26 de novembro de 2009

De preceitos e preconceitos

De todas as maneiras que há de falar uma língua, a nossa é sempre a correcta… Não é o que eu penso, mas é o que pensa muita gente. A maioria das pessoas, acho eu. Nada mais difícil, pelos vistos, do que reconhecer como maneira de falar ao mesmo nível da sua uma maneira de falar diferente da sua. Uma prova disso é a necessidade de se fazerem duas traduções para a mesma língua, uma em português europeu e outra em português americano. Mesmo quando uma tradução brasileira é excelente, os portugueses preferem ler uma tradução menos boa no seu português…

Agora, para que não pensem que me julgo isento de preconceito linguístico, conto-vos uma constatação que fiz no outro dia: Tenho quase a certeza de que, se um aluno meu, digamos, irlandês ou sueco, me escrevesse num TPC os dois últimos versos da penúltima quadra da letra de “Asa Branca”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (“Espero a chuva cair de novo, / para mim voltar para o meu sertão”), eu corrigia. Era capaz de achar que “estava mal”, que era uma “construção estrangeira” – quando se trata de uma letra maravilhosa, de um grande clássico da canção em língua portuguesa…

Mas isto sou eu a especular

Começa a ser raro não se encontrar rapidamente na Internet aquilo que se procura. Mas ainda há (mal feito fora, também…) perguntas para as quais só mesmo encomendando uma ou várias obras impressas é que a gente consegue (talvez…) obter resposta. Por exemplo, como é que Rimbaud, em 1888, algures na Etiópia, reagiu a uma carta que lhe contava que, após a publicação de Illuminations dois anos antes, se tinha tornado célebre nos meios literários de Paris?

Também é verdade que é uma pergunta de interesse mínimo, pelo menos se se medir o seu interesse pelo número de pessoas a quem ela possa interessar. E a mim, porque é que me havia de interessar uma pergunta assim? Bom, há já muito tempo, li um artigo de um jornal conhecido* em que se falava de “profissionais e artistas de destaque” que “se retiram em plena glória”. O artigo não refere só o abandono definitivo, mas fala também de casos em que há interrupções longas do trabalho criativo ou fugas temporárias às luzes da ribalta. Porque será que tudo isso acontece? Depois de dar uma série de exemplos de gente famosa que decide retirar-se do trabalho que lhe traz a fama, o artigo sugere, entre outras coisas, que “lidar mal com um êxito pode paralisar a criatividade”.

O artigo suscitou-me uma dúvida. Dizia que Arthur Rimbaud, “depois de conseguir um êxito brutal”, teria procurado permanecer tão afastado da fama quanto possível. Isto era um bocado contrário à ideia (muito vaga, muito vaga…) que eu tinha da vida de Rimbaud, e fui procurar informação. Foi assim que descobri que, apesar de Rimbaud ser uma dos poetas mais influentes de sempre, é difícil arranjar online informação detalhada sobre a sua vida.

O que podemos verificar com alguma facilidade é que, ao contrário do que afirmava o tal artigo (a minha vaga impressão estava correcta!...), a fama não tem nada a ver com o afastamento de Rimbaud da literatura – sobretudo porque ele se afastou da literatura antes de ser famoso… É certo que Rimbaud se tornou famoso ainda em vida (ou começou a tornar-se famoso ainda em vida), mas essa fama começou só com a publicação de Illuminations em 1886, mais de dez anos depois de ele ter deixado de escrever poesia; e enquanto vivia longe de França, pelo que nunca passou de facto pela experiência de ser uma figura pública… Também é certo que Rimbaud chegou a saber, pelo menos através de uma carta do seu amigo Paul Bourde**, do sucesso que estava a ter a sua poesia, e podemos então dizer, quando muito, que a consciência do seu sucesso não foi suficiente para o fazer voltar à poesia – nem sequer para o fazer voltar a França para gozar esse sucesso.

Outra coisa que uma pesquisa sobre a vida de Rimbaud nos ensina é que há, entre os seus estudiosos, quem defenda que a falta de dinheiro (ou a vontade de o ganhar, seja…) foi uma das razões que o levou a correr mundo; e que, na sua correspondência, o dinheiro é um dos temas principais. E então, se acharmos, como eu acho, que é o dinheiro, precisamente, que faz andar o mundo em geral e cada uma das vidas particulares dos seus habitantes, podemos até perguntar-nos se Rimbaud não teria continuado a escrever, se lhe tivesse vindo mais cedo da escrita a compensação económica que acompanha o êxito! Mas isto sou eu a especular…
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* Desta vez, é de propósito que omito a referência, não vão pensar que a intenção deste texto é corrigir o artigo de jornal. Nada disso: a intenção deste texto é antes, como o título indica, especular, sem mais, sobre «como teria sido, se…» (chamando também a atenção para a importância, tantas vezes desprezada pelos estudiosos, do dinheiro na produção artística….)
** Ao que consegui perceber, mas não posso ter a certeza absoluta. A informação que consegui arranjar de dois biógrafos de língua inglesa refere o autor dessa carta como “his editor”.

18 de novembro de 2009

De gestos e palavras, quais importam?

De gestos e palavras, quais é que mais importam? Quais é que fazem diferente o mundo do que antes desses gestos e palavras ele era? De gestos e palavras, quais é que mais se entranham na vida de quem tocam? E de gestos e palavras e do resto, o que é que de nós chega a ser não digo História, mas vá, nem que modesta contribuição para os nossos serem o que são, para ser como é a terra, as terras, onde vamos vivendo?

A verdade é que ninguém sabe: Aconchegar outrem junto ao peito? Dar cabo, transido de medo, do inimigo que a guerra lhe pôs à frente? Encher de roupa a máquina e depois de detergente, e depois apertar o botão? Calcular sonolento os deves e os haveres? Ou calcular as leis inexoráveis da máquina do mundo? Ou calcular as outras, menos inexoráveis, que mandam nos gestos de nós (nos tais gestos de que nunca chegamos a saber quais é que modelam o mundo e quais preenchem apenas dispensáveis... isso, dispensáveis... minutos de vida)? Escrever tratados ou sinfonias? Afinar os travões da bicicleta? Preparar o desembarque em Dunquerque? Regar as plantas da sala? Dormir a sesta? Chorar uma morte? Chorar mil mortes? Pregar aos peixes?
Ou pôr a mesa para o jantar?

Redacção encontrada no sótão: Os sapatos

[Houve uma altura em que me dediquei a escrever “redacções”, que era o nome que eu dava a textos em que ia anotando tudo o que me vinha à cabeça sobre um tema qualquer, como, por exemplo, “As árvores” ou “As canetas”. No outro dia, fui dar com essas redacções algures num sótão do meu computador, reli-as, achei que esta ficava bem aqui no blogue e colei-lhe só uns quantos links antes de a pespegar aqui. Como, quando escrevi o texto, não lhe fiz as devidas notas de rodapé (acho que por ser uma “redacção”...), não sei onde fui buscar alguma da informação que ele inclui e de que não posso agora, portanto, assegurar o rigor. Mas, se me conheço bem, devo ter verificado tudo na altura…]

Os sapatos

Os sapatos, como todos os objectos, têm histórias maravilhosas que me fazem sonhar. Mais do que apenas novelas, verdadeiros romances, recheados de complicados enredos secundários.

Tomemos quaisquer sapatos, por exemplo os que trago calçados. São sapatos estupidamente clássicos, desses que em Portugal são normalmente conhecidos por mocassin (pronunciado à francesa, mòcassã), por muito que o meu dicionário registe antes mocassim: “calçado de pele usado pelos índios da América do Norte, sem tacão e com a sola revirada dos lados e à frente, para melhor protecção do pé; qualquer sapato desportivo que se assemelhe a este calçado”.

(O filho de uma amiga minha, nascido e criado os primeiros anos da sua vida nos Países Baixos, chamava-lhes “sapatos à turco”. É que os neerlandeses, como os outros povos da Europa do Norte, usam sapatos de atacadores, e ele só conhecia dos turcos sapatos assim. Então, quando veio para Portugal, achou curioso ver o tio dele com sapatos daqueles: “Olha, o tio Zé tem sapatos à turco!” Mas era porque ele não conhecia ainda o gosto, pelo menos o mais conservador, dos países latinos da Europa e da América. Mas então, eu, que nunca me quis nem conservador nem latino, é isso que os meus sapatos mostram que sou? Pois seja!, aceito... Com algumas reticências, como mostram claramente os três pontinhos, mas que remédio tenho senão aceitar?)

Uma das histórias maravilhosas que entram na história de qualquer objecto é a da sua designação. Por que é que se chamam sapatos os sapatos, de onde lhes vem o nome? E os mocassins, onde foram buscar tão estranha designação? Bom, a etimologia de sapato, ao contrário da etimologia de mocassin, está longe de ser pacífica.

Mocassin vem das línguas dos índios americanos, porque foram eles a apresentar aos europeus esse tipo de calçado. Há quem queira especificar que é de uma língua determinada (algonquino, por exemplo), mas é arriscado, porque parece que, entre mokasin e makisin, várias línguas tinham designações semelhantes.

Agora, sapato é mais complicado. Se se seguir a opinião da maioria, a palavra portuguesa sapato vem da espanhola zapato, introduzida por alturas do Renascimento, que por sua vez vem do turco (zabata ou chabata, conforme os dicionários), provavelmente através do árabe sabbat. Mas há quem diga que a palavra portuguesa vem directamente do árabe, e há quem defenda a origem eslava da palavra espanhola. Enfim, origem debatida, se não mesmo polémica.

A questão é que não é fácil saber o que é que vem de quê, quando há tantas palavras semelhantes (todas elas para designar tipos de calçado, embora nem sempre o mesmo) em idiomas tão distintos como o português, o occitano, o francês, o italiano, o basco, o árabe vulgar, várias línguas eslavas e inclusivamente o tártaro e o persa – a lista é do Coromines, que é uma das autoridades nestas matérias de etimologia. É isso mesmo: o nosso sapato pertence a uma grande família etimológica, com primos direitos uns a residir aqui perto, como o italiano ciabatta (“sapatilha”), o francês savate (“sapato velho”), e outros a residir bem longe, como o indonésio sepatu (“sapato”), que foi levado para aquelas paragens, juntamente com o objecto que designa, pelos portugueses ou pelos espanhóis; e talvez até mesmo primos afastados, como sabot (“soca”, originalmente em francês, mas naturalizado também inglês), pelo menos se for verdade a tese que diz que a palavra, surgida no século XV, vem de uma contracção de savate (que naquela altura era “sapato” só, sem aludir ao seu estado de deterioração) e bot (uma forma antiga de botte, “bota”). É claro, os mocassins pertencem também seguramente a uma família etimológica, mas essa nunca me foi apresentada.

Mocassin é um hipónimo de sapato, que é então, por sua vez, um hiperónimo de mocassin, e o que estes tão estranhos palavrões querem dizer é apenas que os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há. Para os que acham graça a este tipo de coisas, adianto que o fazer-se parte de um grupo “natural”, como os mocassins fazem parte dos sapatos, tem algumas implicações óbvias, que toda a gente sabe mas que só os lógicos perderam tempo a analisar e a formalizar. Por exemplo: Todos os mocassins são sapatos, mas nem todos os sapatos são mocassins. Pronto. Por isso, posso dizer: “Estavam lá muitos sapatos, mas não vi lá nenhuns mocassins”, mas não posso dizer, obviamente, (quer dizer, posso, mas hão-de pensar que eu não bato bem…) “Estavam lá muitos mocassins, mas não vi lá nenhuns sapatos”. Mas é uma relação de hiperonímia estranha, esta que há entre sapatos e mocassins, muito diferente daquelas mais clássicas como a que existe entre animal e cão. Se eu disser ou escrever “o cão entrou na sala; o animal vinha esfomeado”, ninguém hesita em compreender que o animal é o cão. Já se eu disser ao contrário, é esquisito, não é?: “o animal entrou na sala; o cão vinha esfomeado.” Mas tratando-se de sapatos, é tudo mais estranho ainda. Se “deixou os sapatos debaixo da cama; os mocassins estavam enlameados” é, como se previa, uma frase esquisita, já “deixou os mocassins debaixo da cama; os sapatos estavam enlameados” não é menos esquisito, e isso é que é esquisito…

Desisto disto e resumo para avançar: Além de fazerem parte de famílias etimológicas, tanto mocassim como sapato fazem parte de outras famílias, das quais acabo de referir a do calçado, no caso dos sapatos, e a dos sapatos, no caso dos mocassins. E como os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há, são forçosamente uma variedade de calçado. Até aqui, acho que o consenso ainda vai alargado, porque o que cabe no menos cabe no mais, como diz o dito. A partir daqui, as coisas complicam-se: os sapatos, mocassins incluídos, estão incluídos no vestuário? Pelo menos em português, as duas palavras, calçado e vestuário, “o que se veste” e “o que se calça”, parecem referir grupos de objectos completamente distintos. Conjuntos sem intersecção: há alguma coisa que se possa vestir e calçar ao mesmo tempo? Parece que não. Mas já o meu dicionário, como os dicionários costumam, discorda desse comum senso que é o dos falantes apenas nativos e inclui o calçado no vestuário e calçar no vestir: “calçado: peça de vestuário para cobrir exteriormente os pés”; “calçar: revestir pés, pernas ou mãos com o vestuário que lhes compete”. Aceita-se ou rejeita se? E aceitando ou rejeitando – dá igual… –, terá isto tudo alguma lógica?

Se pusermos temporariamente de lado a nossa lusa classificação, podemos constatar que, por exemplo, em espanhol (¡ponte los zapatos rojos y baila la jota!), em francês (mets tes chaussures rouges et danse la java !) ou em inglês (put on your red shoes and dance the blues!) os sapatos como a roupa se “põem”, que é uma coisa que em português só se faz aos chapéus… ou às perucas.

Além disso, em português, como em espanhol ou francês, calçam-se luvas. E será que isso faz delas calçado? Nada! Mas peças de vestuário, serão? Não nos soa. Pobres luvas, feitas assim órfãs por estas línguas ingratas. Ainda por cima, sem poderem sequer ser hiperónimos seja lá do que for, porque todos os tipos de luvas são sempre… luvas: luvas de pele, luvas de borracha, luvas de boxe, eu sei lá que mais… Já em francês, por exemplo, as luvas podem ser gants ou moufles ou mitaines, conforme tenham todos os dedos e os dedos inteiros, ou só o polegar separado e um saco para o resto da mão, ou os dedos cortados a meio (eu sei que há mitenes no dicionário português, mas deve ser palavra de um falar diferente do meu, porque nunca a ouvi…). Se perguntarmos aos franceses, porém, qual é o nome genérico dos objectos que calçamos nas mãos, eles dizem-nos que são gants, pelo que tanto gants como moufles como mitaines são tipos de gant. E é exactamente o mesmo em inglês com glove e mitten: parece que um dos termos é hipónimo de si próprio, pelo que é grande a confusão. E eu, que me tinha proposto falar de sapatos, acho que já estou a meter os pés pelas mãos…

Mas as línguas são assim, como se sabe: traiçoeiras. E se deitarmos fora as línguas todas e nos pusermos a pensar sem essas designações prontas-a-vestir que a língua traz, podemos ir até mais longe do que o meu dicionário e dizer que calçado e vestuário é tudo uma mesma coisa, o que nos serve para nos cobrirmos, ponto, embora o português seja tão insistente na distinção que nu é “o que não está vestido” e descalço “o que não está calçado”, ao passo que outras línguas referem os pés descobertos exactamente como os braços descobertos, por desnudo, nu, naked ou bare. E este bare do dinamarquês é ainda mais curioso, porque designa tudo o que não está coberto, excepto se for uma pessoa inteira, que, sem roupa, o que está é nøgen, e não bare. E a verdade, já agora, que às vezes é nua e crua? Posso propor uma verdade descalça e crua, ou não vos cheira?

Voltando aos sapatos, e por falar em cheiros, o meu dicionário diz que chulé é o “mau cheiro dos pés”, mas poderia, com a mesma propriedade, dizer que é o mau cheiro dos sapatos, porque, nisto de maus cheiros, é difícil saber onde é que acaba o pé e começa o sapato. Tive já sapatos que me faziam cheirar mal dos pés, e que cheiravam mal eles próprios, e outros que não. Mas vá lá uma pessoa saber se é o pé que conspurca o sapato ou o sapato que conspurca o pé. Nunca me lembro de ter cheirado mal dos pés andando descalço, de chinelas, ou de sandálias bem abertas. E abandono esta excursão, que começa já a tresandar, e passo atèquenfim à história destes sapatos que trago calçados, cuja marca aqui omito para não lhe fazer publicidade, mas de que posso esclarecer que são toscanos na origem.

O que estes sapatos já viajaram, Deus meu! Senão, vejam: Primeiro, viajaram couro e sola até à fábrica, vindos sabe-se lá de onde. Depois de umas quantas passeatas por máquinas e mãos de artesãos, viajaram os sapatos que agora já o eram até algum grande armazém onde ficaram a aguardar uma sorte que não sabiam imaginar, porque a perspectiva de um sapato, nesta situação, não vai nunca muito além da sua caixa de cartão. Mas, passadas semanas, ou talvez meses, quem sabe?, começou a sua aventura maior, comparável à de tantos humanos seus compatriotas que deixaram Itália para se fixar em qualquer outro lado do mundo. Foram provavelmente de camião até um porto ou um aeroporto, e depois de barco ou de avião até à Dinamarca, que era o destino que, sem eles sonharem, lhes estava há muito fixado. Ou então foi sempre por estrada que continuaram até lá, também pode ser. É provável que tenham passado mais algum tempo nalgum sombrio armazém, quem sabe se a tiritar de frio e desesperançados do seu futuro, até os levarem à loja onde seriam depois vendidos.

Deve ter sido uma loja em Frederiksberg ou na própria Copenhaga, onde os deve ter comprado um homem já não muito jovem e de gosto conservador como eu. Sabe-se lá agora o que os sapatos terão viajado nos pés desse senhor. Talvez até Espanha ou à Grécia de férias, se calhar até Paris ou Berlim. Se calhar, o dono levou-os até de volta à sua Itália natal, onde eles pisaram pela primeira vez o solo pátrio. Depois, o senhor deve ter-se fartado deles e deu-os à Cruz Vermelha dinamarquesa, que os pôs à venda na sua loja de roupa e calçado em segunda mão em Frederiksberg, onde eu os comprei por 100 coroas apenas, ainda em muito bom estado.

Comigo, fizeram, além de viagens pequenas casa-trabalho-e-volta que eu nunca percebi se lhes agradavam ou não, uma viagem grande de Copenhaga a Maputo, que devem ter achado demasiado cansativa para a idade que tinham: no segundo dia em Maputo abriram-se e ficaram a descansar no quarto de hotel, acho eu que sem saberem o que perdiam, porque eu passeei muito por Maputo e Maputo é daquelas cidades onde dá gosto passear. Foram em seguida de Maputo a Nampula dentro da minha mala, porque eu não me quis desfazer deles, talvez os conseguisse ainda arranjar. E então, quando cheguei a Nampula, pu-los a consertar num oficina de sapateiro de uma associação de deficientes que por lá encontrei e eles vieram do conserto muito deficientemente arranjados, porque sola não havia em Nampula, ou pelo menos aqueles sapateiros diziam que não, e substituíram-lhes a sola por borracha de má qualidade, mas enfim, tão mal também não estava que não se pudessem usar, e então, como já disse, são esses sapatos que trago neste momento calçados…

Pois é, eu cá… os meus sapatos…andaram p’los prados, pisaram a lua, dormiram em casa das fadas e fizeram dançar umas quantas, como cantava Félix Leclerc. Além de tudo o mais para que possam servir – matar baratas ou dar pontapés numa bola, por exemplo –, uma função importante dos sapatos é aquilo a que poderíamos chamar a sua função musical: dançar… e serem cantados! Já introduzi lá atrás, muito ao de leve (com sapatos vermelhos, lembram-se?), o tema dos sapatos como motivo de canção. Ou o calçado em geral, seja. É, curiosamente, um motivo muito mais frequente do que se possa pensar, e há muitos clássicos da canção que falam de calçado, quando nos pomos a pensar um bocado. Além desta canção “Moi, mes souliers” de Félix Leclerc, há “High heeled sneakers” de Jerry Lee Lewis, “Blue suede shoes” e “Pointed Toe Shoes”, de Carl Perkins, “These boots are made for walking”, de Lee Hazelwood, “Boots of Spanish leather” de Bob Dylan, “Les sabots d’Héléne” de Georges Brassens… e dezenas de etecéteras. Os Flaming Groovies têm um E.P. de culto chamado Sneakers e os Henry Cow têm um álbum legendário chamado Leg End, só que, a julgar pela capa, o que, nesse caso, está na ponta da perna não é um sapato, e nem sequer um pé, é uma meia de lã, e então, pai natal falhado que sou, parece que já estou a querer enfiar nos sapatos cantigas que lá não cabem, que não entram nesta história nem com calçadeira…

O que entra nesta história sem precisar de calçadeira outra que não seja a própria palavra história é, isso sim, a História dos sapatos. Uma história que nem sequer tem muito que eu lhe diga, e ainda bem, pelo que aqui fica, com o agá grande mais pequeno que eu consigo arranjar:

Ao princípio, as pessoas andavam descalças e só depois é que começaram a calçar-se. E, por muito que se tivessem tornado, nalgumas partes do mundo, parte inalienável do corpo – como a roupa, aliás, que nós somos animais de pele insuficiente –, os sapatos nunca se tornaram (infelizmente?) património genético, de maneira que continuamos a nascer descalços e a calçar-nos só mais tarde... Durante muitos milhares de anos, as pessoas de todo o mundo calçavam-se com coisas simples, e em todos os tempos e lugares o luxo no calçar sempre foi o primeiro e mais óbvio sinal exterior de riqueza.

Há relativamente pouco tempo deu às pessoas sobretudo da Europa para disparatar também no calçado. Foram três os disparates maiores de que as pessoas revestiram, e revestem, as extremidades dos membros inferiores: O primeiro grande disparate foram as poulaines que apareceram na Europa no século XII, cujas pontas reviradas chegavam a ter 60 cm e até a serem atadas aos joelhos! Outro disparate grande, o segundo, foram os sapatos de biqueira alargada do séc. XVI: nalguns sítios e nalgumas classes, as biqueiras alargaram tanto que a sua largura chegou a ser delimitada por lei! O terceiro e último disparate, quiçá o maior de todos, foram os tacões altos, às vezes até muito altos, inventados no fim do séc. XVI e divulgados sobretudo por Louis XIV e pela sua corte, que, desde então, nunca passaram de moda. Fazem mal, são desconfortáveis, mas enfim, dão altura e fazem sobressair a barriga da perna, o que é que querem que vos diga?

Que de excursões, como diria o outro, com os sapatos a pretexto! É como eu dizia: os sapatos têm histórias como as cerejas, que se enredam umas nas outras e, a propósito de coisa quase nenhuma, podem trazer atrás tudo o que diga respeito seja lá ao que for… Até já me doem os pés de tanto delirar sobre sapatos. Vou descalçar-me e dá-los por terminados.


Foto: Sapatos alemães da segunda metade do séc. XV e primeira metade do séc. XVI, Museu Nacional da Baviera, Munique

Louvor de jardins e parques e dos passeios no campo ao fim-de-semana

Já decidimos que, quando voltarmos à Dinamarca, não vamos viver em Copenhaga. É ponto assente, tanto para a Karen como para mim, que não queremos viver mais numa cidade grande. Não foi uma decisão fácil, porque fora das grandes cidades não há trabalho para nós nas profissões que sempre tivemos, mas estamos convencidos de que o esforço de reciclagem que a mudança implica há-de valer bem o sossego que ganhamos. “Mas é mesmo para o campo que vocês querem ir viver?”, costumam perguntar as pessoas, quando anunciamos o nosso plano. Não, a ideia é ir para uma vilazinha de província. Temos três miúdos pequenos e viver mesmo no campo com três miúdos pequenos, na Dinamarca, dá muito trabalho, porque tem de se passar a vida a levá-los aqui e ali e acolá... Mas eu gostava, mais tarde, de viver mesmo no campo, porque gosto cada vez mais do campo. E, independentemente de gostar ou não, estou convencido de que o verde nos é necessário e nos faz bem.

O verde é o que natural para nós, é a nossa casa. Foi lá que passámos milhares de anos a aperfeiçoar-nos, a tornar-nos humanos. Foi para viver no verde que evoluímos e é por isso mesmo que o achamos bonito e nos sentimos bem nele. “Ui, por onde este vem”, adivinho eu que seja a reacção de muita gente (e boa gente!) à romântica simplicidade do postulado. Basta aceitar, sem refilar, a ditadura da nossa natureza? Bem vistas as coisas, nem tudo o que a natureza pôs em nós é positivo por aí além – e há uma parte da natureza humana que é inútil na vida que levam hoje os seus portadores: sei lá, instintos de violência e de recusa dos forasteiros, por exemplo, que nos ficaram da vida de caçadores em pequenos grupos, ou a atracção por açúcares e gorduras, que nos era útil quando a nossa dieta era naturalmente pobre nisso mesmo e a vida que levávamos nos fazia gastar muita energia… Está bem, mas essas sim, essas são partes da nossa natureza que, não podendo desfazer-nos delas, devemos arranjar maneira de equilibrar com outras partes mais morais de nós, ou simplesmente contrariar ou enganar – para bem de nós próprio e dos outros. Agora, a nossa atracção pelo verde, que implicações negativas é que ela tem? Não é mais fácil, em vez de nos esforçarmos por ir buscar a outras actividades e paisagens a satisfação que o verde naturalmente nos dá, darmos mesmo passeios regulares no campo?

Gosto do verde e estou convencido de que a falta de verde faz mal. É o verde que limpa o cotão e a poeira que se nos vão acumulando na alma. Não é preciso ir viver para o campo, acho eu, mas é preciso ir ao campo. Nem que não seja campo mesmo, mesmo a sério. É como o calor, por exemplo: animais tropicais que somos, precisamos de calor para nos sentirmos bem. Na falta de calor a sério, blusões de penas e aquecimento central também servem. Mas frio é que não. O mesmo com o verde: jardins e parques, pode ser, desde que seja vegetação. Agora, urbanizações sem verde são um crime contra a nossa humanidade e passar o fim-de-semana entre paredes, sejam elas quais forem, é autoinfligir-se um mal. A sério.

12 de novembro de 2009

A lusa sabedoria na Cornualha

No Museu Marítimo da Cornualha, em Falmouth, uma amostra da lusa sabedoria, ó ia, gravada a maiúsculas de escantilhão brancas num dóri, um bote de bacalhoeiro... Segundo outra versão da lusa sabedoria, o que deve antes crer quem trabalha é: “Ai de mim se não for eu…”


Foto de Seth Jenkinson

5 de novembro de 2009

Spot the blog

Encontrei um blogue (um metablogue, seja) com a temática extremamente específica de listar “blogues extremamente específicos”. O próximo passo é, naturalmente, fazer um blogue (um metametablogue…) onde se listem blogues que listam blogues muito específicos. &cætera…

Chamariscos, digitansos e outras palavras que, por assim dizer, não há

Apareceu-me no outro dia, num texto de que estava a fazer uma revisão, a palavra chamarisco. Tendo em conta o tipo de texto que era (um manual para associações de pequenas e médias empresas), tratava-se com certeza de um erro. Mas podia ter sido uma inspirada criação: se chamariz é “engodo para pássaros” e “engodo, em sentido figurativo”; e se isco é “engodo para peixes” e também “engodo, em sentido figurativo”, então chamarisco é duplo engodo e duplamente figurativo. O ideal, provavelmente, para a caça ao basilisco…

Chamarisco, se não fosse um erro, seria um neologismo de um tipo chamado portmanteau word em inglês, mot-valise em francês e parola-macedonia em italiano. Durante algum tempo, cheguei a pensar que era boa ideia adoptar a expressão italiana, por mais próxima da lógica do português, em vez de usar a expressão inglesa ou a expressão francesa que tanto via usar na nossa língua. Mas acabei por adoptar a expressão amálgama, que entretanto se impôs – e está muito bem assim.

Muitas destas palavras são de grande utilidade, mesmo que não sejam inventadas na nossa língua. Adaptámos sem hesitar amálgamas criadas noutras línguas, umas mais abreviadas (modem, codec, motel...), outras menos (informática, internauta...) e estamos em vias de adoptar outras, como cantautor e digiteca. E podíamos pensar em adoptar ainda mais, mesmo que, para as adoptar, tenhamos de as adaptar.

A maneira mais comum (mas não a única, note-se) de fazer amálgamas é aglutinar duas palavras do mesmo tipo (dois nomes, dois adjectivos, dois verbos...) colando-os nos sons comuns. Às vezes, a sutura realizada noutra língua fica impecável em português, como em glocal, que é aquilo que é ao mesmo tempo global e local (boa palavra!), mas, às vezes, para funcionar bem, a colagem não pode ser demasiado invisível. Por exemplo: os franceses inventaram a palavra adulescent, mistura de adolescent e adulte, que é palavra de utilidade suficiente para merecer ser adaptada ao português, mas como em português o u e o átono se pronunciam da mesma maneira, acho que teria de transformar-se em adultescente, para evitar confusões na oralidade…

Outra maneira de fazer amálgamas é transformar em prefixo ou sufixo uma parte de uma palavra, como quando se usou o -burger de hamburger para fazer cheeseburger. Um exemplo que se costuma dar em inglês ou francês é também o -thon de marathon, “maratona”, em telethon, uma maratona televisiva para angariar fundos para uma causa qualquer. É curioso que, em português, teletona não existe, mas os brasileiros usam (só que sem acento no o) a palavra espanhola teleton. Deve haver alguma coisa em teletona que não soa bem em português… O que será? Já quando se trata de adaptar o inglês walkathon, uma longa caminhada também para angariar fundos, parece que marchatona surge como proposta natural, e encontrei até uma ocorrência (já não é chita…) desta palavra em Google.

Outra maneira de fazer desta salada lexical é agarrar num elemento de formação de uma palavra e aplicá-lo a outras a que ela até aí não se aplicava, como nos casos conhecidos de workaholic e chocoholic em inglês, palavras que se começaram já a espalhar por várias línguas, em versões adaptadas. É interessante constatar o que se está a passar com o aportuguesamento destas palavras a partir de uma pesquisa simples em Google (os números que dou agora dizem respeito ao total das ocorrências das formas masculinas, femininas, singulares e plurais das palavras a o4-11-09 e devem considerar-se ligeiramente inflacionados, porque não fui controlar as ocorrências uma a uma – pode bem haver hits duplos ou triplos no total de hits que Google assinala – e dou números aproximados, porque o tal de ocorrências pode diferir em duas pesquisas com um intervalo de tempo relativamente curto entre elas): trabalhólico aparece cerca de 250 vezes e trabalhólatra cerca de 300 vezes. Não me podem citar nisto, porque não analisei as ocorrências em pormenor, mas, à primeira vista, parece que o uso de trabalhólico e trabalhólatra depende não tanto do grau de purismo dos utentes do neologismo, mas antes (como seria de esperar, aliás…) de serem ou não falantes de português do Brasil: os brasileiros, que dizem naturalmente alcoólatra, preferem trabalhólatra; os não brasileiros, que usam mais a forma criticada alcóolico, usam mais o neologismo trabalhólico. O que é curioso é que não encontro nem uma (!) ocorrência em Google de uma forma que a mim me pareceria natural, trabalhómano… Quanto a chocoólico, a taxa de ocorrência é tão grande que nenhum dicionário deveria hesitar em incluir a palavra na sua próxima edição: cerca de 19 000 ocorrências! Está bem que há um livro com esse nome e que, às vezes, a palavra não significa “viciado em chocolate” («uma cerveja chocoólica»), mas, mesmo assim, já é claramente uma palavra da língua… E mais palavra da língua é chocólatra, que tem direito a definição em dicionários online e cerca de 200 000 ocorrências em Google! Já chocoólatra é palavra com menos fortuna (cerca de 800 ocorrências apenas…) e só vi 3 ocorrências de chocolómanos, mas isso eu percebo, porque é palavra feiota…

Há países em que existe alguma tradição de criar neologismos deste tipo para resistir à importação de palavras estrangeiras. Eu proponho que se faça o mesmo em português, mas só pelo prazer de o fazer, notem bem, que eu não sou muito – ou não sou mesmos nada, seja – de purismos nacionalistas... Agora, com arte e ponderação. Não basta importar, de qualquer maneira. Não podemos, por exemplo, seguir literalmente o exemplo dos quebequenses, que chamam clavardage ao chat (de clavier e bavardage), porque teclersa é uma mistura francamente estúpida de teclado com conversa… Aliás, para o chat o melhor aportuguesamento nem é uma amálgama, o melhor é chamar-lhe simplesmente conversa de chat…cha… conversa de tchatcha, precisamente! Uma palavra como digitanso, porém, parece que fica bem para designar o que chama em inglês um technopeasant… E minhocultura é uma excelente alternativa bem portuguesa a vermicompostagem, que é uma importação directa doutros idiomas...

Que grande sal(s)ada… Pois, isto de neologismos é complicado. Noutro dia, vi no Ciberdúvidas a discussão do neologismo volunturismo, para designar “iniciativas que têm como objectivo unir o turismo solidário/sustentável/comunitário ao voluntariado”. A pessoa que colocava a dúvida dizia que a palavra já existia, mas queria saber se podia usar o neologismo em documentos oficiais. O consultor do Ciberdúvidas, por muito que admitisse que a palavra era “foneticamente aceitável”, não gostava dela, e é um direito que ele tem. Dizia ele que “do ponto de vista semântico, [este vocábulo] poderá ser desagradável porque sugere um trocadilho em que uma vogal é trocada por outra: volunt/a/rismo versus volunt/u/rismo” e que “contém duas ideias que são contraditórias: o exercício abnegado da vontade e o turismo, que sugere desprendimento e prazer pessoal”. Eu digo que é estranho chamar contradição a formas novas de encarar as viagens de férias (em que o prazer pessoal e o exercício abnegado da vontade não se anulem, precisamente). E aproveito para propor que quem ache que não se deve passar férias a trabalhar com miúdos da rua em Maputo se chame um defensor do conservaturismo. Já que estamos em maré de amálgamas relacionadas com turismo, proponho aventurismo para substituir o agora tão popular “turismo de aventura”. Parece-vos bem, ou acham que a segurança e o conforto que o turismo normalmente pressupõe são incompatíveis com o risco da aventura? [Chamo ao tom deste texto brincar a sério, não sabendo bem se me faço assim mal entender… Mas asseguro-vos que o texto quer mesmo dizer o que quer dizer...]

Uma palavra nova não tem de ser útil só para designar melhor o mal designado ou designar, ponto, o que tem falta de designação. Pode ser útil para, em vez de designar, descongestionar, desafiar, trocar as voltas ao discurso. Um dos campeões dos neologismos brincalhões era O’Neill, esse Alexandre grande da nossa poesia. Uma vez, fiz um levantamento de neologismos na obra de O’Neill e encontrei cerca de 200 palavras. Muitos deles eram amálgamas maravilhosas e deixo aqui meia dúzia delas a fechar com graça um texto que pouco a tem. Que passem os dicionários a registar, se fazem favor, coitarado, ejaculatra, màfrarrico, maravirilhas, perikitsch, pestanítido, rastejantraseiro, resmunguarda e tocantar. [Esta última palavra, como é uma amálgama de confecção mais óbvia, foi inventada por muita gente ao mesmo tempo, em português e espanhol. Uma pesquisa simples na net mostrar-vos-á utilizações do verbo tocantar por pessoas com uma probabilidade por assim dizer nula de conhecerem o texto de O’Neill onde ele o usa. Razão de sobra, portanto, para se a adoptar. Além disso, poderiam designar-se os cantautores que tocantam como tocantautores, não é verdade?]

[Já agora, como O’Neill não se limitava a brincar na sua língua-mãe, que passem também a figurar nos dicionários franceses politichien e portugueux, duas palavras úteis para designar tipos de pessoas que, por acaso, existem mesmo…]