo, submissa ao poder masculino. O milagre devia ser, acho que estamos nisso todos de acordo, cair do céu um martelo em cima da cabeça do homem, e que lhe abrisse um fenda no crânio por onde o Espírito Santo pudesse entrar, começando então o ex‑sovina a contribuir voluntariamente do seu bolso com qualquer coisinha para os mais desfavorecidos – e já não digo instituir um sistema social justo nos seus domínios, que, mesmo para milagre, é pedir demais a Deus… Mas, não! O que Deus faz, milagre dos milagres, é ajudá‑la a mentir para se safar de um raspanete do pouco caridoso marido (ou pai).

A lenda das amendoeiras

Dispenso‑me de comentar a moralidade deste nosso criador e passo antes a traduzir do inglês um texto que encontrei num “livro de factos” das Selecções do Reader’s Digest (AAVV, Reader’s Digest Book of Facts. Cape Town: Reader’s Digest Association of South Africa – Printbak Books, 1989, p.63.)
Um rei árabe mandou uma vez plantar com amendoeiras toda a encosta de uma colina – para agradar à sua esposa favorita. Este rei, Almotamid, que reinou na região à volta de Sevilha em meados do século XI, quando Espanha era, em grande parte, uma colónia moura, mandou fazer esta plantação perto de Córdoba, porque a sua mulher – uma escrava cristã chamada Itimad – nunca tinha visto neve. Na Primavera, as pétalas caídas das flores das amendoeiras cobriam de branco as encostas, o mais parecido como neve que se conseguia no clima temperado do Sul de Espanha.
Esta versão da história diverge, pois, da que nós que conhecemos como “portuguesa” e como “A lenda das amendoeiras” por não se passar no Algarve (embora, de facto, o reino de Al-Mutamid abrangesse também o Algarve) e no pormenor importante de que Al-Mutamid quer mostrar a I’timad que aspecto tem a neve, ao passo que na versão portuguesa (pelo menos, como eu a conheço) o rei mouro não identificado quer, com a “neve” artificial, matar as saudades que a sua nórdica esposa sente das paisagens de Inverno da sua terra natal. Na minha opinião, esta versão da história é muito mais bonita. Agora, a história é provavelmente tirada do Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de Don Juan Manuel. Se assim for, a versão original, que vem em pouco mais de um parágrafo do “Exemplo XXX” desta obra, não é bem nem como a do livro das selecções do Reader’s Digest nem como a que eu aprendi na escola (traduzo eu), mas mais próxima desta do que daquela:
(…) um dia, estando em Córdova no mês de Fevereiro, caiu uma neve; e quando Ramaiquía a viu, começou a chorar. E perguntou-lhe o rei por que chorava. E ela disse-lhe que porque nunca a deixava estar em terra onde visse neve. E o rei, para lhe agradar, mandou pôr amendoais por toda a serra de Córdoba; para que, como Córdoba é terra quente e não neva aí todos os anos, em Fevereiro aparecessem floridos os amendoais, que parecem neve, para lhe fazer perder os desejos da neve.
Agora, pergunto eu, por que é que Al-Mutamid não levou I’timad à Sierra Nevada, que fica ali perto? Apaixonado, talvez, mas de paixão preguiçosa.

Para terminar, como as palavras são como as ginjinhas, e a propósito de origens desconhecidas de histórias conhecidas, uma curiosidade: Sabiam que foi ao Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de que eu falava aí atrás, que H. C. Andersen foi buscar a história, que toda a gente pensa que foi ele que inventou, de um rei que andava nu convencido de que andava bem vestido?

Português de Lisboa (2): a propósito do “lisboetês” e da pronúncia padrão

O texto com mais fortuna desta Travessa... é, a julgar pelos comentários, um que publiquei a 12-02-2008 chamado “Português de Lisboa: ao que isto chegou”. De facto, é o texto mais comentado por pessoas que eu não conheço. Como o espaço de comentários se presta mal a comentar comentários e como os comentários que quero fazer até talvez possam ter interesse para alguém além das pessoas cujos comentários comento (presunção e água benta…), serve este texto para comentar os dois últimos comentários desse texto: num deles, um senhor ou senhora Anónimo, um dos mais prolíficos comentadores de blogues que há, diz que as regras do sotaque lisboeta não são bem assim como eu digo que elas são; no outro, Armando Silava (talvez Armando Silva com uma escapadela da tecla, não sei…), acrescenta, com toda a pertinência, uma característica do falar de Lisboa às que eu tinha enunciado e dá-me a conhecer o texto “Crónica do falar lisboetês”, de Vital Moreira, publicado no Público a 4 de Janeiro de 2000. [Este texto é fácil de encontrar online, mas deixo-vos aqui um link para ele nas Ciberdúvidas, porque podem depois, através dos links que tem ao fim, aceder ao comentário de Baptista Bastos (“Contra o «sotaque único»”, in Diário Económico, 7 de Janeiro de 2000), ao segundo texto de Vital Moreira comentando o comentário de Baptista Bastos e desenvolvendo o seu primeiro texto (“Crónica do falar lisboetês (Bis)”, in Público, 11 de Janeiro de 2000) e ainda a um comentário de Eduardo Cintra Torres a Vital Moreira (“O lisboetês, o coimbrês e outros sotaques (I)”, in Público, 17 de Janeiro de 2000).]

É verdade que a minha descrição do falar de Lisboa em “Português de Lisboa: ao que isto chegou” é pouco rigorosa. Em parte, por ignorância minha, seguramente, mas em parte porque não quis entrar muito em pormenores técnicos, até porque acho que, mesmo sem esses pormenores, o que escrevo já é grande seca para muita gente. Também é verdade que pode facilmente parecer que aí faço, de forma abusiva, generalizações a partir de sociolectos específicos. Mas quero dizer, em minha defesa, que o deixo claro, quando digo que me refiro àquilo que, muito bairristamente chamo “o verdadeiro sotaque da Lísbia” e que, só pelo nome, se vê bem que é mais do Alto Pina ou da Meia Laranja que das Avenidas Novas. Que me desculpem os lisboetas que não falem da maneira lisboeta que eu, reinadio, descrevo. Não são menos lisboetas que eu, com toda a certeza.

A descrição tem também algumas lacunas. Uma das lacunas óbvias é eu não dar conta do conhecido fenómeno para que o Sr. Armando Silava, apoiando-se em parte no referido texto de Vital Moreira, me chama a atenção: o da assimilação do som [s] pelo som [ch] quando este se segue àquele (nascer pronunciado [nacher] ou pois são pronunciado [poichão]. Também trato muito pouco a vertente lexical da questão. Do ponto de vista do vocabulário, o falar de Lisboa deve ter seguramente algumas particularidades, mas não sei outras que não sejam o seu calão – que é um fenómeno mais de certas classes ou grupos de Lisboa do que propriamente da zona de Lisboa em geral – e que está, creio eu, em vias de extinção. Não sei, mas a ideia que tenho é que cada vez se ouve mais um calão mais genérico, fusão de muitos calões e sobre o qual eu sei muito pouco ou nada. Agora, tirando essas pequenas falhas, creio que até faço uma listagem relativamente completa das principais características do sotaque de Lisboa…

Posto isto, passo à etapa seguinte deste texto, que é comentar os textos de Vital Moreira no Público. Com 8 anos de atraso, é verdade, mas não importa: a Travessa... não é um blogue de actualidades.... se bem que a discussão das questões que esses textos levantam continue perfeitamente actual...

O que eu digo no meu texto de Fevereiro passado sobre o português de Lisboa é, em certa medida, o oposto do que Vital Moreira diz na sua “Crónica do falar lisboetês”. Eu digo que o tal “verdadeiro português da Lísbia” está a desaparecer e a ser substituído por uma papa standard, amorfa e sem graça, que, por muito que se fale em Lisboa, já não é lisboeta nem é nada; Vital Moreira postula que há uma abusiva expansão do português de Lisboa, que está a dar cabo de outras variantes e uniformiza a maneira de falar português.

Convém explicar aqui que o que parece ser a minha posição no outro texto é, em parte, um artifício retórico para tentar construir um texto saudosista o mais elegante possível, a lamentar o desaparecimento de um certo falar da ralé por que eu, como muitos outros lisboetas, tínhamos (e temos) um carinho especial. É claro que tenho perfeita consciência de que o português de Lisboa é mais poderoso do que as outras variantes e que as influencia. Concordo também com Vital Moreira, como aliás deixei claro no início do texto de Fevereiro, que me choca a atitude arrogante de muitos lisboetas que acham que eles é que falam da maneira “normal” e “correcta” e que, como ele escreve, «[reduzem] tudo o resto (...) a desprezíveis “provincianismos”, que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país)». Há outras afirmações de Vital Moreira, porém, que me levantam muitas dúvidas; ou com as quais não posso concordar.

A primeira questão é saber o que é de facto influência do português de Lisboa sobre os outros falares e o que é uma tendência geral da evolução do português europeu, que o falar de Lisboa segue tanto como os outros falares. Como eu referia já no outro texto, dos traços que podemos considerar característicos da pronúncia do dialecto de Lisboa (ou que podíamos há 30 ou 40 anos atrás, talvez), poucos são os que se difundem – e há alguns que se perdem. Ora os mais importantes daqueles que se estão indubitável e imparavelmente a difundir não são de facto exclusivos do português de Lisboa. É extremamente provável que o r gutural venha a substituir completamente o r apical múltiplo “rolado”, mas, nesse caso, não é mais o r de Lisboa que se está a difundir do que o r do Porto, já que eles são iguais. Quando metade da população portuguesa vive concentrada nas áreas metropolitanas das duas cidades principais, talvez até fosse mais correcto falar da expansão de um r gutural metropolitano. É verdade que há cada vez mais tendência para a consonantização na sua “versão dura”, que é mais própria de certas regiões, entre as quais Lisboa, do que outras, mas é extremamente duvidoso que se trate do alastramento de um fenómeno localizado. De facto, o fechamento das vogais átonas é uma das tendências fortes, se não mesmo a tendência mais importante, da evolução do português europeu em geral nos últimos 500 anos.

Não quero dizer com isto que não se possa falar de um domínio do português de Lisboa na rádio e na televisão e que esse domínio não seja um factor importante na evolução do português. Mas o “português de Lisboa” falado na rádio e na televisão é um “português de Lisboa” asséptico e reajustado (que, aliás, à medida que se espalha por todo o país nem com aspas é já “português de Lisboa”…). Que o alastramento desse novo português dominante contribua (juntamente com outros factores que não são de desprezar, como o aumento do nível de educação formal) para terraplanar dialectos, com certeza que sim. Até, como eu dizia no meu outro texto, para dar cabo também do verdadeiro dialecto de Lisboa. Vital Moreira, que não é da Lísbia, não o sente. Eu, que sou e vivo no estrangeiro, noto-o bem de cada vez que lá vou de férias…

Quero, já agora, acrescentar que, por um lado, não é nada invulgar, pelo contrário, que o dialecto da região mais poderosa tenha um papel preponderante na evolução da língua. É assim a vida – da língua! No caso concreto do português, com a passagem da capital e do poder económico e político para o Sul, os dialectos meridionais começaram a ter um influência cada vez maior na evolução da língua e há mudanças muito importantes que têm origem nos falares do Sul, como a anulação da oposição entre ch pronunciado [tch] e x pronunciado [ch]. A influência do falar de Lisboa ter-se-ia acentuado muito com o aparecimento e a difusão da rádio e, depois, da televisão, se não tivesse sido contrabalançada, durante algum tempo, pela imposição de um padrão aos meios de comunicação – uma espécie de received pronunciation à portuguesa, que se queria a de um pretenso “falar correcto da zona de Coimbra”. Isto foi no tempo do Estado Novo, mas não creio que se tratasse de uma ideia especialmente fascista, porque se assistiu a fenómenos do mesmo tipo na comunicação social de países democráticos. Era antes o espírito do tempo. Mas que esse Zeitgeist ficava bem ao ruralismo salazarista, lá isso ficava... Seja como for, o facto é que não entravam na rádio rr guturais e outras sonoridades demasiado… urbanas, modernas, talvez… Não é preciso ser-se muito velho para se lembrar, como ainda me lembro de quando o português de Lisboa era proscrito na rádio – e na televisão, quando ela começou –, por reles e ordinário. Como eram muitas outras variantes, note-se. Na rádio falava-se (e ainda se fala um bocado...), em Lisboa, em Londres ou em Montreal com a pronúncia… da rádio!

Mas adiante: Escreve Vital Moreira: «Não consta, por exemplo, que o Queen’s English esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino». Bom, também não é lisboeta das docas que se fala na televisão, isso posso eu garantir, mas, ditas as coisas desta maneira, sou obrigado a dar razão a Vital Moreira. Penso, no entanto, que esta passagem pode levar muita gente a compreender o que não deve, de maneira que convém esclarecer que há evoluções da norma britânica nos últimos tempos. Também no Reino Unido, o espírito dos tempos, no que toca a pronúncias aceitáveis na comunicação social, é outro e a received pronunciation já não é de modo algum tão importante como norma. A rádio abriu-se, por exemplo, a que os seus trabalhadores falem cada um o seu inglês. Quando se trata de futebol, por exemplo, nunca ouço comentadores que falem received pronunciation. Além disso, mesmo para os que a cultivam, a received pronunciation mudou muito nos últimos tempos para passar a reflectir a maneira como as pessoas falam de facto. Aliás, a transcrição fonética das palavras nas edições mais recentes de alguns dicionários atestam bem essas mudanças da pronúncia standard: tenho um dicionário em já não se escreve que a pronúncia standard de cat é [kæt], mas sim [kat], que é como toda a gente diz de facto na Grã-Bretanha, excepto meia dúzia de snobes com quem a malta goza porque vêem chaleiras a pastar no campo*. Mas mais: Não é fácil comparar a situação do inglês do Reino Unido com a do português de Portugal, até porque a variação sociolectal na Grã-Bretanha é muito grande e, em última análise, mais importante, pelo menos para o sentir britânico, do que a variação dialectal. Mas já ouviram alguma inglesa ou algum inglês de menos de 30 anos, seja lá de que classe for, que pronuncie consistentemente o t de get ou what ou, enfim, depois de qualquer vogal com paragem glotal? Não, porque não há. Ora isto era uma marca de falares muito específicos há apenas umas décadas. Não se pode afirmar que fosse apenas uma característica do sotaque cockney, mas era – e é – com certeza uma das suas características. Quer dizer, também se estão a espalhar pronúncias contra as quais haverá com certeza britânicos a reagir, provavelmente argumentando, como Vital Moreira, que essas coisas não se passam noutros países**. Não dou muitos anos até que mesmo os mais conservadores locutores da BBC perguntem ao repórter no local: “Bu’ tell us, Mark, we’re all a bi’ worried abou’ wha’s going on, and we’ve go’ so much contradictory information, so wha’s actually happening?” E não quero explorar agora a fundo essa questão, mas podem encontrar-se muitos exemplos de como, noutras línguas, características que são, na origem, do sotaque da região mais poderosa, se espalham de tal maneira que já ninguém as reconhece como sendo especificamente desse região. E entram na rádio e na televisão. Repito: é muito normal que o dialecto da região mais poderosa funcione como dialecto de prestígio e que, por isso, se espalhe.

Está bem, dirão vocês, vistas as coisas dessa maneira, também é natural que uma pessoa mais forte imponha a uma pessoa mais fraca a sua vontade. Mas, por ser “natural”, é aceitável? Vital Moreira refere a questão moral de base, mas o que o preocupa muito concretamente no que ele considera ser a «imposição», por Lisboa, ao resto do país, do «seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós» é que «[1] este falar português, cada vez mais cheio de “chês” e de “jês”, é francamente desagradável ao ouvido, [2] afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e [3] torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras». Estas preocupações de Vital Moreira merecem-me também vários comentários.

O primeiro é sobre a beleza do português europeu moderno, a que ele chama “lisboetês”. A beleza, diz o provérbio e digo eu, está nos olhos de quem olha. Neste caso, nos ouvidos de quem ouve. Eu, por acaso, apaixonado por línguas que sou, nunca encontrei maneira de falar fosse que língua fosse de que não gostasse. Mas isso sou eu, e ninguém é obrigado a gostar de todos os dialectos de todas as línguas. Mas volto às perguntas que já aqui fiz uma vez: há algum aparelho que registe a eufonia? É alguma coisa suficientemente palpável para que valha a pena invocá-la quando se discute política linguística? E quem é que decide o que é bonito e o que é feio? E com que direito se bane o que se acha feio em nome do que se acha bonito?

O segundo comentário é sobre o afastamento da pronúncia da escrita. Vital Moreira vê as coisas, na minha opinião, de uma forma algo estranha, porque a língua evolui sempre e naturalmente, de maneira que a única maneira de resolver o problema do hiato entre o que se diz e o que se escreve é exactamente ao contrário do que ele propõe: adaptar a escrita à evolução da pronúncia. Se não, tinha de se postular que se falasse inglês como na época de Chaucer, porque é essa pronúncia que a grafia do inglês reflecte, e exigir aos franceses que não pronunciem [muá] a palavra moi, mas sim [moi], como no francês antigo, para não se afastarem da escrita. Está bem, estou a brincar, mas estou a brincar muito a sério. Só que, no caso do português, as necessidades de actualização da escrita para acompanhar a evolução da língua são poucas ou nenhumas, porque, é importante não esquecer isso, a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas fonológica e, assim sendo, a escrita do português continua a traduzir bastante bem o sistema que subjaz à pronúncia, por muito que esta tenha evoluído.

O terceiro comentário é sobre o lado prático da questão, o estarmos a afastar-nos dos outros falares ibero-romanos. Não vale a pena lutar contra os factos linguísticos. Pode tentar-se, mas é em vão. As variantes americanas das línguas europeias têm uma série de traços conservadores de pronúncia – e algumas inovações – que fazem com que as variantes europeias das mesmas línguas, em que se deram muito mais inovações desde a separação, se afastem delas a grande velocidade. A impossibilidade de intercompreensão é já um facto em muitos casos, dependendo da exposição dos falantes de uma variedade à outra (os britânicos compreendem melhor os americanos do que ao contrário, mas os quebequenses compreendem melhor os franceses do que estes compreendem aqueles), de fenómenos fonéticos idiossincráticos (a redução vocálica do português europeu) ou de uma mistura das duas coisas (os brasileiros compreender-nos-iam melhor, apesar da consonantização, se nos ouvissem mais...). E não tenho a certeza de que pronunciar bem todos os ee mudos ajude muito brasileiros e espanhóis a compreender-nos. Mas mesmo que os diversos portugueses, os diversos castelhanos, os diversos franceses e os diversos ingleses (falados, pelo menos, na escrita o caso é diferente) acabem por se tornar línguas diferentes (como acontece normalmente às variantes de uma mesma língua, se lhes for dado tempo suficiente e houver autonomia dos territórios onde elas se falam!), qual é o problema? Se há tantas línguas que morrem, porque não há-de haver outras que nasçam?

Quanto à questão propriamente moral (política, de facto), a pronúncia não tem implicações éticas por aí além, nem se resolvem problemas sociais impondo maneiras de falar. Diz Vital Moreira:
Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de “agenda” como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.
Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados “directos”, transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do que uma menção de passagem num breve flash do noticiário regional do dia seguinte.
O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e tutti quanti não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa.
Não quero debater aqui a questão da sobrevalorização de Lisboa e do que lhe diz respeito nos meios de comunicação social portugueses, até porque há muito que não os acompanho, mas não me custa mesmo nada aceitar que essa sobrevalorização exista e que estejam também sobrerrepresentados os lisboetas entre os profissionais da comunicação. A questão do espaço relativo e da importância relativa das diversas regiões e dos seus profissionais nos media, porém, resolve-se com políticas efectivas que definam de forma mais justa a atribuição de tempo de antena, digamos assim, a cada região, às suas coisas e à sua gente. Não é cultivando um português padrão que não é português de ninguém que o problema se resolve.

O estabelecimento da variante padrão e das variedades de prestígio de uma língua sempre foi, e continua a ser, feito de formas muito pouco democráticas. Mas eu, que acredito na democracia, acho que a norma linguística devia, precisamente, obedecer a princípios democráticos. Democráticos, lógicos e simples, e em que não interferissem gostos e subjectividades várias! Não se deve impor como norma uma pronúncia artificial e falada (e nem em todas as circunstâncias) por uma percentagem ínfima da população (2% no caso da received pronunciation, uma percentagem provavelmente semelhante no caso do português da universidade de Coimbra, mas não sei…). Uma regulamentação democrática da pronúncia padrão pode limitar-se a duas regras simples:
1. Na rádio, na televisão e no espaço público em geral, não se impõem nem propõem pronúncias standard – cada um fala como fala e está muito bem assim.
2. Naquilo em que é preciso realmente usar uma pronúncia estandardizada, como dicionários e manuais de português para estrangeiros, usa-se a pronúncia maioritária: é considerado padrão o que for dito de facto por mais gente. Se, por exemplo, em venho e telha, mais de 50% dos portugueses pronunciarem o som grafado com a letra e como [ê], é essa a norma; se o pronunciarem [â], é isso que registam os dicionários. Este levantamento é extremamente fácil de fazer e muito barato (se é que não está já feito…), e deve ser actualizado com uma periodicidade a definir, digamos, de 10 em 10 anos, ou de 20 em 20. Além de ser a única forma democrática de estabelecer uma norma de pronúncia, é também a única maneira de sairmos da discussão emotiva e sem rigor, e começarmos a guiar-nos por factos.

Um último comentário, já fora desta discussão, à ideia de Vital Moreira (e de mais pessoas) de que «a língua portuguesa caminhou de norte para sul». Porquê? No Sul não havia zonas romanizadas? As pessoas falavam o quê? A língua portuguesa não caminhou de lado nenhum para lado nenhum. Digamos antes, por favor, que a língua portuguesa resulta dos falares romances das zonas que vieram a ser Portugal, sim? Até para não sermos tentados a acusar de arrogância linguística outros portugueses que não sejam os de Lisboa...

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* É uma anedota tão conhecida como pateta sobre a pronúncia, nos sotaques posh, isto é, snobes, de certos aa (que toda a gente pronuncia exactamente como o [á] aberto português) com um som próximo do nosso [é] aberto, de maneira que cattle, “gado”, soa praticamente como kettle, “chaleira”.

** Uma formulação famosa desta crítica por Alan Jay Lerner no musical My fair lady: “Norwegians learn Norwegian, / the Greeks are taught their Greek, / in France every Frenchman knows his language from a to z (…) / Arabians learn Arabian with the speed of summer lightning, / the Hebrews learn it backwards, / which is absolutely frightening; / but use proper English and you're regarded as a freak. / Why can't the English, / why can't the English, / learn to speak?”

6 de novembro de 2008

Histórias de arenques e bacalhaus

Quando se faz história de temas em vez de se fazer história de nações e dos seus líderes, os objectos de estudo que eu vejo são sempre abstractos. Há história do medo, da democracia, da família, da vida privada, das doenças, da contracepção, do diabo, etc., etc., etc., mas nenhum desses temas de mentalidades e instituições tem cheiro que não seja metafórico e vago. Nada que se possa comparar com o apetitoso cheiro – nauseabundo, dirão alguns, eu sei… – do arenque e do bacalhau, de que li há pouco tempo duas histórias (uma de cada um, claro está…): Cod: A Biography of the Fish That Changed the World, de Mark Kurlansky* (London: Penguin, 1998) e Herring - A History Of The Silver Darlings, de Mike Smylie (London: The History Press LTD, 2004). São dois livros, perdão..., dois peixes fundamentais para a história da Europa e de mais alguns lugares do mundo.

[Esclareço também que, ao contrário do que eu dizia noutro texto desta Travessa (e espero que isso não tenha sido claro para ninguém, porque a minha intenção, nesse texto, era precisamente que não se distinguisse o que era irónico do que não o era…), acho mesmo que toda a gente devia comer peixe e sopa, e tudo com azeite cru, em vez de porcarias que só fazem é mal!]

As duas histórias de peixes de que aqui falo agora têm várias coisas em comum: são ambas de escrita escorreita e leitura fácil; são as duas pouco académicas e, a espaços, de rigor duvidoso (mais a primeira do que a segunda), mas têm ambas também muita informação interessante e suficientemente documentada; têm as duas muitas receitas, de gastronomias várias e algumas delas muito antigas; e são ambas ilustradas com muitas e bonitas fotografias, desenhos e gravuras (mais a segunda do que a primeira). Eis uma selecção um bocado ao calhas de coisas que se podem aprender nestes livros: aprende-se, por exemplo, que, ao contrário do que possam imaginar alguns ecologistas ingénuos, há muito tempo que se come comida transportada de bem longe; aprende-se que muitas receitas de cozinha que muita gente considera exclusivas do seu país (pastéis de bacalhau, por exemplo…) não são de uma exclusividade assim tão exclusiva como isso tudo…; aprende-se como James I de Inglaterra teve a ideia de delimitar águas territoriais e como a ideia se foi desenvolvendo; que o arenque constituía uma parte importante da alimentação dos soldados do império britânico; que era, em muitos sítios, em arenques que se pagavam tributos feudais e dízimas; que o arenque é um dos produtos cujo comércio está na origem da criação da Liga Hanseática; aprende-se que as cabeças do bacalhau eram, antigamente, a parte mais valorizada desse peixe (fresco, entenda-se); aprende-se como os pescadores foram tranquila e obstinadamente esvaziando os mares de peixe (mas isso já toda a gente sabe, não é?); e como os gostos foram mudando à medida que a Europa se ia desenvolvendo, até o peixe deixar de fazer parte da dieta quotidiana da esmagadora maioria dos seus habitantes (Portugal e Espanha ainda são, ao que parece, uma ainda-bem-que-excepção). E aprende-se também que – ao contrário do que pensam muitos portugueses e embora se tivessem fartado de o pescar, ninguém lhes tira isso – não foram os portugueses os mais importantes pescadores de bacalhau** (e, claro, de arenque também não o podiam ser, que não é peixe das nossas águas nem das nossas tradições), mas tiveram, em certas épocas um papel muito importante na conservação de ambos os peixes, que foi o de fornecerem sal – e o sal favorito dos produtores: no início do século XIV, o sal de Aveiro era o sal preferido para salgar bacalhau de boa qualidade; na mesma altura, era proibido aos neerlandeses usar o chamado “sal de Lisboa” (que era de facto de Setúbal) para a salmoura do arenque de barrica, mas, nos séculos seguintes, era esse mesmo sal considerado o melhor para esse fim.

Agora, certo já de sermos o sol, o sul e muito o sal, o que tenho de fazer a seguir é arranjar um livro sobre a “rechinante sardinha” (deve haver…), que é, aliás, também da família dos arenques. De facto, os dois peixes são tão parecidos no sabor e na textura que eu não percebo por que é que não se comem arenques assados na brasa nos países do Norte e por que é que não se faz conserva de sardinha em molhos à base de vinagre, sal e açúcar nos países do Sul. Tenho de ser eu, está visto, a acabar com esses prconceitos. E depois digo-vos o resultado, sim?
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* Está traduzido em português americano e em português europeu. A edição portuguesa é O Bacalhau: biografia do peixe que mudou o mundo. Lisboa: Terramar, 2000.

** De facto, os portugueses praticamente não pescaram bacalhau entre o século XVI e o século XIX, e, mesmo no período áureo da pesca do bacalhau, dos anos 40 aos anos 70 do século XX, quando Portugal conseguiu chegar a ser o primeiro produtor mundial de bacalhau seco e salgado, não deixou nunca de importar bacalhau. Para um resumo da história da pesca do bacalhau, ver, por exemplo, o documentário da RTP Faina maior, a pesca do bacalhau, do historiador Fernando Rosas, com a participação do historiador Álvaro Garrido, especialista do tema.

3 de novembro de 2008

Universais de religiosidade – todos os deuses são humanos!

Paralelamente a muitas outras discussões sobre religião, há uma, muito interessante e cada vez mais aguerrida, entre quem acha que a religião é algo natural, inerente à condição humana – ou até que constitui uma construção adaptativa, com vantagens para a espécie –, e quem acha que a religião não é de modo algum um traço essencial da nossa humanidade e que passamos todos bem sem ela. A discussão tem tido muitas vertentes e há algumas sobre as quais não sei pronunciar-me. Por exemplo, na sequência de um interessantíssimo texto de Paul Bloom, houve no Reality Club um debate também muito interessante sobre o papel do nosso dualismo inato na religiosidade. Vários estudiosos concordam que, já de bebés, consideramos que há uma parte essencial de nós – uma alma, digamos assim, para simplificar –, que é distinta da nossa mente; mas nem todos concordam que esse dualismo inato implique que seja inata a religiosidade – ou a predisposição para ela.

Há outros estudos, porém, da predisposição humana para a religiosidade, que são facilmente comentáveis mesmo por quem não seja um especialista do assunto – como eu não sou. Já aqui uma vez comentei o postulado de que a vantagem mnemónica das histórias de seres sobrenaturais é uma explicação eficaz do sucesso das religiões. Agora, tenho de criticar a ideia do senhor Pascal Boyer no seu artigo “Religion: Bound to believe”, publicado na revista Nature (Nº 455, 1038-1039, de 23 October 2008, agora, só a pagar…) de que, no inconsciente dos crentes, todos os deuses de todas as religiões têm determinadas características, uma das quais é… serem humanos (traduzo eu):
O pensamento e o comportamento religiosos podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais, como a música, os sistemas políticos, as relações familiares ou as alianças étnicas. Há descobertas da psicologia cognitiva, das neurociências, da antropologia cultural e da arqueologia que prometem mudar a nossa maneira de ver a religião. […] Uma descoberta importante é que as pessoas só têm consciência de algumas das suas ideias religiosas. […] A psicologia cognitiva mostra que [as suas crenças religiosas conscientes] são sempre acompanhadas por uma série de pressupostos tácitos que, em geral, não estão disponíveis para inspecção consciente. // Por exemplo, há experiências que mostram que a maior parte das pessoas tem expectativas altamente antropomórficas relativamente aos deuses, sejam quais forem as suas crenças explícitas. Quando lhes contam uma história em que um deus resolve vários problemas ao mesmo tempo, acham esse conceito bastante plausível, uma vez que os deuses são, em geral, descritos como tendo poderes cognitivos ilimitados. Recordando a história momentos mais tarde, a maior parte das pessoas diz que o deus resolveu uma situação antes de passar à situação seguinte. As pessoas também esperam implicitamente que as mentes dos seus deuses funcionem como mentes humanas, mostrando os mesmos processos de percepção, memória, raciocínio e motivação. Essas expectativas não são conscientes, e são muitas vezes contraditórias relativamente às suas crenças explícitas.

Ora, mas então, o que isso quer dizer é que as pessoas são naturalmente realistas; o que isso quer dizer é que, como tem sido apontado muitas vezes, e até pelo próprio Pascal Boyer, se não estou em erro, os seres humanos têm, já à nascença, uma ideia bastante clara do que é possível e impossível neste mundo; o que isso quer dizer é que, mesmo que apenas intuitivamente, as pessoas sabem que não existem seres com as propriedades e as capacidades que as religiões atribuem aos seus deuses! É só isso. Por outras palavras, isso não é evidência de que a religião seja natural nos seres humanos, mas, pelo contrário, de que ela é, para os seres humanos, contra natura. Ou seja, essas descobertas que Pascal Boyer chama em defesa do seu postulado de que “o pensamento e o comportamento religiosos podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais” provam, afinal, que o que é natural no pensamento humano é não aceitar no sobrenatural qualidades que não sejam perfeitamente naturais…

E o medo que temos de não passar de bichos… Pela minh'alma!

Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade, depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hess e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite):
(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspecto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens, em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas, era duas vezes maior do que em resposta à fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os poucos que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia. 
“Ficou tudo histérico na aula”, tinha-me contado a minha colega, “quando o professor aventou a possibilidade de a nossa concepção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”

Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reacção é típica: ninguém quer ser considerado um animal. E muito menos uma máquina… Lembro-me de que, mais por provocação que por estar convencido do valor de verdade da proposta, costumava postular que, se toda a gente acha que “aquela triste e leda madrugada” é uma frase de génio, deve ser porque se encaixa directamente nalguma organização preferencial dos sons que trazemos connosco à nascença*… Escusado dizer que toda a gente se chocava – avaliarmos, assim, maquinalmente, a beleza de Camões?

O facto é que querer desalmar a humanidade, retirar-lhe aquilo que a diviniza (a alma é, ao que dizem, o que têm em as pessoas em comum com deus…) continua a ser muito mal visto em pleno século XXI. Donde nos virá este medo essencial de sermos só um emaranhado complexo de músculos e nervos? Uma das vertentes mais fortes deste preconceito é a recusa das características congénitas de carácter. No outro dia, em casa de um amigo, discutia-se a preguiça de uma amiga comum. “Ela é exactamente como o pai dela”, explicou ele. E perguntou-lhe a filha de 13 anos: “Achas que a preguiça é hereditária?” “De que é culturalmente transmissível, não tenho dúvida nenhuma!” Ora ele não tem, à partida, mais razões para acreditar que – pelo menos naquele caso – a preguiça seja mais cultural do que geneticamente transmitida. Mas, como toda a gente, favorece a priori a hipótese de que seja o meio e não o património genético a determinar esse traço de personalidade. É estranho!

Ou antes, não é estranho, porque é o que toda a gente faz. Se se fala de uma pessoa com problemas sociais que vem de uma família disfuncional, o normal é ver na disfuncionalidade da família a razão de ordem ambiental para os problemas das pessoas, e nunca admitir como hipótese que ela tenha herdado fisicamente essa disfuncionalidade. Ora, à partida, enquanto não se souber bem o que faz de cada um nós o que ele é, as duas hipóteses têm, pelo menos, o mesmo valor: 50% de probabilidades cada uma. E 50% é precisamente uma percentagem muitas vezes prudentemente apontada para contabilizar a influência na personalidade de cada um dos factores, o ambiental e o genético…

É claro, estou a exagerar quando digo que não percebo por que é que existe essa sistemática desvalorização do genético em relação ao adquirido. De facto, tenho algumas propostas de explicação: uma é o terror do pseudo-cientismo racista à maneira nazi; outra é a apropriação pelo senso comum das teorias psicanalíticas e afins; outra é que nos sentimos menos bichos e menos máquinas se nos acreditarmos mais determinados pelo meio do que pelos genes... Agora, por conservadorismo não é. Podia pensar-se que isto de começar a considerar a herança genética uma componente fundamental da maneira de ser da cada um é moda nova, e que ir contra essa forma de ver as coisas é ater-se à tradição, mas, de facto, as coisas não são nada assim. Existe, desde há muito, em todas as sociedades, uma consciência clara do valor do herdado: não só se fabricam raças de cães com “personalidades” específicas, como se diz que a Maria sai mais ao pai e o Zé mais à mãe – por exemplo porque gosta de dormir até tarde ou porque tem medo do mar. No outro dia, dei por mim a pensar que podemos até fazer uma releitura “geneticista” do refrão «Filho és, pai serás, como fizeres, assim acharás»: Para o provérbio ter algum sentido, ou admitimos que é Deus que nos recompensa ou nos castiga pelo bem ou pelo mal que fizemos aos nossos pais (e esta é, desculpem-me os crentes, uma leitura completamente disparatada!) ou então os nossos filhos tratar-nos-ão como nós tratámos os nossos pais – porque herdaram de nós essa maneira de ser…

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* A ideia de universais de organização preferencial dos sons da língua não é minha: inspirava-se a minha provocadora proposta na “Regra do segundo mais pesado” do linguista francês Claude Hagège (L’homme de paroles, Paris: Fayard, 1985). Hagége notou que, em compostos do tipo mais ou menos ou tal pai, tal filho, aparece «em segunda posição o termo mais pesado, isto é, aquele que tem um maior número de sílabas, ou as consoantes ou vogais mais longas ou mais posteriores, ou as consoantes com um espectro acústico que apresente as mais fortes concentrações nas frequências baixas». É preciso notar que a proposta de Hagège não explica de modo algum porque é que “aquela triste e leda madrugada” soa melhor do que, por exemplo, “aquela leda e triste madrugada”. Mas isso também é irrelevante para esta conversa...