9 de abril de 2009

Sobre a abertura dos oo, o dinheiro no Zimbábuè e o salão de chá do Tony

Depois de uma série de textos assim um bocado a fugir (muito trabalho...) e de uma volta pelo Zimbábuè, com um fim de semana em Vumba e uma consulta no dentista em Chinhoyi, voltamos a coisa séria (coisa séria? “seria?”, como diria Alexandre O’Neill… da poesia).

Uma longa viagem de carro é, como todos sabem, uma oportunidade privilegiada para ouvir música e o mais que lhe venha agarrado. A pronúncia dos oo átonos, por exemplo. Interroguei-me uma vez aqui na Travessa do Fala-Só sobre a razão da abertura dos oo átonos na pronúncia de muitos moçambicanos e avancei com a hipótese da influência da grafia. Como isto dito assim é pouco convincente, proponho-vos a leitura desse texto, onde está a ideia mais bem explicadinha. Agora, sem querer aqui deitar fora essa hipótese, que é capaz de ser pertinente nalguns casos, quero acrescentar-lhe outra explicação possível para a abertura dos oo átonos e provavelmente coexistente com a primeira, que me surgiu na viagem a caminho do dentista:

Os nossos filhos foram connosco e estreei nessa viagem uma cassete com uma compilação que tinha feito umas semanas antes de hits infantis cá de casa. Entre esses êxitos, chamou-me a atenção uma canção de um grupo de crianças de Maputo. Não a canção propriamente dita, mas a pronúncia dos miúdos que a cantam. São crianças da capital, se não de língua materna portuguesa, pelo menos muito expostos a ela. Têm, é claro, uma pronúncia muita aberta dos aa, e um l pronunciado muito à frente, alguns traços que muitos portugueses reconheceriam como “sotaque africano” sem saberem especificar de onde, mas não têm nada daquelas pronúncias estranhas dos oo átonos: todos os oo átonos da canção são pronunciados [u], exactamente como se pronunciam no português standard europeu e no português dos moçambicanos mais velhos de língua materna portuguesa. Todos... excepto dois. O o de jogar e o o de tocar são pronunciados abertos: [tòcar] e [jògar]. A hipótese da influência da grafia de uma língua essencialmente escolar pode, neste caso, pôr-se de lado à partida, porque senão, por exemplo, boneca seria também [bòneca] e não é. Então?

O que distingue os oo de tocar e jogar de todos os outros oo átonos que aparecem na canção é que, sem mudar de lugar na palavra, digamos assim para simplificar, podem às vezes ser tónicos e, por consequência, abertos: eu jogo, tu jogas, eu toco, eles tocam. Quer dizer, a pronúncia aberta destes oo resulta muito provavelmente de uma generalização tomando como base a forma do presente do indicativo e do conjuntivo. O que eu não sei é por quê. Pode postular-se que as formas do presente ocorrem mais e que, por isso, é o seu o aberto que serve de modelo a formas menos ocorrentes, como o infinitivo em questão. Se não houver um sistema interiorizado, é natural que a pronúncia da forma com maior ocorrência prevaleça como “norma”. É uma possibilidade, se bem que relativamente fraca. Outra possibilidade é que haja alguma coisa do sistema das línguas bantu a influenciar – ou até determinar – esta generalização. Custa-me imaginar que tipo de influência possa ser, mas isso não é de espantar, porque eu não sei absolutamente nada sobre as línguas da região. E deve haver outras possibilidades que não consigo agora vislumbrar...

Isto era sobre oo. Quanto ao Zimbábuè, está diferente. Da última vez que lá tínhamos estado, em Novembro, parecia um país fantasma, sem vivalma nas ruas e quase sem carros na estrada, as lojas completamente vazias, desolação, tristeza. E raivas, seguramente… Agora, é já um país normal outra vez, ou quase, com produtos à venda e gente que os compra, gasolina nas bombas e crianças a caminho da escola. Os preços estão altos, mas parece que estão a baixar rapidamente e há esperança de que, dentro em breve, voltem quase ao normal.

Quando se pede às pessoas explicações de tão grande transformação, ninguém dá como causa imediata as mudanças políticas dos últimos tempos. “Ah, isso não, isso não teve resultados nenhuns… Isto está melhor é desde que podemos pagar em dólares e em rands, isso é que veio mudar a situação…”

O único problema são os trocos, mas, para isso, os zimbabueanos também já arranjaram solução: no Zimbábuè, um rand é exactamente um décimo de dólar, e os trocos mais pequenos são sempre em rands. Como nem sempre chegam e se fica muitas vezes a haver o troco, há quem se dê ao trabalho de ir mesmo à África do Sul só para trocar notas grandes de rand em muitas notas pequenas. Isto é tudo sem decreto. Regras espontâneas, nascidas da prática das pessoas. Do dólar zimbabueano, se existe, ninguém sabe dele nem quanto vale agora – desapareceu completamente de circulação…

Indiferente à crise, a todas as crises, o famoso salão de chá do Tony, nas montanhas mágicas de Vumba, continua a servir todos os chás, cafés e cacaus que há (desta vez, provámos cacau com piripíri, uma mistura que se aconselha!) e o seu famoso bolo de chocolate. Como há uma boa dezena e meia de anos que o Tony não se cansa de explicar aos clientes, “o bolo de chocolate tem apenas quatro ingredientes além das nozes: chocolate, chocolate, chocolate e chocolate; pelo que, a quem escolher o bolo, não se aconselha beber cacau..” Sacré Tony, como diriam os franceses (isto está a tornar-se um hábito, hem?)

1 comentário:

C.C. disse...

Thank you so much for the update on Tony. I'm very happy and relieved to hear that he is doing well and still operating his tea house. He made a beautiful part of the world even more so with his hospitality. Take care.