18 de novembro de 2009

Louvor de jardins e parques e dos passeios no campo ao fim-de-semana

Já decidimos que, quando voltarmos à Dinamarca, não vamos viver em Copenhaga. É ponto assente, tanto para a Karen como para mim, que não queremos viver mais numa cidade grande. Não foi uma decisão fácil, porque fora das grandes cidades não há trabalho para nós nas profissões que sempre tivemos, mas estamos convencidos de que o esforço de reciclagem que a mudança implica há-de valer bem o sossego que ganhamos. “Mas é mesmo para o campo que vocês querem ir viver?”, costumam perguntar as pessoas, quando anunciamos o nosso plano. Não, a ideia é ir para uma vilazinha de província. Temos três miúdos pequenos e viver mesmo no campo com três miúdos pequenos, na Dinamarca, dá muito trabalho, porque tem de se passar a vida a levá-los aqui e ali e acolá... Mas eu gostava, mais tarde, de viver mesmo no campo, porque gosto cada vez mais do campo. E, independentemente de gostar ou não, estou convencido de que o verde nos é necessário e nos faz bem.

O verde é o que natural para nós, é a nossa casa. Foi lá que passámos milhares de anos a aperfeiçoar-nos, a tornar-nos humanos. Foi para viver no verde que evoluímos e é por isso mesmo que o achamos bonito e nos sentimos bem nele. “Ui, por onde este vem”, adivinho eu que seja a reacção de muita gente (e boa gente!) à romântica simplicidade do postulado. Basta aceitar, sem refilar, a ditadura da nossa natureza? Bem vistas as coisas, nem tudo o que a natureza pôs em nós é positivo por aí além – e há uma parte da natureza humana que é inútil na vida que levam hoje os seus portadores: sei lá, instintos de violência e de recusa dos forasteiros, por exemplo, que nos ficaram da vida de caçadores em pequenos grupos, ou a atracção por açúcares e gorduras, que nos era útil quando a nossa dieta era naturalmente pobre nisso mesmo e a vida que levávamos nos fazia gastar muita energia… Está bem, mas essas sim, essas são partes da nossa natureza que, não podendo desfazer-nos delas, devemos arranjar maneira de equilibrar com outras partes mais morais de nós, ou simplesmente contrariar ou enganar – para bem de nós próprio e dos outros. Agora, a nossa atracção pelo verde, que implicações negativas é que ela tem? Não é mais fácil, em vez de nos esforçarmos por ir buscar a outras actividades e paisagens a satisfação que o verde naturalmente nos dá, darmos mesmo passeios regulares no campo?

Gosto do verde e estou convencido de que a falta de verde faz mal. É o verde que limpa o cotão e a poeira que se nos vão acumulando na alma. Não é preciso ir viver para o campo, acho eu, mas é preciso ir ao campo. Nem que não seja campo mesmo, mesmo a sério. É como o calor, por exemplo: animais tropicais que somos, precisamos de calor para nos sentirmos bem. Na falta de calor a sério, blusões de penas e aquecimento central também servem. Mas frio é que não. O mesmo com o verde: jardins e parques, pode ser, desde que seja vegetação. Agora, urbanizações sem verde são um crime contra a nossa humanidade e passar o fim-de-semana entre paredes, sejam elas quais forem, é autoinfligir-se um mal. A sério.

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