1 de maio de 2009

A espada é a lei: os heróis arcaicos do séc. XXI

Falo da ficção europeia e suas vizinhanças, que do resto não sei: É curioso que, ao longo da História, tenha mudado tanto a ideia de herói e, ao mesmo tempo, tenha mudado tão pouco...

No início, era herói quem tinha muita força e a protecção de alguma divindade; que matava monstros e toda a classe de inimigos, conquistava terra e fêmea e fundava linhagens. Depois, começou a exigir-se do herói alguma moralidade (primeiro, a moralidade cristã que era a que havia…) e o herói tornou-se meio santo. Deixou de poder pecar, e o que se louvava nele já não era apenas a capacidade de conseguir o que queria, mas o aderir a princípios e saber resistir a tentações. Continuava, no entanto, a andar a cavalo e de espada na mão, e a dar cabo de quem se lhe atravessava no seu heróico percurso. Mais tarde, entre clássico e romântico, apareceram-lhe outras qualidades: o conhecimento, a inteligência, a dedicação a uma causa, por exemplo nacional, ou a pureza de sentimentos e a entrega obsessiva à paixão. Deixou, nalguns casos, de combater de armas na mão, mas, em muitos outros, lá continuou, fiel a si próprio, a sair vencedor de batalhas navais, trocas de tiros e cenas de simples bordoada.

Desde aí, pouco mudou a aventura. E esse pouco foi voltar-se atrás e fazer-se reviver a epopeia antiga e a gesta medieval: porradaria de três em pipa, ora aí está o que é! Falo sobretudo de filmes, a forma de ficção actualmente mais divulgada. É certo que aos heróis das aventuras de hoje não bastam a força, a agilidade, as competências especiais, a esperteza ou o brilhantismo do raciocínio lógico – é preciso também terem razão e estarem do lado da justiça, seja lá ela qual for, senão não ganham. Mas, em 90% dos casos, a vitória é conseguida, em última análise, no campo de batalha. O que as histórias dão a entender é, quase sempre, que a superioridade moral, para se impor, precisa de ser acompanhada de umas boas dúzias de sopapos, quando não de apocalípticos cenários de destruição. E eu pergunto a mim mesmo por que raio nunca mais nos livramos desta componente arcaica da ficção…

A resposta que me dão muitas vezes é que somos mesmos assim. Dizem-me que são modelos inscritos muito fundo em nós, que evoluímos algures na savana africana para sermos caçadores e guerreiros. Pois, está bem, mas isso não nos impede de termos deixado de passar a vida à batatada uns aos outros. Se na vida real desapareceu a necessidade de se afirmar pela força, não há com certeza nada que impeça que essa necessidade desapareça também na ficção. Será essa violência ficcional uma maneira de lidar, da forma menos violenta possível, com a violência natural que somos agora obrigados a reprimir*? Há quem diga que sim, mas há também quem diga que o resultado mais imediato da violência nas histórias que nos rodeiam é servir de modelo a uma violência menos ficcional do que ela. Se calhar – é uma experiência que se pode fazer, se houver vontade – ganhávamos alguma coisa com resolver de outra maneira os conflitos de ficção, como temos ganho com a instituição de maneiras de resolver os conflitos da nossa vida real que não sejam só ir da boca às mãos. Se calhar, digo eu, porque não posso ter a certeza…

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* Afinal, sou exactamente como os filmes que critico: irra, que é muita violência numa frase só!

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