15 de abril de 2009

Brancos, patrões, identidades e uma velha canção anarquista

I
Em lómuè, que é a língua que se fala na Alta Zambézia, onde nós vivemos antes, chama-se aos brancos mucunhas. Mucunha, curiosamente, não tem nada a ver com a cor branca, que em lómuè se diz otchela, mas quer antes dizer “patrão” ‒ que é, como presumo que saibam, uma forma normal de tratar um branco em Moçambique*. Ora, porque não quer dizer “branco” mas sim “patrão”, a palavra mucunha não se aplica só a pessoas de pele clara, e eu sei de casos de moçambicanos negros que, pelo seu estilo de vida, eram tratados por mucunha ‒ e não gostavam. E eu compreendo, porque eu também não gostava nada, quando cheguei a Moçambique, que me tratassem por patrão e arriava sempre a giga quando alguém o fazia. Quer dizer, continuo a não gostar, mas há muito que desisti de barafustar por causa disso. Para quê?, se é uma guerra perdida à partida:
“Patrão, não! Eu não sou seu patrão, porque o senhor não trabalha para mim…”
“Patrão?...”
“Estou a dizer que não sou seu patrão. Pago-lhe algum salário? Patrão é quem lhe paga salário.”
“Está bem, patrão.”

Se eu desisti ao fim de pouco tempo, conheci quem, ao fim de cinco décadas e tal de vida em Moçambique (toda a vida, entenda-se), tivesse firmeza ideológica ‒ ou teimosia... ‒ suficiente para continuar a recusar ser tratado por patrão: houve a certa altura em Molócuè um senhor, branco de pele e frelimista dos antigos (“eu sou da Frelimo do Samora, não é desta que há agora”, dizia ele a rimar sem querer…), que, enquanto foi gerente de uma pensão que havia lá onde nós morávamos, proibiu expressamente os empregados de lhe chamarem patrão a ele, “porque [ele] era só o gerente da pensão, o patrão estava em Maputo e eles nem sequer o conheciam e, além disso, nem era patrão nenhum, era uma patroa”, e também de chamarem patrão fosse lá a quem fosse, pronto! Se essa proibição era, aos meus olhos, bastante louvável, havia quem pensasse de outra maneira e o administrador do distrito, quando lhe vieram queixar-se do excesso de ideologia do gerente da pensão, quis falar com ele, para lhe explicar que, bom, enfim, algumas pessoas não levavam a bem aquela proibição, e que era normal em todo o lado chamar patrão às pessoas, e que não valia a pena insistir numa coisa daquelas… Frelimista que era, à antiga, e por isso incapaz de desrespeitar uma autoridade estatal, o tal senhor gerente retirou, muito contrariado, muito zangado mesmo, a proibição e tudo voltou ao normal: “sim, patrão”, “não, patrão”, “diga, patrão”…

II
Tenho uma t-shirt preta com a palavra mzungu escrita a letras brancas. Foi uma prenda da minha mulher, que a comprou numa das suas últimas viagens de trabalho, penso que num qualquer aeroporto no Quénia ou na Tanzânia. Mzungu é a palavra suaíli que se usa para designar os brancos**, de maneira que quase nunca uso fora de casa essa t-shirt, porque não me sinto à vontade em ostentar assim a minha condição de branco, mas, no domingo passado, por descuido, levei-a vestida quando saí com a família e um amigo para almoçar fora. Fomos a um restaurante que há ali à saída da cidade, que é de um português e que, ao que me dizem, costuma ser frequentado por uma parte da comunidade portuguesa de Chimoio. É certo que a maioria dos portugueses são mzungus, mas a t-shirt não era, obviamente, a mais apropriada para a ocasião. Naquela situação, melhor do que uma camisola a dizer mzungu, pensei eu, era ter uma camisola do Leixões, como um tipo que eu conheci há muitos anos em Bordéus, que se surpreendeu muito quando, em plena rua de Ste. Catherine, me dirigi a ele em português: “Eh pá, mas como é que tu sabias que eu era português?” As palavras são como as cerejas, é bem verdade, e onde eu já vou!… Com camisola de mzungu ou sem ela, os meus pruridos identitários, chamemos-lhe assim, não me impediram, quando chegou a altura de escolher o almoço, de optar por um cozidinho à portuguesa, que é uma coisa que nem todos os dias se pode comer em Chimoio…

Quando se vive fora do seu país, a nacionalidade pode ser, às vezes, uma armadilha. Outras vezes é um peso. É uma armadilha quando uma pessoa começa a relacionar-se com outra porque tem em comum com ela a nacionalidade ‒ e só isso ‒ e se arrepende depois de o ter feito… E é um peso quando não queremos identificar-nos com o comportamento da maioria dos nossos compatriotas no lugar onde estamos… Mas enfim, não há nada fazer. Quando me perguntam qual é a minha nacionalidade, tenho de responder que sou português, porque é português que eu sou. Mas costumo acrescentar: “Ninguém é perfeito, sabe?…”

Já o meu amigo que estava a almoçar connosco tem mais dificuldade em atribuir-se a si próprio uma identidade nacional. “Os meus pais são belgas”, costuma ele dizer, “e eu também tenho um passaporte belga, mas não sei bem o que sou…”. Conheço muitas pessoas como ele. Eu próprio, que não tenho dúvidas de que sou português, não me sinto seguramente tão português como outros portugueses que há. Provavelmente, não sou mesmo tão português como outros portugueses que há. E se digo provavelmente é só porque não sei ao certo como se define a propriedade ser português. Há o passaporte, pois, e deve haver mais do que isso, mas o quê?

Numa coisa estamos de acordo, o meu amigo belga e eu, na conversa que surge durante o cozido (ele também escolheu cozido, se calhar por não haver carbonade…): fazem-nos falta a todos nós amigos e companhia, porque a solidão é a mais terrível doença de que pode padecer um ser humano, mas a necessidade de raízes e de identidade, nacional ou outra, é um mito. Há muito quem apregoe a importância da consciência das “raízes” e do fazer-se parte de uma comunidade, há muito quem queira convencer-nos de que o que é natural, e por isso, indispensável, é fazer parte de uma nação, um clã, uma tribo ou uma religião, há muito quem passe a vida a publicitar o sofrimento daqueles a quem a vida nega a possibilidade de viver entre “os seus”, mas, é curioso!, conheço gente “desenraizada” e “apátrida” em maior e menor grau e nos “desenraizados” e “apátridas” que conheço não noto nem nunca notei problema nenhum ‒ contanto que, claro está, assumam a sua condição de não serem portadores de uma identidade clássica. Evidentemente, se um português insistir em sentir-se exclusivamente português (entenda ele como entender a sua portugalidade) e em fazer do que é característico do seu Portugal condição indispensável de felicidade, há-de passar uma vida contrariada em qualquer sítio que não seja esse seu Portugal. Mas a quem se disponha apenas a viver a vida que tem ‒ como ela é ou mesmo contra o que ela é, não importa ‒ sem se deixar aprisionar em ilusões identitárias, o pretenso desenraizamento e a falta de um sentimento de identidade étnica ou nacional não causam sofrimento nenhum.

Até porque, é aqui que eu queria chegar, a condição mais ou menos desenraizada, mais ou menos apátrida, mais ou menos isso tudo que lhe queiram chamar, de quem não se deixa prender em identidades simples e tradicionais pode ser uma abertura a identidades novas, que, conforme o seu grau de abrangência, podem ir desde não serem nem melhores nem piores do que as restantes até fazerem mais sentido do que quaisquer outras: se a identidade a que se acede é a dos portugueses ou dos belgas emigrantes, a queixarem-se em conjunto tanto da vida no seu país de origem como dos defeitos do país onde vivem, pouco se saiu, ou nada, do estado mais primário e mais comum de identidade; se a identificação for sobretudo com os outros “desenraizados” ou “apátridas” (por exemplo, entretidos à volta de um cozido à portuguesa a discutir o mito da necessidade de identidade...), também não se avançou muito mais; mas se se conseguir deitar às urtigas essas e outras identidades de grupo restritas, passa-se a fazer parte, sem ter sequer de se pensar nisso, do único círculo de identidade que parecer fazer verdadeiro sentido ‒ o que inclui toda a gente sem excepção.

Ou, como diz a velha cantiga de Pietro Gori, “Nostra patria è il mondo intero / nostra legge è la libertà...

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* Se bem que agora a forma boss ou boiss (mais, como direi?, globalizada…) comece a competir muito com patrão
** A informação que me deram é que a palavra deriva de um verbo que significa “andar às voltas” e usava-se originalmente para descrever os comerciantes brancos… que andavam de um lado para o outro. A wikipédia em inglês concorda com esta proposta etimológica.

1 comentário:

maria pandilha disse...

sim, patrão!