19 de maio de 2009

Louvor de Paulino António Cabral e de uma vida boa

Jacinto do Prado Coelho disse do poeta Paulino António Cabral, muitas vezes referido como Abade de Jazente:
Os versos d[ele] não valem muito pela qualidade poética (…), mas não deixam de ser literatura cativante, injustamente obliterada.
A não ser que nos atenhamos a uma concepção altamente formal de “qualidade”, não percebo bem o que é preciso mais, para definir a qualidade poética de um texto, do que ele ser, precisamente, literatura cativante... Para mim, Paulino António Cabral é apenas um poeta sério e, nisso estou de acordo com Jacinto do Prado Coelho, injustamente esquecido. Acho que deve dedicar, quem não o conhece, algum tempinho que arranje a conhecê-lo; por exemplo, numa página que lhe é dedicada pelo senhor Arlindo Correia (onde eu fui buscar, precisamente, a citação de Jacinto do Prado Coelho que acabo de referir). E deixo-vos aqui um poema de Paulino António Cabral, para os que o não conhecem decidirem se têm ou não vontade de o conhecer. Em 1784, com 65 anos de idade e já doente, escreveu ele:

Eu, que junto à cabana, em que vivia,
Tive uma rica rrmida; e afortunado
Ovelhas tantas tive, que o montado
Com elas branquejar alegre via;

Eu, que tive prazer, tive alegria,
Tive nome entre os mais; eu desgraçado,
De quanto tive agora despojado,
Não tenho nada mais, que a noite, e dia;

Eu mesmo deixei tudo; e unicamente,
A saudade nos cofres da memória
Com desvelo guardei, mas imprudente;

Pois lendo nela a minha triste história,
Me fazem ser mais duro o mal presente
Doces lembranças da passada glória.

Tinha prometido já não falar aqui de literatura e não o faria se não trouxesse a literatura agarrada a ela outra coisa qualquer. É tão impossível como irrelevante saber o que há de expressão de uma convicção, neste poema, ou de procura apenas de efeito literário. O facto é que, entre outras coisas, o poema diz uma ideia e pode-se discuti-la (sou daquelas pessoas antiquadas que acham que a literatura serve para transmitir ideias e que é esse um dos seus aspectos interessantes; e que se podem discutir as ideias que se encontrem num poema, exactamente como as que se encontrem noutro texto qualquer...).

Poderia argumentar que o problema do sujeito do poema não é a “passada glória”, mas a fonte dessa glória; poderia repetir aqui que prazer e alegria não têm nunca satisfação e não trazem nunca satisfação; que de fortuna e nome pouco fica que nos valha quando deixamos de os ter; que, se fossem as doces lembranças de acções concluídas, se fosse a “passado glória” feita de obras feitas, não haveria saudade que o magoasse, até porque não haveria de que ter saudade. Mas não é por aí que quero ir, até porque isso já eu escrevi aqui uma vez. O que eu queria dizer é só que, independentemente do que se tenha feito na vida, é uma sorte, precisamente, poder lembrar-se de ter tido, pelo menos, alguma coisa de seu, prazer e alegria; porque terrível de facto há-de ser olhar para trás e não conseguir recordar senão o contrário de tudo isso... E há muita gente, estou eu convencido, que não encontra muitos prazeres de que ter saudade no fim da vida...

Mas claro, é mais fácil ser-se assim optimista em relação à velhice antes de lá chegar do que depois de lá ter chegado. Eu em lá chegando (já faltou mais...), depois digo-vos se mudei de opinião, sim?

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