20 de junho de 2009

Prova do tempo que passa

Já não me lembro por quê, fui no outro dia parar a um site chamado Sticky comics e a uma página em que o seu autor, um rapaz chamado Christian, lista 4 coisas que os nossos netos nunca compreenderão: relógios não digitais, escrita à mão, cassetes de vídeo e jornais impressos.

Não é discutir o valor de verdade das propostas do tal Christian que me interessa, mas notar apenas que o jogo que ele propõe é, além de fácil e inesgotável, também muito agradável para toda a gente. A minha experiência, pelo menos, diz-me que não há quem, por menos passadista que se diga, não dê consigo de vez em quando a jogar alguma variante desse jogo. Hoje, vejam lá vocês, pus-me a pensar que já não há copos de dois nem de três, nem tintinhos nem branquinhos com mistura, e que a expressão “É do lote ou do especial?” não faz mais sentido para os meus filhos do que para os netos do Christian dos Sticky comics, que é norte-americano…

Como os pensamentos são como as cerejas, lembrei-me (do que eu me vou às vezes lembrar…) de um poema que escrevi em Outubro de 1986, com 27 anos, portanto, e em que fazia já uma lista de tudo o que, da minha infância e adolescência, tinha passado à história. E já era muita coisa nessa altura… O texto não tem interesse literário, mas, quando o reli hoje, achei-o com valor documental suficiente para o pôr aqui. Dediquei o poema, quando o escrevi, ao meu irmão João, e, claro, continua a ser essa a dedicatória principal, mas acrescento-lhe agora, ao torná-lo público, uma dedicatória suplementar: a quem nunca tenha conhecido a Rinchoa, as Mercês, Rio de Mouro e redondezas de outra maneira que não seja como esses antros de desolação que hoje são.

Rinchoa revisitada (Quem me viste e quem me vês…)

ao João, que é meu irmão

‘Inda havia à porta o peixe,
o leite e a carroça do azeiteiro.
Havia ainda a aldeia,
a minha terra pequenina,
quase ainda de patilhas
e coletes
e barretes
e de burro
e de faixa enrolada à cintura,
quase assim ainda saloia,
como a pintara o mestre Leal da Câmara,
a cheirar a eucalipto
e carne frita às Mercês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Lá p’ra baixo havia o Monte.
‘Inda havia tamareiras
e as grutas e a pedreira,
sobranceira a vacaria
à calçada ainda estreita.
Mais acima, ‘inda o casino,
com cinema e com bilhares
e gabava-lhe os bons ares
o v’raneante burguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Havia ainda o mercado,
a praça, que se dizia,
embora com o desacordo
do painel de azulejos
que anunciava, soberbo,
“Centro Comercial da Rinchoa – 1949”,
a leitaria da Adelaide,
Sagres e amendoins,
a mercearia do Nina,
que de tão gordo já mal
cabia atrás do balcão
e que aviava, ‘inda assim,
mais tinto do que feijão
e que era ademais o dono
do bailarico saloio
da noite benta de sábado
ao som do acordeão.
Ainda havia o sapateiro,
pachorrento como as botas de carneira
a que remendava meias solas.
E havia o Mário merceeiro
a escarafunchar, o sem vergonha,
o narigão encarnado
enquanto roubava no peso do flamengo
mesmo no nariz do freguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ainda havia
o Manel do jardineiro
e o ti’ Chico pedreiro
e outro Chico, o popó,
cavalo malandro,
filho da escola,
que tinha ensinado o carro
a subir sozinho a Avenida dos Carvalhos
até ao parque infantil
(ainda havia…)
e depois a meter p’la esquerda,
pela Avenida dos Plátanos,
e por fim, chegado a casa,
a pegar no gajo ao colo
e pespegá-lo na cama
à espera que aquilo lhe passasse,
o camano da bubadeira.
E depois havia a malta,
bicicletas pasteleiras,
o futebol de praceta,
mais as festas de garagem,
a nocturna guitarrada,
o namorico, a chinchada,
e claro, como soía,
a guedelha e os porquês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Um dia, de manhãzinha,
começaram a deitar árvores abaixo
e iam crescendo prédios
onde elas iam caindo.
Foi assim em toda a linha.
Lá por trás de Fitares,
do outro lado do rio
e da linha do Oeste,
fizeram a Icesa à prova de sismo.
Chama-se hoje Mira-Sintra.
Mais p’ra baixo,
Massamá passado,
fizeram a Icosal.
Hoje é Queluz Ocidental.
A minha terra pequenina
viu arrasar vacaria e tamareiras
e passou do pé p’rà mão
a chamar-se Urbanil.
Chegavam agora cada vez mais comboios
ao pequeno apeadeiro
e traziam de cada vez
mais e mais gente.
O casino de veraneio
foi fábrica de sapatos
e depois tipografia.
Morreu o Mário da mercearia,
fechou a Adelaide a leitaria,
a praça desapareceu,
o Nina gordo morreu.
E a aldeia que fora
a minha aldeia era agora
história de era uma vez,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ruíram casas burguesas,
quintal ajardinado, pérgula,
caruma acumulada sobre a telha,
a fachada enfeitada de hera
e de madeira vermelha,
não deram mais sinal de vida
as madamas que houvera.
Passou a minha terra pequenina
a dormir de luz acesa.
O peixe que houvera à porta
quase apodrece de tédio
na arca do supermercado.
O leite da bilha de lata
deu em homogeneizado
e ultrapasteurizado.
A terra, que era sem lei,
viu chegar a chotaria
com os nocturnos pela trela.
E o Lopes, que morava
num anexo de vivenda,
ao pé do pinhal do Escoto,
mora agora num andar,
primeiro, lote bê três,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Abençoado o que já não és,
minha terra pequenina
e maldito três mil vezes
na quinta casa do Inferno
quem te foi tirando
aquela graça que tinhas
de seres a minha aldeia,
danado seja aos mais horríveis suplícios
quem te foi fazendo feia,
tu que eras linda, menina,
maldito quem te vestiu
de alumínio e de betão,
quem te arrancou os pinhais
e fez secarem-te as fontes,
maldito seja e danado
à eterna perdição!

E porque não, já agora,
‘maldiçoado eu também,
a armar em saudosista,
ao bom estilo português?

Ah, Rinchoa pequenina,
quem me viste
e quem me vês…

Intermezzo lírico

Deixem-me falar só um bocadinho de mim (para o que me havia de dar…):

Sou em tudo um homem vulgar da minha geração, da minha classe, da minha parte do mundo. O único que há de invulgar em mim é que não sei nadar, não sei conduzir e tinha 2 molares supranumerários, isto é, teria 34 dentes no total, se não tivesse arrancado nenhum.

No geral, tenho tido sorte na vida. Nunca parti nenhum osso, por exemplo. Nem nunca desmaiei. A única forma que conheço de perder a consciência é adormecer. Se tudo assim continuar – e não morrer a dormir… – a morte há-de, pois, trazer-me uma experiência nova, a da perda súbita de consciência…

18 de junho de 2009

Cores abstractas e cores concretas: as palavras negro e preto

Acho que a maior parte das pessoas concordará comigo se eu afirmar que, em português europeu moderno, preto é o termo com uma conotação racista para referir as pessoas de tipo físico africano e negro o termo neutro.

A questão é, obviamente, complexa, e nada impede que negro figure em enunciados racistas e que preto seja usado em enunciados não racistas. A escolha das palavras não resume só por si uma atitude mental e comportamental como o racismo. Mas pode integrá-la… e integra-a quase sempre. E é porque a integra quase sempre que é possível afirmar com um relativo à vontade o que eu afirmo no primeiro parágrafo. Todos sabemos que as pessoas de tipo físico africano não são, actualmente, referidas como pretos em documentos legais, nem em textos escolares, nem em discursos oficiais – em enunciados, em suma, que se assumam como não-racistas; e ninguém viu nunca inscrições racistas de skinheads ou quejandos em que se apele à “morte aos negros”…

Até aqui, tudo muito bem, mas por que é que assim é? Qual é a diferença real de significado entre as palavras negro e preto que possa explicar essas particularidades do seu uso? Há já muitos anos, fiz uma mini-investigação para tentar responder a estas perguntas. E se havia de ficar a apodrecer o texto que dela resultou numa gaveta digital do meu computador, sem ninguém que o lesse, por que não limpá-lo um bocadinho para o tornar mais digerível e apresentá-lo aqui na Travessa?

Para começar, talvez seja boa ideia dizer de onde vêm as palavras. Ambos os termos são de origem latina, negro de nigru- e preto de pressus, palavras que significam ambas, originalmente, “de tez escura”. Tanto negro como preto surgem muito cedo na língua: ambos os adjectivos estão atestados já no séc. XIII, e os nomes no séc. XV. Curiosamente, o termo mais comum do latim clássico para dizer a cor negra, que é ater, praticamente desapareceu. A palavra portuguesa atro, que dele deriva, é extremamente rara. Lembro-me de que foi num poema de Alexandre O’Neill, “O atro abismo”, que a vi pela primeira vez e tive de ir procurá-la no dicionário: “Atro?” (O meu corrector ortográfico, por exemplo, não a conhece…)

Feita a apresentação das palavras, vejamos como se comportam os adjectivos preto e negro no português europeu actual, que é só o que eu me proponho analisar. Começo pelo uso como adjectivo, porque é desse que deriva o outro, e não ao invés. A primeira constatação que fazemos, se deixarmos de lado expressões recentemente importadas do português do Brasil como “A coisa/a situação está preta”, é que preto não pode ocorrer com nomes abstractos, ao contrário de negro: não se diz magia preta, nem humor preto, nem literatura preta e fantástica… Nada impede, no entanto, que negro ocorra com nomes concretos: pode perfeitamente dizer-se cavalo negro, olhos negros ou roupa negra. Aparentemente, estamos perante aquilo a que alguns linguistas chamam uma oposição entre uma forma marcada, preto, e uma forma não marcada, negro, que é como quem diz que todo o preto é negro, mas nem todo o negro é preto.

Note-se, no entanto, que, no actual português europeu oral, a tendência é encontrarem-se os dois termos em (mais um palavrão linguístico…) distribuição complementar, isto é, ocorrendo um no contexto em que o outro não ocorre. De facto, negro tem uma muito forte tendência a aparecer apenas com nomes abstractos, sendo deixado para preto o espaço do concreto. Não é sempre, sempre assim, mas a tendência acentua-se cada vez mais. Tinha a sorte de ter, na altura em que fiz esta pequena pesquisa, uma colega de trabalho, Anabela Carvalho, que tinha feito uma tese de mestrado precisamente sobre nomes de cores. Além de ter feito comentários muitos pertinentes à primeira versão do meu texto, facilitou-me dados fundamentais sobre as palavras negro e preto, um dos quais confirma claramente o que acabo de afirmar: num corpus de 700 000 palavras que Anabela Carvalho recolheu em artigos sobre moda (portanto, no domínio do concreto, já que é exclusivamente de cores de roupa que se trata), negro ocorre 140 vezes e preto 1237.

Para reforçar esta ideia, posso fazer outra constatação: só negro parece poder aparecer antes do nome. Todos conhecemos uma canção que fala de uma negra madeixa ao vento, mas é-nos difícil imaginar alguém escrever um verso sobre uma preta madeixa ao vento; não nos choca que traduzam por Negros hábitos o título do filme Entre Tinieblas de Almodóvar, mas acharíamos muito estranho se o tradutor lhe tivesse chamado Pretos hábitos, ou não? Não me quero adiantar muito na questão, que dá pano para mangas, mas pode dizer-se que a anteposição do adjectivo, tradicionalmente considerada “uso afectivo” ou “poético” e frequente em textos literários, sobretudo líricos, é uma “não qualificação”. Para explicar o que quero dizer com isto, um exemplo simples: é claro que uma antiga capela não é “uma capela que é antiga”; aliás, nem sequer é uma capela... Dito doutra maneira, o adjectivo não vem acrescentar nada ao nome, mas apenas formar com ele um bloco que é um novo conceito. É provavelmente por essa razão que os adjectivos passíveis de serem usados em contextos abstractos se podem antepor muito mais facilmente ao nome (fazendo mais do que qualificá-los, mas não me adianto mais nessa discussão…): Está bem uma mesa comprida, mas uma comprida mesa é muito esquisito. Já com longo aceitamos melhor tanto cabelos longos como longos cabelos, mas é precisamente porque longo se usa bem com coisas abstractas como em longa agonia, por exemplo. No domínio da propriedade cor, que é uma propriedade apenas concreta, parece-nos óbvio que só se pode dizer um livro vermelho / azul / verde e nunca, nem para fazer estilo, um vermelho / azul / verde / livro.

E onde eu quero chegar com isto tudo é que preto se porta essencialmente como vermelho, azul, verde, etc.: é uma cor, pronto, ponto; e negro porta-se antes como fulvo, rubro, alvo, etc.: não é apenas uma cor enquanto propriedade concreta da matéria.

A reflexão é só esta. É só esta e não tenho a certeza de que ajude a perceber o uso de negro e preto como nomes. Não tenho nenhuma certeza, mas tenho uma possibilidade. É uma possibilidade que peca provavelmente por demasiado metafísica, mas, ainda assim, deixo-vo-la aqui, para me dizerem o que pensam: não será precisamente porque refere a propriedade objectiva cor que preto é usado como palavra racista? Por outras palavras, não é isso precisamente o próprio do racismo enquanto ideologia, fazer de puros indicadores físicos, como a pigmentação da pele – a cor –, pretensas marcas de inferioridade?

De cafres e Cafraria, rigor, ofensas e lexicologia

Recebi uma carta sobre a entrada aringa do meu glossário de Moçambicanismos em que uma pessoa, que aqui designarei por Vítor para facilitar o discurso, dizia que eu talvez não tivesse visto no dicionário Houaiss que a palavra é de origem cafre. Fiquei um bocado surpreendido com esta carta, que eu não compreendi bem aonde queria chegar, e respondi-lhe assim (modifico ligeiramente os textos, para tornar mais fluente o discurso):
Pelo que me diz, então, o Houaiss propõe, para a origem de aringa, o mesmo que o dicionário Porto Editora, que, como eu refiro na entrada do glossário, também propõe uma etimologia «cafreal». Cafre ou cafreal designa uma hipotética língua do povo de uma região designada como Cafraria. Ora, nos textos antigos, o termo Cafraria refere uma região muito extensa que se poderia definir como a parte conhecida pelos europeus da África Austral. Sendo assim, não é correcto falar de um povo «cafre», mas cafre designa antes, nesses textos, todos os habitantes da região, bantos ou san. É aquilo a que se poderia chamar uma amálgama étnica, talvez natural quando era tão pequeno o conhecimento desses povos por parte dos europeus, mas que não resolve o problema da origem «cafre» de nenhuma palavra, porque não há uma língua «cafre» . É muito provável, de facto, que aringa venha de uma língua da África Austral. Mas de qual?
Além disso, é de referir que as palavras cafre e cafreal começaram depois a usar-se para definir não só os povos da África Austral, mas “os negros” em geral. A palavra ganhou, entretanto, conotações claramente negativas, e mesmo racistas, e é hoje de muito mau tom empregá-la para referir alguém ou algum povo. Um dicionário moderno que, por qualquer motivo, queira usar a palavra, devia obviamente assinalar-lhe claramente o carácter historicamente marcado e ofensivo no português moderno.
Vítor não se convenceu muito com a minha resposta. Pediu a opinião de mais algumas pessoas com conhecimentos sobre a região, que me deram razão na recusa do uso de cafre e de Cafraria para designar, num dicionário, fosse lá o que fosse. Entretanto a troca de correspondência foi feita de tal forma que eu cheguei a temer que alguém pensasse que eram minhas as palavras dos dicionários Porto Editora ou Houaiss. Apressei-me a acrescentar ao meu glossário uma advertência, em topo de página, de que “só as minhas definições e propostas etimológicas é que são… minhas”, explicando que o facto de citar um dicionário não significava forçosamente que estava de acordo com o que ele propunha...

Vítor insistiu, interrogando-se se os dicionários seriam racistas e os livros também? Porque, dizia Vítor, já tinha visto a palavra cafreal em muitos textos e não sabia que era ofensiva. Respondi-lhe assim:
Quanto a os dicionários serem racistas, não sei se é a maneira certa de o dizer, mas pode, sem dúvida, afirmar-se que há coisas em muitos dicionários que podem ser consideradas racistas. Penso que o problema é que os dicionários não são suficientemente revistos e as entradas passam simplesmente, sem alteração, de uma edição para a seguinte. Um exemplo simples: o meu dicionário Porto Editora, de 2004, já define catinga como “suor malcheiroso”, mas lembro-me que a edição anterior que eu tinha, que não era muito antiga, de 2000, se não estou em erro, ainda definia catinga como “cheiro desagradável dos negros”, ou algo assim semelhante. Só para que veja...
O problema era também, insistia eu, que, ao contrário de outras palavras cujo uso é hoje desaconselhado, como esquimó, as palavras cafre e cafreal não definem povo nenhum, nem língua nenhuma, pelo que nos deixam na mesma, e que os dicionários, independentemente de terem ou não expressões racistas, têm às vezes falta de rigor.

Mas era óbvio que a minha insistência continuava a não convencer Vítor, que me respondeu mais uma vez. E tinha toda a razão no que dizia e na dúvida que levantava: Os dicionários, dizia Vítor, não fazem senão dar conta de como as pessoas utilizam as palavras, de forma racista ou não. É claro que ninguém pode processar os autores dos dicionários por neles incluírem palavras que certas pessoas considerem ofensivas. Ou devem essas palavras ser banidas dos dicionários para eles passarem a ser politicamente correctos?

Dava-me depois o exemplo da entrada cafre num dicionário (não sei qual é, mas isso é irrelevante, porque é precisamente uma entrada deste tipo quem têm muitos dicionários, mesmo respeitados):

cafre adj. 2 gén. s. 2 gén. 1. Diz-se das populações não muçulmanas que habitam a África Meridional. s.m. 2. Língua da Cafraria. 3. Fig. Homem rude, bárbaro, selvagem.

Além disso, para Vítor, só o significado figurativo 3 seria ofensivo, pelo que não haveria problema em utilizar a palavra, contanto que se a não a utilizasse com esse sentido.

Bom, eu sou o primeiro a defender que não se devem fazer desaparecer as coisas só porque significam (ou representam de qualquer outra forma) algo que, em determinado período histórico, maioritariamente se considera que foi ou é mau. Mesmo que essa tendência de opinião se mantenha para sempre, não há razão para não conservar a memória de um mal. Aliás, quanto mais terrível nos parecer esse mal, mais razões há para preservar a sua memória. É evidente que a palavra cafre, de triste memória, deve figurar nos dicionários que se pretendam completos, como qualquer outra palavra antiga, e independentemente das suas conotações sociais e políticas. O dicionário deve simplesmente dar conta dos seus significados, para que quem a não conheça possa saber o que ela quer dizer. No entanto, e apesar de defender que os dicionários devem conservar palavras como cafre, não posso de modo algum concordar que o façam como fazem. A resposta que dei a Vítor dá bem conta da minha posição sobre o assunto:
Longe de mim propor que a palavra cafre desapareça do dicionário; o que é preciso é melhorar a entrada cafre na maior parte, se não na totalidade, dos dicionários. O que eu critico é a falta de rigor. Uma entrada como a que nos mostra é um bom exemplo de falta de rigor: falta a referência ao carácter histórico da palavra (já não se usa, pelo que, simplesmente, devia ser marcada Histórico); falta a referência à evolução semântica da palavra (passou a designar todos os negros, muçulmanos ou não, da África Austral ou não); falta a informação sobre a conotação pejorativa no português moderno, sobretudo no século XX, até deixar de ser usada (devia ser marcada pelo menos como Ofensiva); diz que é uma língua de uma pretensa Cafraria, que não existe nem nunca existiu – havia e há dezenas de línguas na África Meridional (esta parte devia pura e simplesmente ser retirada, é uma mentira); e depois dá como sentido figurado o que não é senão o sentido primeiro durante um determinado período histórico.
Contraste-se com a entrada kaffir do Oxford Concise e veja-se a enorme diferença (tendo em conta que a palavra kaffir é provavelmente mais recente em inglês do que cafre é em português):
Kaffir n. 1 a hist. a member of the Xhosa-speaking peoples of S. Africa. b the language of these peoples. 2 S.Afr. offens. any black African (now an actionable insult). [originally = a non-Muslim: Arabic kafir ‘infidel’ from kafara ‘not believe’]
Eu já não peço senão o rigor do Concise Oxford.
Quanto a poder utilizar-se hoje a palavra sem a utilizar num sentido depreciativo, o que eu não dizia nessa carta a Vítor, mas que digo agora, é que ela ter ou não um sentido depreciativo não depende das intenções de quem a usa! Por isso, não, não se deve usar a palavra, a não ser referindo o discurso de outrem: “As populações costeiras que o padre Boym designa por cafres são, na realidade, etc., etc.”….” Aliás, tirando esse uso, vê-se mal que utilidade possa hoje ter uma palavra assim. Para referir quem?

E pronto, o final da história é que acabei por decidir fazer uma entrada cafre no meu glossário de moçambicanismos, que diz assim:
cafre n. e adj., cafreal adj. Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”)
A história das palavras cafre e cafreal é complexa. O termo cafre foi usado desde muito cedo, amalgamando os povos nativos da zona. A palavra foi adquirindo conotações muito racistas e muito ofensivas e, ainda durante o período colonial, o seu uso foi desaparecendo. Muitos dicionários assumem que a palavra designa de facto uma etnia e a sua língua, o que não é correcto. Curiosamente, hoje em dia, há uma expressão em que, na minha experiência, essa conotação não se mantém, talvez porque se tenha já perdido a consciência da sua origem: galinha à cafreal. Lopes, Sitoe e Nhamuende, na sua obra Moçambicanismos dizem o mesmo: “Apesar do contexto em que começou a ser utilizado, o termo cafreal na expressão galinha à cafreal, há muito utilizada, não tem tonalidades semânticas depreciativas; significa, sobretudo, o modo local de preparação da ave e o tipo de temperos usados, em particular o piripiri”.
Está melhor assim do que na maior parte dos dicionários, não está?

8 de junho de 2009

A Música Negra de Belo Marques

Uma coisa que fiz várias vezes na minha vida foi discutir com textos de tempos passados em que os europeus falam de povos de outros lugares. E eis três conclusões a que cheguei: não serve de nada tentarmos dialogar com esses textos como dialogamos com um discurso nosso contemporâneo – não há maneira de ver o mundo que não seja definitivamente determinada pelo tempo histórico a que pertence e a única razão pela qual não se pode dizer “eu também seria assim, se tivesse nascido 60 anos antes” é que ninguém seria a mesma pessoa se tivesse nascido 60 anos antes…; a consciência da historicidade de qualquer texto não nos deve impedir de fazer notar no texto o que, aos olhos de alguém de hoje, ele tem de incoerências ou de traços de um imaginário ou de uma ideologia que não nos parece agora aceitável; mas não é porque num texto se revelam os inevitáveis traços da etnocentrismo que são marcas de outra época que ele deixa forçosamente de ser progressista.



















E a propósito de quê, tudo isto? De um livro que acabo de ler. Chama-se Música Negra, Estudos do Folclore Tonga (Divisão de Publicações e Biblioteca, Agência Geral das Colónias. Lisboa: Editorial Ática, 1943) e foi escrito pelo maestro José Belo Marques, que todos conhecem, pelo menos como autor de “[Quem passa por] Alcobaça”. O maestro tinha 40 anos quando, em 1938, se meteu a fazer um estudo da música do Sul de Moçambique.

O livro é bastante sedutor. É claro, uma boa parte dele são transcrições das canções recolhidas, e quem, como eu, não saiba ler música, tem de saltar, assim, por cima de metade da obra... Mas fica-lhe ainda muita e agradável leitura. Belo Marques é um verdadeiro romântico e é a sinceridade do seu romantismo a primeira coisa a fascinar-nos: há uma verdade essencial na alma dos povos, de que a música é a expressão mais imediata e verdadeira. Dito desta maneira, parece um pouco vago demais, desculpa-se ele várias vezes, mas quem o sentiu sabe que é assim.

Homem do seu tempo que é, Belo Marques não pode deixar de ver na “pureza” do negro a razão da sua pujança artística – o negro é espontâneo, bruto e bom, e um artista natural. Que se lhe civilize a alma, e eis que lhe desaparecem as suas qualidades:
**O observador que viva algum tempo no interior da selva, ainda pode descortinar alguma coisa da [música e da vida do negro]. Porém, vai sentindo um certo esbatido na verdade, à proporção que se vai afastando do mato e aproximando da civilização. Este facto, no que respeita à música, é de uma sensaboria flagrante. Procurámos por êsse motivo afastar-nos o mais possível das Missões estrangeiras, sobretudo das americanas, onde nos parece que se devia incutir no preto o gôsto pela sua arte e pela sua toada e não ensinar-lhe uma música que não se sabe de que raça é, sem vigor e sem beleza, que o preto canta com o mesmo sacrifício com que um doente toma uma receita.
O livro divide-se em 16 estudos, onde se sucedem, sem ordem nem lógica especial, a recolha musical propriamente dita, reflexões antropológicas e considerações estéticas. O livro Música negra é, assim, várias coisas, mas talvez se possa dizer que é sobretudo um apelo. Não exactamente a etnomusicólogos, mas antes a compositores! Um apelo ao abandono de tudo o que é cerebral e ao retorno a uma verdade sentida, mais ancestral – e mais universal! Saber muito de música não basta, porque a inspiração não se aprende nas escolas nem nas salas de concertos de Paris e Londres, e Belo Marques e muitos outros compositores ainda não descobriram “em qual expresso se embarca para o país dos iluminados…”
**Por esse motivo é de aconselhar, aos compositores, um embarque até à nossa África. Talvez, quem sabe?... É uma tentativa. O músico negro não fêz da sua arte uma profissão; a sua música, as suas melodias nasceram de um rasgo de sinceridade. Tudo ali se encontra: desde o sonho dôce de uma alma infantil, até ao grito sólido da brutalidade.
**Abrir o coração e sentir lá dentro tôda essa melodia calma da floresta; abrir o peito e deixar entrar o forte odor de uma natureza virgem… Talvez… Quem sabe?
Não sentir este baralhar constante dos nossos sentimentos entre a pureza e vaidade, nesta luta onde mistura tudo, numa ânsia de superioridade. O compositor, sobretudo, necessita fugir ao trabalho por encomenda e a prazo.
**Se encomendarmos a um compositor pagão um «Sanctus» ou um «Kyrie», é o mesmo que dispôr uma planta de grandes raízes num pequeno vaso; definha e, por fim, seca. Até a mais ligeira canção só pode nascer de um estado de espírito especial e, como um tremor de terra, nunca se sabe quando esse momento surge.
José Belo Marques gosta da música moçambicana e acredita nela. Ele pensa que é possível “uma análise verdadeira [dessa música,] aproveitando alguma coisa de novo que possa por ventura vir a ampliar os nossos conceitos sinfónicos e as nossas partituras.” Não diz abertamente, mas quase, que quer ver surgir os Grant Still e os Gershwin portugueses:
**Ao negro da América do Norte deve esse país uma transformação profunda da sua música. Já António Dvorak dizia que a música negra viria a dar a base a uma nova escola musical. (…) Os compositores portugueses têm ali, na nossa África, uma fonte inesgotável de inspiração; e todos esses cantares bárbaros, esses temas exóticos mas puros, podem abrir as portas a elevadas sinfonias, podendo ser enaltecidos pela riqueza dos nossos instrumentos e a nossa civilização.
O que é também interessante no texto de Belo Marques é que coexiste com a imagem do selvagem infantil e puro, e com uma consciência dramática de um abismo cultural entre “o branco” e “o negro”, um surpreendente universalismo humanista. E a certeza de que África tem algo importante a dar ao mundo:
**No século XX, êste século em que tudo se produz em série, eu prefiro, em vez de me embrenhar nessas partituras cerebrais, estudar a música do negro e a sua harmonia. Mas, afinal, a harmonia negra não existe. Não há harmonia negra nem branca. A harmonia é tôda da mesma côr, de minuto a minuto rejuvenescida. E, para êsse rejuvenescimento, creia o leitor, que muito há-de contribuir, para o futuro, a música negra.
É claro, podemos interrogar-nos: será a música o símbolo dessa igualdade fundamental entre todos os homens e todas as culturas, ou é só na música que essa igualdade se aplica? Para um músico, porém, o que é que, mais do que a música, pode ser expressão fundamental de Humanidade? Afirma Belo Marques: “Arvey e Grant Still dizem que a música negra, quando ganha os corações, não os larga mais”. O dele, obviamente, nunca mais a música negra o largou. Diz-me a minha amiga Guiomar, neta de Belo Marques, que ele compôs uma peça chamada Fantasia Negra, que foi tocada em público uma única vez. A Guiomar está convencida de que a Fantasia Negra é a grande obra do maestro; e nem ela, nem praticamente ninguém, a ouviu… Lembramos Belo Marques pela sua “Alcobaça”, mas não era, com certeza, por “Alcobaça” que ele gostaria de ser lembrado.

Só para uma coisa eu gostava de ter um blogue muito lido, influente, poderoso: para fazer lobbying. Neste caso, por uma gravação da Fantasia Negra de Belo Marques. Como será a música negra do maestro?

2 de junho de 2009

Tomar em mãos a sua vida: claro!, ma non troppo…

Estive a reler uma série de textos que tinha sobre uma das questões mais importantes que, creio eu, se coloca a qualquer pessoa: até que ponto mandamos na nossa vida e até que ponto manda ela em nós? A quase totalidade desses textos constituía a minha contribuição para uma longa discussão epistolar que tive com um amigo meu, há cerca de 10 anos. Como não sou capaz de reler sem refazer, saiu dos textos antigos um texto novo, que decidi que ficava bem aqui na Travessa… É um texto que, partindo da discussão de como se equilibram capacidade de controlo e acasos, acaba por pretender discutir sobretudo quais os eventuais efeitos nefastos da obsessão voluntarista[1].

Estou convencido de que é natural e louvável as pessoas quererem controlar a sua vida. Bem vistas as coisas, o ideal de todas as pessoas que, como eu, querem contribuir para um mundo com menos sofrimento e mais justiça é, precisamente, que possa ter maior capacidade de controlo da sua vida quem actualmente a não tem. A atitude que se situa no extremo oposto da defesa do controle a sua própria vida é a passividade fatalista e, essa, recuso-a completamente, tanto do ponto de vista da análise do mundo – porque acredito que o mundo pode ser mudado –, como do ponto de vista ético – porque acredito o mundo deve ser mudado.

Creio, porém, que só temos capacidade de controlo até certo ponto – até ao ponto em que os acasos interferem. Para mim, o que impede o exercício efectivo do livre arbítrio não é nenhum deus nem nenhuma outra força cósmica imutável, mas sim a presença demoníaca e constante de acidentes que não estavam escritos em nenhum livro do destino, que nenhuma teoria que pense o mundo em termos de relações de causalidade pode prever, que nenhum conhecimento oculto e sobrenatural pode antever – acasos de facto.

Como se define acaso? A questão é complexa, sobretudo para um materialista duro como eu, que acredita que cada estado de coisas é determinado pelos estados de coisas anteriores. A melhor definição que encontrei até hoje para acaso é “cruzamento de duas cadeias de causalidade independentes”. Não tenho a certeza de ser uma boa definição, mas não me parece que seja muito necessária uma definição mais rigorosa para se poder discutir a questão. Acasos, acidentes, todos sabemos o que são: aquilo que nós não controlamos.

A consciência da importância dos acasos não me obceca ao ponto de os considerar o maior obstáculo à capacidade de controlo de cada um. É fundamental, quando se tenta determinar o alcance possível da capacidade de controlo de cada um, sair da esfera do “indivíduo perante o universo” para entrar na esfera do “indivíduo perante os outros”, que não é menos importante (para mim, moralista que sou, é mais importante…). A principal razão de falta de capacidade de controlo de alguns é o excesso de capacidade de controlo dos outros. Tem mais capacidade de controlo da sua vida quem tem mais poder. E se, em termos morais, é desejável que o poder seja igualmente distribuído por todos, a justiça na distribuição do poder não leva a uma maior capacidade de controlo das suas vidas por parte de todos os seres humanos. Para que alguns tenham mais capacidade de controlo, outro terão menos. Por exemplo: muitos homens europeus invejam uma parte da qualidade de vida dos homens do chamado terceiro mundo – a parte que está relacionada com a sua capacidade de decidirem mais sobre o que fazem da vida... porque as mulheres decidem menos sobre a vida delas!... Para mim, então, por muito que se deva investir na maior capacidade de controlo das pessoas das suas próprias vidas, o ideal último não é que toda a gente mande o mais possível na sua própria vida, pelo menos no que diz respeito a questões de ordem “baixamente” material em que é o poder dos outros que constitui entrave a essa capacidade de controlo, mas antes fazer com que os poderes se equilibrem, de maneira que haja mais espaço para as decisões de cada um poderem tornar-se um limite às decisões dos outros.

No entanto, e isto é um dos aspectos mais curiosos desta discussão do papel da vontade (decisão, controle) versus o papel dos acasos (incontrolado, acidentes) na vida humana é que, mesmo em situações em que não é a capacidade de controlo de uns a limitar directamente a capacidade de controlo dos outros, toda a vontade se torna, em última análise, acaso também! Se eu decido candidatar-me a um determinado trabalho, por exemplo, estou, pela minha vontade, a desencadear acasos. Como a vontade de todos os outros não é previsível nem controlável, ela torna-se para cada um de nós (pelo menos potencialmente) um acaso. A minha acção vai transformar-se em mais um acidente disponível, digamos assim, para todos os outros. No exemplo que dei, a minha presença vai constituir um acaso para as outras pessoas que se candidatam ao mesmo lugar.

Fundamentalmente, não controlamos o que somos, o que sentimos, o que nos acontece ou o que acontece em nós – apenas o que fazemos… e nem sempre! Não sei se, na vida das pessoas em geral, predominam estados e acontecimentos incontrolados ou acções controladas. Mas estou convencido de que é esta última categoria de estados e acontecimentos incontrolados que é a mais marcante para a grande maioria das pessoas. Estou a falar principalmente daquilo que se é – a nossa carga genética e a nossa cultura, esses alicerces de nós que não escolhemos – e daquilo que se sente – os gostos, as inclinações, os ódios, as simpatias e antipatias, as paixões… sobretudo as paixões…

Mas então, onde chegamos? A nada que não seja relativamente trivial. Que devemos tentar controlar a nossa vida para nos livrarmos de doenças sexualmente transmissíveis e desastres de automóvel, com certeza que sim. Que se deve dar a quem não manda em nada na sua vida a possibilidade de decidir, como os que lhe ficam acima, que vida gostaria de ter, pois também sem dúvida. Agora: já disse que não acredito que se possa mandar sempre na vida, mas acredito ou não que, na medida do possível, se deve sempre tentar fazê‑lo? Sempre não. É por isso que este texto tem o título que tem. Espero que a parte seguinte da discussão seja menos trivial do que o que fica para trás: O que se deve ou não querer controlar? Dito de outra maneira, o que é que de negativo pode vir a cada um e aos seus próximos da ânsia de demasiado controlo?

Na minha opinião, um dos possíveis efeitos negativos de um voluntarismo radical é a ideologia do herói e a desvalorização da impotência. Se levamos a concepção voluntarista da vida às suas últimas consequências, podemos até aceitar, como fazem algumas pessoas, que toda a gente é responsável até do que sofre, daquilo de que é vítima. Porque não tem a força de vontade suficiente para se revoltar, para lutar pela sua liberdade… Estamos em plena ideologia do herói, que é igual à direita e à esquerda, que é uma expressão extrema do voluntarismo e que é, sobretudo, um dos alicerces de uma concepção elitista do mundo: se há quem seja capaz de fazer algo, os que não são capazes de fazer a mesma coisa têm de ser fracos, estúpidos, cobardes, etc. e, por consequência, inferiores[2]. Tantas vezes que eu vi alguém revoltar-se perante uma injustiça, por exemplo, e, à boa maneira do herói, acusar os outros de não fazerem a mesma coisa. O que o herói normalmente não percebe é que o que faz o herói é a possibilidade. E possibilidade é o nome correspondente tanto ao verbo poder como ao verbo conseguir. E se o primeiro marca uma qualquer capacidade de controlo, o segundo assinala precisamente a ausência dessa capacidade. Nem sempre se consegue ser herói e não há em não o conseguir nada de criticável. Nem ser herói é nenhum dever…

Numa outra perspectiva, um perigo do extremismo no empenho de controlar o mundo é fazer dele quadrado, asséptico e desumano. É a ânsia de controlar racional e organizadamente a vida das pessoas que está na base de uma das ideias fortes do pensamento europeu que é a utopia[3]. Há aqui na Travessa algumas referências passageiras à questão. A utopia fascina-me, mas é um fascínio impregnado de receio. O perfeito controlo é não deixar nada ao acaso, nem a escolha, pela inclinação dos sentimentos, dos parceiros sexuais; é não deixar, no espaço todo circundante, nem um vestígio do “caos” natural; é tornar geométricos todos os espaços, e geométricos também, se se pode dizer assim, os comportamentos e o sentir; é substituir as línguas naturais por línguas inventadas que não traiam o pensamento… O perfeito controlo… Eu sei que não é só a mim que isto faz confusão.

E guardo para o fim o que me parece ser o perigo mais visível, nas sociedades modernas, da forte vontade de deitar fora da vida todos os acidentes: um mundo sem imprevistos nem aventura pode facilmente tornar-se num mundo de tédio e solidão… Uma maneira de limitar os perigos na nossa vida é, evidentemente, limitar a própria vida; e a obsessão de limitar os acasos na nossa vida pode facilmente levar-nos também a limitar a própria vida.

Isto aplica-se a todos os aspectos da nossa vida, mas aplica-se muito especialmente às relações entre pessoas. O voluntarismo é tanto mais eficaz quanto menos espaço dermos aos outros no caminho que vamos percorrendo. O preço a pagar é, em última análise, a solidão. Falo aqui do que tenho observado, do que acontece cada vez mais, porque cada vez há mais pessoas a aceitarem mal não serem donas do seu destino. Os transportes públicos das grandes metrópoles estão cheios de pessoas que se ignoram porque não fazem parte dos planos uns dos outros. Fechados nos seus livros e revistas, mortos para qualquer aventura. E aventura é, precisamente, uma palavra muito próxima de acidente ou acaso, se não mesmo um sinónimo...

Não só não acho que devamos tentar banir da nossa vida todos os acasos, acho até que nos devemos (voluntariamente!) expor ao impacto de alguns deles. A vida (ou a sua qualidade, se se preferir) só tem a ganhar com isso. A aventura é a aventura e é enriquecedor não querer controlar tudo sempre, às vezes deixar-se ir…
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[1] Tenho plena consciência de que uso neste texto voluntarismo e voluntarista com significados mais ou menos desviantes relativamente àquele que têm estas palavras quer no discurso não especializado quer na discussão filosófica. Esta nota de rodapé serve, precisamente, para deixar claro que, neste texto, voluntarismo refere a crença no poder da vontade em dois sentidos modalmente distintos: o de poder controlar a sua vida e o de dever controlar a sua vida.

[2] Para mostrar a relação directa que há entre a ideologia do heroísmo e o voluntarismo, chamo a atenção para um facto simples: não há heróis por acaso. O herói acidental é, pelo menos no ideário e no imaginário europeus, uma figura cómica, caricata, ridícula. O seu carácter humorístico vem‑lhe do facto de ser precisamente, para a mentalidade dominante, um contra-senso, uma coisa ao contrário do que se espera, algo como um gato que tem medo de ratos...

[3] É importante notar que não uso a palavra no sentido geral de “ideal” em que ela é muitas vezes usada, mas referindo antes um tipo de ideal de organização social específico, descrito na Utopia de More e em dezenas de obras que, com algumas variações, seguem esse modelo.