8 de maio de 2009

Miniposts de cocktail 2

Analfabetismo 1: É muito estranho...Ontem dei-me conta de que não consigo compreender bem o artigo “Teoria da relatividade” da Wikipédia. Tem coisas que compreendo, outras que mais ou menos, e outras aonde não chego. Pode ser falta de entendimento, no sentido mais normal da expressão, mas é natural que seja pura e simplesmente falta de conhecimento. E é muito estranho… Eu, que até fui educado para “cientista”, vejam lá vocês, sou praticamente analfabeto em áreas como matemática e ciências naturais. É muito estranho… Faço parte dessa muita gente que há – uma grande parte da população educada do mundo, estou eu convencido… – que até sabe alguma coisinha de várias coisas, mas pouco ou nada sabe das leis que governam o universo…

Agora, feliz ou infelizmente – risquem o que não vos interessar –, não faço parte do grupo de gente que se indigna (é muito estranho...) quando alguém com um bocadinho de bom senso chama a atenção para o óbvio: que mais importante do que estudar as grandes epopeias é, hoje em dia, adquirir noções sólidas de matemática, física, química ou biologia (Steven Pinker acrescentaria estatística e economia à lista das prioridades), … que permitam, por exemplo, compreender a entrada “Teoria da relatividade” da Wikipedia…

É grave, o analfabetismo científico? Não sei se grave é a palavra certa… É um bocado triste, isso sim. Para mim, é. E digamos que dificulta a vida. Cria algumas incompetências, alguns desperdícios, algumas frustrações. Para mim, o importante nem é tanto sabermos todos discutir se o Grande Colisionador de Hadrões pode realmente criar buracos negros que nos suguem a todos (se bem que haja muitas questões técnicas de que era útil que houvesse maior entendimento por mais gente, numa altura em que andam por aí tantos debates interessantes e importantes sobre ambiente e bioética, entre outros…); para mim, o importante é mais termos todos uma ideia razoável de quando e como utilizar os serviços médicos, por exemplo…

P.S. Aconselho a leitura dum texto em que, em 1991, John Brockman, o director do site Edge, fazia o ponto da situação da relação entre cientistas e restantes intelectuais, e entre ambos estes grupos e o grande público. O texto diz respeito à situação nos EUA, mas cada um pode partir dele para uma reflexão sobre a situação nos países que conhece. Uma pessoa deve também interrogar-se sobre a evolução da divulgação científica e das relações entre a comunidade científica e os outros literato de 1991 para cá, nos EUA e no seu país – a situação é ou continua a ser como Brockman a descreveu neste texto? Eu acho que sim e que a desesperada atitude de muitos literatos à antiga em relação ao cânone cultural é um bocado como a que têm alguns franceses em relação à sua língua, recusando-se simplesmente a aceitar que o francês já não é uma língua realmente importante ao nível internacional…

Analfabetismo 2: Grande alogossilábico que o gajo me saíu…
É triste não saber ler, dizia uma cantiga da Banda do Casaco, e é bem verdade. Na China, por muito que o último relatório desenvolvimento humano do PNUD diga que tem uma literacy rate de 90,9, em sentido estrito nunca se colocou o problema do analfabetismo, porque os chineses não escrevem com alfabeto. Há é 10% de alogossilábicos ou de assinógrafos, uma coisa assim…Gostaram? Fui eu que inventei.

Eu sei que não se brinca com coisas sérias, mas aonde eu quero chegar é que talvez não fosse má ideia inventar palavras mais gerais do que alfabetizar, alfabetização e analfabetismo, porque às vezes pode dar jeito…. Nem sei como é que não houve ainda alguém (se calhar, já houve...) a acusar de etnocêntrica a maneira que nós temos de designar o saber ler e escrever...

Quem meter mãos a essa tarefa aproveite, já agora, para tentar arranjar também uma boa maneira de referir, com uma palavra só, como o inglês numeracy, as competências aritméticas elementares. Os tradutores agradecem.

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