6 de maio de 2009

Miniposts de cocktail

Vicunhas e carapaus
O português é, como se sabe, uma língua muito rica. Tem palavras como taperebá e malambe, que, ao que sei, não têm correspondente em lituano nem em tagalo. Só que, às vezes, o português exagera um bocadinho na riqueza. Por exemplo, tem duas palavras para designar a vicunha, porque também se pode lhe chamar vigonho. Ora, se pode ser confuso ter uma só palavra para designar uma quantidade enorme de bichos, como pescada ou carapau, também faz confusão ter mais do que uma palavra para designar um bicho só. A solução simples que eu proponho é que se anule já e por decreto a palavra vigonho: se o bicho tem o nome científico Vicugna vicugna e se esse nome lhe vem, ademais, do nome que lhe dão em quéchua as únicas pessoas que com ele convivem, e se foi esse o nome que (escrito vicuña, claro está) passou para o espanhol, que é língua oficial de todos os países onde o bicho existe, além de ser língua irmã quase gémea da nossa, por quê e para quê insistir em chamar vigonho ao animal? E já terá alguém alguma vez usado uma palavra assim? Só alguém com muita chicha no bucho…

[A propósito de vicunhas: No planalto andino, chama-se vicunha a quem seja agarrado ao dinheiro. Para perceber o chiste, porque é chistoso o apodo, é preciso saber duas coisas: a primeira é que a vicunha tem uma lã muito apreciada, mas é difícil de tosquiar; a outra é que, em espanhol, se pode chamar, em calão, ao dinheiro. Então é por isso que um avarento é vicuña: porque es difícil sacarle la lana. Serve este delírio para dar a conhecer a quem siga o link da palavra lã o Diccionario de la Real Academia Española, que é um exemplo de um bom dicionário online e que é fixe ter nos favoritos, ou não?]

O Tear do Destino
Já encontrei quem achasse que o filme Wanted é um filme razoável de acção, mas que fica aquém da banda desenhada de Millar/Jones de que foi adaptado. Devo dizer que não conheço a banda desenhada, e que, portanto, não a posso comparar com o filme; mas, mesmo sem conhecer, acho bem terem desaparecido os fatos de super-heróis e acho que foi pena não terem desaparecido os super-poderes todos e os efeitos especiais, porque, na minha modesta opinião, o filme podia ter ganho muito com isso – porque o material de base do enredo é bom.

Um dos desvios do filme em relação à história aos quadradinhos é o Tear do Destino. A quem porventura não tenha visto o filme, explico que o Tear do Destino é um tear, um tear material, de verdade, que tece um tafetá sem fim em que, a espaços, aparecem erros de tecelagem. Lidos como código binário, os “erros” da tela dão de facto nomes de pessoas que os assassinos do Destino terão de matar antes que elas se tornem perigosas para os demais. Além dos superpoderes, podia deixar-se de lado também o moralismo e os nomes indicados pelo tear podiam ser só os nomes de quem o Destino mandasse matar, ponto, sem razão nenhuma. E ficava-se só com a ideia genial do Tear do Destino, que é daquelas ideias que toda a gente que goste de inventar histórias fantásticas gostava de ter tido, acho eu.

A língua de madeira do desenvolvimento
Não acreditar, como eu não acredito, que a língua modele o pensamento não implica de modo algum acreditar que a maneira de dizer as coisas não ajude a clarificar o que se pensa ou que, mais importante, não ajude a deixar em branco quem ouve o muito pouco ou nada que se tem para dizer. Como eu ganho a vida a traduzir textos de cooperação para o desenvolvimento (ou ajuda ao desenvolvimento, escolham o que mais vos agradar), é dessa área que tenho mais exemplos de como uma língua de madeira serve para fazer e esconder amálgamas e incoerência lógicas.

Bom, muito tem sido dito sobre o bizarro jargão do desenvolvimento e não quero fazer aqui um apanhado geral da coisa, porque isto hoje é um cocktail de textos pequeninos, e meter-me por essa língua dentro dá pano para outras mangas [Aconselho-vos, a propósito, uma secção de um texto de Mia Couto que aqui já citei uma vez, e que se chama (a secção) “Uma língua chamada desenvolvimentês.]

Uma das palavras que me diverte (?) é ensure, “garantir, assegurar”. Tudo o que se faz num programa ou num programa, numa sessão de formação, num estudo ou numa avaliação, seja lá no que for, é para “garantir” alguma coisa: para garantir o respeito de direitos, para garantir aumento de rendimentos e melhoria da condições de vida, para garantir igualdade de género. Etc. Era bom que fosse assim, não era?, que as actividade de desenvolvimento garantissem essas coisas todas…

Outra palavra candidata ao prémio da amalgamagem (que palavra bonita que eu inventei!) é corrupção. Que se tente moralizar um bocadinho onde há falta de moral, está para mim muito bem, mas, por favor, importa-se de me dizer de que está a falar, que é para eu ver se percebo qual é o problema? Roubo, fraude, desvios, desfalques, proveitos ilícitos, compadrios, nepotismos, tráfico de influências, extorsão, abuso de poder e até mesmo corrupção, vejam lá, há tantas palavras mais precisas e, como vêem, até as há a mais, de maneira que não custa nada dizer, em cada caso, de que se trata. Ou digamos antes assim: aquilo de que eu gosto menos é que se chame corrupção ao simples gamanço – e é, em muitos casos, de simples gamanço que se trata…

Por que é que a ilha de Utopia é circular?
 Acho que é um concurso que há algures, e que, eh pá!, nunca mais acaba... – continuam a vir aqui dezenas e dezenas de pessoas à procura de resposta para esta pergunta. Eis então a resposta: é porque circular é viver! Não gostam? Ok. Outra mais simples então: porque a utopia (qualquer utopia, todas as utopias…) é circular! Ou, se quiserem ver a coisa de outra maneira, circular ou quadrada pouco importa, o que importa é que a utopia tem de ser perfeitamente geométrica, porque ela é um ideal de perfeita racionalidade.

[O último a-propósito entre parênteses rectos: Uma coisa de que muita gente se esquece na discussão do modelo de relatos filosóficos inaugurados pela Utopia de More: as utopias são quase sempre erigidas a partir da dominação ou da destruição de povos “selvagens” que habitavam anteriormente as ilhas utópicas. A sufocante geometria das utopias é obviamente a negação do “natural” em todas as suas formas e as sociedades primitivas são, para os utopistas, umas das formas mais ameaçadoras do caos natural. O “pormenor” que acabo de referir revela que o discurso utópico traz agarrada à apologia da racionalidade, do condicionamento e da ordem, a apologia da dominação colonial.]

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