1 de outubro de 2009

Felicidade era a empregada do bar

Vivo longe dos meus melhores amigos e, por isso, encontro-me com eles só uma vez por ano, às vezes até só de dois em dois anos. Como creio que acontece a todos os amigos que não se vêem há muito tempo, eu e os meus amigos dedicamos sempre umas horas dos nossos reencontros a inteirar-nos da sorte de antigos amigos comuns com quem um de nós deixou de ter contacto (E o Amadeu, tens sabido dele?) e a recordar coisas por que passámos juntos, ena, há muitos anos (Lembras-te?). Agora, não sei se é um estado de espírito passageiro, provocado pela minha recente viagem a Portugal e pelas muitas horas passadas com os amigos a recordar tempos muito idos, ou se é antes alguma inclinação que vem com a idade, raios a partam!, mas o facto é que me tem dado para remexer em textos antigos e recordações. Para o que te havia de dar!..., dizem vocês, e o mesmo digo eu: para o que me havia de dar!…

O que é engraçado é que, quando começo a recordar, a solo ou à desgarrada com os amigos, as coisas que fiz há muito tempo, grande parte das vezes reconheço mal, ou chego até a desconhecer, a pessoa que as fez. Outras vezes, sim: reconheço-me naquela ou nesta acção ou gesto, neste ou naquele pensamento. E sorrio, não de encontrar no que senti e pensei diferenças relativamente ao que sinto e penso, mas de haver, apesar delas, poucas inalterações. É claro, discutir o que é que em nós permanece e o que é que em nós é perecível ultrapassa em muito a minha capacidade de perceber o mundo; mas sei que o pouco que liga o que somos ao que fomos é algo tão pessoal como transmissível, porque quem me reconhece numa fotografia de menino também reconhece nessa mesma fotografia excertos da minha filha mais nova.

E vejam lá agora ao que venho, depois de tanta circunlocução: Fui dar com um texto de juventude em que a pessoa que eu era nessa altura (perdoem-me a deselegância, é no que dá querer ser rigoroso na expressão…) escrevia assim:
Parte-se na maior parte das vezes do pressuposto – por quê, afinal? – de que a missão última das pessoas sobre a terra é, se não serem felizes, pelo menos procurarem a felicidade. Ora, para levar a cabo aquilo que é a missão fundamental de qualquer pessoa (transformar-se, perpetuar-se, reproduzir-se, morrer…), não há necessidade de felicidade nem da sua ausência – tanto faz...
Surpreendi-me: ao fim de tantos anos, vejam lá vocês, continuo a pensar basicamente o mesmo. Não poria hoje as coisas da mesma forma, porque a minha perspectiva era, naquela altura, muito diferente da que tenho agora. Não é que tenha deixado de me interessar em absoluto a especulação sobre o que não posso deixar de fazer, mas interessa-me mais discutir o que devo fazer e para quê – e como. E, embora com outra perspectiva, continuo a chegar à mesma conclusão prática, a de que a felicidade é algo com que não faz sentido preocupar-se. Além de exercício de vanidade, digo eu agora, a busca da felicidade é provavelmente um exercício vão:

Uma pessoa pode achar que cada um deve tratar antes mais de si próprio e querer ser feliz, sem mais. E pode achar que mais importante do que a sua felicidade é a felicidade alheia e atribuir, apesar disso, valor estratégico à sua própria felicidade na criação de mais felicidade. De facto, há muito quem pense que (ideia mais difundida do que bem defendida…) para fazer bem aos outros, uma pessoa tem de se sentir bem ela própria. OK., tudo isso é possível e não sou eu que me vou agora opor – que se queira ser feliz, está para mim muito bem… Mas alguém já conseguiu alguma vez demonstrar que é mais feliz uma pessoa que procure a felicidade?

Por que não aproveitar o tempo que se gasta a tentar ser feliz para ir fazendo coisas mais perenes do que a nossa vida e menos tão só nossas? Dito de outra maneira: Andar atrás da felicidade? Desculpe, mas tenho melhor que fazer…

P. S.: O seu a seu dono e uma sinistra interrogação...

O seu a seu dono: O título deste textinho, “Felicidade era a empregada do bar”, não é meu, é de uma pessoa que eu já não vejo há muito tempo, um rapaz de Barcarena chamado Carlos Pinhão (Lembram-se? Têm sabido dele?). Quando se falava de felicidade, ela dizia sempre isso. Acho que tinha mesmo conhecido uma rapariga chamada Felicidade que trabalhava num bar. E acho também que era a maneira que ele tinha de dizer que na felicidade não vale a pena pensar. Mas, se calhar, estou a distorcer-lhe a intenção para o pôr a dar-me razão…

Uma sinistra interrogação: Continuar a “chegar à mesma conclusão prática”, “embora com outra perspectiva”? Mas será então que a evolução do pensamento de uma pessoa é assim, arranjar outras maneiras de pensar o mesmo? Credo!!!…

Sem comentários: