11 de dezembro de 2009

Faz-nos bem ao figueiredo e também ao coração

Versos, pois… E porque não?
Ele há vezes em que eu,
compreende Vossa Senhoria?,
não vejo ne’ssidade de chegar
a conversa ao fim da linha.
Basta-me o verso, bem vê,
uma mania que eu tenho…
– ou outras maneiras que haja
de ligar mais ao dizer
do que àquilo que se diz. Que mal
vê nisso Vossa Senhoria?
É certo: não traz ao mundo
bem nenhum, pois isso não…
Mas nem mal traz...

Quando é p’r’alguém ouvir mesmo
o que eu tenho p’ra dizer,
compreende Vossa Senhoria?,
faço os possíveis por encher
as linhas até ao fim…

Que seja o que mais falta faz,
dou-lhe nisso toda a razão!
Agora, que seja uma perda de tempo
não dizer sempre o que mais conta,
isso é a opinião de Vossa Senhoria, que não a minha.

Eu gosto de converseta,
seja ela em verso ou não:
faz-nos bem ao figueiredo
e também ao coração!

O parquet do céu e o ladrilhado do inferno

Costumam os portugueses dizer que de boas intenções está o inferno cheio. Já os ingleses dizem que a estrada para o inferno está pavimentada com boas intenções, o que, sendo mais bonito, não acrescenta muito ao sentido da frase. Mais interessante, pelo menos para o tema que quero aqui desenvolver, é uma versão espanhola do provérbio, que diz que o inferno está cheio de boas intenções e o céu de boas obras [1].

Vocês sabem (ou, se não sabem, ficam a saber) que eu não acredito em céu e em inferno mais do que acredito no Pai Natal, de maneira que o provérbio, como o título do post, são só um pré-texto. A questão que me interessa, e para a qual o provérbio serve apenas de introdução, é a seguinte: Para se agir bem – ou para se agir mal, a questão coloca-se da mesma forma – é condição necessária e suficiente ter a intenção de o fazer?

John Stuart Mill, um moralista de que eu gosto, afirma, a dado passo de O utilitarismo, que “a moralidade de uma acção depende inteiramente da intenção – quer dizer, do que o agente quer fazer – mas o motivo, quer dizer, a razão que faz com que deseje actuar assim, se não afectar o acto, não afecta a sua moralidade.”

Foi-me fácil, quando li isto, concordar com J. S. Mill quanto a deixar de lado o motivo na avaliação da moralidade de uma acção. Tinha um amigo (millista, pelo menos nisto, provavelmente sem o saber) que me dizia sempre que, se o meu trabalho numa qualquer organização de interesse, por exemplo, trouxer bons resultados aos beneficiários dessa organização, pouco importa que eu para lá tenha entrado para cortejar uma miúda ou para tentar mostrar aos outros que até sou um rapaz muito esperto [2].

Ainda assim a distinção entre motivo e intenção levantou-me de imediato uma dúvida: Como avaliar a intenção de uma acção? O problema é que essa avaliação não parece poder ser feita senão a partir dos resultados da acção. Se a acção que eu quero praticar, com a melhor das intenções, devido a qualquer acidente, a qualquer força que não controlo, é transformada numa outra acção diferente da que eu pretendia praticar, o que é que resta da minha intenção? Como pode alguém saber que intenção tinha eu?

Tomemos o caso de que alguém, sob tortura, revela um segredo fatal para outras pessoas. A intenção era não o revelar, mas não foi suficientemente forte para não o fazer. A moralidade da acção que devemos julgar é apenas a tentativa de não revelar o segredo? Não se distingue a moralidade dessa acção da moralidade de outra acção em que, mesmo sob tortura, não se revela o segredo?

As muitas questões que a questão levanta, se posso dizer assim, empurraram-me, a certa altura, para uma espécie de objectivismo radical. Numa carta a uma amiga minha, dizia eu uma vez o seguinte:

“Há muita acção que se perde entre a intenção e a sua concretização, o que, se por um lado não tira o mérito da intenção ao seu autor, não lhe chega, tampouco, a dar o mérito da acção realizada, que é o mais importante, já que é esse que influi de facto na realidade… Dirás tu: significa isso que eu ter ou não esse maior mérito não depende, em última análise, de mim, já que, se a intenção é da minha exclusiva responsabilidade, a concretização de acção depende de factores que me são exteriores e, o mais das vezes, incontroláveis? Sim, na minha perspectiva – o mérito, como tudo na vida, é em parte (em grande parte…) dependente de acasos.”

Imediatamente depois de enviar a carta, arrependi-me de o ter feito. A minha posição era obviamente exagerada: relegando para segundo plano o nível das intenções e focando a minha avaliação moral na acção em si, coloco ao mesmo nível, em última análise, quem salve alguém de morrer afogado por sentimento de solidariedade com outro ser humano ou com a ideia de o torturar refinadamente em seguida[3], contanto que a fase seguinte desse plano criminoso nunca se venha a realizar, seja lá por que razões for… É claro que a avaliação da acção em si é uma avaliação não da moralidade da acção mas da eficácia ou competência técnica com que a intenção foi ou não levada à prática e a palavra mérito, como a uso na carta à minha amiga, não tem um sentido essencialmente moral.

Acho que temos de aceitar que, como Mill propõe, é sempre ao nível da intenção de uma acção que está a sua moralidade, embora aceitando que nem sempre é possível avaliar essa moralidade, porque os resultados da acção são distorcidos relativamente à intenção do agente por factores externos à vontade desse agente. Acho que é necessária uma distinção entre o plano das intenções e o plano dos resultados: para agir bem ou mal, quer dizer, ter resultados que influenciem, para bem ou para mal, o estado de coisas sobre o qual me proponho agir, é necessário que à minha intenção (e à consequente moralidade ou imoralidade da minha acção) se venham juntar as condições práticas para a levar a cabo: capacidade técnica (em sentido alargado) e a ausência de forças contrárias.

Voltando à minha questão inicial, respondo então que para se agir bem ou para se agir mal não é condição necessária e suficiente ter intenção de o fazer, embora admita que a intenção de o fazer é a única base para a avaliação moral da minha acção. Donde que, pelo menos se Céu for metáfora de valor moral, é no Céu que repousam forçosamente as boas intenções e não no Inferno, que é o lugar das más intenções. E deve haver algum Limbo moral para acções propriamente ditas…
__________________

[1] Os provérbios são como a música popular – não foram criados pelo povo enquanto colectivo, que o povo colectivamente não cria nada, mas sempre por uma pessoa concreta que já nos esquecemos, ou nunca soubemos, quem é. Fiz uma pesquisa rápida à procura da origem da expressão e fiquei a saber que é provável que venha de São Bernardo de Clairvaux, que, no século XII, escreveu que “O inferno está cheio de boas intenções ou desejos”.
É preciso também deixar claro que não é de analisar o provérbio ou as suas diversas versões que aqui se trata, mas apenas, como deixei claro, de o usar como introdução a uma discussão. Na maior parte das vezes, o provérbio quer dizer outra coisa: o que é bem para uns não o é forçosamente para outros, e as acções realizadas com a intenção de fazer o bem podem não ser sentidas pelos outros (e não forçosamente apenas aqueles que se pretende beneficiar) como benéficas. Por interessante que seja essa discussão (na minha opinião, mais interessante até do que esta que aqui proponho – e mais difícil!), é outra discussão e deixo-a aqui de lado.

[2] Agora, a propósito da volúpia ou da vaidade como móbil de boas acções, é preciso acrescentar que John Stuart Mill, sensato que é, diz que avaliar o motivo, porém, “conta muito aquando da nossa apreciação moral do agente, especialmente se indica uma disposição habitual boa ou má, uma inclinação de que seja de esperar que resultem acções benéficas ou prejudiciais.” É algo que se pode e deve discutir, porque se liga com a questão de haver pessoas tendencialmente boas e menos boas e más, mas fica para outra ocasião. Pode-se também acrescentar que há muito quem defenda que, em última análise, todo o altruísmo tem como fim criar reconhecimento social e seduzir possíveis parceiros sexuais...

[3] O exemplo não é inventado por mim, é o que Mill e J. Llewellyn Davies usaram na sua discussão da questão.

África minha e outras questões morais

África é, ao que dizem, como a Alcobaça da letra de Silva Tavares – quem por lá passa, não passa sem lá voltar, porque por mais que tente e que faça, é lembrança que não passa, etc. É claro, África é uma palavra demasiado grande, tão grande como todas as abusivas generalizações que se costumam fazer em relação a ela. Mas é um facto que há, pelo menos aqui nesta África que eu conheço, muita gente de fora que adopta esta terra como sendo sua e, muito embora queixando-se sempre dela, nunca a quer abandonar para voltar ao que deveria ser a sua “verdadeira terra”; como é um facto também que há muito quem, tendo aqui vivido algum tempo, queira voltar à África que, por qualquer razão, deixou – uns queixam-se apenas e nunca voltam, outros vão além da resmunguice e voltam mesmo.

E uma pessoa interroga-se: de que é feito então esse charme, se a vida aqui é, em tantos aspectos, mais insegura e mais difícil do que no conforto do chamado mundo moderno? Em 1998, quando estive em Moçambique a primeira vez, esbocei uma resposta a esta pergunta nas cartas colectivas (ainda em papel, nessa altura) que enviava à família e amigos. Alvitrava eu que a explicação era a possibilidade de arranjar amantes, esposas e esposos incluídos, que noutro lado nunca se arranjariam: “Basicamente, uma pessoa rica tem quem quiser – ou quase. E isso é uma coisa que cativa muito muita gente. Há quem diga que o fascínio de África está na imensa liberdade e no espaço imenso, na natureza ainda por desbravar, no odor virgem da terra, coisas assim… Perdoem-me o tom quiçá um pouco brejeiro, mas essas poetices, a mim, não me convence: o que os faz ficar em África, ou querer voltar, são outros odores que não o da terra, odores que têm, aliás, muito pouco a ver com virgindade…”

Mas é, obviamente, uma visão muito redutora da questão. O poder sexual é apenas uma parte do poder tout court e penso agora que é por aí, pelo poder, que se deve ir. Evidentemente, não é uma explicação que exclua outras (que sabe bem não se precisar nunca de sobretudos, ah pois sabe!) e não se aplica seguramente a todos os casos, mas parece-me, no geral, uma boa explicação para haver tanto quem se apaixone por esta terra. A “liberdade” e o “espaço” que atraem “em África” são metáforas desse poder, porque é isso que dá o poder: liberdade e espaço, em variadíssimas acepções destas duas palavras.

Queria, a propósito, especular um bocadinho sobre poder, precisamente. Nem sempre é fácil apercebermo-nos da importância que a conquista e manutenção do poder têm nas nossas preferências e nas escolhas que vamos fazendo ao longo da vida. Há várias demonstrações muito convincentes de uma verdade simples, que se aplica tanto aos seres humanos como a outros animais com hierarquias sociais: a subordinação tem grandes implicações ao nível da alegria de viver e até ao nível da saúde; quanto mais baixo se está numa hierarquia social, quanto mais indivíduos houver a quem dever obediência, pior vivemos. Isto não implica, é claro, que, a maneira de evitar o stress da subordinação seja deter o poder (a não ser que não admitamos a possibilidade de igualitarismo) – para não sofrer stress da subordinação basta viver sem hierarquia e não forçosamente fazer parte do topo da hierarquia, e é o que defendem precisamente, os defensores da igualdade como mecanismo de bem-estar social. Não conheço demonstrações de que resulte directamente uma maior qualidade de vida do facto de se ocupar um posto mais alto na hierarquia, mas parece provável que haja uma tendência natural de procura de poder e que a sua satisfação seja uma fonte de bem-estar. Não me parece que haja nesta afirmação nada de muito polémico, até porque é velha como o mundo a ideia (a constatação?) de que o poder seduz; e até porque, dirão muitos, o poder traz com ele vantagens palpáveis e é por isso que ele é, naturalmente, desejável!

Não sei. Ao contrário do que possa parecer de imediato, talvez seja a vertente mais abstracta do poder a mais sedutora. É certo que ajuda muito na vida prática ter, por exemplo, quem faça por nós e para nós o trabalho que, não tendo esse poder, teríamos de ser nós a fazer; e é objectivamente desejável, em termos de transmissão dos nossos genes (ou de satisfação da pulsão sexual, vejam isso como quiserem) termos o poder de escolher muitos parceiros sexuais e de boa qualidade. Mas talvez o mais sedutor de ter pessoas que trabalhem para nós não seja o trabalho que elas fazem, e sim o facto de as ter. Ou melhor, de as poder ter. O mesmo com os parceiros sexuais. Mais apetecível do que tê-los de facto, talvez seja saber que se os pode ter. Poder.