23 de dezembro de 2008

Tecnologia inapropriada

É conhecido: um dos (muitos…) problemas do trabalho de desenvolvimento é o uso de tecnologias pouco ou nada adaptadas à realidade local. Um exemplo claro: vejam o que acontece quando se usa em Chimoio, com 30 graus e 90% de humidade, tecnologia sueca de Natal, nomeadamente uma pepparkakshus, uma simpática casinha doce que as crianças montam e decoram.


Os inconscientes arquitectos, após a conclusão do projecto


A casa construída


A casa construída, passadas alguma horas


A casa construída, passadas mais alguma horas

19 de dezembro de 2008

Por que é que o Spybot-S&D (passe a publicidade...) é gratuito?

Não sei se haverá quem leia na íntegra as condições de utilização do software que descarrega da net. Deviam sempre ler-se, pois deviam, mas são uma grande seca, como todos os contratos, e chega até a parecer que são redigidas assim precisamente para a malta desistir de as ler...

Uma excepção é a licença do anti-spyware Spybot Search & Destroy (passe a publicidade...), em que o seu autor, Patrick Michael Kolla, começa por explicar “porque o Spybot-S&D é gratuito” (o que se segue não é nenhuma tradução minha, como acho que se percebe, é a transcrição do texto da licença quando se escolhe o português como língua de instalação e utilização):

I.a. Dedicatória: O Spybot-S&D é dedicado à garota mais maravilhosa do mundo :)

I.b. Binário: O que você recebe na compra de um programa? Um monte de zeros e uns, e nada mais. Se eles fossem distribuídos como arte, eu poderia entender o pagamento por eles. Mas se o objetivo principal é ganhar dinheiro - através de taxas ou anúncios - então eu não concordo!

I.c. Conclusão: Isso significa que eu garanto a licença de uso do Spybot-S&D pelo tempo que você quiser. Mas se você gostou do programa, eu lhe peço duas coisas: reze por mim (aproveite e reze pela garota mais maravilhosa do mundo também :) ) para o seu deus - ou o que quer que você acredite - e nos deseje sorte.

O resto da licença é relativamente standard.

Do you speak English? Atão amanda a corda!

Um dos muitos bons argumentos que há contra a monarquia é o argumento humanitário: coitados dos reis e das rainhas e dos príncipes e das princesas!, que vêem a sua privacidade constantemente devassada e que só muito relativamente têm direito a escolher que vida querem ter…

Oiço e vejo muitos argumentos contra o imperialismo da língua inglesa (que, na maior parte dos casos, são mais expressão pura de paixões vagas que verdadeiros argumentos), mas nunca vi ninguém defender, contra a expansão do inglês, um argumento do mesmo tipo do argumento humanitário contra a monarquia. A verdade, no entanto, é que um purista do inglês pode perfeitamente argumentar que quem sofre com essa expansão – e muito mais do que as línguas que ela pretensamente afecta – é o próprio inglês… Nunca tinham pensado nisso? Eu, que passo a vida a traduzir textos em inglês escritos por pessoas das mais variadas nacionalidades, é o que penso muitas vezes…

Diz-se muitas vezes que as pessoas de língua inglesa nunca aprendem a falar outras línguas e é bem capaz de não ser apenas preconceito, mas não o sei confirmar. Diz-se também que, em parte, isso se deve a que, podendo comunicar com tanta gente na sua própria língua, lhes falta a motivação para aprender a língua dos outros – e é, acho eu, afirmação com visos de verdade. Ainda há pouco tempo, aliás, um amigo britânico que me veio visitar deu precisamente essa explicação para o facto de, como muitos compatriotas seus, não saber falar outras línguas. Mas quando se formula de outro modo a incapacidade dos anglófonos, acusando-os de “não terem jeito nenhum para línguas”, aí já não posso concordar. Quanto mais não seja, porque as pessoas de língua inglesa são as melhores que eu conheço a compreender a sua língua falada seja lá como for – uma competência linguística que falta a muita gente de outros idiomas… É o reverso da medalha, claro está, e resulta de uma vida inteira de prática de ouvir a sua língua falada com toda a classe de sotaques estrangeiros, cada qual mais arrevesado que o que o outro… Os falantes do inglês são bons nisso e são bons a aceitar que o inglês pode ser falado e escrito assim, daquela maneira esquisita como nós o falamos e escrevemos; a aceitar, até, que sejam pessoas de outras línguas a inventarem na língua deles palavras e expressões novas, algumas provavelmente tão estrangeiras que os arrepiam… Não imagino um português ou um francês a aceitar sem protestar, na sua língua, os erros bárbaros (aqui no sentido primeiro de típico de estrangeiros) que infestam constantemente todo o tipo de documentos e discursos em inglês.

Nunca os seres humanos tiveram as possibilidades que têm hoje de comunicarem uns com os outros. Se isto se deve, obviamente, sobretudo ao progresso tecnológico, ajuda também muito a este avanço o facto de haver finalmente uma língua (e uma língua viva, ademais) que um quarto da população do globo consegue, melhor ou pior, usar como língua franca. Evidentemente, que o inglês se tenha tornado língua de comunicação não resulta de nenhum plano altruísta. Mas não vale a pena pensar nisso, até porque provavelmente não há boas razões para uma língua se expandir. Mas as línguas de comunicação artificiais sempre funcionaram mal, e ninguém quer viver na situação dos americanos antes de chegarem os europeus às terras deles, com 900 línguas para uns 50 milhões de pessoas*. Quero eu dizer que, independentemente das razões pelas quais há finalmente uma língua de comunicação de grande sucesso à escala mundial, é uma sorte que a haja – e uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Um bocadinho de respeito, então, por essa língua franca, em vez de nos acomodarmos apenas, como tanta gente tem tendência a fazer, em soluções mais ou menos crioulizadas de comunicação. Sigamos o exemplo de Joseph Conrad, para quem o inglês era a quarta língua, e uma língua que só começou a aprender já homem feito, e que conseguiu, ainda assim, tornar-se um dos mestres da língua inglesa (sem nunca perder, porém, o forte sotaque polaco…). Um bocadinho de respeito pelo inglês, dizia eu, e tenhamos sempre presente, não custa nada, que este inglês que falamos e escrevemos não é uma língua nossa – e também não é bem a língua dos seus falantes nativos…

[À laia de apêndice: É interessante notar que os portugueses acreditam sinceramente que têm uma pronúncia menos marcada em inglês do que os falantes de outras línguas. É natural que existam vantagens naturais dos falantes nativos de uma língua na pronúncia de uma determinada língua estrangeira. A crença na “boa pronúncia” do inglês pelos portugueses, no entanto, não tem grande fundamento: tem apenas a ver com a inconsciência dos nossos próprios erros, porque somos surdos a distinções que não existem na nossa língua.]

_______________

* 900 línguas é um cálculo modesto, há quem fale de milhares... Tudo depende do que se considere uma língua, claro, de maneira que não existe nada como “o verdadeiro número”. Quanto ao número de habitantes da América quando lá chegaram os europeus, 50 milhões é um número prudente, porque é médio: há quem diga muito menos, há quem diga muito mais. O que é sempre verdade, usem-se que cálculos de número de línguas e de número de habitantes se usarem, é que havia uma enorme diversidade linguística na América pré-colombiana. E ainda hoje há casos estranhos de incomunicação linguística nas Américas. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um artigo que li há uns anos [“O Português de Contato no Parque Indígena do Xingu”, de Charlotte Emmerich, in Revista Internacional da Língua Portuguesa, nº 5/6, Dezembro de 1991] sobre dois grupos étnicos do Alto Xingu, que partilham o mesmo espaço geográfico, têm economias, tradições e crenças – numa palavra, vidas – iguais... e têm línguas tão diferentes que recorrem ao português para comunicarem um com o outro.

13 de dezembro de 2008

As palavras são como as cerejas (2): dinheiro, desenvolvimento, vigarices e literatura fantástica

Segundo um site do governo moçambicano, eis a proposta aprovada de Orçamento Geral do Estado de Moçambique para 2008:
Receitas do Estado: 38 815 956,00 meticais (± 1 574 683 840 USD)
Despesas do Estado: 89 002 643,45 meticais (± 3 610 654 960 USD)
Défice: 50 186 687,45 meticais (± 2 035 971 120 USD)

Não sei até que ponto é que o governo de Moçambique estará de facto a trabalhar com o orçamento previsto, mas, se tiver esse dinheiro para gastar este ano, é quase o dobro daquele que o CIA Factbook apresentava para 2007, 1 822 000 000 (não consigo confirmar este número, porque o link para o orçamento de 2007 no portal do Governo de Moçambique não funciona).
Partamos do princípio de que as despesas do Estado moçambicano são de facto os tais cerca de 3 600 000 000 USD. Isto significa que Moçambique, com os seus mais de 20 milhões de cidadãos, tem um orçamento cerca de 85 vezes mais pequeno do que o dos Países Baixos (que, com 16 milhões e meio de habitantes, tinham, em 2007, cerca de 306 500 000 000 USD para gastar) e cerca de 25 vezes mais baixo do que o de Portugal (que tem cerca de metade da população de Moçambique, e tinha, em 2007, 93 090 000 000 USD para gastar*). E as receitas do Estado moçambicano durante um ano dão para fazer cinco filmes como o Pirates of the Caribean: At World’s End (sem contar despesas de promoção).
Uma ideia que reúne amplo consenso em vários sectores de opinião (tão amplo, aliás, que eu não me atrevo a duvidar dela…) é que uma parte deste dinheiro é mal gasta. O que é interessante verificar é que – sobretudo tendo em conta que faltam em Moçambique muitas infra-estruturas que existem há muito tempo nos Países Baixos ou em Portugal e que Moçambique é cerca de 19 vezes maior do que os Países Baixos e 9 vezes maior do que Portugal – mesmo que o dinheiro público fosse todo ele gerido da melhor maneira possível, continuava a ser muito, muito pouco dinheiro, ou não?
[Tenho um amigo que diz que se devia entregar, durante alguns anos, a gestão de países como Moçambique a uma equipa de gestão considerada das melhores do mundo, para ela provar que é de facto uma grande equipa de gestão…]
Estabelece-se muitas vezes uma relação directa entre “corrupção” e “subdesenvolvimento”, e é provavelmente verdade que a extorsão e os desvios de fundos tendem, por razões óbvias, a ser prática mais generalizada nos países pobres; mas, por outro lado, a dimensão das vigarices talvez se possa também encarar como um bom indicador de desenvolvimento. Num país como Moçambique, por muito que haja muita malta a gamar, ninguém gama o que se gama na Dinamarca, quando lá se gama... Não sei se têm acompanhado a história de Stein Bagger e da empresa IT Factory, incluindo as histórias paralelas de Asger Jensby e da sua esposa Eva Snare. Uma pesquisa rápida em Google diz-me que os meios de informação portugueses não têm dado à história grande destaque, mas é história que vale mesmo a pena seguir. Como isto aqui não é um blogue de notícias, deixo-vos aqui um link para um resumo da história em inglês, já um bocadinho desactualizado, e o conselho de fazerem pesquisa e manterem-se actualizadas/os, porque a história evolui muito todos os dias e de maneira imprevisível. Para vos abrir o apetite: o valor da fraude pode, diz-se, chegar aos 1 000 000 000 USD. A ver vamos…
Um dos episódios engraçado dessa história, e que pode ser contado como anedota independente, é que, quando Stein Bagger (depois de ter desaparecido no Dubai e reaparecido em Nova Iorque, onde pediu emprestado um carro a um amigo sueco para atravessar os Estados Unidos de costa a costa, sabe-se lá por quê…) se entregou à polícia de Los Angeles, dizendo que era perseguido pela Interpol e que tinha roubado mil milhões de coroas, os agentes que o receberam na esquadra não o levarem mesmo nada a sério – porque não têm grande informação sobre os criminosos perseguidos pela Interpol; porque não é todos os dias que ali se vem entregar um criminoso daquele calibre; e, sobretudo, porque, numa zona daquelas, o que não falta é malta a acusar-se de todo o tipo de crimes, só para ter direito a uma sopinha e dormida à borla. Mas adiante…
A história de Stein Bagger não fica nada atrás de nenhum grande romance policial: o enredo central, o crime propriamente dito, é tão inconcebível e tão complexo como o dos thrillers mais sofisticados; e a surpresa que quotidianamente vai criando no leitor o desvendar dos muitos mistérios entrelaçados que constituem a história seria criação digna de qualquer grande autor/a de suspense. Quer dizer, se não fosse mesmo verdade, a história da IT Factory podia bem ter sido inventada, sei lá… dado o contexto escandinavo e a importância da informática na história… por Stieg Larsson, por exemplo…
Um louvor do fantástico, então, para terminar: Vivam os livros de areia de que nunca se pode ler duas vezes a mesma página, os golens, os semideuses, e as viagens no tempo! Se queremos escrever (ou filmar, ou desenhar…) uma história, seja para distrair apenas, seja para dizer coisas que achamos importantes, vale mais inventar personagens, situações e mundos que não existam fora da escrita, do cinema ou do desenho. Para quê fazer arte que conte a realidade?, se a realidade está permanentemente ao nosso alcance, e se não há ficção realista que, em estranheza, horror ou encanto, consiga competir com ela! A sério.
________________

* Estes números, referidos pela Wikipedia e tirados, ao que parece, do CIA Factbook, podem não ser exactos, mas também não se devem afastar muito da realidade…