27 de maio de 2009

Propriedade privada e domínio público

Para mim, é claro: enquanto eu não perder completamente a esperança (a ilusão, seja…) de vir a vender certas coisas que escrevo, hei-de querer conservar delas a propriedade legal. Abdico, porém, de qualquer direito à parte da minha escrita que eu nunca quis vender. A grande maioria das coisas que escrevo aqui na Travessa não tem grande interesse para ninguém, mas, se alguém quiser citar o que eu escrevo sem mencionar a fonte ou apresentando-se até como sua autora ou seu autor, faça o favor! Ficarei, naturalmente, muito satisfeito de ver alguma ideia ou formulação minha ser assim adoptada por outra pessoa. Sobretudo, se eu ainda concordar com ela…

Reflexãozinha sobre o anonimato, tão sem graça como devidamente identificada

Uma característica interessante da cultura internética, se é que se pode falar de uma coisa assim, é o anonimato – uma coisa que me surpreende, por não lhe encontrar uma razão óbvia; que me irrita um bocadinho, às vezes; e que não sei bem até que ponto se deve ou não condenar...

Muita gente tem criticado o anonimato na compilação ou sistematização de informação. A Wikipedia é o maior alvo destas críticas, mas há muitos outros casos semelhantes*. Sinceramente, não vejo perigo nenhum em projectos deste tipo. Uso regularmente informação a que tenho acesso em enciclopédias e fóruns anónimos, e não vejo necessidade de ser mais cuidadoso na filtragem dessa informação que na filtragem da que vou buscar a obras assinadas. Em princípio, os motivos para desconfiar de um texto têm pouco a ver com o facto de ele ter ou não um autor identificado (a não ser, claro, que se aceite a identidade do autor como garantia suficiente da sua credibilidade…).

É também praticamente irrelevante a questão da produção anónima de objectos artísticos, porque ela é mínima e normalmente de obras sem grande interesse – os produtores de obras de qualidade são normalmente ciosos da sua assinatura, online ou não. Independentemente da sua frequência, porém, não há nesse anonimato nada que seja passível de crítica, porque no domínio da arte, ninguém é obrigado a nenhum tipo de relação com as obras que cria, e certamente que não tem nenhum dever de se dar a conhecer como seu autor.

Na minha opinião, o domínio em que é mais interessante a discussão do anonimato é o da produção de opinião. A todos os níveis: principalmente sobre questões políticas, ou morais em geral, mas também sobre questões estéticas. A internet está cheia de opiniões anónimas – e nem sempre anódinas. E eu não percebo bem por quê. Provavelmente, as pessoas sentem-se mais expostas e de alguma forma mais vulneráveis online do que em relações não virtuais, mas, mesmo assim… Já não falo de páginas com conteúdo sexual ou de blogs de super-heróis (que gracinha, Vitinha…), em que as razões do anonimato são imediatamente compreensíveis, mas, desde blogues de opinião a fóruns vários de discussão, passando por comentários externos a artigos de jornais e revistas online e a posts de blogues, as criaturas mais activas na Internet são a Sra. Anónima, o Sr. Anónimo, a Sra. Pseudónima e o Sr. Pseudónimo. Pode argumentar-se que o facto é irrelevante, porque uma opinião tem o mesmo valor sendo assinada com um nome verdadeiro ou não, e é difícil rebater tal argumento. Como já disse, irrita-me às vezes um bocado o anonimato, mas é uma irritação sem grande motivo, reconheço… É uma coisa instintiva, visceral: quando vejo um comentário anónimo, seja neste meu blogue ou noutro sítio qualquer, pergunto-me a mim mesmo: “Será que, fora da Internet estas pessoas também reservam a sua identidade? Ou reservam antes, perante pessoas que sabem quem elas são, a sua opinião?” É estranho, tudo isto, mas enfim, apenas estranho. É-me difícil apontar aqui alguma imoralidade.

“E o que é que se passaria se não houvesse a possibilidade de anonimato”, interrogo-me eu, para ver se descubro algum perigo real no não dar a cara. Bom, é possível que alguns comentários apatetados desaparecessem, que desaparecesse alguma virulência (sei que há estudos que defendem que o anonimato online está na origem de tipos vários de comportamento anti-social); e talvez aumentasse a necessidade de justificar argumentos… Talvez tudo isto – ou talvez não…

Mas enfim, assumamos que agressividade, leviandade, e desrespeito de normas e de pessoas são alguns possíveis efeitos negativos do anonimato. E que efeitos positivos tem? Também não sei bem. Em princípio, o de dar, a quem não a tem, a coragem de se exprimir sobre determinados assuntos**, ou a coragem de se exprimir, tout court; e, claro, o mais óbvio de todos, maior facilidade na possibilidade de resistência activa a vários tipos de repressão***

Agora, já repararam que, no meio de tantas opiniões anónimas, a esmagadora maioria das pessoas convictas do que escrevem se identifica devidamente? Da parte do autor dos textos, há alguma relação, estou em crer, entre assinar e levar “a sério” o que escreve. E a mesma relação entre identificação e “seriedade” é também estabelecida, penso eu, por muitos leitores: um texto devidamente assinado é considerado mais “sério” e merece, portanto, mais credibilidade. Não vos parece?

... O que não significa, claro está, que todos os que se identificam devidamente têm um alto grau de convicção e que ganham, por se identificarem, alguma credibilidade. Eu, por exemplo, apesar de devidamente identificado...

[Agora, entre parênteses, vou fazer uma pequena experiência: vou escrever aqui que prevejo comentários anónimos a este post, a ver quantos aparecem…]
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* As críticas não são só ao facto de os artigos terem autores anónimos, mas também ao facto de serem produzidos colectivamente. Não sei até que ponto se pode dizer que o anonimato é, nestes casos, uma componente do colectivismo...

** Também sei que há estudos que consideram o anonimato uma causa de hiperpersonalismo, o que faz todo o sentido, mas não sei se pode colocar esta abertura de si entre as consequências positivas do anonimato… Duvido, pelo menos, que seja um consequência abertamente negativa, ao nível das que referi atrás…

*** Que eu, confesso, não faço ideia de que importância tenha. A verdade é esta: nas minhas deambulações pela net, nunca fui parar, como vou parar a tantos outros tipos de páginas, a sites de resistência clandestina a regimes repressivos e nem sequer a páginas de resistência a algum chefe ou professor despótico. O que não quer dizer que os não haja, claro está. O facto de isso nunca me ter acontecido tem provavelmente tem mais a ver com o próprio carácter das minhas ciberdeambulações, não sei…

23 de maio de 2009

Morte ao som do disco sound

Touching the void é o nome de duas grandes obras.

A primeira é um livro do montanhista Joe Simpson em que ele conta a escalada do monte Siula Grande, no Peru, com o seu colega Simon Yates. Joe Simpson é um narrador altamente competente e a sua escrita consegue seduzir mesmo quem, como eu, não se interesse especialmente por montanhismo – e também seguramente quem, ao contrário de mim, não se interesse por problemas morais (ia a escrever “e ainda a quem não se interesse pela questão dos limites do ser humano e da problemática da morte iminente”, mas não acredito que haja gente assim…). Haveria muito que dizer sobre o livro, mas não é aqui lugar para isso nem essa a intenção deste post, pelo que me limito a recomendá-lo. [Sei que existe uma tradução em português do Brasil chamada Tocando o vazio, não sei se existe alguma em português europeu.]

A segunda obra com o mesmo nome é o filme que Kevin MacDonald realizou em 2003, a partir do livro e com a colaboração de Joe Simpson e de Simon Yates. Trata-se de um documentário fabuloso, em que se misturam entrevistas aos protagonistas com uma reconstituição dos acontecimentos que é impressionante de beleza das imagens, realismo e drama. Uma obra também muito recomendável.

E chego ao que eu queria aqui contar: Joe Simpson está sozinho no meio da neve, tem uma perna estilhaçada, sofre dores horríveis, está enregelado, completamente desidratado, não consegue mover-se. Não tem dúvida de que chegou o fim. Só lhe resta esperar a morte.

“Não me lembro de ter pensado em ninguém… Em nenhuma das pessoas que me são queridas... Lembro-me de me ter vindo uma canção à cabeça… Dos Boney M… E eu não gosto de Boney M… Aquilo continuou… Durante horas e horas… Era horrível… Porque eu queria tirar a canção da cabeça e pensar noutras coisas… E comecei a pensar: Porra, pá, vou morrer ao som dos Boney M!...”

(Se tiverem a sorte de não conhecer a canção em questão, “Brown girl in a ring”, mas, roidinhos de curiosidade, quiserem ir ver qual é, pois bem, façam-no… por vossa conta e risco… Quanto ao título do post, leiam-no como quiserem...)

21 de maio de 2009

A cidade de Nimis e a floresta de Oma

Em Maio de 1993, numa viagem que fiz à Suécia, levaram-me a visitar Nimis. Eis o que eu escrevi sobre esse estranho lugar num caderninho chinês que levava comigo.
Nimis fica no Sul da Suécia e é uma teimosia, uma coisa de amor e de obsessão. Vou contar o que me contaram.
Lars Vilks tinha uma tese para fazer e queria fazê la sobre os limites da arte: o que é uma obra de arte?; o que é que ainda é arte ou já não é arte, onde ficam as fronteiras?
Foi a um parque natural, desses em que é tudo proibido, cortar as plantas, mexer nelas, construir seja o que for, e começou, num amontoado de rochas à beira-mar, a juntar paus que o mar trazia e troncos velhos, e a empilhá-los e a atá-los, e a ordená-los, enfim, na forma de uma cidade bizarra que trazia na cabeça.
Soube-se da construção e começou a disputa com as autoridades, que oficialmente nunca acabou. O município dizia que ali não se podia construir. Lars Wilks respondia que aquilo não era construir, mas antes criar arte e que não havia lei contra isso. O município retorquia que era construir, sim senhor – um edifício muito esquisito, mas ainda assim um edifício. Et cetera.
Uma vez, tentaram destruir Nimis, pegando-lhe fogo, mas Nimis não ardeu completamente e Lars Wilks começou logo a reconstruir as partes queimadas. A primeira coisa que fez depois do fogo para robustecer a sua obra foi encher de pregos os paus, para não poderem arder com facilidade. E Nimis foi sempre ficando e crescendo. Todos os dias, Lars Wilks ia juntando troncos e paus à cidade fantástica de troncos e paus. Começou a vir gente ver a obra de arte que nunca parava de crescer.
Um dia, Lars Vilks fez uma venda simbólica de Nimis a um artista conceptual alemão, que morreu pouco depois. Foi uma venda simbólica, porque o artista alemão pagou por Nimis uma soma simbólica, mas foi uma verdadeira venda, no sentido em que foram cumpridos todos os requisitos legais que a venda de uma obra de arte implica. E foi outra polémica. A ideia era obrigar as autoridades locais a deixar Nimis em paz, porque a lei sueca diz que não se pode tocar na propriedade de um estrangeiro. O município, porém, insistia em que ele não tinha o direito de vender Nimis como se fosse um quadro ou uma escultura, porque não era uma coisa móvel, tinha alicerces num terreno que não lhe pertencia. Mas Lars Vilks argumentava que não havia alicerces de facto, que era só a estrutura mínima de que a obra precisava para se manter de pé, como muitas esculturas têm.
A pouco e pouco, a teimosia de Lars Wilks acabou por se impor. As autoridades municipais foram-se cansando de tão grande luta sobre o que começaram a achar, afinal, tão pouco, e acabaram por aceitar Nimis como um facto consumado.
Agora o que é engraçado é que, já passados a tese e o auge da grande discussão com as autoridades municipais sobre onde começa e onde acaba uma obra de arte, Lars Vilks apaixonou-se por Nimis. Febrilmente, obsessivamente. Nota-se-lhe essa febre na maneira ansiosa como os pregos torcidos e as tábuas tortas nunca são endireitados, na pressa desorganizada das formas, no espaço todo que é deixado a acasos. Já lá vão mais de 10 anos e Lars Vilks continua, impacientemente, o seu trabalho. Como já não lhe chegavam os troncos e a madeira velha, começou a usar pedras e cimento também. Começou a mobilar com restos de livros rasgados que prega à parede uma das salas da sua cidade: aqui é a biblioteca. Quem sabe, virá depois um asilo para velhos e uma estação de caminho de ferro.
Toda a gente que se interessa por Nimis acredita que Lars Vilks há-de continuar sempre o seu trabalho, até morrer.
Retoquei um bocadinho o texto, mas muito pouco, e não foi o suficiente para o aliviar de incorrecções e lacunas. Entre outras coisas, conviria explicar que a construção de pedras e cimento que Lars Vilks tinha começado pouco antes da minha visita não é Nimis, mas sim Arx. Outra coisa, outra obra. E chegou a haver uma terceira, que foi removida… O melhor, para ficarem a saber mais sobre Nimis, que entretanto se transformou numa micronação, é darem uma voltinha à Wikipédia ou à página oficial da nação em que se Nimis tornou. De Nimis é tudo o que sei e do bosque de Oma sei ainda menos.
Eu morava no Bairro Alto, nessa altura. Em 94, foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs:
“É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!”
Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir. Lembro-me de que tentei muitas vezes imaginar como seria uma “pintura sobre floresta”, sem nunca conseguir imaginar nada de muito concreto.
Durante muitos anos, esqueci-me completamente dos bosques pintados do país basco. Até que ontem, de repente, me lembrei de Nimis, que também estava esquecida há uns anos, e da floresta pintada. Fiz uma pesquisazinha na internet e fiquei finalmente a saber como é o bosque de Oma, pintado por Agustín Ibarrola. E quero agora apresentar-vo-lo. Se não se importarem de ter um bolero de Antonio Machín como música de fundo, podem ver um diaporama que dá uma boa ideia da obra; se não gostarem de boleros, há muitas fotos na Wikipedia e noutros sítios… Um senhor chamado Iker, por exemplo, tem uma página com bonitas fotos do bosque, em que explica que, “dependendo de onde a gente se ponha, formam-se figuras muito curiosas. É surpreendente ver aquilo lá mesmo no lugar, porque só se vê pinturas nas árvores, mas quanto uma pessoas se coloca em determinados sítios, vê um desenho formado por várias linhas de árvores...” Isto vê-se bem numa outra bonita galeria de fotos da floresta, da autoria de Javi Munõz.
Também há quem faça desenhos enormes em campos de cereais.

19 de maio de 2009

Louvor de Paulino António Cabral e de uma vida boa

Jacinto do Prado Coelho disse do poeta Paulino António Cabral, muitas vezes referido como Abade de Jazente:
Os versos d[ele] não valem muito pela qualidade poética (…), mas não deixam de ser literatura cativante, injustamente obliterada.
A não ser que nos atenhamos a uma concepção altamente formal de “qualidade”, não percebo bem o que é preciso mais, para definir a qualidade poética de um texto, do que ele ser, precisamente, literatura cativante... Para mim, Paulino António Cabral é apenas um poeta sério e, nisso estou de acordo com Jacinto do Prado Coelho, injustamente esquecido. Acho que deve dedicar, quem não o conhece, algum tempinho que arranje a conhecê-lo; por exemplo, numa página que lhe é dedicada pelo senhor Arlindo Correia (onde eu fui buscar, precisamente, a citação de Jacinto do Prado Coelho que acabo de referir). E deixo-vos aqui um poema de Paulino António Cabral, para os que o não conhecem decidirem se têm ou não vontade de o conhecer. Em 1784, com 65 anos de idade e já doente, escreveu ele:

Eu, que junto à cabana, em que vivia,
Tive uma rica rrmida; e afortunado
Ovelhas tantas tive, que o montado
Com elas branquejar alegre via;

Eu, que tive prazer, tive alegria,
Tive nome entre os mais; eu desgraçado,
De quanto tive agora despojado,
Não tenho nada mais, que a noite, e dia;

Eu mesmo deixei tudo; e unicamente,
A saudade nos cofres da memória
Com desvelo guardei, mas imprudente;

Pois lendo nela a minha triste história,
Me fazem ser mais duro o mal presente
Doces lembranças da passada glória.

Tinha prometido já não falar aqui de literatura e não o faria se não trouxesse a literatura agarrada a ela outra coisa qualquer. É tão impossível como irrelevante saber o que há de expressão de uma convicção, neste poema, ou de procura apenas de efeito literário. O facto é que, entre outras coisas, o poema diz uma ideia e pode-se discuti-la (sou daquelas pessoas antiquadas que acham que a literatura serve para transmitir ideias e que é esse um dos seus aspectos interessantes; e que se podem discutir as ideias que se encontrem num poema, exactamente como as que se encontrem noutro texto qualquer...).

Poderia argumentar que o problema do sujeito do poema não é a “passada glória”, mas a fonte dessa glória; poderia repetir aqui que prazer e alegria não têm nunca satisfação e não trazem nunca satisfação; que de fortuna e nome pouco fica que nos valha quando deixamos de os ter; que, se fossem as doces lembranças de acções concluídas, se fosse a “passado glória” feita de obras feitas, não haveria saudade que o magoasse, até porque não haveria de que ter saudade. Mas não é por aí que quero ir, até porque isso já eu escrevi aqui uma vez. O que eu queria dizer é só que, independentemente do que se tenha feito na vida, é uma sorte, precisamente, poder lembrar-se de ter tido, pelo menos, alguma coisa de seu, prazer e alegria; porque terrível de facto há-de ser olhar para trás e não conseguir recordar senão o contrário de tudo isso... E há muita gente, estou eu convencido, que não encontra muitos prazeres de que ter saudade no fim da vida...

Mas claro, é mais fácil ser-se assim optimista em relação à velhice antes de lá chegar do que depois de lá ter chegado. Eu em lá chegando (já faltou mais...), depois digo-vos se mudei de opinião, sim?

Não me digam que não acham boa ideia…

Continuamos em maré de resolver ambiguidades:

Na frase dinamarquesa correspondente a “O poeta despede-se da musa no seu leito de morte”, o possessivo (seu) é diferente conforme se trate do leito do poeta ou do leito da musa, de maneira que nunca há ambiguidade.

Podia facilmente convencionar-se uma regra assim para o português escrito: escrever-se-ia “A Rita foi com a Rute no seu carro”, se fosse o carro da Rita, e “A Rita foi com a Rute no carro dela”, se fosse o carro da Rute. Ou ao contrário, era irrelevante, conquanto que se assentasse numa regra...

O quê? Não me digam que não acham boa ideia…

Erros, ponto e vírgula!... Preferências!

A pontuação é uma invenção relativamente recente. Na escrita, foi a última coisa a ser inventada e pode até dizer-se que, como nós a conhecemos hoje, apareceu só depois da invenção da imprensa. “Se se viveu tanto tempo sem ela”, pensará logo quem não for muito amigo de pontos e vírgulas, “deve ser porque não é imprescindível…” Pois… Mas a questão não é tanto ser imprescindível ou não; a questão é que dá um jeitão!

Uma função da pontuação é marcar certos traços da fala que são pertinentes na construção de sentido, mas que são de tipo diferente dos sons que formam palavras, e que, por isso, não se podem marcar com letras nem acentos. Assim, numa língua como o português, a distinção entre uma afirmação e uma pergunta é muitas vezes marcada apenas pela entoação. Na escrita, isto é marcado com um ponto de interrogação. Neste caso, nas línguas em que as interrogações têm sempre uma estrutura sintáctica diferente das afirmações (ou mesmo nas frases em português em que essa diferença é clara, como “onde foi a Rita?”), o ponto de interrogação é de facto dispensável – e, por muito que isso nunca faça parte das regras ortográfica das línguas que conheço, é de facto muitas vezes dispensado: tenho o Outlook Express cheio de provas disso.

A segunda função da pontuação é facilitar a leitura. As convenções sobre colocação de vírgulas, por exemplo, podem ser muito diferentes de tradição escrita para tradição escrita. Um exemplo é a diferença da tradição da “vírgula gramatical” (eu acho que devia ser antes vírgula sintáctica…) relativamente à tradição da vírgula “lógica” ou à da vírgula “de entoação”: na primeira usa-se um critério exclusivamente sintáctico; na segunda, um critério que se pretende semântico, ou lógico; na terceira, que coincide muitas vezes com a segunda, procura fazer-se corresponder a vírgula a pausas do discurso oral. Trocando isto em miúdos, numa frase como “A única coisa que temos de verificar é se as casas não estão alugadas no período em que vocês cá vêm, por isso digam-me quando têm planeada a vossa visita e eu pergunto à agência que aluga as casas se elas estão desocupadas nessa altura”, usando a regra dinamarquesa tradicional de “vírgula gramatical”, teríamos vírgulas a dividir todas as orações: “A única coisa, que temos de verificar, é, se as casas não estão alugadas no período, em que vocês cá vêm, por isso digam-me, quando têm planeada a vossa visita, e eu pergunto à agência, que aluga as casas, se elas estão desocupadas nessa altura”. A mim, que aprendi a ler com vírgulas à portuguesa, este sistema de vírgulas continua a dificultar-me a vida quando leio dinamarquês, a obrigar-me a ler as frases duas vezes para as perceber; a um dinamarquês, acontece exactamente o contrário – se as vírgulas não forem colocadas assim, custa-lhe mais a ler. Isto porque as vírgulas são muletas que usamos na leitura, conforme o sistema que aprendamos.

A terceira função da pontuação é desfazer determinadas ambiguidades que resultam da concisão da língua escrita. Costuma dizer-se que uma diferença da língua falada relativamente à língua escrita é ter um número muito maior de redundâncias. É verdade que a língua escrita é, no geral, muito mais concisa, mas muitas das “redundâncias” da oralidade não o são realmente, porque servem para evitar ambiguidades e incompreensões várias. No semi-artificialismo da língua escrita, há uma série de convenções de pontuação que permitem distinguir frases que, sem elas, seriam indistinguíveis. Estes casos são raros, mas têm às vezes alguma importância. Fiquei um bocado desiludido quando descobri que o exemplo que a Wikipedia dá é o mesmo de sempre, mas depois, pensando melhor, achei que é isso que compete a uma enciclopédia e acabei até por decidir usar também aqui o exemplo: “A woman, without her man, is nothing” é muito diferente de “A woman: without her, man is nothing.” [Notem, a propósito, e para ilustrar o que dizia atrás, que ambas as frases, e sobretudo a segunda, são altamente improváveis no discurso oral.]

No que respeita a desfazer equívocos e ambiguidades com pontuação, um dos casos que surge com mais frequência é a distinção entre sintagmas restritivos e apositivos. Para dar também um exemplo clássico, se eu escrever “A minha irmã que mora no Porto chega amanhã”, qualquer pessoa deverá compreender que eu tenho pelo menos duas irmãs e que só uma delas mora no Porto, ao passo que, se eu escrever “A minha irmã, que mora no Porto, chega amanhã”, compreende-se que só tenho uma irmã e que essa única irmã mora no Porto. A distinção pode ser significativa, como no caso de um relatório que eu traduzi no outro dia: “Os camponeses do distrito, que foram apoiados pelo projecto, melhoraram a sua produção em mais de 10%” é muito diferente de “Os camponeses do distrito que foram apoiados pelo projecto melhoraram a sua produção em mais de 10%” – a diferença é de milhares de pessoas e milhares de toneladas de produtos agrícolas… Mas só para quem não tenha ideia do que o projecto é, porque quem o conheça sabe bem que ele não abrange todos os camponeses do distrito…

É de notar que esta distinção não se aplica só a orações relativas, mas a outro tipo de sintagmas. Por exemplo, se eu escrever, referindo-me à escola dos meus filhos, que “A funcionária da secretaria Júlia Nhacumbe está de licença de parto”, há pelo menos outra funcionária; mas se eu escrever que “A funcionária da secretaria, Júlia Nhacumbe, está de licença de parto” ou a secretaria está fechada ou contrataram uma substituta.

Mais complicado é o caso em que o uso de uma vírgula tanto pode resolver ambiguidades como criá-las, como acontece com a vírgula a separar o último elemento de uma enumeração. Este uso da vírgula é típico do inglês e, mesmo nessa língua, é discutido. Não se costuma usar assim a vírgula em português, mas eu faço-o às vezes, quando e apenas quando é mesmo necessário para resolver ambiguidades, o que acontece normalmente com um elemento composto no fim na sequência. Por exemplo, escrevo “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, poesia e drama” se a escola propõe 4 actividades extracurriculares e “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática, e poesia e drama” se a escola propõe 3 actividades extracurriculares e em caso nenhum “as actividades extracurriculares que a escola propõe são desporto, informática e poesia e drama”, porque acho confuso. Mas enfim…

Outra situação em que uso uma vírgula que nunca vi recomendada é antes da conjunção e, quando ela não liga sintagmas do mesmo tipo. Por exemplo, escrevo, como toda a gente, “estivemos a tarde toda à espera deles e a jogar xadrez” e escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles e a noite toda a conversar”, mas escrevo “estivemos a tarde toda à espera deles, e eles não vieram”: se usasse um mas, punha vírgula, porque não hei-de pôr vírgula antes de um e com valor de mas?

Ainda outra pontuação “estranha” que uso frequentemente é o ponto de interrogação a delimitar as interrogativas no meio de períodos. Não gosto da forma canónica de, por exemplo, “O que é que tu achas que devíamos fazer, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo?”, e uso “O que é que tu achas que devíamos fazer?, quando nem sequer temos a certeza de que tenha sido ele a fazer aquilo”.

Já que estou em maré de interrogações, deixem-me acrescentar que sou apologista do uso dos pontos de interrogação e exclamação invertidos no início de interrogações e exclamações, como na tradição espanhola (embora os use pouco, porque não quero chocar muito quem me lê...). São um excelente auxiliar de leitura, sobretudo em voz alta (mas não só). Talvez não faça muito sentido usá-los em frases como “Onde foi a Rita?” ou “Vai-te já embora, pá!”, mas deviam usar-se pelo em frases longas em que a exclamação ou a interrogação aparece só a meio da frase: “Ao fim de dois anos de conversa de chacha aqui neste blogue, com temas que, ¡sejamos honestos!, não interessam nem ao menino Jesus, ¿não sente nunca que era melhor deixar em branco este espaço de leitura, para cada um poder ler no branco o que lhe aprouvesse?”

Mas enfim, tudo isto são manias minhas, que eu não quero impor aos outros (propor, posso sempre propor, não é?). O que é importante para mim é que ninguém me obrigue a pontuar como não quero aquilo que escrevo, sobretudo quando tenho razões para pontuar como pontuo.

Os bons, os maus e os outros (Belos, asseados e bons, parte II)

Dizia eu, num comentário a um comentário do meu amigo Nuno, que “para um moralista duro como eu, o que se pode louvar são só os valores morais e as acções em sentido lato”, “que não faz sentido, do ponto de vista moral, louvar nem as características das pessoas, nem as próprias pessoas, nem grupos de pessoas em abstracto. Se alguém faz alguma coisa que eu acho louvável ou condenável, o que me merece elogio ou repúdio é a acção em si, o ter-se feito o que se fez. É uma armadilha – moral, mental... – fazer da pessoa ou das características “positivas” ou “negativas” que ela tenha o objecto do meu elogio ou da minha crítica.”

Quero desenvolver aqui um bocadinho uma parte dessa ideia, e insistir na necessidade de uma grande abstracção em todas as áreas morais – e, por conseguinte, também em política, que eu defendo que é apenas uma parte da moral. Para mim, o perigo maior de uma abstracção insuficiente neste domínio é a valorização a priori de determinadas pessoas e demonização das outras. Chamemos-lhe falta de focalização moral, julgar ao lado do que se pode e deve julgar...

Um exemplo simples: Mesmo numa perspectiva radicalmente antifascista como a minha, eu não me posso considerar, na totalidade das minhas acções, moralmente superior a uma pessoa que seja fascista. Uma pessoa pode ser fascista e ser, no geral, um pai mais dedicado aos seus filhos e aos seus amigos, e mais paciente com eles, do que eu sou; pode ser menos quezilento no trato em caso de discórdia; pode ser, em muitas coisas, “uma pessoa melhor do que eu” – mesmo na minha perspectiva moral. E pode depois, independentemente destas qualidades gerais de carácter, digamos assim, proceder bem em determinadas circunstâncias específicas em que eu procedi mal. É por isso, muito mais correcto disciplinar-me para pensar que sou inimigo das suas ideias e acções quando defende políticas autoritárias e repressivas, e que é só nessa condição que ele é meu inimigo, em vez de me convencer que ele é uma pessoa moralmente inferior, intrinsecamente má. Feliz ou infelizmente, anjos e demónios somos nós todos e não há pessoas intrinsecamente melhores do que outras, a não ser que sejam essas próprias pessoas a bitola pela qual medir a própria moralidade. Quando observamos à nossa volta, podemos verificar que cada pessoa se julga quase sempre do lado da verdade; e isso deveria ser prova suficiente de que esse lado é inexistente*.

Dito de outra maneira, cada indivíduo é um ponto de cruzamento de ideias, sentimentos e acções que existem, em abstracto, fora dele e que não desaparecerão quando ele desaparecer. Algumas das ideias, alguns dos sentimentos e algumas das acções de um indivíduo podem ser negativos, na nossa perspectiva, e podemos querer combatê los, mas isto não implica, como já defendi, que tudo seja negativo num indivíduo. A forma de combater essas ideias, sentimentos ou acções que consideramos negativos é erradicá-las dos indivíduos em que elas existem, porque não existem sem um suporte material. Tomar o indivíduo como inimigo, porém, é tomar como inimigo muito mais do que aquilo que queremos combater**.

O que digo sobre indivíduos aplica-se também a grupos de indivíduos. E o que digo sobre o combate aplica-se também à defesa. Quero sublinhar, no entanto, que é muito fácil desviar-se, sobretudo no trabalho político, da defesa dos princípios morais que deveriam orientar esse trabalho para a defesa dos grupos sociais que são vítima das injustiças que combatemos ou de outra forma beneficiários conjuntos dos objectivos que pretendemos alcançar. Ora, em sentido estrito, um grupo de pessoas não é objectivo de nenhum projecto moral, mas apenas o seu objecto conjuntural. O conjunto real das pessoas pobres, por exemplo, não é um projecto político; o combate à pobreza é que é. E o facto de se desviar da defesa de princípios abstractos para a defesa de pessoas ou grupos de pessoas concretas pode ter (e tem, muitas vezes) efeitos perversos acabando por desculpar ou inclusive apoiar, nessa pessoa ou nesse grupo, ideias, sentimentos ou acções que vão contra os princípios desse trabalho.

Agora, é fundamental sublinhar que há acções ou ideias em abstracto que são frequentemente louvados como ideais éticos e que nem sempre o são de facto; ou então, que podem ter esse estatuto numa determinada proposta moral e não o ter noutra. Vejamos, por exemplo, a obediência aos pais, que, segundo a notícia para a qual o meu amigo Nuno mandou um link no comentário já referido, é objecto de concurso na Arábia Saudita, como as dimensões e formas de pernas, cintura e seios o são em muitos outros países… A obediência aos pais é necessária, em certas idades e situações, por razões de ordem prática, que se prendem quer com a salvaguarda física das crianças quer com a preservação da saúde mental dos pais (smile!), mas não a vejo como um valor moral por si. Para mim, o valor moral de uma acção situa-se a outro nível e não valorizarei nem condenarei uma acção apenas por ela ser o resultado de uma obediência ou desobediência aos pais. Quando muito, e conforme eu julgue o grau de liberdade de acção da filha obediente, atribuirei ou não aos pais a responsabilidade do que, de bom ou de mau, possa resultar da acção. Vistas as coisas desta maneira, um concurso de respeito pelos pais não tem mais valor moral do que um concurso de beleza ou do que um concurso de ortografia…
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* No entanto, curiosamente, continua a discussão moral, incluindo a discussão política, a ser feita de delimitação de conjuntos de pessoas boas e de pessoas más. Mais ainda, facto verdadeiramente extraordinário!, continua a reservar-se para os partidários das suas ideias o terem ideais de melhoria do mundo, atribuindo-se quase sempre ao adversário o móbil único da defesa do interesse. É muito estranho! Custa muito a admitir que duas pessoas possam ter ideais completamente antagónicos, ambos perfeitamente sinceros?

** Evidentemente, por uma questão prática, tem de ser o indivíduo, como unidade física, a ser punido por aquilo que fez, pelo menos enquanto não aparecer melhor possibilidade, mas isso não invalida em nada o que fica dito.

9 de maio de 2009

Ligações sem perigo absolutamente nenhum

Houve uma senhora chamada Whitney Sorrow que teve a ideia de fazer blogs de romances epistolares diz ela que “em tempo real”. O que isto significa é que as cartas são colocadas no blog na data que têm no romance. Por exemplo, neste momento está a ser publicado Dracula, de Bram Stoker, e hoje foi publicada a entrada de 8 de Maio do diário de Jonathan Harker. Como foi já notado nalguns comentários, a ideia de “tempo real” é um bocado estranha, se não mesmo um bocadinho estapafúrdia, mas, para alguma malta, não deixa de ser uma boa maneira de fazer escorregar a leitura de uns quantos clássicos.

Eu aproveito a boleia, a ver se tem graça ler assim. Dracula é uma obra-prima, e por acaso, foi dos poucos livros que trouxe para Chimoio, não me lembro por quê (acho que o comprei em segunda mão, algures no caminho…)... Mas não me dá jeito ler agora a obra, nem assim ao bocadinhos pequeninos, de maneira que me inscrevi, se posso dizer assim, para Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos, e hei-de então “receber” a primeira carta de Cécile Volanges a Sophie Carnay a 3 de Agosto. Em Dezembro, há-de aparecer Lady Susan, de Jane Austen, mas não sei como é que a “editora” vai resolver o problema da data, porque as cartas que constituem a novela não têm data, sabe-se só que a primeira é de Dezembro e de antes do Natal. Para se começar a ler Gente Pobre de Dostoiévski, que também está agendado, há que esperar mais um ano, porque a primeira carta, de Makar Dievushkin a Barbara Alexievna, é de 8 de Abril.

A despropósito desta informação, como é meu hábito, uma pequena nota sobre leitura:

Já li uma vez Les Liaisons Dangereuses. (Lembro-me até de que li em fotocópias de uma edição muito antiga, com letras muito grandes e os ss quase iguais aos ff.) Tenho, por isso, uma ideia do que trata o livro, mas não me lembro de quase nada da história propriamente dita. E posso dizer o mesmo de muitos livros que li – de romances, seguramente da maior parte, senão mesmo de todos… E não é nenhum defeito meu. Pode ser que não aconteça o mesmo a toda a gente, mas sei, por muitas conversas que tive sobre a questão, que acontece a muita gente. De centenas de milhares de páginas que lemos ao longo da vida, além do prazer que a leitura nos dá, pouco mais nos fica…

Estou convencido de que o mesmo se passa com as obras que se querem informativas. Ler grandes cartapácios para a escola, por exemplo, é trabalho bastante vão. Talvez se consiga memorizar alguma coisa para um exame, mas fica muito pouco para além disso. Não é que não fique nada, mas o que fica não compensa o tempo investido. Para ficar a saber, é muito mais eficaz ler resumos, estudar listas ou quadros. A não ser que se goste do que se está a ler, porque, é claro, nem só a ficção dá prazer. As 700 e tal páginas de Sociology, de Anthony Giddens, por exemplo, podem ler-se com o mesmo prazer com que se lê Os irmãos Karamazov – a até é natural que nos fique mais da leitura do primeiro do que do segundo… Depende das pessoas, claro está…

Quando Borges afirma que é um “desvario laborioso e empobrecedor (…) compor vastos livros; (…) espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”, não pretende, muito provavelmente, depreciar as obras longas, mas dar antes conta do seu projecto literário; é bem possível que não esteja a falar do que pensa da literatura em geral, mas mais de como sente e quer a sua literatura. Seja como for, o que ele diz, independentemente do que pretende ao dizê-lo, é difícil de refutar. E se se aplica à escrita, também se aplica à leitura: para quê ler tanto de que vamos reter tão pouco? Mais vale ler apenas o pouco que conseguimos reter.

Há agora muito quem se inquiete com os hábitos que se estão a criar, sobretudo com a internet, de ler exclusivamente textos pequenos, mas talvez com a nova forma de leitura as pessoas retenham mais do que lêem…Talvez assim aprendam mais… Mais uma vez, não há provavelmente razão para catastrofismos, mas antes para optimismo...

8 de maio de 2009

Belos, asseados e bons

Acho que se deve questionar um ideia que muita gente acha inquestionável: a ideia de que os “dotes mentais” são mais louváveis do que os “dotes físicos”. Não acho mal que se minimize o valor do dote físico beleza, mas que o inteligente valha mais do que o forte ou o fisicamente hábil, parece-me, no mínimo discutível. Quanto mais não seja porque inteligência, mesmo que a palavra seja entendida no sentido redutor em que é normalmente usada, o de “inteligência abstracta” (conceito também pouco preciso…), é uma qualidade física como outra qualquer. Como costumava dizer um amigo meu, se somos o único primata que consegue segurar um cigarro entre dois dedos é apenas porque os outros não têm inteligência que chegue para isso… Esquecemo-nos sempre de que é preciso a mesma quantidade de capacidade mental para ser um grande futebolista e para ser um grande matemático; que há uma percentagem extremamente pequena de pessoas com capacidade tanto para ser uma coisa como a outra; que, enfim, se não deixa de haver mérito no desenvolver e cultivar essas capacidades, sem se ter nascido com alguma potencialidade para elas não se consegue provavelmente sair muito da mediania; e que, tirando as pequeníssimas margens do espectro de capacidades onde se situam os hipertalentosos e os hipotalentosos, a esmagadora maioria das pessoas tem basicamente as mesmas capacidades mentais.

E então: Numa grande parte, senão na totalidade, das chamadas sociedades modernas, as capacidades de abstracção lógica ou de cálculo, por exemplo, são mais valorizadas do que as outras capacidades mentais – que nem sequer são assim consideradas –, e, por isso, as pessoas admiram muito a “inteligência” acima da média, que é rara. O pior da valorização da inteligência é que ela traz agarrada um negativo de si, uma depreciação. Acho curioso que muita gente que tão veementemente protesta contra outras formas de discriminação alinhe, sem grande pejo, na discriminação dos “burros”…

Mas é assim. O melhor que se pode ser é “inteligente”, “ter uma grande cabecinha”, E “porque sim” parece ser a justificação implícita – e suficiente. Ora tentemos sair do a priori e ver as coisas de outro ponto de vista. Primeiro, do ponto de vista pré-moral da satisfação de cada um: É-se mais feliz quando se é mais inteligente? Faz mais sentido a vida para quem é capaz de maior abstracção ou tem maior capacidade de resolver problemas? Ah… Pouca gente responderá com um sim redondo… Numa perspectiva moral, então, a outra pergunta que se impõe: É-se melhor para os outros quando se é mais inteligente? Assentemos que, se os outros forem as pesssoas mais próximas, a resposta também não pode ser sim. Acho que temos todos disso evidência sobeja. Agora, se os outros são a humanidade no seu todo, bom, talvez a afirmativa já seja de considerar: Muitas das grandes descobertas, das grandes invenções, muitas das ideias e inovações que beneficiaram a humanidade no seu todo vieram, efectivamente, de pessoas extremamente inteligentes. Nem sempre, porque muitas vezes os grandes pensadores eram apenas pessoas com mais conhecimentos, mas enfim, admitamos que sim, que essa pequena franja dos muito inteligentes contribuiu mais do que o grupo das pessoas normais para o bem-estar de toda a gente. Que cada um dê aos outros o que pode dar, eis a regra moral que faz, para mim, mais sentido; e houve muitos outros além desses muito inteligentes que também deram o mesmo que eles, porque deram o que tinham. Por outro lado, não nos esqueçamos de que foi a mesma inteligência que serviu, muitas vezes, de alicerce aos piores crimes da história. Aliás, é curioso, estou convencido de que as muitas pessoas que consideram a inteligência uma característica intrinsecamente mais meritória do que as outras sabem perfeitamente que essa inteligência que admiram e louvam tanto serve para o bem como para o mal – como a força, o conhecimento, a beleza e a determinação… E também devem saber que para o mundo funcionar bem – ele vai funcionando mais ou menos, mas é possível pô-lo a funcionar melhor do que funciona… – bastam as capacidades físicos e mentais medianas da esmagadora maioria das pessoas.

“Mas, então, se num dia dizes mal do louvor da força, no outro dia do louvor da inteligência – e referindo ainda, de passagem, que a beleza também não merece ser valorizada… –, que raio!, quais são as características das pessoas que merecem elogio, que podem ser tomadas, se não como ideais, pelo menos como mais desejáveis?”

Nenhumas. É nisso, precisamente, que me parece importante insistir.

Miniposts de cocktail 2

Analfabetismo 1: É muito estranho...Ontem dei-me conta de que não consigo compreender bem o artigo “Teoria da relatividade” da Wikipédia. Tem coisas que compreendo, outras que mais ou menos, e outras aonde não chego. Pode ser falta de entendimento, no sentido mais normal da expressão, mas é natural que seja pura e simplesmente falta de conhecimento. E é muito estranho… Eu, que até fui educado para “cientista”, vejam lá vocês, sou praticamente analfabeto em áreas como matemática e ciências naturais. É muito estranho… Faço parte dessa muita gente que há – uma grande parte da população educada do mundo, estou eu convencido… – que até sabe alguma coisinha de várias coisas, mas pouco ou nada sabe das leis que governam o universo…

Agora, feliz ou infelizmente – risquem o que não vos interessar –, não faço parte do grupo de gente que se indigna (é muito estranho...) quando alguém com um bocadinho de bom senso chama a atenção para o óbvio: que mais importante do que estudar as grandes epopeias é, hoje em dia, adquirir noções sólidas de matemática, física, química ou biologia (Steven Pinker acrescentaria estatística e economia à lista das prioridades), … que permitam, por exemplo, compreender a entrada “Teoria da relatividade” da Wikipedia…

É grave, o analfabetismo científico? Não sei se grave é a palavra certa… É um bocado triste, isso sim. Para mim, é. E digamos que dificulta a vida. Cria algumas incompetências, alguns desperdícios, algumas frustrações. Para mim, o importante nem é tanto sabermos todos discutir se o Grande Colisionador de Hadrões pode realmente criar buracos negros que nos suguem a todos (se bem que haja muitas questões técnicas de que era útil que houvesse maior entendimento por mais gente, numa altura em que andam por aí tantos debates interessantes e importantes sobre ambiente e bioética, entre outros…); para mim, o importante é mais termos todos uma ideia razoável de quando e como utilizar os serviços médicos, por exemplo…

P.S. Aconselho a leitura dum texto em que, em 1991, John Brockman, o director do site Edge, fazia o ponto da situação da relação entre cientistas e restantes intelectuais, e entre ambos estes grupos e o grande público. O texto diz respeito à situação nos EUA, mas cada um pode partir dele para uma reflexão sobre a situação nos países que conhece. Uma pessoa deve também interrogar-se sobre a evolução da divulgação científica e das relações entre a comunidade científica e os outros literato de 1991 para cá, nos EUA e no seu país – a situação é ou continua a ser como Brockman a descreveu neste texto? Eu acho que sim e que a desesperada atitude de muitos literatos à antiga em relação ao cânone cultural é um bocado como a que têm alguns franceses em relação à sua língua, recusando-se simplesmente a aceitar que o francês já não é uma língua realmente importante ao nível internacional…

Analfabetismo 2: Grande alogossilábico que o gajo me saíu…
É triste não saber ler, dizia uma cantiga da Banda do Casaco, e é bem verdade. Na China, por muito que o último relatório desenvolvimento humano do PNUD diga que tem uma literacy rate de 90,9, em sentido estrito nunca se colocou o problema do analfabetismo, porque os chineses não escrevem com alfabeto. Há é 10% de alogossilábicos ou de assinógrafos, uma coisa assim…Gostaram? Fui eu que inventei.

Eu sei que não se brinca com coisas sérias, mas aonde eu quero chegar é que talvez não fosse má ideia inventar palavras mais gerais do que alfabetizar, alfabetização e analfabetismo, porque às vezes pode dar jeito…. Nem sei como é que não houve ainda alguém (se calhar, já houve...) a acusar de etnocêntrica a maneira que nós temos de designar o saber ler e escrever...

Quem meter mãos a essa tarefa aproveite, já agora, para tentar arranjar também uma boa maneira de referir, com uma palavra só, como o inglês numeracy, as competências aritméticas elementares. Os tradutores agradecem.

6 de maio de 2009

Miniposts de cocktail

Vicunhas e carapaus
O português é, como se sabe, uma língua muito rica. Tem palavras como taperebá e malambe, que, ao que sei, não têm correspondente em lituano nem em tagalo. Só que, às vezes, o português exagera um bocadinho na riqueza. Por exemplo, tem duas palavras para designar a vicunha, porque também se pode lhe chamar vigonho. Ora, se pode ser confuso ter uma só palavra para designar uma quantidade enorme de bichos, como pescada ou carapau, também faz confusão ter mais do que uma palavra para designar um bicho só. A solução simples que eu proponho é que se anule já e por decreto a palavra vigonho: se o bicho tem o nome científico Vicugna vicugna e se esse nome lhe vem, ademais, do nome que lhe dão em quéchua as únicas pessoas que com ele convivem, e se foi esse o nome que (escrito vicuña, claro está) passou para o espanhol, que é língua oficial de todos os países onde o bicho existe, além de ser língua irmã quase gémea da nossa, por quê e para quê insistir em chamar vigonho ao animal? E já terá alguém alguma vez usado uma palavra assim? Só alguém com muita chicha no bucho…

[A propósito de vicunhas: No planalto andino, chama-se vicunha a quem seja agarrado ao dinheiro. Para perceber o chiste, porque é chistoso o apodo, é preciso saber duas coisas: a primeira é que a vicunha tem uma lã muito apreciada, mas é difícil de tosquiar; a outra é que, em espanhol, se pode chamar, em calão, ao dinheiro. Então é por isso que um avarento é vicuña: porque es difícil sacarle la lana. Serve este delírio para dar a conhecer a quem siga o link da palavra lã o Diccionario de la Real Academia Española, que é um exemplo de um bom dicionário online e que é fixe ter nos favoritos, ou não?]

O Tear do Destino
Já encontrei quem achasse que o filme Wanted é um filme razoável de acção, mas que fica aquém da banda desenhada de Millar/Jones de que foi adaptado. Devo dizer que não conheço a banda desenhada, e que, portanto, não a posso comparar com o filme; mas, mesmo sem conhecer, acho bem terem desaparecido os fatos de super-heróis e acho que foi pena não terem desaparecido os super-poderes todos e os efeitos especiais, porque, na minha modesta opinião, o filme podia ter ganho muito com isso – porque o material de base do enredo é bom.

Um dos desvios do filme em relação à história aos quadradinhos é o Tear do Destino. A quem porventura não tenha visto o filme, explico que o Tear do Destino é um tear, um tear material, de verdade, que tece um tafetá sem fim em que, a espaços, aparecem erros de tecelagem. Lidos como código binário, os “erros” da tela dão de facto nomes de pessoas que os assassinos do Destino terão de matar antes que elas se tornem perigosas para os demais. Além dos superpoderes, podia deixar-se de lado também o moralismo e os nomes indicados pelo tear podiam ser só os nomes de quem o Destino mandasse matar, ponto, sem razão nenhuma. E ficava-se só com a ideia genial do Tear do Destino, que é daquelas ideias que toda a gente que goste de inventar histórias fantásticas gostava de ter tido, acho eu.

A língua de madeira do desenvolvimento
Não acreditar, como eu não acredito, que a língua modele o pensamento não implica de modo algum acreditar que a maneira de dizer as coisas não ajude a clarificar o que se pensa ou que, mais importante, não ajude a deixar em branco quem ouve o muito pouco ou nada que se tem para dizer. Como eu ganho a vida a traduzir textos de cooperação para o desenvolvimento (ou ajuda ao desenvolvimento, escolham o que mais vos agradar), é dessa área que tenho mais exemplos de como uma língua de madeira serve para fazer e esconder amálgamas e incoerência lógicas.

Bom, muito tem sido dito sobre o bizarro jargão do desenvolvimento e não quero fazer aqui um apanhado geral da coisa, porque isto hoje é um cocktail de textos pequeninos, e meter-me por essa língua dentro dá pano para outras mangas [Aconselho-vos, a propósito, uma secção de um texto de Mia Couto que aqui já citei uma vez, e que se chama (a secção) “Uma língua chamada desenvolvimentês.]

Uma das palavras que me diverte (?) é ensure, “garantir, assegurar”. Tudo o que se faz num programa ou num programa, numa sessão de formação, num estudo ou numa avaliação, seja lá no que for, é para “garantir” alguma coisa: para garantir o respeito de direitos, para garantir aumento de rendimentos e melhoria da condições de vida, para garantir igualdade de género. Etc. Era bom que fosse assim, não era?, que as actividade de desenvolvimento garantissem essas coisas todas…

Outra palavra candidata ao prémio da amalgamagem (que palavra bonita que eu inventei!) é corrupção. Que se tente moralizar um bocadinho onde há falta de moral, está para mim muito bem, mas, por favor, importa-se de me dizer de que está a falar, que é para eu ver se percebo qual é o problema? Roubo, fraude, desvios, desfalques, proveitos ilícitos, compadrios, nepotismos, tráfico de influências, extorsão, abuso de poder e até mesmo corrupção, vejam lá, há tantas palavras mais precisas e, como vêem, até as há a mais, de maneira que não custa nada dizer, em cada caso, de que se trata. Ou digamos antes assim: aquilo de que eu gosto menos é que se chame corrupção ao simples gamanço – e é, em muitos casos, de simples gamanço que se trata…

Por que é que a ilha de Utopia é circular?
 Acho que é um concurso que há algures, e que, eh pá!, nunca mais acaba... – continuam a vir aqui dezenas e dezenas de pessoas à procura de resposta para esta pergunta. Eis então a resposta: é porque circular é viver! Não gostam? Ok. Outra mais simples então: porque a utopia (qualquer utopia, todas as utopias…) é circular! Ou, se quiserem ver a coisa de outra maneira, circular ou quadrada pouco importa, o que importa é que a utopia tem de ser perfeitamente geométrica, porque ela é um ideal de perfeita racionalidade.

[O último a-propósito entre parênteses rectos: Uma coisa de que muita gente se esquece na discussão do modelo de relatos filosóficos inaugurados pela Utopia de More: as utopias são quase sempre erigidas a partir da dominação ou da destruição de povos “selvagens” que habitavam anteriormente as ilhas utópicas. A sufocante geometria das utopias é obviamente a negação do “natural” em todas as suas formas e as sociedades primitivas são, para os utopistas, umas das formas mais ameaçadoras do caos natural. O “pormenor” que acabo de referir revela que o discurso utópico traz agarrada à apologia da racionalidade, do condicionamento e da ordem, a apologia da dominação colonial.]

1 de maio de 2009

A espada é a lei: os heróis arcaicos do séc. XXI

Falo da ficção europeia e suas vizinhanças, que do resto não sei: É curioso que, ao longo da História, tenha mudado tanto a ideia de herói e, ao mesmo tempo, tenha mudado tão pouco...

No início, era herói quem tinha muita força e a protecção de alguma divindade; que matava monstros e toda a classe de inimigos, conquistava terra e fêmea e fundava linhagens. Depois, começou a exigir-se do herói alguma moralidade (primeiro, a moralidade cristã que era a que havia…) e o herói tornou-se meio santo. Deixou de poder pecar, e o que se louvava nele já não era apenas a capacidade de conseguir o que queria, mas o aderir a princípios e saber resistir a tentações. Continuava, no entanto, a andar a cavalo e de espada na mão, e a dar cabo de quem se lhe atravessava no seu heróico percurso. Mais tarde, entre clássico e romântico, apareceram-lhe outras qualidades: o conhecimento, a inteligência, a dedicação a uma causa, por exemplo nacional, ou a pureza de sentimentos e a entrega obsessiva à paixão. Deixou, nalguns casos, de combater de armas na mão, mas, em muitos outros, lá continuou, fiel a si próprio, a sair vencedor de batalhas navais, trocas de tiros e cenas de simples bordoada.

Desde aí, pouco mudou a aventura. E esse pouco foi voltar-se atrás e fazer-se reviver a epopeia antiga e a gesta medieval: porradaria de três em pipa, ora aí está o que é! Falo sobretudo de filmes, a forma de ficção actualmente mais divulgada. É certo que aos heróis das aventuras de hoje não bastam a força, a agilidade, as competências especiais, a esperteza ou o brilhantismo do raciocínio lógico – é preciso também terem razão e estarem do lado da justiça, seja lá ela qual for, senão não ganham. Mas, em 90% dos casos, a vitória é conseguida, em última análise, no campo de batalha. O que as histórias dão a entender é, quase sempre, que a superioridade moral, para se impor, precisa de ser acompanhada de umas boas dúzias de sopapos, quando não de apocalípticos cenários de destruição. E eu pergunto a mim mesmo por que raio nunca mais nos livramos desta componente arcaica da ficção…

A resposta que me dão muitas vezes é que somos mesmos assim. Dizem-me que são modelos inscritos muito fundo em nós, que evoluímos algures na savana africana para sermos caçadores e guerreiros. Pois, está bem, mas isso não nos impede de termos deixado de passar a vida à batatada uns aos outros. Se na vida real desapareceu a necessidade de se afirmar pela força, não há com certeza nada que impeça que essa necessidade desapareça também na ficção. Será essa violência ficcional uma maneira de lidar, da forma menos violenta possível, com a violência natural que somos agora obrigados a reprimir*? Há quem diga que sim, mas há também quem diga que o resultado mais imediato da violência nas histórias que nos rodeiam é servir de modelo a uma violência menos ficcional do que ela. Se calhar – é uma experiência que se pode fazer, se houver vontade – ganhávamos alguma coisa com resolver de outra maneira os conflitos de ficção, como temos ganho com a instituição de maneiras de resolver os conflitos da nossa vida real que não sejam só ir da boca às mãos. Se calhar, digo eu, porque não posso ter a certeza…

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* Afinal, sou exactamente como os filmes que critico: irra, que é muita violência numa frase só!