28 de outubro de 2009

A história de Aleixo Garcia e um conto que eu desisti de escrever

Em 1923, foi publicado em Portugal um livro de Mário Monteiro chamado Aleixo Garcia, descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal; em 1998, foi publicado no Brasil A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca, de Rosana Bond, livro este que é apresentado como relatando “os feitos do desconhecido catarinense que, no século XVI, atravessou toda a América do Sul, alcançou a grande civilização peruana antes dos espanhóis, e virou um mito latino-americano”.

Que Aleixo Garcia era português, não haja dúvida de que era, mesmo que se o considere catarinense; também parece certo que tenha sido um dos primeiros europeus a chegar ao que é hoje o Paraguai e a Bolívia (não nos esqueçamos que iam outros europeus com ele na mesma expedição); que é ignorado, também é verdade, e não só em Portugal (mas na Bolívia e no Paraguai é referido nos compêndios de História e até há ruas com o seu nome...); e que seja uma glória, bom, isso já é mais discutível, como é sempre discutível que alguém seja uma glória… Não é certamente ser uma glória portuguesa, porém, o que nele me interessa, que eu não sou muito dado a nacionalismos, mas sim a sua vida invulgar, onde se cruzam maneiras várias de viver, e a grande aventura de que foi protagonista, que E. Salgari, H. R. Haggard ou E. R. Burroughs gostariam certamente de ter tido como material narrativo.

Como eu a vejo, a história de Aleixo Garcia não é epopeia, mas sim tragédia. Não é a aventura de um herói nacional, fundador de nação e linhagem ou conquistador ao seu serviço, é antes o drama do homem que, cortado do seu mundo, tem de criar para si próprio um lugar numa sociedade diferente, e que, seduzido pela visão da riqueza, se lança num empreendimento tão arrojado que dele só pode resultar desgraça – para ele e para todos os outros.

Deixem-me, já agora, explicar que, se esta história aqui aparece agora, é só porque não consegui fazer dela um conto. Tomei conhecimento da existência de Aleixo Garcia, há uns 10 anos, numa História da Bolívia. Descobri depois que tinha saído há pouco tempo um livro sobre ele, no Brasil, e, durante muito tempo, tentei obter esse livro, mas nunca consegui. Fui tomando notas de tudo o que apanhava sobre o assunto, com o propósito firme de um dia escrever um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia, mas foi projecto que acabou por ficar em águas de bacalhau. Para fazer um conto, precisava de saber palavras e nomes de pessoas guaranis, e precisava de saber como era a vida dessa gente nessa altura, e falta-me, para essa pesquisa, o dinheiro que o tempo é. Decidi então contar a história de Aleixo Garcia em versão apenas enciclopédica, ou quase, só para a apresentar a quem a não conheça:

Na sua segunda viagem à procura da passagem de Ocidente que o levasse às Índias, João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515. Essa viagem terminou para ele a 20 de Janeiro do ano seguinte. No sítio que é hoje Ponta Gorda, no Uruguai, Solis foi a terra com um grupo de homens. Os barcos ficaram ancorados perto da costa, de maneira que os homens de Solis o viram ser atacado por índios locais e assistiram à sua morte à mão dos nativos. Os barcos da frota de Solis, comandados pelo seu cunhado Francisco de Torres, regressaram a terras de Espanha a 4 de Setembro do 1516. Ou antes, só regressaram duas das três naves. A galé em que viajava Aleixo Garcia naufragou não longe do que hoje se chama Florianápolis, a ilha de Meiembipe. Salvaram-se, consoante as fontes, entre 11 e 18 marinheiros europeus. Aleixo Garcia era um deles.

[Dizia eu lá atrás que a aventura é mais trágica que épica, mas não deixa, ainda assim, de ter fortes traços de epopeia. Não sei se vos acontece o mesmo, mas, a mim, qualquer náufrago que se salve a nado traz-me logo à mente a imagem mítica de Camões, a nadar só com um braço e com o outro a tentar livrar da salmoura um esboço dos Lusíadas. É que a lenda, mesmo que só lenda, tem pujança, isso não se o pode negar... E claro, fico logo cheio de vontade de aqui fazer aparecer deuses a vociferar em decassílabo heróico e de pôr Vénus a proteger Aleixo Garcia, por ele ser da estirpe do Gama. O enredo podia ser, por exemplo, que, da mesma forma que protegem os audazes, os deuses castigam os cobardes, e que o naufrágio teria sido o castigo de Neptuno para os que decidiram abandonar a empresa gloriosa em que os tinham enviado Fernando e Isabel e fogem a correr para casa, só por terem visto João de Solis ser comido pelos originaios uruguários. Mas, qual o quê, sou um escritor raso e ignorante da beleza clássica, e seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa…. Fico-me por uma história mais chã.]

Aleixo e os seus companheiros foram recebidos pelos guaranis carijós. Aleixo Garcia ambientou-se, aprendeu a língua, casou-se e teve um filho, tornou-se ele próprio um chefe local. Quando ouviu as histórias que os carijós contavam das riquezas imensas dos reinos das terras altas, entre as quais uma montanha toda de prata, Aleixo Garcia pensou em reunir um exército para ir à conquistas desses tesouros. E foi o que fez. Não se sabe ao certo quando partiu. Algumas fontes dizem 1522, outras 1524. Também não se sabe quanto tempo levou a chegar ao império dos incas. Também nisso não concordam os documentos que consultei. Mas todos os textos que encontrei sobre a expedição de Aleixo Garcia estão de acordo numa coisa: o grupo que reuniu era de cerca de 2000 pessoas. E não apenas um exército como o concebemos normalmente, porque havia também na expedição mulheres e crianças.

A expedição de Aleixo Garcia subiu o chamado caminho do Peabiru, uma rota que era já utilizada há muitas centenas de anos. Não foi, claro está, a primeira vez que entraram em contacto os povos das terras baixas e os habitantes do planalto. Sabe-se que os incas desceram até às terras baixas e até é possível que tenham sido os povos do altiplano andino a abrir a rota do Peabiru. [Vem-me à memória uma descrição que li uma vez, que não me lembro de quem era e que não faço ideia que rigor terá, de um exército de soberbos guerreiros incas, invencíveis nas guerras abertas no planalto, a serem aniquilados um por um por zarabatanas de guerrilheiros invisíveis, quando tentaram em vão alargar o império às matas tropicais. Mas enfim, isso foi com certeza noutros lugares mais a Norte… O que é provável, porém, é que, como acontece muitas vezes quando se trata de contactos entre povos, os comerciantes tenham precedido os soldados e se fizesse há muito tempo comércio nesse rota que ficaria depois célebre como trajecto de expedições guerreiras.] Passando, provavelmente, perto do que hoje é Asunción, no Paraguai, e Porto Suárez, na Bolívia, os guaranis de Garcia chegaram às fronteiras do império do Inca Huayna Capac e travaram batalhas com os incas, entre as actuais localidades de Mizque e Tomina, nos departamentos de Cochabamba e de Chuquisaca, respectivamente.

Os guaranis sofreram pesadas baixas, mas parece que conseguiram apoderar-se de algum ouro e prata, antes de serem obrigados a retirar. Para além do exército incaico, os guaranis da costa tinham tido também de enfrentar um clima e uma paisagem desconhecidos, fome e doença. Não devia reinar grande optimismo entre eles quando empreenderam o caminho de regresso. García mandou à frente um pequeno grupo de homens, para irem pedir reforços e deixar a salvo o tesouro conquistado aos incas. O resto da expedição, que tinha tomado no regresso um caminho diferente, fez uma paragem à beira do rio Paraguai e foi aí que Aleixo Garcia morreu. As minhas fontes dividem-se sobre as causas da morte de Garcia: uma versão da história é que o exército de Garcia foi atacado pelos temíveis paiaguás e que Garcia foi uma das muitas vítimas mortais desse ataque. Segundo outra versão (muito mais trágica e que seria, portanto, a que eu adoptaria se tivesse escrito o conto…), Aleixo Garcia teria sido assassinado por um dos seus companheiros europeus.

E é esta a história da história que não escrevi. Nas notas que tinha para o conto, gosto das palavras que queria pôr na boca de um guerreiro carijó que, após uma terrível derrota frente a um exército incaico, quer convencer um Aleixo Garcia obcecado pelo ouro e pela prata a abandonar a empresa e a voltar para casa:

“Os campos celestes onde repousam os guerreiros existem só nos olhares que os homens e as mulheres e as crianças levantam ao céu quando os tentam imaginar algures lá em cima. A glória eterna existe só no coração de quem no-la atribui e na memória de nós. Se morrermos todos, se não ficar ninguém para contar a nossa coragem nem ninguém para a recordar, é sem valor essa coragem e é vã a morte do maior guerreiro.”
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Fontes: Li todos os textos que encontrei online com referências a Aleixo Garcia e ao caminho do Peabiru, mas, para simplificar as coisas e evitar redundâncias, digamos que este pequeno delírio foi montado a partir das entradas Aleixo Garcia e Juan Díaz de Solís da Wikipédia, de três artigos de jornal sobre a obra de Rosana Bond quando ela saiu (um artigo de Etoile Shaw, “Jornalista refaz caminho do descobridor dos incas”, no Estado de 13 de Agosto de 1998, que já não se encontra online; um artigo de Maurício Oliveira, “O verdadeiro descobridor dos incas” em A Notícia, de 28 de Julho de 1998, que também já não se encontra online no sítio original, mas que se pode ler num blogue de Ozias Alves Jr.) e a Historia de Bolivia de José de Mesa, Teresa Gisbert e Carlos Mesa Gisbert (La Paz: Ed. Gisbert, 1999). Também consultei o blogue Peabiru Calunga, que tem mapas do caminho do Peabiru.
Aqui ficam, também, para quem queira aprofundar o assunto, as referências bibliográficas dos dois livros que menciono logo no início e que não tive, infelizmente, possibilidade de ler:
MONTEIRO, Mário. Aleixo Garcia descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal. Lisboa: Livraria Central de H. E. G. de Carvalho, 1923, 69 págs.
BOND, Rosana. A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca. Florianápolis: Editora Insular, Fundação Franklin Cascaes, 1998, 86 págs.
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Notas um bocado patetas:

Tentações a que, infelizmente, não soube resistir:
os originaios uruguários: Não é gralha, não senhora, é mesmo assim… E esteve quase para ser “os originaios canibários uruguais”…
um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia: eu bem sei que é uma contradição romancear seja lá o que for num conto ou numa novela, mas é de propósito, acreditem em mim… E também, o que é que eu aqui podia pôr? Contar aqui não me serve e novelar não existe, pois não?

Tentações a que, felizmente, soube resistir:

Na versão anterior à minha auto-censura, onde se lê
João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515 lia-se
João Dias de Solis partiu, não do porto de Cádiz mas sim de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515
e onde se lê
seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa lia-se
seria aventura vã (uma avãtura, seria…) meter-me por tão complexos floreios da narrativa – e não porque tenha complexos relativamente a tais floreios…

Para que vocês vejam…

18 de outubro de 2009

The spirit level*: Recensão

Nunca houve recensões de livros na Travessa, mas, como há para tudo uma primeira vez, eis aqui uma. Por quê? Bom, as razões para aqui pôr uma recensão de um livro são duas e são ambas boas: a primeira é que se trata de um livro cujo tema é, na minha opinião, dos temas mais importantes que um livro pode ter; e a segunda é que foi escrita pelo meu amigo Seth Jenkinson, médico reformado, de Bradford, Reino Unido, que tem a mania de dizer coisas interessantes (e que não se importou de ver arruinada por uma tradução minha a sua prosa…). A recensão é muito britânica, como verão, mas, tratando-se da recensão de um livro de autores britânicos, isso é com certeza uma vantagem – dá-lhe aquela empatia de que costumam falar os críticos de música quando é a Orquestra Filarmónica de Helsínquia a tocar Sibelius…

Wilkinson, Richard & Kate Pickett. The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better. London: Penguin, 2009.
É um livro notabilíssimo. Se a ciência que lhe subjaz é verdadeira, é tese para causar uma mudança de paradigma, como a evolução ou a teoria microbiana. Essencialmente, os autores postulam que há provas de que muitos males das sociedade prósperas modernas, desde a obesidade e da toxicodependência até à violência e às cadeias sobrelotadas, passando pela gravidez precoce, todos eles têm uma causa comum: a desigualdade de rendimentos.
Trata-se aqui de uma afirmação revolucionária, porque torna irrelevantes grandes áreas do discurso político. A “sociedade despedaçada” de [David] Cameron e as mães adolescentes que [Gordon] Brown quer pôr em lares precisam ambas da mesma solução, uma sociedade com mais igualdade. As provas apresentadas são, de facto, tão poderosas que implicam que, se não conseguirmos criar sociedades com mais igualdade, outras panaceias não funcionarão, donde a redundância de muita da discussão política actual.

Há pelo menos 20 anos que conheço o trabalho de Wilkinson sobre desigualdade e saúde, mas a tese estende-se agora a novas medições, entre as quais as dos níveis de confiança, doenças mentais (incluindo alcoolismo e toxicodependência), esperança de vida e mortalidade infantil, obesidade, desempenho das crianças na escola, gravidez precoce, homicídios, taxas de encarceramento e mobilidade social.

Obviamente, em sociedades desiguais são os pobres que sofrem mais, mas outra asserção intrigante, com provas, é que há uma estratificação fina das desvantagens sociais que permeia a sociedade até ao topo. Há muitos anos que isto se sabe no campo restrito da medicina, a partir do conhecido estudo de Whitehall** feito por [Michael] Marmot. Este livro vem agora alargar muito o panorama e mostra que os ricos das sociedades menos igualitárias são menos saudáveis e menos felizes do que as pessoas das classes superiores de países onde há mais igualdade. No século XIX, a cólera espalhou-se a partir dos bairros da lata afectando até as classes médias, de modo que, quando se compreendeu a teoria microbiana, água limpa e bom saneamento foram benéficos para todos. Quem beneficiou mais foram os pobres, porque eram eles que mais morriam, mas todos beneficiaram. A analogia hoje é que, dado que a criminalidade, os comportamentos anti-sociais e os custos da dependência transbordam das zonas mais pobres das cidades, toda a gente veria a sua vida melhorada por mais igualdade.

Isto é uma análise de países ricos. Ninguém duvida de que a vida das pessoas dos países pobres só pode ser melhorada com progresso económico. Há, no entanto, um ponto de inflexão (talvez 20 000 dólares anuais per capita) a partir do qual mais aumento de riqueza não corresponde a uma melhoria das estatísticas sociais. O país mais rico e com mais desigualdade, os EUA, há décadas que passou essa barreira e o aumento de riqueza só produziu uma sociedade violenta com uma enorme quantidade de gente na cadeia, em que as classes médias se escondem atrás de fechaduras de segurança em comunidades muradas. O livro é uma devastadora crítica do fracasso da versão estado-unidense da democracia de mercado que domina o mundo desde 1945. Há outras maneiras de lidar com o capitalismo. Os países escandinavos e o Japão, na ponta igualitária do espectro, são exemplos de duas maneiras diferentes de o fazer. Os investigadores conseguem também demonstrar os efeitos da desigualdade entre vários estados dos EUA. É extraordinário, porque mostra a força que tem de ter este efeito para se o conseguir detectar entre estados cuja cultura e riqueza variam tão pouco. Há de longe menos diferenças entre Nova Yorque e New Hampshire do que entre Portugal e a Suécia, e, ainda assim, o parâmetro da desigualdade continua a prever todos os efeitos malignos.

Este livro merece a mais alargada discussão. Num piscar de olhos ao famoso antepassado de 1859, acho que poderia ter como subtítulo “a origem dos stresses, por meios de desigualdades pouco naturais”. Os autores especulam também de uma forma muito interessante, no fim do livro, sobre a plausibilidade biológica de os seres humanos funcionarem melhor em sociedades mais igualitárias.

A obra não é senão a corroboração científica da política de centro-esquerda. É nisso que reside a sua fraqueza, porque as suas conclusões há mais de um século que vêm sendo reiteradas pelos esquerdistas liberais e poderiam ser irreflectidamente recusadas como sendo “vira o disco e toca o mesmo”. Mas não é. O importante aqui é que há PROVAS. Quando se tem provas de que as andorinhas migram para África no Inverno, já não é necessário especular, como fez o Dr. Johnson, sobre elas hibernarem no fundo dos lagos. Morreu o antigo discurso. Os cépticos podem achar difícil aceitar que não precisemos de outra receita para combater comportamentos anti-sociais que não seja mais igualdade. Pode parecer-lhes tão improvável como um passarinho voar até África – mas por acaso é verdade.
Seth Jenkinson, Outubro de 2009

É claro, já comprei o livro. Só que, como é arriscado fazer encomendas directamente para aqui, mandei entregá-lo em casa de uns amigos dinamarqueses que nos vêm visitar pelo Natal. Até lá, vou-me educando no site do Equality Trust, onde se podem descarregar muitos e muito instrutivos estudos sobre a relação directa entre desigualdade económica e uma série de coisas más que há no mundo (alguns dos estudos também são muito britânicos, mas mesmo esses são instrutivos). E aconselho-vos a que façam o mesmo: que se ofereçam a vocês mesmos The Spirit Level como prenda de Natal e que se instruam no Equality Trust.

Duas mini-notas finais:

1. Podem os defensores da igualdade (eu sou um deles) argumentar que as discussões morais não se podem reduzir a discussões de factos, e que a igualdade é um valor por si, mesmo que não traga melhor saúde ou menos violência. Eu concordo completamente, mas não faz mal nenhum demonstrar-se que esse valor moral de base, nos países desenvolvidos, traz consigo enormes vantagens práticas…

2. Evidentemente, mesmo para quem aceite as conclusões do livro, uma questão propriamente política permanece, a questão estratégica: como se obtém a igualdade? A única contribuição que posso dar imediatamente para uma resposta a essa pergunta é que o primeiro passo para lá chegar é, com toda a certeza, querer a igualdade… É que, ao contrário do que sugere o subtítulo reinadio proposto por Seth Jenkinson para o livro de Wilkinson e Pickett, a igualdade, como tudo o que é moralmente louvável, é essencialmente contra natura e não se chega lá por acaso. Notem que não quero dizer com isto que o igualitarismo não tenha origem em disposições comuns a todos os seres humanos, ou que não haja algumas tendências igualitaristas em todos os comportamentos sociais (há muitas experiências de várias áreas científicas que parecem prová-lo, sobretudo no que diz respeito a uma componente fundamental do igualitarismo que é a reciprocidade), mas parece que o igualitarismo “natural” não o é em quantidade suficiente para produzir “naturalmente” sociedades justas…).
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* Não me atrevo a traduzir o título, fico antes à espera de saber que título terá a edição portuguesa da obra, que, segundo o site do Equality Trust, está prevista para 2010.
** O estudo de Whitehall: Resumo geral aqui e resumos escolhidos aqui.

Recuperado de um blogue apagado 4: Retalhos da vida de 3 compositores

Último bocado de roupa velha com os restos da Rádio Sim Carolina. Tomem lá três histórias de música que, acho eu, podem interessar também a quem não se interessa por música. O que vem a itálico nos textos que se seguem foi traduzido, às vezes em terceira mão, do livro Music in the Western World, A History in Documents (Weiss, Piero e Richard Taruskin, selecção e anotação. Nova Iorque: Schirmer Books, Macmillan, 1983). O resto vem dos sítios para onde vos mandem os links...

Salomé e a vivenda de Garmisch 
A ópera Salomé de Richard Strauss (1986-1947), com libreto de Hedwig Lachmann baseado na peça homónima de Oscar Wilde, foi estreada em Dresden em 1905. Num texto educativo da English National Opera, entretanto desaparecido da Internet*, Sarah Lenton dizia-nos sobre essa estreia que, “durante 90 minutos, o público observou traumatizado a história bíblica da morte de S. João Baptista transformada agora num relato de corrupção e depravação. A música era pertinazmente moderna, os cantores cantavam com o máximo das suas forças e tudo aquilo era indescritivelmente macabro. No fim do espectáculo, Strauss virou-se para o público e disse: «Bem, eu gostei bastante – e vocês?»”

Uma conhecida enciclopédia explica também que “a combinação do tema bíblico, do erótico e do homicídio, que tanto atraíam Wilde na história, chocaram o público de ópera desde a primeira apresentação da obra” e que a ópera foi proibida em Londres pelo gabinete de Lord Chamberlain até 1907 e Gustav Mahler não conseguiu obter do censor de Viena consentimento para que ela fosse levada à cena”. Um pequeno escândalo, como se vê.

Interessante também é o que nos conta o próprio compositor sobre a estreia de Salomé e a sua recepção em geral:
O espectáculo teve o sucesso que têm todas as estreias em Dresden, mas os agoireiros todos, a abanarem a cabeça depois, no Bellevue Hotel, eram unânimes na opinião de que, embora a obra pudesse ser produzida num ou noutros teatro de muito grandes dimensões, em breve desapareceria. No espaço de três semanas foi aceite por, creio eu, dez teatros e fez sensação em Breslau com uma orquestra de apenas 70 instrumentos. Depois, começaram os disparates na imprensa, a oposição do clero (…) e dos puritanos de Nova Iorque (…). O imperador alemão consentiu que a obra fosse levada à cena só depois de Sua Excelência [o Administrador Geral] Hülsen se ter lembrado de fazer aparecer no fim a estrela de Belém, como sinal da chegada dos reis magos! Uma ocasião, Guilherme II disse ao seu Administrador Geral: «Tenho pena que Strauss tenha composto esta Salomé. Eu até gosto bastante dele, mas vai desgraçar-se com isto!». Graças a esta desgraça, consegui comprar a minha vivenda de Garmisch!
Quando eu morrer, pensem de mim o que quiserem
A Sinfonia nº 3 de Camille Saint-Saëns, a sinfonia com órgão, de 1886 é uma das sua obras mais conhecidas e é normalmente considerada um clássico do reportório sinfónico. Esta sinfonia, que lança mão de uma orquestra grande reforçada com piano (às vezes a quatro mãos) e órgão, é muito provavelmente, como dizem as liner notes de uma edição que tenho dela, a obra pela qual Saint-Saëns gostaria de ser conhecido. “Dei aqui tudo o que conseguia dar”, disse Saint-Saëns da obra, “o que fiz nessa altura não o voltarei a fazer”.

Mas não é. Ou seja, é uma das obras pelas quais é conhecido, mas a obra pela qual é mais conhecido é O carnaval dos animais, que ele nunca considerou senão uma brincadeira, uma peça menor, sem interesse, e que, por isso mesmo, proibiu de ser tocada em público enquanto fosse vivo. A decisão de Saint-Saëns provoca-me uma estranheza que a proibição simples de execução pública de uma obra não me causa: ele proibiu a execução d’O carnaval dos animais enquanto fosse vivo, mas autorizou expressamente a sua execução após a sua morte. O que, bem vistas as coisas, é o mesmo que dizer assim: “O meu nome, a minha reputação, a maneira como quero que os outros me vejam, tudo isso acaba quando eu acabar… A partir daí, vejam-me lá como quiserem, que eu já cá não estou para ver como me vêem…”. O que é, no mínimo, uma atitude fora do vulgar…

Pode alguém ser quem não é?
Eu sei que, dos músicos, o que conta é a música, mas também sei que quem se interessa por música não consegue nunca deixar de espiolhar um bocadinho a vida de quem a faz. Ora a vida de Prokofiev tem mistérios que cheguem para inspirar muitas novelas; e mistérios que não o são só para amadores como eu ­– mesmo os grandes estudiosos de Prokofiev confessam-se incapazes de afirmar com o mínimo de certeza que as coisas se passaram assim ou assado, e por esta ou por aquela razão. Por que voltou Prokofiev à Rússia, se não tinha disso nenhuma necessidade, bem pelo contrário? Ninguém compreende. E por que aceitou com aparente docilidade as imposições do Partido? Que sinceridade havia, se havia alguma, na retractação pública em que se humilha a si próprio em 1948? É quase standard, nas biografias de Prokofiev, descrevê-lo na sua juventude como um enfant terrible. Prokofiev não era propriamente uma pessoa submissa, mas, quando lemos a carta que escreve em 1948 à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, a que a doença o impede de assistir, ficamos sem saber o que pensar. Eis um excerto:
No que me diz respeito, a minha obra caracterizou-se por elementos de formalismo até há 15 ou 20 anos. Pelos vistos, apanhei a infecção através do contacto com algumas ideias ocidentais. Quando foram denunciados no Pravda erros formalistas na ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovitch, pensei muito nos mecanismos criativos da minha própria música e cheguei à conclusão de que tal método de composição estava errado.
Por conseguinte, comecei a procurar uma linguagem mais clara e com mais significado. Em várias das minhas obras posteriores (Alexander Nevsky, Um brinde a Estaline, Romeu e Julieta, Quinta Sinfonia) esforcei-me por me libertar de elementos de formalismo e parece-me que, em certa medida, o consegui. A existência de formalismo nalgumas das minhas obras explica-se, provavelmente, por uma certa complacência e por não me ter dado suficientemente conta de que ele é completamente rejeitado pelo nosso povo.
O facto é que, nas obras que Prokofiev refere, escritas depois de ele “renunciar” ao “formalismo pequeno-burguês”, por muito que mais “melódicas” ou menos “modernas”, se continua a sentir o fogo de artifício prokofieviano, que é único. Mais “russa” ou menos “russa”, mais “popular” ou mais “burguesa”, a música de Prokofiev continua a ser genial. Mas o mais interessante é que a História de um Homem a Sério, a ópera em que ele estava a trabalhar na altura, foi recusada e proibida pelo Sindicato dos Compositores, por muito que, na referida carta à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, Prokofiev desse conta da intenção de “introduzir trios e duetos, coros desenvolvidos em contraponto, para os quais [usaria] algumas melodias folclóricas interessantes do Norte da Rússia”, acrescentando que os elementos que pretendia usar nessa ópera eram “uma melodia lúcida e, tanto quanto possível, uma linguagem harmónica simples”. O que prova que, quando se é Prokofiev, não vale a pena tentar ser outro compositor que não se é…
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* O texto  de Sarah Lenton encontrava-se em http://www.eno.org/src/Salome.pdf, visto a 18 de Outubro de 2009

15 de outubro de 2009

E onde estão, pobres de nós, as doces neves de antanho?

Eu espanto-me e é provável que vos aconteça o mesmo: A cada passo tropeço em queixas de que nunca houve, como agora, tanta solidão, tanta violência, tanto medo, tanta intolerância, tanto individualismo, tanto desinteresse no social, tanta uniformização do pensamento… Etc.

E então eu espanto-me e é provável que vos aconteça o mesmo: Nunca ninguém apresenta quaisquer provas do que diz… Mas deixá-lo… Nem sonhem que vou agora aqui argumentar que, se se substituir o tanto por tão pouco, então sim, temos alguma possibilidade de ter razão. Podia fazê-lo, e apresentar números e tudo, mas isso fica adiado, porque agora não me apetece. O que eu quero dizer aqui hoje é outra coisa:

Podem querer acusar-me, e aos outros críticos deste milenarismo de bicha da caixa, de uma contradição fundamental: «Então, tu estás a fazer o mesmo que aqueles que criticas, não vês? Estás a dizer: “Valha-nos Santa Ifigénia, que nunca houve tanta gente a queixar-se como agora!”»

Mas é uma acusação infundada, porque eu não disse isso. Disse só que me espanto, mais nada. Tenho plena consciência de que dizer que «isto nunca esteve tão mau como agora» é comum a todos os tempos e a todos os lugares. Há milhares de anos que isso se diz…

Recuperado de um blogue apagado 3: Isso sim, maridinho!

Mais um texto imigrado da Rádio Sim Carolina, que foi chão que já deu uvas, onde viu a luz do dia (o texto, entenda-se) na noite de 18 de Fevereiro de 2009. Um texto, por tal sinal, muito esquisito. Quem vos avisa…

Já terão visto, com certeza, que às vezes aparece “tradicional” no sítio onde devia estar o nome da autora ou do autor de uma composição. É esquisito, porque tradicional não é o nome de ninguém; e todas as composições têm uma autora ou um autor – forçosamente.

É verdade que agora já há muitas vezes mais rigor na referência da autoria e que se escreve às vezes “domínio público” ou “autor desconhecido”. Mas só a última possibilidade me satisfaz, porque do domínio público são todas as obras cujos direitos de autor tenham caducado, mesmo que se saiba quem as escreveu. Autor tradicional não há, portanto – há é autores desconhecidos.

A ideia de que uma obra de arte possa vir do povo como entidade abstracta é uma estapafúrdia ideia romântica que teve – e tem ainda – muita fortuna. Da mesma forma que os historiadores românticos explicavam a evolução histórica a partir de ideias metafísicas como a alma dos povos, também muitos intelectuais, e mesmo musicólogos, acreditaram na criação musical e lírica colectiva das obras tradicionais. “Grande poeta é o povo”, diz o provérbio, como poderia dizer “Grande compositor é o povo”. Mas é mentira*, além de ser uma falta de respeito por um certo tipo de autores: discute-se muitas vezes a autoria de muitas obras de “grande” música ou literatura, quando não se a pode dar por certa, porque uma obra assim tem de ter um autor; mas uma canção popular já não – pode ter sido construída por todos e por ninguém em particular… Não quero dizer com isto que a música dita “tradicional”, por não ser escrita, não esteja mais sujeita a contínuas alterações do que a música dita erudita. Mas alterações são sempre alterações a alguma coisa e por baixo das alterações há uma canção que uma pessoa concreta criou num determinado momento.

Agora, o que eu gostava de ter sido folclorista, na altura em que os havia a sério! E não só pelos queijos e pelos enchidos que vão sendo oferecidos aos misteriosos académicos de visita, que são com certeza uma das partes mais gratificantes da recolha folclórica, mas também pelo prazer do trabalho de detective que é. Surdo que sou para a música, teria é, claro, que me limitar ao trabalho com as letras, mas o fascínio da arqueologia lírica não é menor do que o da arqueologia musical. Ai, quem de dera, de gravador na mão, a acompanhar Ralph Vaughan Williams pelas charnecas da velha Albion à procura da versão original de “John Barleycorn”, provavelmente sob a forma de uma cerveja muito local…

Isto é tudo a propósito de ter encontrado algures na Internet** (ou seja, sem ter tido direito a queijo nem a enchidos…) duas versões alternativas da letra de uma canção “tradicional” que eu conheço e toda a gente conhece. Eis aqui as três versões da letra da canção. Começo pela que, com um ou outra variaçãozita no número de estrofes e sua na ordem, todos conhecemos e a que eu chamo aqui Versão A:

- Ó mulher, eu compro-te umas meias (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas feias. / Compra-me um litro de vinho, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).
- Ó mulher, eu compro-te umas chancas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas mancas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te umas botas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas tortas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te um burrinho (bis).
- Isso sim, maridinho, isso sim, isso sim, / Que dum lado vai o pão. / Doutro lado vai o vinho, / E eu também vou no burrinho. / Compra-me um litro, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).

E agora, as outras duas versões que eu encontrei, designadas aqui B e C:

Versão B:
- Oh mulher, eu comprava-te umas botas (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz as pernas tortas; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te uns sapatos (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz andar aos saltos; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te um burrinho (bis)
- Isso sim, maridinho sim, / que o burro leva o odre; / o odre leva o vinho, / boa carne e melhor toucinho.

Versão C:
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te umas botas.
- Isso não, marido não, / que me faz as pernas tortas. / Compra-me antes um vinhinho / p'ra regar o meu peitinho. / Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te uns sapatos.
- Isso não, marido não, / que me faz andar aos saltos. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um saiote.
- Isso não, marido não, / que fico como um pipote. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um gibão.
- Isso não, marido não, / que me oprime o coração./ Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um pente.
- Isso não, marido não, / que arranha a cabeça à gente./ Compra-me antes um vinhinho, etc..

Qual é a original, ou a mais antiga, e quais são as alterações posteriores? E qual é a liricamente mais rica ou mais original? É impossível dizer. Podemos constatar objectivamente que as várias versões têm de se cantar com melodias diferentes, mas o resto é muito uma questão de gosto. A versão mais conhecida tem uma coisa de que eu gosto, que é ter a estrofe-conclusão mais comprida do que as outras, o que obriga a melodia a marcar passo, mas que, por outro lado, a frase “bom frumento e bom vinho, boa carne e melhor toucinho” da versão B, é muito boa, como é boa também a frase “Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal”, da versão C, com o sofisticado jogo de bem e mal.

O que me parece (e foi por isso que aqui a trouxe) é que é uma canção surpreendente:

Há uma maneira, e uma maneira única, penso eu, de a fazer encaixar na mentalidade falocrata dominante (mais ainda na altura em que a canção foi escrita…): é considerar que a mulher bêbeda é um elemento humorístico da cultura machista, ao mesmo nível que o homossexual ou o marido atraiçoado – e que essas personagens são caricatas, aos olhos do homem tradicional, por serem contra o que ele considera natural, por virem baralhar o que é, para ele, “a ordem normal das coisas”, por serem o que uma mulher ou um homem “não deveriam nunca ser”. (Há quem afirme que é muitas vezes a alteração da ordem que é entendida como natural que faz rir uma pessoa, desde que essa pessoa não perceba nessa alteração gravidade ou ameaça.)

É uma perspectiva possível, e não me custa mesmo nada aceitá-la. Se olharmos para a canção de outro ângulo, porém, pode antes parecer-nos que ela faz a apologia de algo tão fora dos valores dominantes que chega a ser uma canção subversiva: O homem oferece à mulher (como, segundo os valores tradicionais, lhe compete) vestuário, calçado e objectos de toilette, para ela ficar mais bonita e lhe agradar mais. A mulher, porém, recusa ver-se reduzida a objecto estético, manda às urtigas roupas e sapatos, e reivindica antes para si os prazeres em princípio reservados aos homens, sobretudo o direito a estados alterados de consciência. Que tal?
___________________

* E um exercício de des-localizada presunção: “Se eu disser de mim que sou / um poeta fabuloso, / não faltará quem me acuse / – com razão! – de presunçoso! // Mas se o povo diz que grande / poeta é o povo, então, / não há ninguém que lhe aponte / essa grande presunção...”

** Não vos dou o link, só para não serem tentados a lá ir, porque, ao que diz um Malware Warning de Google, o site que é está agora cheio de bichezas esquisitas que se metem pelos computadores adentro…

6 de outubro de 2009

Os ossos deste ofício (a morte em imagens)



imaginem a morte
como imagem monumental
– Évora, Hallstatt, Kutná Hora –,
em memória
dos ossos nossos de cada dia
em espera penitente
de todos os outros ossos
que se lhes hão-de ir juntando,
pelos séculos dos séculos.

imaginem a morte
monstro sem lugar
nas tipologias dos bichos,
inclassificável de feio,
sem hábitos nem habitat,
com esqueleto
por dentro
e por fora.

ou imaginem a morte
como vaga figura narrativa,
talvez com rosto revelado de gente,
talvez escondendo-o debaixo
de um franciscano capuz.

imaginem a morte barqueiro soturno,
misterioso cavaleiro, faz de conta que viajante
à procura de abrigo para a noite.

ou então, imaginem a morte
como gaia ilustração,
um monte de ossos vivaço
a bater o fandango
na folga da monda d’almas
em que sem descanso s’empenha.

se a imaginarem assim
imaginem-na
a estender-vos sorrindo a mão descarnada
e a convidar-vos, gozosa,
com voz de falsete:
“venham de lá esses ossos!”

os ossos
pois,
os meus,
os teus,
os nossos,
os ossos
deste ofício
de estar vivo

[Imagem do Tarot Visconti, Beinecke Rare Book and Manuscript Library, Yale University, New Haven, Connecticut, tirada da Wikipedia]

Existe uma canção feminista feminina?

Mais um texto originalmente publicado a 29 de Outubro de 2008 no extinto blogue Rádio Sim Carolina. Fala dessa letrista singular que é Dory Previn e levanta uma questão que já foi muita mais vezes levantada do que respondida: a escrita (neste caso, na canção) terá género?

Tenho a sensação de que as canções feministas escritas por homens são, no geral, relativamente previsíveis e panfletárias. É verdade que também há canções feministas previsíveis e panfletárias escritas por mulheres, e canções feministas menos estereotípicas escritas por homens. Mas todas as canções feministas mais directas, mais virulentas, mais provocadoras, mais eficazes que conheço foram escritas por mulheres – e, provavelmente, só poderiam ter sido escritas por mulheres.

Dory Previn, uma cantautora por cujas letras tenho uma admiração especial, é, nesta questão (como em muitas outras!), um caso à parte. Coexistem nela a canção feminista tradicional, a tal que podia ter sido escrita por qualquer pessoa, com a canção do subversivo feminismo feminino. Ou do seu – só dela – único e subversivo feminismo, talvez…

Tomemos a canção “When a Man Wants a Woman”, de Reflections in a Mud Puddle, 1971 (as traduções das canções que aqui aparecem são minhas, que me desculpem os leitores do blogue e sobretudo Dory Previn...):

«Quando um homem quer uma mulher, / diz que é um elogio, / diz que está apenas a tentar / capturá-la, / reclamá-la, / domá-la; / quando quer tudo, tudo dela, / a alma, o amor, / a vida, para sempre, e mais, / diz que a está a persuadir, / diz que anda atrás dela. // Mas quando uma mulher quer um homem, / ele diz que ela o ameaça, / diz que ela está só a montar-lhe uma armadilha, / a aliciá-lo, / a acorrentá-lo, / quando ela quer algo dele, seja lá o que for, / um olhar, um toque, / um bocadinho do seu tempo, / ele diz que ela está a ser exigente, / assegura que ela o está a destruir. // Por que é que / quando um homem quer uma mulher / lhe chamam caçador, / mas quando uma mulher quer um homem / lhe chamam predadora?»

Alguém se surpreenderia se lhe dissessem que a canção tinha sido escrita por um homem? Não sei. Creio que não. Caso bem diferente é o das duas canções que transcrevo a seguir. “Twenty-Mile Zone”, de On my way to where, 1970, e “Starlet Starlet on the Screen Who Will Follow Norma Jean?”, de Reflections in a Mud Puddle, 1971:

«Ia eu a guiar o meu carro, / a gritar à noite, / a gritar à noite, / a gritar ao medo. / Não estava a fazer nada, / só a dar uma volta de carro, / a gritar ao escuro, / a deitar tudo cá para fora. / Era só isso que eu estava a fazer, / só a deitar tudo cá para fora. // Bem, de repente aparece uma mota, / para minha surpresa. / Disse eu: “Sr. Agente, ia em excesso de velocidade?”/ Não lhe via os olhos./ Disse ele: “Não, não ia em excesso de velocidade”. / Pôs a mão na pistola que tinha pendurada / e disse: “Minha senhora, a senhora ia a gritar / a plenos pulmões! / Ia a gritar sozinha! / A senhora ia a gritar no seu carro, / numa zona de velocidade reduzida.” // “E que mal tem gritar? / Vocês não gritam nos vossos jogos, / quando o três-quartos-ponta parte o cotovelo, / quando o pugilista ataca e mutila?»

«Hollywood! / Com quem tem de se foder / para entrar neste filme? / Como se transforma um vício numa virtude? / Com quem tem de se foder / para ser bem tratada? // Levam-nos como se leva um animal para o matadouro, / inspeccionam-nos, classificam-nos, põem-nos um carimbo a dizer se somos de tipo corrente ou de primeira categoria. / Penduram-nos num gancho de carne, e ali ficamos a envelhecer. / Mas a carne de fêmea não melhora com o tempo. / Cortam-nos às peças e tiram a parte mais tenra. / E quando acabam, / o que resta de nós / é rijo, é duro. / Se é essa a ideia que alguém faz do Paraíso, / com quem tem de se foder / para ir para o Inferno? / Viva Hollywood!»

Algum homem escreveria canções assim?

5 de outubro de 2009

O tempo, mais uma vez

O tempo passa por nós, então, ou nós andamos por ele afora. Muita gente o tem constatado: é assim, com imagens de movimento, umas vezes nosso, outras vezes do próprio tempo, que a gente diz essa perturbadora dimensão do mundo. Agora, por muito que as metáforas espaciais, como se lhes chama, nos possam ajudar a falar do tempo, a (tentar) fazer perceber ao nosso interlocutor como se organizam ocorrências e situações umas em relação às outras e em relação a ao eterno presente em que as dizemos, é verdade é que elas não nos servem para sentir a passagem do tempo.

[A parte séria (credo…) termina aqui, e o que se segue, terão de mo perdoar…, é mais delírio, desregramento do raciocínio...] Costumo viver o tempo da seguinte forma: às vezes, acumulam-se num mesmo espaço imagens de vários tempos; outras vezes, em vez de se acumularem, sucedem-se essas imagens de tempos diferentes. Mas vai tudo dar ao mesmo: a visão de qualquer coisa (um lugar, uma pessoa…) traz-me à consciência o arquivo de imagens dessa mesma coisa. A marca da passagem do tempo é o conjunto de diferenças visíveis entre as diversas imagens mentais, entre as que foram armazenadas em tempos diferentes e entre todas essas e a que tenho na altura diante de mim. Os tempos mudam-se, como as vontades, mas o tempo nunca muda, só as coisas é que mudam nele. Há até outra maneira, mais cruel mas também mais verdadeira, sinto eu, de dizer as coisas: Nem sequer são as coisas que mudam no tempo, o tempo é precisamente a mudança das coisas. Para visualizar o tempo como o sinto, acho mais eficaz do que uma seta ou um caminho a imagem da tinta que cobre uma parede. Que vai perdendo cor até começar a escamar, até cair por completo. Como eu vejo as coisas, a ideia mais forte que resulta da comparação de imagens de tempos diferentes é decomposição, desgaste, deterioração.

Sentir passar o tempo seria deprimente, acho eu, se não houvesse a morte. Mas assim não: o cronómetro é reposto a zero e adia-se constantemente, na vida que recomeça, a decadência do mundo.

4 de outubro de 2009

Recuperado de um blogue apagado 1: Singer songwriter, não: cantautor

Apaguei o meu blogue Rádio Sim Carolina, que era sobre música e que, concluí eu, não interessava a ninguém. Dos textos que lá tinha, quando os reli, achei que havia uma meia dúzia, ou pouco mais, de que se podia dizer benza-te deus e que não queria deitar fora. Vou então pô-los aqui na Travessa, adaptando-os quando necessário à lógica deste blogue, que é outra, e alternando-os com os textos que para aqui vou escrevendo. O texto que se segue foi originalmente publicado a 6 de Maio de 2008 e fala da palavra cantautor, de entradas de dicionário e do grupo argentino Les Luthiers.

Diz o Wikcionario que cantautor é um substantivo masculino, que significa “que canta as suas próprias composições poéticas, normalmente críticas”, e que é um “neologismo criado a partir de cantor + autor, certamente por influência do castelhano cantautor”. Diz ainda que, “embora seja utilizada nos meios de comunicação tanto de Portugal como do Brasil, esta palavra não se encontra ainda dicionarizada”, apesar de ser “referida no Ciberdúvidas como palavra bem construída” e “utilizada em vários artigos da Wikipédia”. Eis o que eu tenho a acrescentar, que não é muito:

É verdade que é convencional considerar a forma masculina singular a forma de base de um nome e que é essa forma que é usada nas entradas dos dicionários, mas talvez já seja tempo de, em vez de considerar cantautor substantivo masculino sem mais (e as outras palavras todas com duas formas flexionais, uma forma masculina referente a seres do sexo masculino e uma forma feminina referente a seres do sexo feminino), fazer antes uma entrada do tipo

cantautor n. m.; cantautora n. f. : pessoa que canta as suas próprias canções

Ou não? Se o feminino e o masculino forem palavras diferentes, por exemplo, cadela e cão, acho devia haver duas entradas, ambas com referência uma para a outra:

cadela n. f.; cão n. m.: mamífero canino doméstico, Canis familiaris

e

cão n. m.; cadela n. f.: mamífero carnívoro doméstico, Canis familiaris
Já agora, para quem não esteja muito dentro destas coisas, houve já propostas, com argumentos mais sólidos do que os que se usam para defender a convenção actual (nenhum, ao que sei...), de propor o feminino singular como forma das entradas de dicionário. De facto, com base no velho mas sempre produtivo conceito de forma marcada e não marcada, parece ser o masculino singular a forma marcada, já que o feminino, singular e plural, e o masculino plural partilham algumas características que o masculino singular não tem: vejam, por exemplo, a pronúncia nóva, nóvas, nóvos por oposição a nôvo. Mas a tradição tem muito peso – e a tradição é masculina…

Mas, voltando a cantautor e à sua definição no Wikcionário, não vejo bem o que é que faz “poéticas” depois de “composições” sem lá estar também “musicais”. Quer dizer que é cantautor quem canta as suas letras com música de outros, mas o contrário não? “… as suas próprias composições”, pronto, ponto, chega bem. E por que hão-de ser as composições dos cantautores “normalmente críticas”? E críticas de quê, já agora? J. J. Cale não é um cantautor? E Bobby Lapointe?

Mas enfim, onde eu quero chegar com isto tudo é que acho é mesmo de aproveitar a boleia do espanhol e usar cantautor/a. Autor/a-compositor/a-intérprete é pesado que se farta. Os franceses abreviam ACI, mas entre ACI e cantautor/a escolho o que soe menos a associação para a cooperação internacional…

Cantautor/a, que se adopte então! Aliás, a palavra não está consagrada só em espanhol, mas também noutras línguas ibéricas e em italiano (cantautore/a) – em qual delas terá sido inventada?

Agora, a propósito, fiquem lá com um excerto de um maravilhoso sketch do impagável grupo argentino Les Luthiers em que, para referir o grande cantautor Manuel Darío [fictício, não fiquem a pensar...], se introduz o conceito de autocantor…:

Manuel Darío: O professor López Jaime reconheceu que as minhas canções tocam a alma, que, os meus recitais, não há que pensá-los, há que senti-los.
Professor [Openheimmer, e não López Jaime]: De facto, fui a um dos seus recitais... E realmente... Sinto muito.
Manuel Darío: Confessei-lhe que tocava e compunha de ouvido. Mas enfim, muitos inspirados compositores populares não sabem escrever música.
Professor: Mas pelo menos sabem escrever o nome deles…
Manuel Darío: Conforme lhe ia cantando as minhas canções, ia-me apercebendo de que o professor começava a ficar visivelmente emocionado, até me pareceu ver duas lágrimas que queriam escapar-se-lhe dos olhos...
Professor: Bom, as lágrimas… Escapar-se... não… Eu é que me queria escapar!

Manuel Darío: Por fim, perguntei-lhe: “Professor, o que acha de mim como cantautor?” E ele aconselhou-me que continuasse a cantar.

Professor: Ah, sim. Eu disse-lhe: “Você deve cantar... Onde ninguém o oiça. Você deve cantar para si próprio! Porque eu, a si, não o vejo como cantautor, vejo-o mais como autocantor”.

3 de outubro de 2009

O sexo das pontes e outras questões linguísticas

A ideia de que o pensamento é modelado pela língua costuma ser associada sobretudo aos escritos de Benjamin Lee Whorf. Whorf, impressionado pela diversidade linguística, postulou que as categorias e distinções de cada língua consagram uma maneira de perceber o mundo, de o analisar e de nele agir. Se as línguas diferem, os seus falantes devem também diferir na forma como percepcionam e agem em situações objectivamente semelhantes (Whorf 1956). Esta perspectiva whorfiana forte – de que o pensamento e acção são inteiramente determinados pela língua – há muito que foi abandonada em ciência cognitiva. Contudo, uma resposta definitiva a versões menos deterministas da pergunta “A língua modela o pensamento?” tem-se revelado muito difícil. Alguns estudos têm defendido provas da resposta afirmativa (…), outros, provas do contrário (…)*.
Lera Boroditsky, a autora desta apresentação sucinta do debate whorfiano, faz parte do primeiro grupo: é um dos neo-whorfianos que, com base em trabalho experimental (de que Whorf, no seu tempo, nunca lançou mão), defendem agora a versão fraca da hipótese whorfiana (que, de forma simples, se pode resumir assim: se bem que não determine completamente o pensamento e a acção, a língua pode, em certos casos, ter influência sobre eles). Boroditsky é professora de Psicologia na Universidade de Stanford e é, segundo alguns, uma investigadora de que ainda se há-de ouvir falar muito. A verdade é que já se ouve falar muito dela. A hipótese de influência da língua na nossa maneira de pensar o mundo sempre foi bastante sedutora fora do debate especializado e, por consequência, muito mediática, e os neo-whorfianos, e Boroditsky em particular, têm chegado às páginas de divulgação científica de vários jornais, têm aparecido na rádio e na televisão e têm também visto os seus trabalhos publicados em revistas mais especializadas. Podem, por exemplo, ouvir uma discussão com John Perry e Kenneth Taylor em Philosophy Talk, ou ler o artigo “What’s in a word” de Sharon Befley no Newsweek de 9 de Julho passado, ou, se estiverem mais virados para textos um bocadinho mais densos e escritos pela própria Lera Boroditsky, vejam, por exemplo, um resumo da sua pesquisa e convicções no site edge.org ou leiam os trabalhos da investigadora disponíveis no seu site.

Eu, é claro, apaixonado que sou pela discussão, tive de ler com atenção os trabalhos todos de Boroditsky a que tive acesso. Devo dizer que, no geral, fiquei impressionado. O trabalho de Lera Boroditsky é de um grande rigor e as experiências que monta são cuidadosas na verificação de todas as hipóteses que encontra de explicação para os fenómenos que testa. E parece-me que se pode considerar que demonstra bem o que demonstra. Apresento a seguir, traduzidos por mim, alguns excertos de resumos de trabalhos de Boroditsky, para que quem os não conhece possa ficar com uma ideia de que tratam. Concretamente, os exemplos que escolhi dizem respeito a três das áreas principais dos estudos de Boroditsky e dos seus colegas: a influência das classificações que a língua estabelece através das palavras que disponibiliza na percepção de cores, a influência do género gramatical na classificação e memorização, e a influência das metáforas espaciais predominantes na língua na maneira de pensar o tempo. A palavra a Lera Boroditsky:

«Um conjunto de provas sugere que o pensamento das pessoas sobre objectos pode ser influenciado por aspectos de gramática que diferem de língua para língua», pode ler-se na secção de conclusões do artigo “Sex, Syntax, and Semantics*”. «Uma série de estudos constatou efeitos do género gramatical na maneira como as pessoas descrevem objectos, como avaliam a semelhança entre imagens de objectos, e na sua capacidade de recordar nomes próprios de objectos. Outra série de estudos mostrou que podem ser produzidas diferenças no pensamento apenas por diferenças gramaticais, sem presença de outros factores culturais. Chama-nos a atenção o facto de que mesmo um acaso gramatical (a designação arbitrária de um nome como masculino ou feminino) possa ter um efeito na maneira como as pessoas pensam sobre o mundo». Para dar exemplos concretos, as experiências demonstram, por exemplo, que, dando um nome próprio a uma maçã, um falante do alemão recorda melhor o nome se ele for masculino (Patrick) do que feminino (Patricia), mas passa-se precisamente o contrário com um falante do castelhano, porque Apfel, “maçã”, é masculino em alemão mas manzana é feminino é castelhano; ou que, pedindo-se-lhes para adjectivar objectos inanimados, os germanófonos adjectivam Brücke, “ponte”, com adjectivos “descrevendo propriedades femininas” e Schlüssel, “chave”, com adjectivos “descrevendo propriedades masculinas”, ao passo que os hispanófonos associam a puente, que é masculino em castelhano, adjectivação “masculina” e descrevem llave com adjectivos “femininos”.

«O inglês e o mandarim falam sobre tempo de maneiras diferentes», conclui-se num outro artigo**, «o inglês fala predominantemente do tempo como se fosse horizontal, ao passo que o mandarim descreve normalmente o tempo como sendo vertical. Esta diferença entre as duas línguas reflecte-se na maneira como os seus falantes falam sobre tempo. Num estudo, falantes do mandarim mostraram a tendência de pensar verticalmente sobre o tempo, mesmo quando estavam a pensar para o inglês (os falantes do mandarim eram mais rápidos a confirmar que Março vem antes de Abril, se tivessem acabado de uma série de objectos dispostos verticalmente do que se tivessem visto um objectos dispostos horizontalmente, e passou-se o contrário com falantes do inglês).»

«Os termos que designam cores em inglês e russo dividem o espectro das cores de forma diferente», explica o resumo de um artigo de 2007***. «Ao contrário do inglês, o russo faz uma distinção obrigatória entre azuis mais claros (goluboy) e azuis mais escuros (siniy). Investigámos se esta diferença linguística leva a diferenças na discriminação das cores. Testámos falantes de inglês e de russo numa tarefa acelerada de descriminação de cores usando estímulos azuis dos dois lados da fronteira entre siniy e goluboy. Concluímos que os falantes do russo eram mais rápidos a discriminar duas cores quando estas pertenciam a duas categorias linguísticas diferentes em russo (uma siniy e a outra goluboy) do que quando pertenciam à mesma categoria linguística (ambas siniy ou ambas goluboy).»

A verdade é esta: mesmo os mais cépticos relativamente à hipótese whorfiana, como eu, têm argumentação sólida pela frente, se bem que, como a própria Boroditsky afirma, há ainda muito que tem de ser feito para se poder começar a ter ideias mais definitivas sobre a questão. Relativamente à questão da relação entre género gramatical e sexo, lembro-me imediatamente não tanto de objecções mas de problemas que merecem investigação :

Depois de testar como o género gramatical nos faz atribuir sexo ao assexuado, porque não testar a influência do género gramatical na concepção de seres sexuados: por exemplo, alguém designado como uma pessoa é vista como mais feminino do que alguém designado como um indivíduo, ou só as chaves e as pontes é que recebem sexo das línguas? Outra área interessante de investigação é a das palavras que podem ter ambos os géneros, como a palavra componente...; mas como componente é uma palavra que é difícil utilizar-se em testes, podia trabalhar-se, em português, com auto-estrada, por exemplo, uma palavra que, por muito que a norma a queira feminina, é masculina (por que será?) para muitos falantes nativos da língua. Seria interessante investigar se quem diz auto-estrada no masculino lhe atribui propriedades diferentes de quem dá género feminino a essa palavra… E como se passam as coisas nas línguas em que, como nas escandinavas, o sexuado, resultante da aglomeração do masculino e feminino, se opõe ao neutro não-sexuado? Bom, não me surpreende que uma criança seja percebida como menos sexuada do que um adulto por um dinamarquês (a propósito, a palavra criança é sempre feminina em português, mesmo quando refere um rapaz, que implicações terá isso na maneira como os portugueses vêem os humanos jovens?…), mas será que, para representação figurativa, por exemplo, esse dinamarquês tem tendência a considerar um poltergeist mais sexuado do que um fantasma vulgar[1]?

Quanto à relação entre metáforas espaciais de tempo e a maneira de pensar nele, e à influência do léxico na percepção, o que se me oferece dizer é que não me custa aceitar que certos hábitos de representação mental em que uma determinada construção linguística nos induz ou que o maior ou menor rigor classificativo possibilitado por maior ou menor riqueza lexical numa área semântica determinada nos dêem vantagem ou desvantagens em determinadas tarefas cognitivas. Mas as situações estudadas até agora são tão marginais no nossa quotidiana tarefa de conhecer e pensar o mundo que a versão fraca da teoria whorfiana é mesmo muito fraca. No estado em que a investigação está, talvez seja mais correcto não falar ainda de estudo da relação entre língua e cognição, mas apenas de relação entre uma ínfima parte de aspectos linguísticos e uma ínfima parte do trabalho cognitivo…

Além disso, o léxico (eu diria, incluindo preposições e advérbios usados na expressão do tempo, mas isto é, claro está, muito discutível) é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintáctico-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (só para ficar na área da investigação aqui referida, mas podia arranjar muitos outros exemplos) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afecta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…

Mas, e outros aspectos linguísticos menos volúveis: A estrutura fonológica? A ordem dos advérbios ou dos diversos sintagmas na frase? A determinação nominal, os diversos usos dos artigos, a sua existência ou ausência? A existência de preposições versus outras formas de marcação de caso? Ficamos todos ansiosos, não é?, a ver como evolui a investigação e que implicações podem ter – ou não – todas estas componentes das línguas na nossa maneira de perceber o mundo e de agir sobre ele…

***
O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado, e isso só faz que me surpreenda mais a ligeireza de algumas afirmações que faz. Um exemplo:

«Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usarem devidamente a sua língua (…). Por exemplo, para dizer que “o elefante comeu os amendoins” em inglês (“the elephant ate the peanuts”) temos de incluir tempo verbal – o facto de que o evento se deu no passado. Em mandarim, indicar quando o evento ocorreu seria opcional e não poderia ser incluído no verbo. Em russo, o verbo teria de incluir tempo, se o comedor de amendoins era macho ou fêmea (embora só no passado) e se o dito comedor de amendoins os comeu todos ou só uma porção deles. Em turco, especificar-se-ia se o evento foi presenciado ou relatado.*» [Traduzo eu. Borodistky utiliza variações deste exemplo noutros lugares, por exemplo na entrevista no Philosophy Talk que refiro acima.]

Uma reflexão mais aprofundada sobre a questão que aqui se coloca, que é sobretudo de tempo, aspecto e modo, talvez fizesse com que Boroditsky não concluísse que “Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usar devidamente a sua língua”, mas antes, como concluem muitos estudiosos da questão, que as diversas línguas têm maneiras mais ou menos conspícuas de marcar categorias que estão presentes em todas as frases de todas as línguas. Senão vejamos:

• Por muito que uma pessoa fale uma língua com marcação obrigatória do género nominal, não precisa de saber o sexo de um animal para poder referir esse animal. Mal feito fora… Umas das formas disponíveis é neutra, ou não marcada, e é utilizada quando não sabemos ou não queremos dizer o sexo. Não falo russo, mas não consigo conceber que isto seja diferente em russo e que eu tenha de ir inspeccionar um animal para lhe identificar o sexo antes de o poder referir. Em português, a palavra neutra é geralmente do género dito masculino, mas há casos em que é feminina, pelo que não é só um borrego que às vezes é uma borrega, como também uma ovelha que às vezes é um carneiro.

• Sem mais contexto, qualquer falante do inglês compreende, ao ouvir “the elephant ate the peanuts”, que o elefante os comeu todos. Exactamente como em português: sem informação prévia, quando ouço a frase “o elefante comeu os amendoins”, compreendo que os comeu todos. É verdade que nem o português nem o inglês têm, como o russo, uma forma específica (no caso do russo, um prefixo verbal) que marque a “perfectividade”, ou seja, o completamento da acção. Mas há muitas outras marcas possíveis de completamento fora da forma verbal. Neste caso, é a determinação nominal (o artigo definido) que marca esse completamento.

• O que digo do aspecto, posso também dizer do tempo: mesmo que em mandarim ele não seja obrigatoriamente marcado na forma verbal, a marca tem de existir, porque a pessoa que ouve a frase tem de saber se o evento é anterior ou não ao momento em que a ouve. Mais uma vez, há argumentos (e sólidos!) sobre a presença de marcas de tempo em todos os enunciados humanos, se bem que a forma como o tempo é marcado possa diferir muito de língua para língua e aquela a que nós estamos habituados (a flexão verbal) seja apenas uma delas. Em mandarim, pelo que me lembro, as marcas de tempo (e aspecto e modo) são partículas silábicas soltas ou adverbiais “normais”, mas isso não significa que um falante do mandarim não tem de dizer o tempo.

• O que se passa em relação a tempo e aspecto passa-se em relação a modalidade: há várias línguas que, como o turco, têm marcas morfológicas da assunção pela pessoa que fala daquilo que diz. A questão é muito complexa, mas o facto de esse tipo de marcas modais existir de forma mais ou menos explícita em certas línguas não significa que nas outras línguas essa modalização não esteja presente. Em português formal, por exemplo, é o condicional que marca, muitas vezes, a não assunção pelo falante da informação enunciada (“O roubo teria sido cometido…”), mas na linguagem informal usam-se outros tipos de modalizadores, dos quais os mais óbvios são coisas como “diz que…”, “parece que…”, etc.

***
A ideia da neo-whorfiana Lera Boroditsky é que não faz sentido discutir se a língua modela o pensamento e se a cultura modela o pensamento, porque a língua faz parte do pensamento e da cultura e vice-versa****. A posição não é em nada diferente de muita gente que não assume a hipótese de Sapir-Whorf, mesmo na sua versão fraca (estou a pensar na posição “prudente” de um linguista como Claude Hagège, por exemplo).

Lamento desiludir alguns relativistas culturais mais dados à conversa de café do que ao trabalho de rigor, mas um trabalho sério como o de Boroditsky e dos outros neo-whorfianos põe também em causa, como não podia deixar de ser, conclusões apressadas sobre a maneira como a língua modela o pensamento (ou as “concepções” disto ou daquilo e, por isso, a cultura). Por exemplo:

Uma vez insurgi-me aqui, na última secção de um texto chamado “Penas de anjo”, contra a falta de rigor da afirmação de uma pretensa diferença da concepção do tempo entre os aimaras (e quem?, as outras pessoas todas do mundo?) baseada apenas na constatação de que a palavra para dizer “futuro” é a mesma palavra que para dizer “atrás”. Aquilo para que Gentner, Imai e Boroditsky chamam a atenção é que (traduzo eu) «muitas línguas têm um sistema em que “frente” é usada para futuro e outro sistema em que “frente” é usada para o passado. Quando se usa “frente” para o futuro, o tempo é representado como um observador deslocando-se ao longo de uma linha temporal, ou através de uma paisagem [é a chamada “metáfora do ego em movimento”, que se observa em frases como “Ela ainda tem a vida toda à sua frente…”, explicação minha]. Quando se usa “frente” para o passado, o observador está parado e o tempo passa por ele [trata-se, nesse caso, da chamada “metáfora do tempo em movimento”: “Quando vier o tempo das cerejas…”, explicação minha]. Poder-se-ia racionalizar que o passado está em frente porque o observador já sabe o que está no passado. O futuro está atrás porque não se pode ver o futuro, da mesma forma que não se pode vir o que está atrás de nós*****».

Outra coisa interessante no trabalho de Lera Boroditsky é que, na defesa da versão fraca do whorfianismo, ela acaba por demonstrar exactamente o contrário do que pretende uma ideia de determinismo cultural que costuma andar de mãos dadas com a tese whorfiana no seu sentido forte: a capacidade de condicionamento do pensamento que a língua possa ter não é, afinal, nada de muito fundo em nós. A categorização do mundo recebida sob a forma de léxico e formas gramaticais não impede que qualquer pessoa facilmente aprenda a categorizar o mundo de uma maneira nova, a de outra língua.

«[Um] estudo mostrou a medida em que falantes bilingues de mandarim e inglês pensam verticalmente sobre o tempo está relacionada com a idade que tinham quando começaram a aprender inglês”, mas “noutra experiência, falantes nativos do inglês foram ensinados a falar sobre o tempo usando termos espaciais verticais de uma forma semelhante à do mandarim [e,] num teste posterior, este grupo de falantes do inglês mostrou a mesma tendência para pensar verticalmente sobre o tempo que a observada em falantes do mandarim. Conclui-se que (1) a língua é um instrumento poderoso para modelar o pensamento sobre domínios abstractos e que (2) a língua nativa de uma pessoa desempenha um papel na modelação do pensamento habitual (por exemplo, na maneira como uma pessoa tende a pensar sobre o tempo), mas não determina inteiramente o pensamento dessas pessoas no sentido whorfiano forte.**»

Ou seja, em vez de contribuir para a ideia de língua como modelo mental pesado e definitivo, o trabalho destes neo-whorfianos aponta antes para a ideia de língua como modelo mental aberto a constante adaptação – adaptação essa, que pode, a julgar pelo tempo que, na experiência descrita, os falantes de inglês demoram a aprender a utilizar com sucesso a orientação temporal vertical que não existe na sua língua [2] (“foram muito brevemente treinados”), pode ser muito rápida!

Não quero ir longe demais nas minhas extrapolações, mas não se passará precisamente o mesmo com tudo o que se costuma designar como “cultura”?
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* Boroditsky, L., Schmidt, L.A., & Phillips, W. (2003). “Sex, Syntax, and Semantics”. in Gentner & Goldin-Meadow (Eds.,) Language in Mind: Advances in the study of Language and Thought. Cambridge, MA: MIT Press, acessível aqui.
** Boroditsky, Lera (2001),“Does language shape thought? Mandarin and English speakers' conception of time”, Cognitive Psychology 43, acessível aqui.
*** Winawer, Jonathan, Witthoft, Nathan, Frank, Michael C., Wu, Lisa, Wade, Alex R., Boroditsky, Lera (2007), “Russian blues reveal effects of language on color discrimination”. in PNAS, Vol. 104, No. 19. (8 May 2007), pp. 7780­-7785, acessível aqui.
**** Na entrevista citada em Philosophy Talk: “To me, it doesn’t make sense to say: “is is language that shapes thought?” or “is it culture that shapes thought?”, one is a part of the other.”
***** Gentner, D., Imai, M., & Boroditsky, L. (2002). “As time goes by: Evidence for two systems in processing space > time metaphors”. Language and Cognitive Processes, 17, 537-565, a que se pode aceder aqui.

[1] Há muito outros fenómenos, provavelmente muito menos relevantes para a verificação da hipótese whorfiana do que os que acabo de referir, que também são interessantes. Um exemplo: Boroditsky refere um facto conhecido de quem fala línguas com géneros diferentes dos da sua língua materna, mesmo que as fale bem: a tendência a referir objectos ou seres que são de um género diferente ou sem género na língua estrangeira com o pronome do género que eles têm na língua materna. Por exemplo, se eu estiver à procura da carteira e estiver, por isso, a pensar nela (em português), posso facilmente dizer a um interlocutor com quem fale francês que “je (ne) la trouve nulle part”, por muito que, posso garantir-vos, nunca me aconteça dizer *une porte-feuille (credo!...), quando falo francês. Ora o que é interessante é que o pensar em dinamarquês me predispõe (“primes me”, como se diz na literatura técnica em inglês) de uma maneira estranha para trocar os pronomes em português. Já o notei várias vezes: se estou, por exemplo a ouvir falar e a pensar em en cykel (“uma bicicleta”) em dinamarquês, vou dizer “Mas o sr. João já o arranjou?”. Quer dizer, “traduzo” por masculino o género que é “masculino+feminino” em dinamarquês? A única hipótese que encontro de explicação do fenómeno é que a palavra dinamarquesa cykel “vá buscar”, na minha mente, a palavra foneticamente mais próxima em português, ciclo, que é masculina. Mas seria preciso estudar a questão…

[2] De facto, a orientação num eixo vertical da metáfora temporal não está ausente de línguas como o inglês ou o português, apenas não se usa para localizar eventos no tempo. Mas é possível dizer em português, por exemplo, “as pessoas acima dos 60 anos” e a mesma construção existe em inglês.

1 de outubro de 2009

Felicidade era a empregada do bar

Vivo longe dos meus melhores amigos e, por isso, encontro-me com eles só uma vez por ano, às vezes até só de dois em dois anos. Como creio que acontece a todos os amigos que não se vêem há muito tempo, eu e os meus amigos dedicamos sempre umas horas dos nossos reencontros a inteirar-nos da sorte de antigos amigos comuns com quem um de nós deixou de ter contacto (E o Amadeu, tens sabido dele?) e a recordar coisas por que passámos juntos, ena, há muitos anos (Lembras-te?). Agora, não sei se é um estado de espírito passageiro, provocado pela minha recente viagem a Portugal e pelas muitas horas passadas com os amigos a recordar tempos muito idos, ou se é antes alguma inclinação que vem com a idade, raios a partam!, mas o facto é que me tem dado para remexer em textos antigos e recordações. Para o que te havia de dar!..., dizem vocês, e o mesmo digo eu: para o que me havia de dar!…

O que é engraçado é que, quando começo a recordar, a solo ou à desgarrada com os amigos, as coisas que fiz há muito tempo, grande parte das vezes reconheço mal, ou chego até a desconhecer, a pessoa que as fez. Outras vezes, sim: reconheço-me naquela ou nesta acção ou gesto, neste ou naquele pensamento. E sorrio, não de encontrar no que senti e pensei diferenças relativamente ao que sinto e penso, mas de haver, apesar delas, poucas inalterações. É claro, discutir o que é que em nós permanece e o que é que em nós é perecível ultrapassa em muito a minha capacidade de perceber o mundo; mas sei que o pouco que liga o que somos ao que fomos é algo tão pessoal como transmissível, porque quem me reconhece numa fotografia de menino também reconhece nessa mesma fotografia excertos da minha filha mais nova.

E vejam lá agora ao que venho, depois de tanta circunlocução: Fui dar com um texto de juventude em que a pessoa que eu era nessa altura (perdoem-me a deselegância, é no que dá querer ser rigoroso na expressão…) escrevia assim:
Parte-se na maior parte das vezes do pressuposto – por quê, afinal? – de que a missão última das pessoas sobre a terra é, se não serem felizes, pelo menos procurarem a felicidade. Ora, para levar a cabo aquilo que é a missão fundamental de qualquer pessoa (transformar-se, perpetuar-se, reproduzir-se, morrer…), não há necessidade de felicidade nem da sua ausência – tanto faz...
Surpreendi-me: ao fim de tantos anos, vejam lá vocês, continuo a pensar basicamente o mesmo. Não poria hoje as coisas da mesma forma, porque a minha perspectiva era, naquela altura, muito diferente da que tenho agora. Não é que tenha deixado de me interessar em absoluto a especulação sobre o que não posso deixar de fazer, mas interessa-me mais discutir o que devo fazer e para quê – e como. E, embora com outra perspectiva, continuo a chegar à mesma conclusão prática, a de que a felicidade é algo com que não faz sentido preocupar-se. Além de exercício de vanidade, digo eu agora, a busca da felicidade é provavelmente um exercício vão:

Uma pessoa pode achar que cada um deve tratar antes mais de si próprio e querer ser feliz, sem mais. E pode achar que mais importante do que a sua felicidade é a felicidade alheia e atribuir, apesar disso, valor estratégico à sua própria felicidade na criação de mais felicidade. De facto, há muito quem pense que (ideia mais difundida do que bem defendida…) para fazer bem aos outros, uma pessoa tem de se sentir bem ela própria. OK., tudo isso é possível e não sou eu que me vou agora opor – que se queira ser feliz, está para mim muito bem… Mas alguém já conseguiu alguma vez demonstrar que é mais feliz uma pessoa que procure a felicidade?

Por que não aproveitar o tempo que se gasta a tentar ser feliz para ir fazendo coisas mais perenes do que a nossa vida e menos tão só nossas? Dito de outra maneira: Andar atrás da felicidade? Desculpe, mas tenho melhor que fazer…

P. S.: O seu a seu dono e uma sinistra interrogação...

O seu a seu dono: O título deste textinho, “Felicidade era a empregada do bar”, não é meu, é de uma pessoa que eu já não vejo há muito tempo, um rapaz de Barcarena chamado Carlos Pinhão (Lembram-se? Têm sabido dele?). Quando se falava de felicidade, ela dizia sempre isso. Acho que tinha mesmo conhecido uma rapariga chamada Felicidade que trabalhava num bar. E acho também que era a maneira que ele tinha de dizer que na felicidade não vale a pena pensar. Mas, se calhar, estou a distorcer-lhe a intenção para o pôr a dar-me razão…

Uma sinistra interrogação: Continuar a “chegar à mesma conclusão prática”, “embora com outra perspectiva”? Mas será então que a evolução do pensamento de uma pessoa é assim, arranjar outras maneiras de pensar o mesmo? Credo!!!…