6 de outubro de 2009

Os ossos deste ofício (a morte em imagens)



imaginem a morte
como imagem monumental
– Évora, Hallstatt, Kutná Hora –,
em memória
dos ossos nossos de cada dia
em espera penitente
de todos os outros ossos
que se lhes hão-de ir juntando,
pelos séculos dos séculos.

imaginem a morte
monstro sem lugar
nas tipologias dos bichos,
inclassificável de feio,
sem hábitos nem habitat,
com esqueleto
por dentro
e por fora.

ou imaginem a morte
como vaga figura narrativa,
talvez com rosto revelado de gente,
talvez escondendo-o debaixo
de um franciscano capuz.

imaginem a morte barqueiro soturno,
misterioso cavaleiro, faz de conta que viajante
à procura de abrigo para a noite.

ou então, imaginem a morte
como gaia ilustração,
um monte de ossos vivaço
a bater o fandango
na folga da monda d’almas
em que sem descanso s’empenha.

se a imaginarem assim
imaginem-na
a estender-vos sorrindo a mão descarnada
e a convidar-vos, gozosa,
com voz de falsete:
“venham de lá esses ossos!”

os ossos
pois,
os meus,
os teus,
os nossos,
os ossos
deste ofício
de estar vivo

[Imagem do Tarot Visconti, Beinecke Rare Book and Manuscript Library, Yale University, New Haven, Connecticut, tirada da Wikipedia]

1 comentário:

GBM disse...

Sem ossos. Sem espinhas. Sem. Inexistindo.
Que sossego!