3 de abril de 2009

Um blogue muito demand-driven: arenque de conserva e o alfabeto de Utopia

Ao contrário do que eu calculava em Novembro (um mês antes de ter posto o aparelhómetro do Statcounter e baseando-me apenas no número de comentários de pessoas desconhecidas), não é o primeiro texto sobre português de Lisboa o texto mais lido do blogue (nem o segundo), mas não há dúvida de que as pesquisas sobre o dialecto lisbonense, sob formas variadas (sotaque/dialecto/português lisboeta/de Lisboa), são as que mais pessoas trouxeram à Travessa do Fala-Só.

Além de me dar essa informação simples, a lista das pesquisas que trazem as pessoas a este blogue revela ainda, por exemplo, que há com toda a certeza uma grande percentagem dos utilizadores da Internet que não faz ideia de como fazer as suas pesquisas ou que toma o motor de busca por um interlocutor humano. Aparecem pesquisas como
os cientistas podem afirmar que o artista errou ao escolher a cor desses dinossauros e por quê?,
como se diz apenas eu em francês?,
em que parte do filme Apocalypto se apresenta a teoria etnocêntrica?,
qual é a transcrição fonética de cattle?
ou
como se escreve porque não há gloria sem sacrifício em inglês?
Às vezes, as perguntas, além de serem muito ambiciosas, são formuladas em estilo sms, como
de q fala a ciencia?,
e também chegam a aparecer injunções autoritárias, como
quero um desenvolvimento bem feito sobre romance
ou
quero saber como são pronunciadas agora algumas palavras que se diziam antigamente.
Se estes dois últimos pedidos são estranhíssimos, estão longe de ser os únicos. Há pesquisas mesmo muito esquisitas (!!!), como
africanos na América antes de Colombo,
texto bem comprido,
pontos fortes e pontos fracos segundo Oliveira,
sentimentos mais prováveis em cada fase da vida,
ou
quais são as preposições e contradições.
É também interessante notar que, de 244 pesquisas que aqui trouxeram pessoas desde meados de Dezembro, só em três se usam sintagmas específicos delimitados por aspas. Estranho…Pergunto a mim mesmo se estas pessoas encontrarão alguma coisa do que procuram… Espero que sim… E penso que um negócio em que eu me podia lançar era fazer cursos de como pesquisar na Internet.
E depois há pesquisas que nos deixam imaginar romances. Por exemplo:
mia kastrup caminho uruguay malveira da serra
A história que eu imagino logo é a seguinte:
Trata-se de um português que procura uma dinamarquesa chamada Mia, que conheceu no aeroporto de Kastrup, em Copenhaga. Iam ambos para Lisboa. Mia, que, curiosamente, falava bem português, até porque tinha estudado um ano no Porto, contou-lhe que ia passar uns dias a casa de uns amigos na Malveira da Serra, antes de continuar para o Uruguai, onde ia passar o resto das férias…. Quando se despediu de Mia no aeroporto de Lisboa, o rapaz (por timidez ou por não se ter dado ainda conta, nessa altura, dos seus sentimentos por ela) limitou-se a desejar-lhe umas boas férias, mas arrependeu-se, logo nessa noite, de não lhe ter confessado a sua paixão, e passou umas quantas horas na net a tentar encontrar-lhe o rasto… em vão.
Sejamos sérios, vá lá! Como o que agora está na moda é ser demand-driven, passo a responder a perguntas de duas pessoas que vieram a este blogue e que ficaram, com toda a certeza, frustradas por não obterem aqui nem vislumbre de resposta: Como fazer arenque de conserva? e O que significa o alfabeto da ilha de Utopia?
1. Como fazer arenque de conserva?
Já tinha prometido aqui falar de receitas de peixe cru, de maneira que calha mesmo bem este pretexto. Há dezenas, se não centenas de maneiras de fazer conservas de arenque. Uma muito simples, boa para gente preguiçosa como eu, é a seguinte:
Limpar o peixe, fazer filetes, e salgar com sal grosso, às camadas (uma camada de filetes, uma camada de sal…). Depois, guardar no frigorífico (bem tapadinho, por causa do cheiro, claro está). Se se vir que o peixe não larga molho, pode juntar-se um bocadinho da água. Também se pode juntar um bocadinho de açúcar, se se quiser (eu nunca ponho). Ao fim de três dias de salmoura, já se pode preparar o peixe. Mas, claro, também pode ficar assim muito mais tempo.
[Se não quiserem salgar o peixe antes de o trabalhar, e se ele estiver bem fresquinho, podem pôr-se directamente os filetes em água com vinagre, só, que, nesse caso é mais vinagre do que água: três partes de vinagre para uma de água e um bom bocado de sal. Fazendo assim, só se deixa o peixe nesta água 24 horas e depois tem de se o preparar.]
Quando se tira o peixe da salmoura, limpa-se-lhe o sal. Entretanto, preparou-se já um líquido à base de açúcar e vinagre: por cada ½ litro de água, que tem de estar a ferver para dissolver bem o açúcar, põem-se 100 gramas de açúcar. Quando arrefece a mistura, junta-se-lhe ¼ de litro de vinagre. Antes de se deitar este líquido sobre os filetes escorrido do sal, põem-se entre as camadas de filetes rodelas de cebola muito fininhas. Também se pode usar como tempero grãos de pimenta – e o mais que se queira, claro está, conforme o gosto de cada um (isto é o mais importante em qualquer receita).
Só assim, o arenque já está bom para comer logo ao fim de algumas horas de estar de molho na mistura agridoce, mas, é claro, podem fazer-se, e fazem-se muitas vezes, molhos sofisticados para lhe dar mais sabor – ou outros sabores, seja... Cá em casa (e em todas as casas onde há miúdos, acho eu), o molho favorito é um molho espesso de maionese com um caril suave e bocadinhos de maçã, por exemplo. Mas essa receita já é para outro dia…
Ah, e como já disse aqui uma vez, o que se faz com arenque pode fazer-se também com as muitas espécies que há de sardinha, com bons resultados.
2. O que significa o alfabeto da ilha de utopia?
Bom, o alfabeto não significa nada, é um alfabeto, mas sobre o texto escrito com alfabeto utopiense na Utopia de Thomas More, eis um excerto de um texto meu sobre as línguas das utopias:
As referências à língua da ilha de Utopia são, no texto de More, muito escassas. Apenas ficamos a saber que a língua (como as instituições e as leis…) é «perfeitamente idêntica» nas cinquenta e quatro cidades que constituem a república, que [p.105, A Utopia. Lisboa: Guimarães Editores, 1990] «os utopienses aprendem as ciências na sua própria língua, língua rica, harmoniosa, que é fiel intérprete do pensamento, e que se difundiu, mais ou menos alterada, por vasta extensão do globo» e que [p.119] «essa grande facilidade com que aprenderam o grego prova que essa língua lhes não era de todo estranha. Suponho-os de origem helénica; e posto que o seu idioma se aproxime muito do persa, encontram-se nos nomes das suas cidades e magistraturas alguns vestígios da língua grega».
É fácil verificar esta origem helénica do utopiense nas duas dezenas de palavras que vão aparecendo ao longo da narrativa de Rafael Hitlodeu, o navegador português que descreve a ilha: abraxa,..., pode bem ser apenas, como o leram alguns tradutores de More, uma latinização de abrakae, a-brakae, “sem calças”; os acorienos (archorium populus em latim) são o povo de Acoria, a-coria, “sem país”; Adamos,..., é provavelmente apenas ademos, a-demos, “sem povo”; Alaopolita é a fusão de alaos, “cego” com polites, “cidadão”; etc...
A edição Frobenius de Basileia de 1518 traz em apêndice, além do alfabeto utopiense, um pequeno texto nessa língua.
Segundo o prólogo da mesma edição, trata-se de um acrescento do editor, Pierre Gilles, ao texto de More. Não pude atestar a existência deste editor, podendo tratar-se apenas de uma estratégia retórica de More. Seja como for, esta “adenda” é perfeitamente coerente com o espírito da obra. Assumo, na esteira de Pierre-François Moreau [Le récit utopique, droit natural et roman de l'état. Paris: PUF, 1982] que faz parte integrante da obra Utopia. Eis a inscrição da autoria de Utopos, o fundador de Utopia, em utopiense, latim e português (a tradução em português, o mais literal possível para evidenciar a estrutura do utopiense, é minha):
Vtopos ha Boccas peu[/] la chama polta chamaan 
Vtopus me dux ex non insula fecit insula
Utopos de mim (?) General de não ilha fez ilha
Bargol he maglomi baccan soma gymnosophaon 
Vna ego terrarum omnium absque philosophia 
Só eu das terras todas sem filosofia
Agrama gymnosophon labarem bacha bodamilomin
Civitatem philosophicam expressi mortalibus

Estado filosófico exprimi aos mortais
Voluala barchin heman la lauoluola drame pagloni
Libenter impartio mea non grauatim accipio meliora
De boa vontade reparto (?) minha (parte [?]) não de má vontade aceito melhor (parte [?)
Não tenho a certeza de que haja uma correspondência assim, palavra a palavra, entre o texto utopiense e o texto latino. Mas esse perfeito paralelismo é bastante provável, já que o poema tem o mesmo número de palavras nas duas línguas e que as que são identificáveis (Utopos, os pronomes, as partículas de negação, o nome “filosofia” e os advérbios de modo do último verso) ocupam os mesmos lugares nos textos nas duas línguas.
Bem vistas as coisas, se tudo é assim tão da mesma forma – o que nunca acontece em duas línguas diferentes – é porque se trata, digamos...da mesma língua!
E pronto. Mais demand-driven do que isto, morre-se, como dizem os franceses… Quer dizer, alguns franceses…

5 comentários:

Anónimo disse...

porque a ilustração de Utopia é circular?

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Não compreendo bem a pergunta. A que ilustração se refere, caro anónimo?

Anónimo disse...

Por que a ilha, nessa ilustração, é circular ?

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Senhor Anónimo ou Senhora Anónima, explique lá o que quer, a ver se a gente se entende: "nessa ilustração" refere-se a que ilustração? Mais circular do que a ilha é esta conversa de malucos. Veja a última parte de um post mais recente que se chama "Miniposts de cocktail", talvez fique esclarecido ou esclarecida...

Camila Freitas disse...

Porque seus contornos circunscrevem outras formas de vida, uma realidade de um tempo e espaço tangíveis.