18 de junho de 2009

De cafres e Cafraria, rigor, ofensas e lexicologia

Recebi uma carta sobre a entrada aringa do meu glossário de Moçambicanismos em que uma pessoa, que aqui designarei por Vítor para facilitar o discurso, dizia que eu talvez não tivesse visto no dicionário Houaiss que a palavra é de origem cafre. Fiquei um bocado surpreendido com esta carta, que eu não compreendi bem aonde queria chegar, e respondi-lhe assim (modifico ligeiramente os textos, para tornar mais fluente o discurso):
Pelo que me diz, então, o Houaiss propõe, para a origem de aringa, o mesmo que o dicionário Porto Editora, que, como eu refiro na entrada do glossário, também propõe uma etimologia «cafreal». Cafre ou cafreal designa uma hipotética língua do povo de uma região designada como Cafraria. Ora, nos textos antigos, o termo Cafraria refere uma região muito extensa que se poderia definir como a parte conhecida pelos europeus da África Austral. Sendo assim, não é correcto falar de um povo «cafre», mas cafre designa antes, nesses textos, todos os habitantes da região, bantos ou san. É aquilo a que se poderia chamar uma amálgama étnica, talvez natural quando era tão pequeno o conhecimento desses povos por parte dos europeus, mas que não resolve o problema da origem «cafre» de nenhuma palavra, porque não há uma língua «cafre» . É muito provável, de facto, que aringa venha de uma língua da África Austral. Mas de qual?
Além disso, é de referir que as palavras cafre e cafreal começaram depois a usar-se para definir não só os povos da África Austral, mas “os negros” em geral. A palavra ganhou, entretanto, conotações claramente negativas, e mesmo racistas, e é hoje de muito mau tom empregá-la para referir alguém ou algum povo. Um dicionário moderno que, por qualquer motivo, queira usar a palavra, devia obviamente assinalar-lhe claramente o carácter historicamente marcado e ofensivo no português moderno.
Vítor não se convenceu muito com a minha resposta. Pediu a opinião de mais algumas pessoas com conhecimentos sobre a região, que me deram razão na recusa do uso de cafre e de Cafraria para designar, num dicionário, fosse lá o que fosse. Entretanto a troca de correspondência foi feita de tal forma que eu cheguei a temer que alguém pensasse que eram minhas as palavras dos dicionários Porto Editora ou Houaiss. Apressei-me a acrescentar ao meu glossário uma advertência, em topo de página, de que “só as minhas definições e propostas etimológicas é que são… minhas”, explicando que o facto de citar um dicionário não significava forçosamente que estava de acordo com o que ele propunha...

Vítor insistiu, interrogando-se se os dicionários seriam racistas e os livros também? Porque, dizia Vítor, já tinha visto a palavra cafreal em muitos textos e não sabia que era ofensiva. Respondi-lhe assim:
Quanto a os dicionários serem racistas, não sei se é a maneira certa de o dizer, mas pode, sem dúvida, afirmar-se que há coisas em muitos dicionários que podem ser consideradas racistas. Penso que o problema é que os dicionários não são suficientemente revistos e as entradas passam simplesmente, sem alteração, de uma edição para a seguinte. Um exemplo simples: o meu dicionário Porto Editora, de 2004, já define catinga como “suor malcheiroso”, mas lembro-me que a edição anterior que eu tinha, que não era muito antiga, de 2000, se não estou em erro, ainda definia catinga como “cheiro desagradável dos negros”, ou algo assim semelhante. Só para que veja...
O problema era também, insistia eu, que, ao contrário de outras palavras cujo uso é hoje desaconselhado, como esquimó, as palavras cafre e cafreal não definem povo nenhum, nem língua nenhuma, pelo que nos deixam na mesma, e que os dicionários, independentemente de terem ou não expressões racistas, têm às vezes falta de rigor.

Mas era óbvio que a minha insistência continuava a não convencer Vítor, que me respondeu mais uma vez. E tinha toda a razão no que dizia e na dúvida que levantava: Os dicionários, dizia Vítor, não fazem senão dar conta de como as pessoas utilizam as palavras, de forma racista ou não. É claro que ninguém pode processar os autores dos dicionários por neles incluírem palavras que certas pessoas considerem ofensivas. Ou devem essas palavras ser banidas dos dicionários para eles passarem a ser politicamente correctos?

Dava-me depois o exemplo da entrada cafre num dicionário (não sei qual é, mas isso é irrelevante, porque é precisamente uma entrada deste tipo quem têm muitos dicionários, mesmo respeitados):

cafre adj. 2 gén. s. 2 gén. 1. Diz-se das populações não muçulmanas que habitam a África Meridional. s.m. 2. Língua da Cafraria. 3. Fig. Homem rude, bárbaro, selvagem.

Além disso, para Vítor, só o significado figurativo 3 seria ofensivo, pelo que não haveria problema em utilizar a palavra, contanto que se a não a utilizasse com esse sentido.

Bom, eu sou o primeiro a defender que não se devem fazer desaparecer as coisas só porque significam (ou representam de qualquer outra forma) algo que, em determinado período histórico, maioritariamente se considera que foi ou é mau. Mesmo que essa tendência de opinião se mantenha para sempre, não há razão para não conservar a memória de um mal. Aliás, quanto mais terrível nos parecer esse mal, mais razões há para preservar a sua memória. É evidente que a palavra cafre, de triste memória, deve figurar nos dicionários que se pretendam completos, como qualquer outra palavra antiga, e independentemente das suas conotações sociais e políticas. O dicionário deve simplesmente dar conta dos seus significados, para que quem a não conheça possa saber o que ela quer dizer. No entanto, e apesar de defender que os dicionários devem conservar palavras como cafre, não posso de modo algum concordar que o façam como fazem. A resposta que dei a Vítor dá bem conta da minha posição sobre o assunto:
Longe de mim propor que a palavra cafre desapareça do dicionário; o que é preciso é melhorar a entrada cafre na maior parte, se não na totalidade, dos dicionários. O que eu critico é a falta de rigor. Uma entrada como a que nos mostra é um bom exemplo de falta de rigor: falta a referência ao carácter histórico da palavra (já não se usa, pelo que, simplesmente, devia ser marcada Histórico); falta a referência à evolução semântica da palavra (passou a designar todos os negros, muçulmanos ou não, da África Austral ou não); falta a informação sobre a conotação pejorativa no português moderno, sobretudo no século XX, até deixar de ser usada (devia ser marcada pelo menos como Ofensiva); diz que é uma língua de uma pretensa Cafraria, que não existe nem nunca existiu – havia e há dezenas de línguas na África Meridional (esta parte devia pura e simplesmente ser retirada, é uma mentira); e depois dá como sentido figurado o que não é senão o sentido primeiro durante um determinado período histórico.
Contraste-se com a entrada kaffir do Oxford Concise e veja-se a enorme diferença (tendo em conta que a palavra kaffir é provavelmente mais recente em inglês do que cafre é em português):
Kaffir n. 1 a hist. a member of the Xhosa-speaking peoples of S. Africa. b the language of these peoples. 2 S.Afr. offens. any black African (now an actionable insult). [originally = a non-Muslim: Arabic kafir ‘infidel’ from kafara ‘not believe’]
Eu já não peço senão o rigor do Concise Oxford.
Quanto a poder utilizar-se hoje a palavra sem a utilizar num sentido depreciativo, o que eu não dizia nessa carta a Vítor, mas que digo agora, é que ela ter ou não um sentido depreciativo não depende das intenções de quem a usa! Por isso, não, não se deve usar a palavra, a não ser referindo o discurso de outrem: “As populações costeiras que o padre Boym designa por cafres são, na realidade, etc., etc.”….” Aliás, tirando esse uso, vê-se mal que utilidade possa hoje ter uma palavra assim. Para referir quem?

E pronto, o final da história é que acabei por decidir fazer uma entrada cafre no meu glossário de moçambicanismos, que diz assim:
cafre n. e adj., cafreal adj. Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”)
A história das palavras cafre e cafreal é complexa. O termo cafre foi usado desde muito cedo, amalgamando os povos nativos da zona. A palavra foi adquirindo conotações muito racistas e muito ofensivas e, ainda durante o período colonial, o seu uso foi desaparecendo. Muitos dicionários assumem que a palavra designa de facto uma etnia e a sua língua, o que não é correcto. Curiosamente, hoje em dia, há uma expressão em que, na minha experiência, essa conotação não se mantém, talvez porque se tenha já perdido a consciência da sua origem: galinha à cafreal. Lopes, Sitoe e Nhamuende, na sua obra Moçambicanismos dizem o mesmo: “Apesar do contexto em que começou a ser utilizado, o termo cafreal na expressão galinha à cafreal, há muito utilizada, não tem tonalidades semânticas depreciativas; significa, sobretudo, o modo local de preparação da ave e o tipo de temperos usados, em particular o piripiri”.
Está melhor assim do que na maior parte dos dicionários, não está?

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