28 de janeiro de 2009

Tenho muito orgulho em só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa

Quando estive no Acre, há já alguns anos, ouvi várias vezes a acreanos que eram “os únicos brasileiros por opção”. O Acre fazia parte da Bolívia até ao início do séc. XX e um dia os acreanos fizeram uma revolução para se tornarem brasileiros (a história não é exactamente assim, mas admitamos, para simplificar, que foi assim que as coisas se passaram). Nem por isso os acreanos são brasileiros por opção. Quer dizer, os que fizeram a revolução e tomaram o poder na região, para se juntarem ao Brasil, foram, de facto, brasileiros por opção. Mas isso foi há 100 anos. A partir daí, mais nenhum acreano foi brasileiro por opção.

O que acabo de dizer dos acreanos, posso também dizer da gente de Bornholm (que, a determinada altura, fez uma revolução para deixar de ser sueca e se tornar dinamarquesa) e dos suíços dos diversos cantões (que foram progressivamente aderindo à Confederação Helvética). E dos povos de todas as nações que se libertaram do jugo colonial. Houve moçambicanos que o foram por opção: os que fizeram a luta de libertação, sobretudo, mas também aqueles que, não participando nela directamente, concordavam com ela e, na altura de escolher, preferiram ser moçambicanos a continuarem a ser portugueses. A partir daí, já não houve moçambicanos por opção. O facto é que muito pouca gente escolhe a sua nacionalidade. Quantos portugueses é que o são por opção?

Isto vem a propósito de orgulho. As identidades étnico-nacionais, regionais, etc., parecem ser aquilo em que mais comummente se tem orgulho. Pelo menos, se googlarem “tenho orgulho em ser” vão deparar com uma maioria de ocorrências de um gentílico depois do ser. Mas o que é isso de ter orgulho numa identidade? Ou pode até fazer-se uma pergunta mais abrangente, para começar: o que é que significa, ao certo, ter orgulho nalguma coisa?

O meu dicionário não ajuda nada: diz que orgulho (excluindo as acepções de “conceito exagerado que alguém faz de si próprio”, “vaidade” ou “soberba, altivez”, que obviamente não são as que tem a palavra quando se afirma, por exemplo, o orgulho na sua identidade) é “dignidade, brio, pundonor”. É óbvio que não é verdade, porque não se pode dizer “tenho dignidade/brio/pundonor em ser rinchoense”. Se procurar orgulhar-se, que é o mesmo que ter orgulho no sentido que aqui me interessa, encontro “envaidecer-se”, “ufanar-se”, “gloriar-se”. Não me serve, fico na mesma... Já o Concise Oxford dá uma definição de pride (“orgulho”, em inglês) muito mais interessante. A tradução não é perfeita, mas é qualquer coisa como “um sentimento de exaltação ou satisfação perante realizações ou qualidades ou posses, etc., que dão bom nome a alguém”.

Muito bem, não há dúvida de que é isso. E o que me incomoda é precisamente que coexistam na mesma definição “realizações” e “qualidades”; que o orgulho possa resultar tanto da percepção de se ter realizado uma acção positiva como da percepção de se ser depositário de uma característica que se considera positiva; porque, se geralmente há mérito nas boas realizações, nas boas características não há quase nunca mérito nenhum. Que mérito há em ser bonito, elegante ou inteligente? Que mérito tem uma vaca em dar leite? Mérito implica controlo e temos, no geral, muito pouco controlo sobre o que somos – e nenhum sobre a nossa nacionalidade.

Sempre tive muita dificuldade em compreender que alguém possa ter orgulho em ser português ou moçambicano ou dinamarquês (ou em ter olhos azuis, ou em ser alto, ou em ser dotado para a matemática, ou em “viver a mocidade / dentro desta geração*”…). Em última análise (em última análise…), posso admitir que uma pessoa tenha orgulho nas coisas que ela própria considera louváveis e que ela própria decidiu fazer ou ser. Agora daquelas em que a sua vontade não foi chamada para nada (acasos, acidentes…), digam-me lá, que orgulho é que se pode ter?

Soa apatetado o título deste texto, não soa? Ora, bem vistas as coisas, entre só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa e eu ter nascido num determinado lugar, num determinado tempo ou com determinadas características, que diferença é que há em termos do controlo que tenho desses factos? Absolutamente nenhuma. E é assim, exactamente como o título deste texto, que me soam as afirmações de orgulho numa identidade qualquer.


P.S.: Uma das evoluções naturais da democracia deveria ser – talvez venha a ser, espero que seja – a possibilidade de se escolher cada vez mais a sua nacionalidade. Chama-se a isso empowerment**, no jargão do desenvolvimento: capacidade de decidir mais sobre a sua vida.
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* A famosa cantiga não diz orgulho mas sim vaidade: «(…) mas tenho grande vaidade / em viver a mocidade / dentro desta geração». É óbvio, no entanto, que vaidade, de que os dicionários que consultei dão apenas uma definição claramente negativa, é aqui sinónimo perfeito do orgulho de que aqui trato.
** Empoderamento, eis como a palavra inglesa se traduz normalmente aqui em Moçambique. Bem formada ou mal formada, a palavra é já um facto – nada a fazer contra ela…

14 de janeiro de 2009

«Coco não, manga não?» e outras anedotas linguísticas


“Coco não? Manga não?”

O vendedor de cocos e mangas que passa por mim e me pergunta se não quero comprar os seus produtos não sonha, claro está, que a palavra magano existe em português, e muito menos o seu aumentativo. E muito menos ainda, provavelmente, que há muita gente a pronunciar a palavra “incorrectamente” com o primeiro a nasal, forma que os dicionários nunca registam, mas de que em google há 1760 ocorrências [manganão, páginas em português, -manga -mangá].
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Uma vez, já há uns bons anos, dizia-me um amigo meu português que vive em França que a situação dos emigrantes, segundas e terceiras gerações incluídas, estava cada mais difícil, que cada vez havia mais xenofobia. Mas pronunciou o início da palavra à francesa, dizendo [gzenofobia] em vez de [chenofobia].

“Eh, pá”, disse-lhe eu, “em português não se pronuncia [gzenofobia], isso é em francês; em português, pronuncia-se [chenofobia].

“Ah, bom?”, surpreendeu-se ele.

“Pois claro!”, insisti eu. “Aliás, em português nem sequer existe essa sequência de sons [gz].

Ele ficou um bocado calado, a matutar, mas pelos vistos não se convenceu:

“Em português não existe [gz]?”, disse ele ao fim de um bocado, com ar triunfante e o seu forte sotaque da Cova da Piedade. “Dev’s ‘tá’ a g’z’á’ c’migo!”
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Estava uma vez com dois amigos, um sueco e uma irlandesa, e estava a explicar-lhes, já não sei a que propósito, a expressão “que venha o diabo e escolha”. O sueco disse-me então que tinham, na língua dele, uma expressão que significava o mesmo: “é como escolher entre peste e cólera”. E disse a expressão em sueco: “det är som att välja mellan pest och kolera”.

E disse logo a amiga irlandesa:

“Ah, essa eu percebi: é como escolher entre pepsi e coca-cola!”
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Uma vez, em Vitória, no estado de Espírito Santo, no Brasil, entrei num autocarro, comprei o meu bilhete e pedi à cobradora para fazer o favor de me avisar quando chegássemos ao centro, porque eu não conhecia a cidade. Falei muito devagarinho, consciente da dificuldade que têm os brasileiros em compreender o meu português. Ela ia fazendo que sim com a cabeça enquanto eu falava, e depois disse-me assim, com um sorriso enorme no rosto:

“É fantástico: eu entendi tudo o que você disse! Eu não faço nem idéia de qual é essa língua que você fala, mas eu entendi tudo direitinho!”
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A última não se passou comigo, mas é uma anedota linguística de que eu gosto muito. É muitas vezes contada como tendo realmente acontecido com J. L. Austin e Sydney Morgenbesser, e é referida como exemplo do espírito deste último filósofo, mas não sei até que ponto isso não será um “mito urbano”, como agora se diz.

Austin, numa palestra:

“Há línguas em que uma dupla negativa resulta numa afirmação positiva, e há línguas em que a dupla negativa reforça a negação. Não conheço, porém, nenhuma língua em que uma dupla positiva produza uma negação.

E Morgenbesser, no público:

“Yeah, yeah…”

Morros de muchém

Muchém é térmite. Morro é morro. E morro de muchém é um castelo de fadas-bichos.
Moçambique é um museu de arquitectura, e não só de arquitectura humana. Obras-primas da arquitectura deste país são também os morros de muchém. Os que aqui vos mostro são apenas os que calhou ter fotografado, sem nenhum critério especial. Não são especialmente grandes (nanais que não, há-os muito maiores!), nem têm formas especialmente invulgares. São morros de muchém vulgares. Sólidos que nem cimento armado, o que é que pensam?


Morro de muchém no meio de uma machamba, sem mais


Morro de muchém integrado na paisagem humana


Morro de muchém armado em obelisco


Morro de muchém camuflado


Morro de muchém de perfil discreto e ajustado à forma da cabeleira das casas


Morro de muchém de praia, a namorar com uma árvore