27 de abril de 2009

Cultura, mais uma vez – dentro e fora de nós

Nascemos com a capacidade de aprender qualquer língua, mas, à medida que aprendemos a nossa língua materna (ou as nossas línguas maternas), e à medida que envelhecemos, vai desaparecendo essa capacidade e, a determinada altura, deixamos de ser capaz de aprender bem outras línguas. Deixamos de ser capazes de o fazer sem interferência das línguas que já falamos, e sobretudo da que for “mais funda” em nós.

Ora há muito quem considere que se passa o mesmo com o resto da nossa cultura. Que a informação cultural que vamos interiorizando configura de determinada maneira os programas que trazemos connosco à partida, de modo que ficamos condicionados a determinadas formas de perceber o mundo e de agir. E que, partir daí, o que pensamos, sentimos e fazemos é determinado por essa cultura, da mesma forma que a maneira como pronunciamos uma língua estrangeira é sempre determinada pela estrutura fonética da nossas línguas primeiras. Quer dizer, não posso agora citar nenhuma definição de cultura que seja exactamente coincidente com a que acabo de fazer, mas, pela maneira como oiço e vejo muitas pessoas falarem de cultura, não tenho dúvida nenhuma de que é assim que a concebem.

Uma concepção de cultura deste tipo é muito sedutora, de elegante que é, mas não é sem problemas. Há provavelmente uma parte da cultura que é assim, mas que parte? Uma parte grande ou uma parte pequena? Bom, eu estou convencido de que uma boa parte dos nossos comportamentos não é determinado, em sentido forte, por regras interiorizadas.

Vejam o caso das bichas[1], por exemplo. Muitas pessoas acham que fazer ou não fazer bicha varia de cultura para cultura. Pelo menos, afirma-se muitas vezes que, em X ou X lugar há ou não há “uma cultura de fazer bicha”. E é com certeza verdade que há lugares onde se faz bicha e outros onde toda a gente se está, em menor ou menor grau, nas tintas para a ordem de chegada e impera a lei do jacaré la bouche, como dizia um amigo meu – quem tem a boca maior é que se safa... Mas é problemática a relação deste facto com cultura, sobretudo se esta for concebida como o tal conjunto de regras fortes interiorizadas que determinam olhares e gestos. O que se constata facilmente é que, quando uma pessoa de uma “cultura sem bichas” se muda para um sítio onde haja uma “cultura de fazer bicha”, ela começa logo a fazer bicha, sem problema nenhum. E pode também observar-se que, de volta à “cultura sem bichas”, deixa outra vez de as respeitar. O contrário, o “relaxe moral” de quem venha de uma cultura “cultura com bichas” quando chega a uma cultura sem ela, também já o constatei várias vezes. Quer dizer que isto de fazer bicha, por exemplo, a ser um traço cultural, não é assim nenhum padrão de comportamento tão profundamente interiorizado que uma pessoa não o mude, se quiser ou precisar, de um momento para outro!...

O mesmo em relação a muitos outros padrões de comportamento. Por exemplo, sobre comportamentos demasiado relaxados, displicentes ou mesmo claramente desrespeitadores por parte de turistas, todos nós já ouvimos, quando não o pensámos nós próprios, que “ele faz isto aqui, mas lá na terra dele não fazia”. O que é interessante é que é, muitas vezes, a mais pura das verdades: no estrangeiro, as pessoas portam-se como não ousariam portar-se no seu país – ou simplesmente de maneira diferente, enfim. Não só turistas, claro está, mas todo o tipo de pessoas de fora. E, se o fazem, é com certeza porque não têm regras de comportamento interiorizadas como têm interiorizados a pronúncia dos sons linguísticos ou os gostos de comida, por exemplo, que não se alteram, esses, de um dia para o outro…

Podia alargar a conversa a muitos outros exemplos, e com especial facilidade a aspectos maioritariamente considerados negativos – como a falta de respeita da ordem da bicha, mas bem mais graves – mas acho que não vale agora a pena detalhar mais, porque se percebe bem aonde quero chegar: pelo menos nos casos que referi, o que parece contar mais do que um padrão de comportamento fortemente interiorizado é a consciência da regra em vigor em determinado local, ou da sua ausência, e o grau de controlo social a que se está sujeito (cujo reconhecimento varia, também é preciso ter isso em conta, de indivíduo para indivíduo…). E isto independentemente de estarmos “em casa” ou não.

Parece então que, para muitos dos nossos padrões de comportamento, a regra não está dentro, mas fora de nós[2]. Parece que dentro de nós o que está é um instinto que nos manda avançar, em busca do proveito próprio e da satisfação dos nossos desejos… até onde os outros nos deixarem ir. No outro dia defini esse egoísmo fundamental como o nosso “parâmetro por defeito”. Um Hobbes da época dos computadores, como vêem, este vosso amigo…

***
Pois é, é a tal coisa: fala-se muito de cultura, mas sem se saber ao certo de que se está a falar. Como diz a minha amiga Carmo: “Eh pá, agora a tudo o que é mau chama-se cultura… A cultura agora serve de desculpa para tudo.” Independentemente do que se pense sobre a maneira como as culturas existem – mais ou menos dentro de nós, como a pronúncia; mais ou menos fora de nós, como as leis – é obviamente um desrespeito e uma incompreensão de uma cultura considerar que dela fazem parte a ganância, a pilhagem e a desconsideração. De facto, o que se considera cultura não é, muitas vezes cultura, no sentido de forma organizada de relações entre as pessoas e destas com o mundo físico, mas falta dela – rupturas dos sistemas de valores, situações de relaxe do controlo social, o vir ao de cima da nossa imoralidade primordial. Em que as pessoas se permitem coisas que a cultura que dizem que é a sua obviamente não permite. Que nenhuma cultura permite.
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[1] As filas, como se diz agora em português europeu moderno que se pretenda politicamente correcto. É um facto muito estranho: quando se constata que a palavra é usada também para referir, de forma depreciativa, os homossexuais masculinos, deixa-se de a usar para referir um conjunto de pessoas alinhadas por ordem de chegada, que não tem absolutamente nada ver com o outro uso, porque aqui se trata obviamente de uma metáfora em que se usa a lagarta como segundo termo, ao passo que a designação de bicha para um homossexual tem com toda a certeza outra origem. [Provavelmente, vem da expressão, “Ai uma bicha!”, dita num tom exageradamente efeminado, para estigmatizar uma pretensa falta de virilidade dos homossexuais, implicando que eles (como as mulheres, na visão de quem diz coisas assim…) até de uma inofensiva lagarta têm medo.] Ora, se efectivamente o termo bicha é sentido como ofensivo por quem, como eu, se ofende com a discriminação das pessoas em função das suas preferências sexuais, está muito bem que se deixe de o usar nessa acepção – mas porquê deixar de usar a metáfora da bicha para a fila de pessoas, que não tem nada a ver com este assunto? Esquisito…

[2] A questão é, obviamente, onde, ao certo?, porque aceitar que ela está apenas, sei lá, em todo o lado e em lado nenhum, é um bocado metafísico demais para o meu gosto… Mas eu não sei responder a esta pergunta que me faço.

21 de abril de 2009

Ele há verbos muito defectivozinhos, valha-os nossa senhora…

É verdade: ele há verbos tão defectivos que nem verbos parecem, coitados… Na minha lista de moçambicanismos, tenho dois só com uma forma, do imperativo: buiça [v. t. defectivo, só com a forma da segunda pessoa (tu?) do singular do Imperativo (“buiça (tu) alguma coisa!”) = dá, dá cá] e sóri, que eu, por acaso escrevo sorry, para lhe deixar clara a origem [v. defectivo, só com a forma da 2ª pessoa do imperativo (“sorry lá isso!”) = desculpe, desculpa (palavra inglesa significando “triste, pesaroso, magoado, desconsolado”, usada como verbo por analogia com desculpe/a)]

“Mas então isso são verbos?”, oiço eu os protestos, “Buiça, bom, talvez seja, sei lá…, mas sorry é um adjectivo! E um adjectivo inglês!”

É sim senhora – em inglês! Em português de Moçambique, I am very sorry, mas não é, é um verbo. Sorry lá, pá! É precisamente o de sorry lá que lhe trai a condição de forma verbal no imperativo, exactamente como o que às vezes acompanha o buíça: “Iá, eu vou lá comprar, mas buíça aí taco, que eu não tenho nem uma quinhenta…”

Como estes moçambicanismos são provavelmente muito estranhos para falantes de outras variantes do português, passo antes a outro verbo que também tem só uma forma e que é comum a todas as maneiras de falar esta língua: eis.

“O quê? Eis também é um verbo?”

Bom, quem não quiser chamar-lhe assim tem todo o apoio dos dicionários. Quase todos, se não mesmo todos, classificam eis como advérbio. Nas “Dúvidas linguísticas” do Público, e respondendo a uma pergunta de uma Sónia, de Portugal, a 7 de Março de 2007 (“Escreve-se ei-la ou hei-la?”, perguntava a tal Sónia), Helena Figueira, uma das consultoras desse serviço da Priberam, escrevia o seguinte (acho que as “Dúvidas linguísticas” do Público não estão a funcionar – eu, pelo menos, não consigo lá entrar –, mas a resposta encontra-se no site da Priberam) [bolds meus, para facilitar a leitura]:

A palavra eis é tradicionalmente classificada como um advérbio e parece ser o único caso, em português, de uma forma não verbal que se liga por hífen aos clíticos. Como termina em -s, quando se lhe segue o clítico o ou as flexões a, os e as, este apresenta a forma -lo, -la, -los, -las, com consequente supressão de -s (ei-lo, ei-la, ei-los, ei-las).
A forma hei-la poderia corresponder à flexão da segunda pessoa do plural do verbo haver no presente do indicativo (ex. vós heis uma propriedade > vós hei-la), mas esta forma, a par da forma hemos, já é desusada no português contemporâneo, sendo usadas, respectivamente, as formas haveis e havemos. Vestígios destas formas estão presentes na formação do futuro do indicativo (ex. nós ofereceremos, vós oferecereis, nós oferecê-la-emos, vós oferecê-la-eis (...)).
Pelo que acima foi dito, e apesar de a forma heis poder estar na origem da forma eis (o que pode explicar o facto de o clítico se ligar por hífen a uma forma não verbal e de ter um comportamento que se aproxima do de uma forma verbal), a grafia hei-la não pode ser considerada regular no português contemporâneo, pelo que o seu uso é desaconselhado.
Helena Figueira faz muito bem o que faz. É assim que se responde num consultório aonde as pessoas vão à procura de uma norma. Mas, ao dar uma resposta tão completa, está a dar, a quem a queira receber, uma dica para uma reflexão. No fundo, o que Helena Figueira diz é que eis é um verbo que deixou de ser percebido como tal.

É claro, tive de lá deixar um comentário. E fi-lo, acho eu, no tom certo para comentário de consultório linguístico:

Não deixa de ser curioso que se considere eis um advérbio. A única explicação parece ser que o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras prateleiras (isto não é uma crítica a Helena Figueira, mas antes a toda uma tradição gramatical às vezes um pouco ligeira, digamos assim)...
O que eu defendo é que eis é uma forma verbal – uma forma verbal estranha, porque pertence a um verbo tão defectivo que não tem mais nenhuma forma, mas uma forma verbal ainda assim. Todos os testes empíricos parecem prová-lo: a) eis é núcleo de predicação. É verdade que nem só os verbos podem ser núcleos de predicação, mas os outros núcleos de predicação aparecem sempre em frases com uma cópula ou um verbo locativo. Ora b) eis parece nunca poder coexistir com um verbo, além de que c) eis atribui caso acusativo ao seu argumento, o que só um verbo pode fazer (eis a Rita = ei-la). Tudo isto são provas empíricas de que eis é uma forma verbal.
[Talvez convenha explicar, a quem não esteja familiarizado com estas coisas, que núcleo de predicação é a parte mais abastracta do que se diz sobre alguma coisa. Por exemplo, em O gato comeu o carapau, comeu o carapau é o que se diz sobre o gato, a predicação, mas comeu é mais abstracto do que carapau, e é então o seu núcleo. Dito à pressa, é isto. O núcleo de predicação é quase sempre um verbo, mas há casos em que não: Sou professor ou Ele está entre a espada e a parede.]

Acho que não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal. De um verbo muito defectivo, se considerarmos que é a única forma de um verbo que significa “estar aqui”, independentmente de qual seja a sua origem, ou menos defectivo (até nem nada defectivo...) se considerarmos que é de um uso peculiar do verbo haver que se trata. Não preciso de acrescentar mais nada para provar que eis é uma forma verbal, dizia eu, mas posso acrescentar mais alguma coisa a propósito:

Escrever, como eu escrevi, que “o conceito de advérbio é tão vago que funciona como uma espécie de gaveta de recurso para arrumar o que não cabe nas outras” é só outra maneira, mais apropriada (?) para comentário em consultório linguístico, de dizer que “a categoria advérbio é o caixote de lixo da gramática”, como dizia a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos, a quem devo, entre centenas de outras coisas, a problematização do conceito de advérbio. O seu a seu dono, portanto.

Tal como é usado o conceito em gramáticas e dicionários, um advérbio é, basicamente, qualquer palavra invariável que não seja preposição ou conjunção, tenha ela que função tiver. Agora, para poder classificar-se como verbo, parece indispensável que uma unidade de base se possa flexionar em tempo, modo, etc. Está muito bem, mas, se todos estão de acordo que há muitos verbos a que faltam algumas formas, por que é que custa aceitar que a determinados verbos faltem muitas formas? Ninguém duvida de que buscar seja um verbo, mas, na minha variante do português, actualmente, o verbo buscar só tem de facto a forma do infinitivo e a da forma tu do imperativo, que se usa para cães. Eu sei bem que todas as outras formas existiram e existem ainda noutras variantes do português, mas no português lisboeta (pelo menos nesse dialecto), todas elas desapareceram…

Chega de verbos. Ou seja, não chega, mas demos agora (Esta forma ainda existe? Talvez não seja má ideia defectivizar um bocadinho o verbo dar, que demos é horrível!...) outro tom à conversa – o que se segue são dois excertos de um chat, devidamente corrigidos das muitas gralhas que sempre se infiltram nos chats todos, entre este vosso amigo e um amigo dele. Sobre verbos:

o meu amigo Pedro: eu tinha uma teoria sobre o verbo intervir
eu: intervém lá
o meu amigo Pedro: se a narração se passa no local do acontecimento, pode-se dizer que o sujeito interveio. se a narração se reporta a um acontecimento onde o receptor não está, deve dizer-se que o sujeito da acção interfoi! interveio aqui, interfoi lá
eu: iá, mas isso é o verbo interir
o meu amigo Pedro: interveio é interir?
eu: interfoi é que é o verbo interir
o meu amigo Pedro: sim, mas interir inventaste tu agora
eu: tu é que inventaste
o meu amigo Pedro: ah bom, ainda bem para ti. ainda tens esperança de salvação
eu: mas é bom verbo, vou passar a usar
o meu amigo Pedro: acho que sim, e faz sentido. a mim faz
eu: também se pode fazer com convir
o meu amigo Pedro: confoi… o que melhor lhe confosse. fez o que melhor lhe confoi
eu: desair-se também
o meu amigo Pedro: como queiras
eu: os gajos desaforam-se… mas isso é um desaforo
o meu amigo Pedro: também se podia pensar em lojas encerradas 24 horas por dia. eram as lojas de semveniência:
eu: para cá, porque vem de semvir, mas para lá, como seria?
o meu amigo Pedro: para lá que se lixe, se eu tenho uma loja fechada aqui ao pé da porta porque é que vou procurar outra mais longe?

eu: um verbo muito defectivo é nhemos! como é o infinitivo desse verbo? nhar, tem de ser
o meu amigo Pedro: anhar
eu: não se diz anhemos, diz-se “nhemos lá malabar o bèrredon do paílho”. anhar é mais verbo de anhuca, ou não?
o meu amigo Pedro: por aí
eu: também é bonito, faz lembrar borrego
o meu amigo Pedro: é lindo com batatas

Para que vocês vejam… É o sono que faz isto.

19 de abril de 2009

Iberia felix: o português e o castelhano

Tivemos noutro dia aqui a jantar em casa uma convidada norueguesa e a conversa foi parar à língua, que é, como se sabe, tema típico de jantares com pessoas que não se conhecem. Os miúdos tinham dificuldade em compreender o norueguês da senhora, por muito que as palavras que ele usa sejam, objectivamente, quase iguais às do dinamarquês deles, e preferiam falar com ela em inglês. A Karen (a minha mulher) insistiu, porém, com o Alexander (o meu filho mais velho) que ele tem de se abrir ao norueguês e ao sueco, porque, diz ela, basta uma pessoa alterar só um bocadinho de nada a sua “configuração mental” para compreender tudo. Então, se são línguas praticamente iguais…

Num texto comentado aqui na Travessa, Vital Moreira faz a seguinte pergunta: “Será que ainda partilhamos uma mesma língua quando a comunicação oral deixa de ser possível entre os seus falantes?” A questão é interessante e pode bem ser que eu um dia escreva alguma coisa sobre ela. Hoje, porém, o que faço é apenas virá-la ao contrário: “Será que se falam duas línguas diferentes quando a comunicação oral é possível entre os falantes dessas línguas?”

Quantas línguas há no mundo? As respostas a esta questão aparentemente simples variam muito e eu já vi números entre 3000 e 6000. “Como é possível uma variação tão grande nas respostas?”, surpreender-se-ão muitos. Bom, é que não há acordo nenhum em relação a como dividir as línguas, a onde acaba uma e começa a outra. Essa divisão só é fácil quando se usa um critério político em vez de linguístico. Lembro-me de que uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a estudar linguística foi que “uma língua é um dialecto com um exército”. Se Hamburgo e Munique não fossem na mesma nação, muito provavelmente não se consideraria que se fala a mesma língua nos dois sítios... Há mais diferença entre certos dialectos noruegueses do que entre o bokmål standard (uma das 2 línguas oficiais daquele maravilhoso país) e o dinamarquês, por exemplo. E milhares de etcs. Basicamente, tudo depende daquilo que queiramos destacar e usar como critérios de distinção entre duas línguas ou dois dialectos, mas, como eu não quero dar uma seca a ninguém (a quantidade de texto que acabo de apagar de um golpe de delete é um sinal claro, infelizmente invisível aos demais, das minhas boas intenções), passo-lhes por cima e vou directo onde queria, que é ao espanhol.

Sim, porque este texto é um texto sobre o espanhol e é o que se pode chamar um texto com óbvias intenções mediáticas (credo!). Depois de uns quantos posts de conversa esquisita, em que nem eu próprio sei aonde quero chegar, eis agora um texto limpinho e claro (?) sobre a maravilhosa língua que fica mesmo ao lado da nossa.

Ou será apenas outra variante dialectal da mesma língua que nós falamos? Bom, podem fazer a experiência que eu fiz um dia: abrir ao calhas um dicionário de espanhol e ver, das palavras da página onde foram parar, quais é que não existem em português. Não é uma experiência com validade científica (pode ser, se a repetirem muitas vezes...), mas dá-vos uma muito boa ideia da proximidade do castelhano e do português. Nas 147 palavras entre disconforme e distanciar do dicionário que eu consultei quando a fiz, só 9 (6,2%) é que não correspondem muito directamente a palavras portuguesas. Em francês e italiano, no entanto, já a percentagem de diferenças que constatei com o mesmo método era muito maior, de cerca de 28 e 29% respectivamente.... A verdade é que o vocabulário é todo tão parecido em toda a zona de fala ibérica que são só umas quantas palavras que definem a área de cada língua.

“Onde é que este tipo agora quer chegar com isto? Quer-nos ele convencer de que o espanhol e o português são iguais ou quê?” Qual o quê, longe de mim tal ideia. Não quero convencer ninguém nem disso nem do contrário, se bem que o que se segue possa fazer crer que quero precisamente provar o contrário. Eis uma parte (ínfima, que isto é um blogue…) de um compilação de diferenças que, no meio das semelhanças, existem entre o português e o castelhano [a quem quiser uma coisa mais completa, posso mandar-lhe, é só pedir por boca, como se costuma dizer]. Dito de outra maneira, o que eu quero mostrar é que o castelhano é uma língua muito traiçoeira e especialmente para os falantes do português. Se uma pessoa não se põe a pau quando se aventura pela língua vizinha, de vez em quando sai asneira. E só de, muito filialmente, se fiar na sua mãe língua…

Vejam as diferenças de género, por exemplo. Tenho registadas 92 palavras iguais ou quase iguais, mas com género diferentes nas duas línguas. Não se esqueçam, por exemplo, de que cume, lume e legume (cumbre, lumbre, legumbre) são, em espanhol, tão femininos como vislumbre pode ser; que há conductos e não condutas de água; e que, para ficar por palavras corriqueiras, são femininas, por exemplo, alerta, masacre, miel, nariz, sal, sangre e señal, já para não falar de nada – sim, do nada, o vazio, que não é *el nada que se diz, mas la nada. Ao contrário, isto é masculinas em espanhol e femininas em português, temos, para além das palavras em -aje que correspondem às nossas em -agem e das palavras em -or, como color ou dolor, por exemplo, origen e partido, mesmo que não seja político mas sim… de futebol. E são muitas vezes masculinas, se bem que não forçosamente, palavras como frente, lente, orden e arte, o que chocou muito o meu irmão quando o descobriu: “Arte, uma palavra masculina? Como pode ser isso?, se é óbvio que a arte é algo feminino”, dizia ele. A mim, surpreende-me mais que sejam masculinos un pétalo de uma flor e un vals de Strauss, mas enfim, isso sou eu... E bem vistas as coisas, se um esporo é una espora, quase como que para espicaçar cavalgaduras, porque não há-de uma pétala ser pétalo?

Também há diferenças no lugar do acento tónico em palavras que, tirando isso, são perfeitamente iguais, como herói, que em espanhol é héroe e polícía, que se diz policía, além de, por exemplo, maquinaria (pronunciado [maquinária]), democracia [democrácia], aristócrata e límite. Estas diferenças causam sempre alguma estranheza aos falantes da outra língua, mas não tanto como certas trocas de lugar de sons dentro da palavra que ocorreram num idioma ou no outro (mais em português...), que fazem com que se diga em espanhol, apio em vez de aipo, barrio em vez de bairro e, por exemplo, gaviota, novio, disfrazar, cocodrilo ou cangrejo.

Depois, claro, há os falsos amigos, que são muitos. Uns são bastante conhecidos, como experto (“perito”), exquisito (“requintado, delicioso”), largo (“comprido”), oficina (“escritório”), presunto (“presumido, presumível”), propina (“gorjeta”), rato (“momento”) e salsa (“molho”), mas outros menos. Só para vos dar um cheirinho da minha lista de falsos amigos, que nunca pára de crescer, tomem lá alguns outros exemplos de provável confusão:

Lembro‑me, por exemplo, de o meu amigo Cristovam voltar do supermercado com o que pensava ser um pacote de manteiga e que era, afinal, banha, e que, dada a nossa triste condição económica, tivemos de usar para barrar o pão, pois então… Era o nosso segundo dia em Espanha e ele não sabia que manteca quer dizer “banha”…

Também me lembro de ver uma vez , numa revista de música, um artigo sobre o Jimi Hendrix, obviamente (mal) traduzido do castelhano em que se dizia que ele tinha uma guitarra especial… porque era surdo (!). Isto porque o tradutor, se é que se pode usar tal designação, não sabia que zurdo quer dizer “canhoto”.

Lembro-me que a minha mulher, quando chegámos à Bolívia, ficou muito surpreendida quando alguém lhe disse que tinha ido ao médico para tratar uma moela – porque não sabia que muela quer dizer “queixal, molar”. E também haviam de ver a cara dela quando alguém a informou que Camargo, a vila onde nos íamos instalar, era uma terra com muito polvo. «Como é que isso pode ser, se fica a 700 km do mar?» Tive então de lhe explicar que polvo significa “pó”.

Bom, estas são situações reais. Mas é fácil imaginar outros possíveis desentendimentos. Numa sala de aula, por exemplo, imaginem o que é que se passa na cabeça de um aluno de língua portuguesa, se o professor lhe pergunta se pode borrar o que está escrito no quadro ou se diz que lhe vai dar uma tareia. Passados uns primeiros segundos de espanto (a propósito, espanto em espanhol, quer dizer “temor” ou “terror”…), o tal aluno provavelmente acaba por perceber que borrar quer dizer “apagar”, mas já lhe será mais difícil perceber que tarea quer dizer “tarefa” e que, portanto, o que o professor lhe quer dizer é que lhe vai dar um trabalho para casa…

Imaginem também que vos convidam para ir ao teatro, para ver a peça do palco, isto antes de saberem que palco quer dizer “camarote”…

Uma situação em que vale a pena não ser muito impulsivo é aquela em que um falante do espanhol vos ofereça uma galheta – em vez de responder logo com um murro ou um pontapé, agradeçam e aceitem ou não consoante a fome que tenham: galleta significa “bolacha, biscoito”.

Não digam nunca a ninguém (nem de ninguém) que é engraçado, porque engrasado quer dizer “engordurado” ou “lubrificado”.

Da mesma forma, numa loja de móveis, não digam à empregada que andam à procura de cadeiras, ou que gostam muito das cadeiras que ela ali tem, ou que queriam ver cadeiras, que é coisa para ela levar a mal: cadera quer dizer “anca” e refere‑se muitas vezes não só à anca propriamente dita mas também aos seus arredores.

Tenham ou não possibilidades de nos induzir em erro, estes falsos amigos não deixam nunca de nos surpreender ou de nos dar vontade de rir, como quando ouvimos falar de azeite a propósito de óleo de motor (aceite quer dizer “óleo”, qualquer, nem que seja lubrificante) ou chamar escoba a uma vassoura, tacho a um bidão ou a um balde grande, vaso a um copo, cremallera a um fecho éclair, estufa a um radiador ou prenda a uma peça de vestuário. Há, ainda assim, coisas que têm a sua lógica: por exemplo, não me surpreende por aí além que se chame ganancia (pronunciar como “ganância”) ao lucro, presupuesto a um orçamento ou logro a um resultado. O que é mais esquisito, pelo menos para mim, é saber que boato quer dizer “ostentação”, que brinco quer dizer “pulo, salto”, que cimiento quer dizer “alicerces”, que estafa quer dizer “fraude” e, sobretudo, que sótano quer dizer “cave”…

Felizmente, do castelhano vem-nos mais do que falsos amigos. Vêm-nos amigos de verdade. A quem preconceituosamente me diga que de Espanha não vem nem bom vento nem bom casamento, eu direi apenas que as palavras que de lá têm vindo são quase sempre deliciosas, como pecadilho e outras simpáticas palavras em -ilho e -ilha: a mantilha, por exemplo, e a baunilha (que, se tivesse tido de se aportuguesar, ou tinha ficado vagenzinha ou vaginha (vainilla é “vagem pequena”) ou se latinizava em vagina…). Mas também brio e chaval, duas palavras cheias de pinta … E hediondo, que não nos demos ao trabalho de adaptar para *fedondo e ainda bem!”

Agora, para terminar, quero só recordar que, ao contrário do que pretende a minha mulher, pode não ser muito fácil mudar a sua configuração mental para compreender uma língua que, felix Iberia!, é quase igual à nossa. Lembro-me de que, da primeira vez que fui a Madrid, com o meu amigo Cristovam, chegámos à gare de Atocha por volta da uma da manhã e que, logo à saída da estação, o Cristovam perguntou a um tipo que ia a passar se ele sabia de algum sítio para dormir.
“Há aqui um sítio para dormir?”, perguntou ele, exactamente assim com estas palavras. Mas o rapaz não o percebia:
“No te entiendo!”
E o Cristovam repetiu a mesma frase, só um pouco mais devagar, “Há â-qui um sí-tiu pâ-râ dur-mir?”, mas sem melhores resultados – o rapaz continuava a no entender. Até que o Cristovam teve uma inspiração – é claro que o problema não era o débito, mas sim a abertura das vogais! E espanholou:
“Há àqui um sítiò párà dòrmir?”
O outro que sí, que ahora entendía: “Ah, si hay aquí un sitio para dormir...”

Por estas e por outras é que há muitos portugueses que se insurgem contra a “falta de jeito” para as línguas, senão contra a “má-vontade”, de espanhóis, ou brasileiros, que “não nos querem entender”. Então, se nós os entendemos a eles!... A verdade é que uma pessoa de língua materna castelhana, ou um brasileiro, tem interiorizado um sistema de vogais que é, em abstracto, praticamente igual ao do português europeu: A, E, I, O, U. Mas, no plano fonético, é tudo muito diferente, sobretudo porque o português europeu tem uma pronúncia muito relaxada das vogais átonas, quer dizer, as que não estão na sílaba acentuada. Um brasileiro ou um hispanófono não têm a mínima possibilidade de ouvir as vogais átonas, ao passo que, para um português, não dificulta em nada a compreensão que elas sejam pronunciadas mais abertas do que nós as pronunciamos. Como exemplo, tomemos desesperar que é composto das mesmas unidades em castelhano e em todo o português: /DESESPERAR/. No entanto, a redução das vogais átonas faz desaparecer, na fala portuguesa europeia, os três /E/ átonos. Como é que alguém que ouve [dzšprar], quer dizer, cinco (!) consoantes seguidas, pode reconstruir as unidades não pronunciadas? A única coisa que essa pessoa pode fazer é mesmo desesperar perante o “eslavismo” de uma língua que não deveria, em princípio, ser muito diferente da sua – para ela, se não é chinês, aquilo, pelo menos é russo…

15 de abril de 2009

Brancos, patrões, identidades e uma velha canção anarquista

I
Em lómuè, que é a língua que se fala na Alta Zambézia, onde nós vivemos antes, chama-se aos brancos mucunhas. Mucunha, curiosamente, não tem nada a ver com a cor branca, que em lómuè se diz otchela, mas quer antes dizer “patrão” ‒ que é, como presumo que saibam, uma forma normal de tratar um branco em Moçambique*. Ora, porque não quer dizer “branco” mas sim “patrão”, a palavra mucunha não se aplica só a pessoas de pele clara, e eu sei de casos de moçambicanos negros que, pelo seu estilo de vida, eram tratados por mucunha ‒ e não gostavam. E eu compreendo, porque eu também não gostava nada, quando cheguei a Moçambique, que me tratassem por patrão e arriava sempre a giga quando alguém o fazia. Quer dizer, continuo a não gostar, mas há muito que desisti de barafustar por causa disso. Para quê?, se é uma guerra perdida à partida:
“Patrão, não! Eu não sou seu patrão, porque o senhor não trabalha para mim…”
“Patrão?...”
“Estou a dizer que não sou seu patrão. Pago-lhe algum salário? Patrão é quem lhe paga salário.”
“Está bem, patrão.”

Se eu desisti ao fim de pouco tempo, conheci quem, ao fim de cinco décadas e tal de vida em Moçambique (toda a vida, entenda-se), tivesse firmeza ideológica ‒ ou teimosia... ‒ suficiente para continuar a recusar ser tratado por patrão: houve a certa altura em Molócuè um senhor, branco de pele e frelimista dos antigos (“eu sou da Frelimo do Samora, não é desta que há agora”, dizia ele a rimar sem querer…), que, enquanto foi gerente de uma pensão que havia lá onde nós morávamos, proibiu expressamente os empregados de lhe chamarem patrão a ele, “porque [ele] era só o gerente da pensão, o patrão estava em Maputo e eles nem sequer o conheciam e, além disso, nem era patrão nenhum, era uma patroa”, e também de chamarem patrão fosse lá a quem fosse, pronto! Se essa proibição era, aos meus olhos, bastante louvável, havia quem pensasse de outra maneira e o administrador do distrito, quando lhe vieram queixar-se do excesso de ideologia do gerente da pensão, quis falar com ele, para lhe explicar que, bom, enfim, algumas pessoas não levavam a bem aquela proibição, e que era normal em todo o lado chamar patrão às pessoas, e que não valia a pena insistir numa coisa daquelas… Frelimista que era, à antiga, e por isso incapaz de desrespeitar uma autoridade estatal, o tal senhor gerente retirou, muito contrariado, muito zangado mesmo, a proibição e tudo voltou ao normal: “sim, patrão”, “não, patrão”, “diga, patrão”…

II
Tenho uma t-shirt preta com a palavra mzungu escrita a letras brancas. Foi uma prenda da minha mulher, que a comprou numa das suas últimas viagens de trabalho, penso que num qualquer aeroporto no Quénia ou na Tanzânia. Mzungu é a palavra suaíli que se usa para designar os brancos**, de maneira que quase nunca uso fora de casa essa t-shirt, porque não me sinto à vontade em ostentar assim a minha condição de branco, mas, no domingo passado, por descuido, levei-a vestida quando saí com a família e um amigo para almoçar fora. Fomos a um restaurante que há ali à saída da cidade, que é de um português e que, ao que me dizem, costuma ser frequentado por uma parte da comunidade portuguesa de Chimoio. É certo que a maioria dos portugueses são mzungus, mas a t-shirt não era, obviamente, a mais apropriada para a ocasião. Naquela situação, melhor do que uma camisola a dizer mzungu, pensei eu, era ter uma camisola do Leixões, como um tipo que eu conheci há muitos anos em Bordéus, que se surpreendeu muito quando, em plena rua de Ste. Catherine, me dirigi a ele em português: “Eh pá, mas como é que tu sabias que eu era português?” As palavras são como as cerejas, é bem verdade, e onde eu já vou!… Com camisola de mzungu ou sem ela, os meus pruridos identitários, chamemos-lhe assim, não me impediram, quando chegou a altura de escolher o almoço, de optar por um cozidinho à portuguesa, que é uma coisa que nem todos os dias se pode comer em Chimoio…

Quando se vive fora do seu país, a nacionalidade pode ser, às vezes, uma armadilha. Outras vezes é um peso. É uma armadilha quando uma pessoa começa a relacionar-se com outra porque tem em comum com ela a nacionalidade ‒ e só isso ‒ e se arrepende depois de o ter feito… E é um peso quando não queremos identificar-nos com o comportamento da maioria dos nossos compatriotas no lugar onde estamos… Mas enfim, não há nada fazer. Quando me perguntam qual é a minha nacionalidade, tenho de responder que sou português, porque é português que eu sou. Mas costumo acrescentar: “Ninguém é perfeito, sabe?…”

Já o meu amigo que estava a almoçar connosco tem mais dificuldade em atribuir-se a si próprio uma identidade nacional. “Os meus pais são belgas”, costuma ele dizer, “e eu também tenho um passaporte belga, mas não sei bem o que sou…”. Conheço muitas pessoas como ele. Eu próprio, que não tenho dúvidas de que sou português, não me sinto seguramente tão português como outros portugueses que há. Provavelmente, não sou mesmo tão português como outros portugueses que há. E se digo provavelmente é só porque não sei ao certo como se define a propriedade ser português. Há o passaporte, pois, e deve haver mais do que isso, mas o quê?

Numa coisa estamos de acordo, o meu amigo belga e eu, na conversa que surge durante o cozido (ele também escolheu cozido, se calhar por não haver carbonade…): fazem-nos falta a todos nós amigos e companhia, porque a solidão é a mais terrível doença de que pode padecer um ser humano, mas a necessidade de raízes e de identidade, nacional ou outra, é um mito. Há muito quem apregoe a importância da consciência das “raízes” e do fazer-se parte de uma comunidade, há muito quem queira convencer-nos de que o que é natural, e por isso, indispensável, é fazer parte de uma nação, um clã, uma tribo ou uma religião, há muito quem passe a vida a publicitar o sofrimento daqueles a quem a vida nega a possibilidade de viver entre “os seus”, mas, é curioso!, conheço gente “desenraizada” e “apátrida” em maior e menor grau e nos “desenraizados” e “apátridas” que conheço não noto nem nunca notei problema nenhum ‒ contanto que, claro está, assumam a sua condição de não serem portadores de uma identidade clássica. Evidentemente, se um português insistir em sentir-se exclusivamente português (entenda ele como entender a sua portugalidade) e em fazer do que é característico do seu Portugal condição indispensável de felicidade, há-de passar uma vida contrariada em qualquer sítio que não seja esse seu Portugal. Mas a quem se disponha apenas a viver a vida que tem ‒ como ela é ou mesmo contra o que ela é, não importa ‒ sem se deixar aprisionar em ilusões identitárias, o pretenso desenraizamento e a falta de um sentimento de identidade étnica ou nacional não causam sofrimento nenhum.

Até porque, é aqui que eu queria chegar, a condição mais ou menos desenraizada, mais ou menos apátrida, mais ou menos isso tudo que lhe queiram chamar, de quem não se deixa prender em identidades simples e tradicionais pode ser uma abertura a identidades novas, que, conforme o seu grau de abrangência, podem ir desde não serem nem melhores nem piores do que as restantes até fazerem mais sentido do que quaisquer outras: se a identidade a que se acede é a dos portugueses ou dos belgas emigrantes, a queixarem-se em conjunto tanto da vida no seu país de origem como dos defeitos do país onde vivem, pouco se saiu, ou nada, do estado mais primário e mais comum de identidade; se a identificação for sobretudo com os outros “desenraizados” ou “apátridas” (por exemplo, entretidos à volta de um cozido à portuguesa a discutir o mito da necessidade de identidade...), também não se avançou muito mais; mas se se conseguir deitar às urtigas essas e outras identidades de grupo restritas, passa-se a fazer parte, sem ter sequer de se pensar nisso, do único círculo de identidade que parecer fazer verdadeiro sentido ‒ o que inclui toda a gente sem excepção.

Ou, como diz a velha cantiga de Pietro Gori, “Nostra patria è il mondo intero / nostra legge è la libertà...

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* Se bem que agora a forma boss ou boiss (mais, como direi?, globalizada…) comece a competir muito com patrão
** A informação que me deram é que a palavra deriva de um verbo que significa “andar às voltas” e usava-se originalmente para descrever os comerciantes brancos… que andavam de um lado para o outro. A wikipédia em inglês concorda com esta proposta etimológica.

9 de abril de 2009

Sobre a abertura dos oo, o dinheiro no Zimbábuè e o salão de chá do Tony

Depois de uma série de textos assim um bocado a fugir (muito trabalho...) e de uma volta pelo Zimbábuè, com um fim de semana em Vumba e uma consulta no dentista em Chinhoyi, voltamos a coisa séria (coisa séria? “seria?”, como diria Alexandre O’Neill… da poesia).

Uma longa viagem de carro é, como todos sabem, uma oportunidade privilegiada para ouvir música e o mais que lhe venha agarrado. A pronúncia dos oo átonos, por exemplo. Interroguei-me uma vez aqui na Travessa do Fala-Só sobre a razão da abertura dos oo átonos na pronúncia de muitos moçambicanos e avancei com a hipótese da influência da grafia. Como isto dito assim é pouco convincente, proponho-vos a leitura desse texto, onde está a ideia mais bem explicadinha. Agora, sem querer aqui deitar fora essa hipótese, que é capaz de ser pertinente nalguns casos, quero acrescentar-lhe outra explicação possível para a abertura dos oo átonos e provavelmente coexistente com a primeira, que me surgiu na viagem a caminho do dentista:

Os nossos filhos foram connosco e estreei nessa viagem uma cassete com uma compilação que tinha feito umas semanas antes de hits infantis cá de casa. Entre esses êxitos, chamou-me a atenção uma canção de um grupo de crianças de Maputo. Não a canção propriamente dita, mas a pronúncia dos miúdos que a cantam. São crianças da capital, se não de língua materna portuguesa, pelo menos muito expostos a ela. Têm, é claro, uma pronúncia muita aberta dos aa, e um l pronunciado muito à frente, alguns traços que muitos portugueses reconheceriam como “sotaque africano” sem saberem especificar de onde, mas não têm nada daquelas pronúncias estranhas dos oo átonos: todos os oo átonos da canção são pronunciados [u], exactamente como se pronunciam no português standard europeu e no português dos moçambicanos mais velhos de língua materna portuguesa. Todos... excepto dois. O o de jogar e o o de tocar são pronunciados abertos: [tòcar] e [jògar]. A hipótese da influência da grafia de uma língua essencialmente escolar pode, neste caso, pôr-se de lado à partida, porque senão, por exemplo, boneca seria também [bòneca] e não é. Então?

O que distingue os oo de tocar e jogar de todos os outros oo átonos que aparecem na canção é que, sem mudar de lugar na palavra, digamos assim para simplificar, podem às vezes ser tónicos e, por consequência, abertos: eu jogo, tu jogas, eu toco, eles tocam. Quer dizer, a pronúncia aberta destes oo resulta muito provavelmente de uma generalização tomando como base a forma do presente do indicativo e do conjuntivo. O que eu não sei é por quê. Pode postular-se que as formas do presente ocorrem mais e que, por isso, é o seu o aberto que serve de modelo a formas menos ocorrentes, como o infinitivo em questão. Se não houver um sistema interiorizado, é natural que a pronúncia da forma com maior ocorrência prevaleça como “norma”. É uma possibilidade, se bem que relativamente fraca. Outra possibilidade é que haja alguma coisa do sistema das línguas bantu a influenciar – ou até determinar – esta generalização. Custa-me imaginar que tipo de influência possa ser, mas isso não é de espantar, porque eu não sei absolutamente nada sobre as línguas da região. E deve haver outras possibilidades que não consigo agora vislumbrar...

Isto era sobre oo. Quanto ao Zimbábuè, está diferente. Da última vez que lá tínhamos estado, em Novembro, parecia um país fantasma, sem vivalma nas ruas e quase sem carros na estrada, as lojas completamente vazias, desolação, tristeza. E raivas, seguramente… Agora, é já um país normal outra vez, ou quase, com produtos à venda e gente que os compra, gasolina nas bombas e crianças a caminho da escola. Os preços estão altos, mas parece que estão a baixar rapidamente e há esperança de que, dentro em breve, voltem quase ao normal.

Quando se pede às pessoas explicações de tão grande transformação, ninguém dá como causa imediata as mudanças políticas dos últimos tempos. “Ah, isso não, isso não teve resultados nenhuns… Isto está melhor é desde que podemos pagar em dólares e em rands, isso é que veio mudar a situação…”

O único problema são os trocos, mas, para isso, os zimbabueanos também já arranjaram solução: no Zimbábuè, um rand é exactamente um décimo de dólar, e os trocos mais pequenos são sempre em rands. Como nem sempre chegam e se fica muitas vezes a haver o troco, há quem se dê ao trabalho de ir mesmo à África do Sul só para trocar notas grandes de rand em muitas notas pequenas. Isto é tudo sem decreto. Regras espontâneas, nascidas da prática das pessoas. Do dólar zimbabueano, se existe, ninguém sabe dele nem quanto vale agora – desapareceu completamente de circulação…

Indiferente à crise, a todas as crises, o famoso salão de chá do Tony, nas montanhas mágicas de Vumba, continua a servir todos os chás, cafés e cacaus que há (desta vez, provámos cacau com piripíri, uma mistura que se aconselha!) e o seu famoso bolo de chocolate. Como há uma boa dezena e meia de anos que o Tony não se cansa de explicar aos clientes, “o bolo de chocolate tem apenas quatro ingredientes além das nozes: chocolate, chocolate, chocolate e chocolate; pelo que, a quem escolher o bolo, não se aconselha beber cacau..” Sacré Tony, como diriam os franceses (isto está a tornar-se um hábito, hem?)

3 de abril de 2009

Um blogue muito demand-driven: arenque de conserva e o alfabeto de Utopia

Ao contrário do que eu calculava em Novembro (um mês antes de ter posto o aparelhómetro do Statcounter e baseando-me apenas no número de comentários de pessoas desconhecidas), não é o primeiro texto sobre português de Lisboa o texto mais lido do blogue (nem o segundo), mas não há dúvida de que as pesquisas sobre o dialecto lisbonense, sob formas variadas (sotaque/dialecto/português lisboeta/de Lisboa), são as que mais pessoas trouxeram à Travessa do Fala-Só.

Além de me dar essa informação simples, a lista das pesquisas que trazem as pessoas a este blogue revela ainda, por exemplo, que há com toda a certeza uma grande percentagem dos utilizadores da Internet que não faz ideia de como fazer as suas pesquisas ou que toma o motor de busca por um interlocutor humano. Aparecem pesquisas como
os cientistas podem afirmar que o artista errou ao escolher a cor desses dinossauros e por quê?,
como se diz apenas eu em francês?,
em que parte do filme Apocalypto se apresenta a teoria etnocêntrica?,
qual é a transcrição fonética de cattle?
ou
como se escreve porque não há gloria sem sacrifício em inglês?
Às vezes, as perguntas, além de serem muito ambiciosas, são formuladas em estilo sms, como
de q fala a ciencia?,
e também chegam a aparecer injunções autoritárias, como
quero um desenvolvimento bem feito sobre romance
ou
quero saber como são pronunciadas agora algumas palavras que se diziam antigamente.
Se estes dois últimos pedidos são estranhíssimos, estão longe de ser os únicos. Há pesquisas mesmo muito esquisitas (!!!), como
africanos na América antes de Colombo,
texto bem comprido,
pontos fortes e pontos fracos segundo Oliveira,
sentimentos mais prováveis em cada fase da vida,
ou
quais são as preposições e contradições.
É também interessante notar que, de 244 pesquisas que aqui trouxeram pessoas desde meados de Dezembro, só em três se usam sintagmas específicos delimitados por aspas. Estranho…Pergunto a mim mesmo se estas pessoas encontrarão alguma coisa do que procuram… Espero que sim… E penso que um negócio em que eu me podia lançar era fazer cursos de como pesquisar na Internet.
E depois há pesquisas que nos deixam imaginar romances. Por exemplo:
mia kastrup caminho uruguay malveira da serra
A história que eu imagino logo é a seguinte:
Trata-se de um português que procura uma dinamarquesa chamada Mia, que conheceu no aeroporto de Kastrup, em Copenhaga. Iam ambos para Lisboa. Mia, que, curiosamente, falava bem português, até porque tinha estudado um ano no Porto, contou-lhe que ia passar uns dias a casa de uns amigos na Malveira da Serra, antes de continuar para o Uruguai, onde ia passar o resto das férias…. Quando se despediu de Mia no aeroporto de Lisboa, o rapaz (por timidez ou por não se ter dado ainda conta, nessa altura, dos seus sentimentos por ela) limitou-se a desejar-lhe umas boas férias, mas arrependeu-se, logo nessa noite, de não lhe ter confessado a sua paixão, e passou umas quantas horas na net a tentar encontrar-lhe o rasto… em vão.
Sejamos sérios, vá lá! Como o que agora está na moda é ser demand-driven, passo a responder a perguntas de duas pessoas que vieram a este blogue e que ficaram, com toda a certeza, frustradas por não obterem aqui nem vislumbre de resposta: Como fazer arenque de conserva? e O que significa o alfabeto da ilha de Utopia?
1. Como fazer arenque de conserva?
Já tinha prometido aqui falar de receitas de peixe cru, de maneira que calha mesmo bem este pretexto. Há dezenas, se não centenas de maneiras de fazer conservas de arenque. Uma muito simples, boa para gente preguiçosa como eu, é a seguinte:
Limpar o peixe, fazer filetes, e salgar com sal grosso, às camadas (uma camada de filetes, uma camada de sal…). Depois, guardar no frigorífico (bem tapadinho, por causa do cheiro, claro está). Se se vir que o peixe não larga molho, pode juntar-se um bocadinho da água. Também se pode juntar um bocadinho de açúcar, se se quiser (eu nunca ponho). Ao fim de três dias de salmoura, já se pode preparar o peixe. Mas, claro, também pode ficar assim muito mais tempo.
[Se não quiserem salgar o peixe antes de o trabalhar, e se ele estiver bem fresquinho, podem pôr-se directamente os filetes em água com vinagre, só, que, nesse caso é mais vinagre do que água: três partes de vinagre para uma de água e um bom bocado de sal. Fazendo assim, só se deixa o peixe nesta água 24 horas e depois tem de se o preparar.]
Quando se tira o peixe da salmoura, limpa-se-lhe o sal. Entretanto, preparou-se já um líquido à base de açúcar e vinagre: por cada ½ litro de água, que tem de estar a ferver para dissolver bem o açúcar, põem-se 100 gramas de açúcar. Quando arrefece a mistura, junta-se-lhe ¼ de litro de vinagre. Antes de se deitar este líquido sobre os filetes escorrido do sal, põem-se entre as camadas de filetes rodelas de cebola muito fininhas. Também se pode usar como tempero grãos de pimenta – e o mais que se queira, claro está, conforme o gosto de cada um (isto é o mais importante em qualquer receita).
Só assim, o arenque já está bom para comer logo ao fim de algumas horas de estar de molho na mistura agridoce, mas, é claro, podem fazer-se, e fazem-se muitas vezes, molhos sofisticados para lhe dar mais sabor – ou outros sabores, seja... Cá em casa (e em todas as casas onde há miúdos, acho eu), o molho favorito é um molho espesso de maionese com um caril suave e bocadinhos de maçã, por exemplo. Mas essa receita já é para outro dia…
Ah, e como já disse aqui uma vez, o que se faz com arenque pode fazer-se também com as muitas espécies que há de sardinha, com bons resultados.
2. O que significa o alfabeto da ilha de utopia?
Bom, o alfabeto não significa nada, é um alfabeto, mas sobre o texto escrito com alfabeto utopiense na Utopia de Thomas More, eis um excerto de um texto meu sobre as línguas das utopias:
As referências à língua da ilha de Utopia são, no texto de More, muito escassas. Apenas ficamos a saber que a língua (como as instituições e as leis…) é «perfeitamente idêntica» nas cinquenta e quatro cidades que constituem a república, que [p.105, A Utopia. Lisboa: Guimarães Editores, 1990] «os utopienses aprendem as ciências na sua própria língua, língua rica, harmoniosa, que é fiel intérprete do pensamento, e que se difundiu, mais ou menos alterada, por vasta extensão do globo» e que [p.119] «essa grande facilidade com que aprenderam o grego prova que essa língua lhes não era de todo estranha. Suponho-os de origem helénica; e posto que o seu idioma se aproxime muito do persa, encontram-se nos nomes das suas cidades e magistraturas alguns vestígios da língua grega».
É fácil verificar esta origem helénica do utopiense nas duas dezenas de palavras que vão aparecendo ao longo da narrativa de Rafael Hitlodeu, o navegador português que descreve a ilha: abraxa,..., pode bem ser apenas, como o leram alguns tradutores de More, uma latinização de abrakae, a-brakae, “sem calças”; os acorienos (archorium populus em latim) são o povo de Acoria, a-coria, “sem país”; Adamos,..., é provavelmente apenas ademos, a-demos, “sem povo”; Alaopolita é a fusão de alaos, “cego” com polites, “cidadão”; etc...
A edição Frobenius de Basileia de 1518 traz em apêndice, além do alfabeto utopiense, um pequeno texto nessa língua.
Segundo o prólogo da mesma edição, trata-se de um acrescento do editor, Pierre Gilles, ao texto de More. Não pude atestar a existência deste editor, podendo tratar-se apenas de uma estratégia retórica de More. Seja como for, esta “adenda” é perfeitamente coerente com o espírito da obra. Assumo, na esteira de Pierre-François Moreau [Le récit utopique, droit natural et roman de l'état. Paris: PUF, 1982] que faz parte integrante da obra Utopia. Eis a inscrição da autoria de Utopos, o fundador de Utopia, em utopiense, latim e português (a tradução em português, o mais literal possível para evidenciar a estrutura do utopiense, é minha):
Vtopos ha Boccas peu[/] la chama polta chamaan 
Vtopus me dux ex non insula fecit insula
Utopos de mim (?) General de não ilha fez ilha
Bargol he maglomi baccan soma gymnosophaon 
Vna ego terrarum omnium absque philosophia 
Só eu das terras todas sem filosofia
Agrama gymnosophon labarem bacha bodamilomin
Civitatem philosophicam expressi mortalibus

Estado filosófico exprimi aos mortais
Voluala barchin heman la lauoluola drame pagloni
Libenter impartio mea non grauatim accipio meliora
De boa vontade reparto (?) minha (parte [?]) não de má vontade aceito melhor (parte [?)
Não tenho a certeza de que haja uma correspondência assim, palavra a palavra, entre o texto utopiense e o texto latino. Mas esse perfeito paralelismo é bastante provável, já que o poema tem o mesmo número de palavras nas duas línguas e que as que são identificáveis (Utopos, os pronomes, as partículas de negação, o nome “filosofia” e os advérbios de modo do último verso) ocupam os mesmos lugares nos textos nas duas línguas.
Bem vistas as coisas, se tudo é assim tão da mesma forma – o que nunca acontece em duas línguas diferentes – é porque se trata, digamos...da mesma língua!
E pronto. Mais demand-driven do que isto, morre-se, como dizem os franceses… Quer dizer, alguns franceses…