19 de abril de 2009

Iberia felix: o português e o castelhano

Tivemos noutro dia aqui a jantar em casa uma convidada norueguesa e a conversa foi parar à língua, que é, como se sabe, tema típico de jantares com pessoas que não se conhecem. Os miúdos tinham dificuldade em compreender o norueguês da senhora, por muito que as palavras que ele usa sejam, objectivamente, quase iguais às do dinamarquês deles, e preferiam falar com ela em inglês. A Karen (a minha mulher) insistiu, porém, com o Alexander (o meu filho mais velho) que ele tem de se abrir ao norueguês e ao sueco, porque, diz ela, basta uma pessoa alterar só um bocadinho de nada a sua “configuração mental” para compreender tudo. Então, se são línguas praticamente iguais…

Num texto comentado aqui na Travessa, Vital Moreira faz a seguinte pergunta: “Será que ainda partilhamos uma mesma língua quando a comunicação oral deixa de ser possível entre os seus falantes?” A questão é interessante e pode bem ser que eu um dia escreva alguma coisa sobre ela. Hoje, porém, o que faço é apenas virá-la ao contrário: “Será que se falam duas línguas diferentes quando a comunicação oral é possível entre os falantes dessas línguas?”

Quantas línguas há no mundo? As respostas a esta questão aparentemente simples variam muito e eu já vi números entre 3000 e 6000. “Como é possível uma variação tão grande nas respostas?”, surpreender-se-ão muitos. Bom, é que não há acordo nenhum em relação a como dividir as línguas, a onde acaba uma e começa a outra. Essa divisão só é fácil quando se usa um critério político em vez de linguístico. Lembro-me de que uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar linguística foi que “uma língua é um dialecto com um exército”. Se Hamburgo e Munique não fossem na mesma nação, muito provavelmente não se consideraria que se fala a mesma língua nos dois sítios... Há mais diferença entre certos dialectos noruegueses do que entre o bokmål standard (uma das 2 línguas oficiais daquele maravilhoso país) e o dinamarquês, por exemplo. E milhares de etcs. Basicamente, tudo depende daquilo que queiramos destacar e usar como critérios de distinção entre duas línguas ou dois dialectos, mas, como eu não quero dar uma seca a ninguém (a quantidade de texto que acabo de apagar de um golpe de delete é um sinal claro, infelizmente invisível aos demais, das minhas boas intenções), passo-lhes por cima e vou directo onde queria, que é ao espanhol.

Sim, porque este texto é um texto sobre o espanhol e é o que se pode chamar um texto com óbvias intenções mediáticas (credo!). Depois de uns quantos posts de conversa esquisita, em que nem eu próprio sei aonde quero chegar, eis agora um texto limpinho e claro (?) sobre a maravilhosa língua que fica mesmo ao lado da nossa.

Ou será apenas outra variante dialectal da mesma língua que nós falamos? Bom, podem fazer a experiência que eu fiz um dia: abrir ao calhas um dicionário de espanhol e ver, das palavras da página onde foram parar, quais é que não existem em português. Não é uma experiência com validade científica (pode ser, se a repetirem muitas vezes...), mas dá-vos uma muito boa ideia da proximidade do castelhano e do português. Nas 147 palavras entre disconforme e distanciar do dicionário que eu consultei quando a fiz, só 9 (6,2%) é que não correspondem muito directamente a palavras portuguesas. Em francês e italiano, no entanto, já a percentagem de diferenças que constatei com o mesmo método era muito maior, de cerca de 28 e 29% respectivamente.... A verdade é que o vocabulário é todo tão parecido em toda a zona de fala ibérica que são só umas quantas palavras que definem a área de cada língua.

“Onde é que este tipo agora quer chegar com isto? Quer-nos ele convencer de que o espanhol e o português são iguais ou quê?” Qual o quê, longe de mim tal ideia. Não quero convencer ninguém nem disso nem do contrário, se bem que o que se segue possa fazer crer que quero precisamente provar o contrário. Eis uma parte (ínfima, que isto é um blogue…) de um compilação de diferenças que, no meio das semelhanças, existem entre o português e o castelhano [a quem quiser uma coisa mais completa, posso mandar-lhe, é só pedir por boca, como se costuma dizer]. Dito de outra maneira, o que eu quero mostrar é que o castelhano é uma língua muito traiçoeira e especialmente para os falantes do português. Se uma pessoa não se põe a pau quando se aventura pela língua vizinha, de vez em quando sai asneira. E só de, muito filialmente, se fiar na sua mãe língua…

Vejam as diferenças de género, por exemplo. Tenho registadas 92 palavras iguais ou quase iguais, mas com género diferentes nas duas línguas. Não se esqueçam, por exemplo, de que cume, lume e legume (cumbre, lumbre, legumbre) são, em espanhol, tão femininos como vislumbre pode ser; que há conductos e não condutas de água; e que, para ficar por palavras corriqueiras, são femininas, por exemplo, alerta, masacre, miel, nariz, sal, sangre e señal, já para não falar de nada – sim, do nada, o vazio, que não é *el nada que se diz, mas la nada. Ao contrário, isto é masculinas em espanhol e femininas em português, temos, para além das palavras em -aje que correspondem às nossas em -agem e das palavras em -or, como color ou dolor, por exemplo, origen e partido, mesmo que não seja político mas sim… de futebol. E são muitas vezes masculinas, se bem que não forçosamente, palavras como frente, lente, orden e arte, o que chocou muito o meu irmão quando o descobriu: “Arte, uma palavra masculina? Como pode ser isso?, se é óbvio que a arte é algo feminino”, dizia ele. A mim, surpreende-me mais que sejam masculinos un pétalo de uma flor e un vals de Strauss, mas enfim, isso sou eu... E bem vistas as coisas, se um esporo é una espora, quase como que para espicaçar cavalgaduras, porque não há-de uma pétala ser pétalo?

Também há diferenças no lugar do acento tónico em palavras que, tirando isso, são perfeitamente iguais, como herói, que em espanhol é héroe e polícía, que se diz policía, além de, por exemplo, maquinaria (pronunciado [maquinária]), democracia [democrácia], aristócrata e límite. Estas diferenças causam sempre alguma estranheza aos falantes da outra língua, mas não tanto como certas trocas de lugar de sons dentro da palavra que ocorreram num idioma ou no outro (mais em português...), que fazem com que se diga em espanhol, apio em vez de aipo, barrio em vez de bairro e, por exemplo, gaviota, novio, disfrazar, cocodrilo ou cangrejo.

Depois, claro, há os falsos amigos, que são muitos. Uns são bastante conhecidos, como experto (“perito”), exquisito (“requintado, delicioso”), largo (“comprido”), oficina (“escritório”), presunto (“presumido, presumível”), propina (“gorjeta”), rato (“momento”) e salsa (“molho”), mas outros menos. Só para vos dar um cheirinho da minha lista de falsos amigos, que nunca pára de crescer, tomem lá alguns outros exemplos de provável confusão:

Lembro‑me, por exemplo, de o meu amigo Cristovam voltar do supermercado com o que pensava ser um pacote de manteiga e que era, afinal, banha, e que, dada a nossa triste condição económica, tivemos de usar para barrar o pão, pois então… Era o nosso segundo dia em Espanha e ele não sabia que manteca quer dizer “banha”…

Também me lembro de ver uma vez , numa revista de música, um artigo sobre o Jimi Hendrix, obviamente (mal) traduzido do castelhano em que se dizia que ele tinha uma guitarra especial… porque era surdo (!). Isto porque o tradutor, se é que se pode usar tal designação, não sabia que zurdo quer dizer “canhoto”.

Lembro-me que a minha mulher, quando chegámos à Bolívia, ficou muito surpreendida quando alguém lhe disse que tinha ido ao médico para tratar uma moela – porque não sabia que muela quer dizer “queixal, molar”. E também haviam de ver a cara dela quando alguém a informou que Camargo, a vila onde nos íamos instalar, era uma terra com muito polvo. «Como é que isso pode ser, se fica a 700 km do mar?» Tive então de lhe explicar que polvo significa “pó”.

Bom, estas são situações reais. Mas é fácil imaginar outros possíveis desentendimentos. Numa sala de aula, por exemplo, imaginem o que é que se passa na cabeça de um aluno de língua portuguesa, se o professor lhe pergunta se pode borrar o que está escrito no quadro ou se diz que lhe vai dar uma tareia. Passados uns primeiros segundos de espanto (a propósito, espanto em espanhol, quer dizer “temor” ou “terror”…), o tal aluno provavelmente acaba por perceber que borrar quer dizer “apagar”, mas já lhe será mais difícil perceber que tarea quer dizer “tarefa” e que, portanto, o que o professor lhe quer dizer é que lhe vai dar um trabalho para casa…

Imaginem também que vos convidam para ir ao teatro, para ver a peça do palco, isto antes de saberem que palco quer dizer “camarote”…

Uma situação em que vale a pena não ser muito impulsivo é aquela em que um falante do espanhol vos ofereça uma galheta – em vez de responder logo com um murro ou um pontapé, agradeçam e aceitem ou não consoante a fome que tenham: galleta significa “bolacha, biscoito”.

Não digam nunca a ninguém (nem de ninguém) que é engraçado, porque engrasado quer dizer “engordurado” ou “lubrificado”.

Da mesma forma, numa loja de móveis, não digam à empregada que andam à procura de cadeiras, ou que gostam muito das cadeiras que ela ali tem, ou que queriam ver cadeiras, que é coisa para ela levar a mal: cadera quer dizer “anca” e refere‑se muitas vezes não só à anca propriamente dita mas também aos seus arredores.

Tenham ou não possibilidades de nos induzir em erro, estes falsos amigos não deixam nunca de nos surpreender ou de nos dar vontade de rir, como quando ouvimos falar de azeite a propósito de óleo de motor (aceite quer dizer “óleo”, qualquer, nem que seja lubrificante) ou chamar escoba a uma vassoura, tacho a um bidão ou a um balde grande, vaso a um copo, cremallera a um fecho éclair, estufa a um radiador ou prenda a uma peça de vestuário. Há, ainda assim, coisas que têm a sua lógica: por exemplo, não me surpreende por aí além que se chame ganancia (pronunciar como “ganância”) ao lucro, presupuesto a um orçamento ou logro a um resultado. O que é mais esquisito, pelo menos para mim, é saber que boato quer dizer “ostentação”, que brinco quer dizer “pulo, salto”, que cimiento quer dizer “alicerces”, que estafa quer dizer “fraude” e, sobretudo, que sótano quer dizer “cave”…

Felizmente, do castelhano vem-nos mais do que falsos amigos. Vêm-nos amigos de verdade. A quem preconceituosamente me diga que de Espanha não vem nem bom vento nem bom casamento, eu direi apenas que as palavras que de lá têm vindo são quase sempre deliciosas, como pecadilho e outras simpáticas palavras em -ilho e -ilha: a mantilha, por exemplo, e a baunilha (que, se tivesse tido de se aportuguesar, ou tinha ficado vagenzinha ou vaginha (vainilla é “vagem pequena”) ou se latinizava em vagina…). Mas também brio e chaval, duas palavras cheias de pinta … E hediondo, que não nos demos ao trabalho de adaptar para *fedondo e ainda bem!”

Agora, para terminar, quero só recordar que, ao contrário do que pretende a minha mulher, pode não ser muito fácil mudar a sua configuração mental para compreender uma língua que, felix Iberia!, é quase igual à nossa. Lembro-me de que, da primeira vez que fui a Madrid, com o meu amigo Cristovam, chegámos à gare de Atocha por volta da uma da manhã e que, logo à saída da estação, o Cristovam perguntou a um tipo que ia a passar se ele sabia de algum sítio para dormir.
“Há aqui um sítio para dormir?”, perguntou ele, exactamente assim com estas palavras. Mas o rapaz não o percebia:
“No te entiendo!”
E o Cristovam repetiu a mesma frase, só um pouco mais devagar, “Há â-qui um sí-tiu pâ-râ dur-mir?”, mas sem melhores resultados – o rapaz continuava a no entender. Até que o Cristovam teve uma inspiração – é claro que o problema não era o débito, mas sim a abertura das vogais! E espanholou:
“Há àqui um sítiò párà dòrmir?”
O outro que sí, que ahora entendía: “Ah, si hay aquí un sitio para dormir...”

Por estas e por outras é que há muitos portugueses que se insurgem contra a “falta de jeito” para as línguas, senão contra a “má-vontade”, de espanhóis, ou brasileiros, que “não nos querem entender”. Então, se nós os entendemos a eles!... A verdade é que uma pessoa de língua materna castelhana, ou um brasileiro, tem interiorizado um sistema de vogais que é, em abstracto, praticamente igual ao do português europeu: A, E, I, O, U. Mas, no plano fonético, é tudo muito diferente, sobretudo porque o português europeu tem uma pronúncia muito relaxada das vogais átonas, quer dizer, as que não estão na sílaba acentuada. Um brasileiro ou um hispanófono não têm a mínima possibilidade de ouvir as vogais átonas, ao passo que, para um português, não dificulta em nada a compreensão que elas sejam pronunciadas mais abertas do que nós as pronunciamos. Como exemplo, tomemos desesperar que é composto das mesmas unidades em castelhano e em todo o português: /DESESPERAR/. No entanto, a redução das vogais átonas faz desaparecer, na fala portuguesa europeia, os três /E/ átonos. Como é que alguém que ouve [dzšprar], quer dizer, cinco (!) consoantes seguidas, pode reconstruir as unidades não pronunciadas? A única coisa que essa pessoa pode fazer é mesmo desesperar perante o “eslavismo” de uma língua que não deveria, em princípio, ser muito diferente da sua – para ela, se não é chinês, aquilo, pelo menos é russo…

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