15 de dezembro de 2010

Crónicas de Chocas-Mar e Ilha de Moçambique, 97, 98 e 99

Vamos depois de amanhã de férias para o Norte. Primeiro vamos passar uns dez dias em Chocas-Mar e na Ilha de Moçambique e depois subimos até Pemba e às Quirimbas. Fui hoje reler extractos de cartas aos amigos de 97, 98 e 99, e resolvi que ficavam bem aqui na Travessa, como documento da minha descoberta de Moçambique. Deixei ficar os preços da altura para verem que, parecendo que não, já foi há muito tempo…
[Junho de 1997]
«Passámos uma semana de férias na praia, num sítio chamado Chocas‑Mar, entre Nacala e a Ilha de Moçambique. Chocas foi um lugar de veraneio – se é que faz sentido falar de veraneio num sítio em que há calor todo o ano – no tempo colonial e as vivendas ainda lá estão, umas nacionalizadas, outras reprivatizadas, umas vazias, outras ocupadas, umas a cair e outras em reabilitação. Há‑de ser, toda a gente assim o espera, um centro turístico importante. Praias de areia fina e corais, orladas de coqueiros como o paraíso dos cartazes turísticos que todos conhecemos, peixe e marisco fresco a preços de pechincha. Há‑de ser. Até lá, meia dúzia de pessoas que vêm passar o fim-de-semana, se têm a coragem de enfrentar 21 km de um caminho tipo percurso de trial: alguns cooperantes, às vezes com uma namorada moçambicana de ocasião, que ficam num parque de bungalows que há (350 contos por noite – ± 5800$00) e alguns outros estrangeiros ou moçambicanos com mais posses, que são os donos de umas quantas vivendas habitáveis. E uma calma benfazeja, um silêncio revigorante, cortado só ao princípio da madrugada pelo apelo muçulmano à oração. Vida de luxo.
Uma história gira: um dia, decidimos ir um bocadinho mais longe até às últimas praias do lado sul, quase em frente já da Ilha de Moçambique, por caminhos de areia entre salinas e coqueiros, e ficámos na praia o dia todo. À tarde, quando queríamos voltar, a terra tinha desaparecido, o mar tinha enchido o interior da terra. Estranha sensação – era um destes terrenos alagadiços de mangue e, na maré baixa, nós não tínhamos dado por nada. Mas lá nos safámos, por entre dunas e água – estes four-by-four são uma grande invenção...
No penúltimo dia antes do regresso a Nampula, decidimos passar pela Ilha de Moçambique, apesar da impressão negativa que a Karen tinha de umas horas que tinha lá passado e de toda a gente me ter dito que aquilo estava deprimente de degradação. Mais uma vez, fiquei agradavelmente surpreendido: é verdade que a Ilha está toda em ruínas ou quase, que é triste ver aquela vilazinha branca e brilhante que foi durante séculos e séculos, antes dos portugueses e depois deles, um ponto privilegiado de mistura de todo o tipo de pessoas, africanos, árabes, indianos, europeus, comerciantes, soldados, piratas, sei lá, ver aquela vila ir‑se degradando sem que ninguém queira fazer nada por ela, saber que o dinheiro que já houve para recuperar alguns edifícios históricos desapareceu misteriosamente no bolso de alguém, tudo isso. Mas a Ilha está cheia de vida e de uma vida que apetece descobrir. Um dia, com mais tempo...
Quando se entra, parece que se saiu de África. A parte física da Ilha é tão portuguesa que faz confusão – se não fosse o estado de conservação das casas, éramos capazes de julgar que estávamos numa qualquer pequena vila portuguesa: igrejas e edifícios administrativos, passagens com arcadas, pequenos cafés, praças com estátuas e fontes. O resto é mais asiático: um mar de gente muito pobre, os bandos de crianças que não nos largam, a pedir dinheiro, as dezenas de vendedores insistentes de artesanato “histórico”, como eles dizem. As pessoas têm feições de todo o tipo, desde macuas até árabes, algumas com traços orientais. Mesmo o macua que se fala é muito diferente do macua do continente, explica‑me alguém: tem mais palavras de origem portuguesa.
No museu local, de que um cooperante dinamarquês é agora responsável, a história da ocupação portuguesa da Ilha. No meio de mobília indiana e chinesa e de meia dúzia de quadros de amador, um retrato de D. Luís do Malhoa. Moçambique é cheio de surpresas.»

[Abril de 1998]
«Roubaram‑me a carteira. Grande chatice! Foi assim: Dia 7 de Abril foi feriado (Dia da Mulher Moçambicana) e calhou a uma terça‑feira. A Karen meteu a segunda-feira de férias e fomos para a praia. Chocas‑mar, a nossa praia favorita, de que aliás já vos falei na primeira carta. Desta vez não ficámos no complexo onde costumamos ficar, fomos acampar para a praia. Há um rapaz chamado M. que fez uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costuma lá ficar, com ou sem tenda. O M. trabalha como guarda e como cozinheiro e depois as pessoas dão‑lhe qualquer coisa. É bom para todos: para os turistas, é muito mais agradável que a vida no “complexo” e, ao M., dá‑lhe um salário, digamos, de luxo. Compra‑se peixe ou marisco aos pescadores que passam por ali, é uma maravilha. E nunca há problemas, é uma zona muito sossegada, sem gatunos, sem confusões. E então tinha que ser eu, não é verdade?, o primeiro desgraçado a ser ali roubado. Tinha posto os calções com a carteira em cima duma árvore, junto com mais roupa, e alguém conseguiu esgueirar‑se até lá sem ser visto e surripiar‑me a carteira. Só a carteira, note‑se, o que significa que quem me roubou devia ter estado a observar‑nos há um bocado e devia, mais concretamente, ter‑me visto tirar a carteira do bolso e tirar dinheiro da carteira para pagar um peixe a um pescador e umas lulas a outro, porque, senão, como é que sabia que estava ali e carteira e que ela tinha dinheiro?
Seja como for, a pessoa foi vítima dos seus preconceitos: partiu do princípio que o homem é que tem o dinheiro e nem lhe passou pela cabeça deitar a mão à mala da Karen, que estava lá ao pé e que, como ela ia fazer compras para o projecto em Nampula, tinha lá dentro o correspondente a mais de duzentos contos portugueses...
Agora, arranjar segundas vias de documentos custa aqui um dinheirão, para além, é claro, da chatice que dá, que é o pior. O M., quando eu lhe contei a história ficou furioso, porque ficou com medo que, propagando‑se a notícia, nunca mais ninguém quisesse ficar lá no lugar dele. Disse que havia de falar com o curandeiro e que havia de apanhar o ladrão e castigá-lo. E repetiu várias vezes: “Ele está lixar mô vida...”. As pessoas falam muito pouco português naquela zona.»

[Janeiro de 1999]
«De volta ao sítio do M. Eu dizia‑vos, noutra carta, que o M. tinha feito uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costumava lá ficar, mas esta informação precisa de algum desenvolvimento e de pequenas rectificações. De facto, foi assim: alguma malta que morava em Nampula e que trabalhava para uma organização irlandesa chamada Concern começou a ir passar regularmente uns fins-de-semana a esta praia da Carrusca. Conheceram então o M., um rapaz duma aldeia ali perto chamada Cabaceira Pequena, e começaram a financiar‑lhe um pequeno projecto, digamos assim, que, ao fim de alguns anos, ainda se mantém: o sítio do M. Além da latrina melhorada e da palhota para fazer sombra à tenda, há ainda um poço de água doce para uma pessoa tomar banho ao fim do dia.
O M. é da Cabaceira mas não é pescador, ao contrário dos outros homens da aldeia. Ele tem medo do mar, não quer ir à pesca. Foi pastor, mas o patrão uma vez esteve vários meses sem lhe pagar o salário e ele decidiu que aquele patrão não lhe interessava. Agora, vive do sítio.
A coisa que mais o fascina é nós conseguirmos beber dezenas de cervejas e continuar normais.
“As pessoas aqui, quando bebem uma ou duas, ou começam logo a lutar ou caem ali no chão, não aguentam…”.
Ele não bebe, porque é muçulmano. Mas é muçulmano por acaso.
“Eu sou muçulmano porque as pessoas aqui são muçulmanas. Se eu fosse para a Europa, lá são todos cristãos, então eu seria também cristão. Porque o que interessa é Deus e Deus é o mesmo em todo o lado.”
O que ele é  realmente é uma pessoa religiosa, um místico. Passa a vida a falar da alma das pessoas, das coisas e dos animais. E o que lhe importa é não fazer mal a ninguém, porque ele acredita que o mal que nos acontece é sempre um castigo pelo mal que fazemos.
“O que eu quero, diz o M., é aprender sempre coisas novas, como por exemplo aquela amêijoa [ele está a falar de umas amêijoas à Bulhão Pato que eu tinha feito], porque a gente não sabe quando é que podemos precisar dessas coisas que aprendemos. Pode vir uma pessoa que quer aquelas amêijoas assim, então eu já sei preparar…”
É uma pessoa muito agradável, como diz a Karen quando fala português. Parece que toda a gente que por ali passou gosta dele. Até chegam a telefonar para a central telefónica das Chocas, para deixar recado para ele estar lá às tantas horas para voltarem a telefonar, só para saberem dele. E ele também se lembra muito bem de todos eles: “A Dona S. da Concern tinha uma faca igualzinha a essa!”, disse‑me ele quando viu a minha Opinel. Igualzinha, não: é uma faca que eu troquei à S. por um blusão de ganga, em Lisboa…
Um dia, conhecemos o Sr. C., que bem podia ser uma personagem do Corto Maltese. Fomos à Cabaceira à noitinha à procura de peixe seco para a Zia, a nossa cadela. Por acaso, nesta zona eles têm um peixe seco muito bom, muito pequenininho, muito prateado, muito estaladiço, que até se come bem assim cru e tudo, a acompanhar uma cervejola, tipo tremoços. Parámos o carro onde o M. nos indicou, em frente a um muro alto de cimento caiado. Devia ser a melhor casa da aldeia, com cobertura de telha e portão de ferro. Não sabíamos que havia gente “rica” a morar na cabaceira. Está claro, tinha de ser um branco… Um velhote dos seus setenta anos, com uma tshirt toda rota e uma capulana enrolada à cintura, que é aqui a roupa de casa dos homens.
O homem ficou muito contente de nos ver e não nos deixou ir embora sem nos fazer um resumo da sua vida, num português impecável mas com um forte sotaque italiano. Muito resumidamente, é assim:
“Ainda jovem, quando acabei o seminário, fui para a Amazónia, viver entre os índios. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida. Que gente maravilhosa! Fiquei lá dez anos. Depois, a minha congregação chamou‑me de novo a Itália, onde fiquei mais uns anos. Mas eu já não queria viver na Itália. Lá consegui que me mandassem para África. Vim parar aqui a Moçambique, ainda durante o tempo colonial. Fiz muita coisa por esta gente, construí poços, escolas, postos de saúde. Isto aqui nada funciona, nada. Esta gente não sabe organizar‑se, não sabe tomar conta das coisas. A gente bem os pode ajudar, mas se não forem eles a continuar o nosso trabalho, não vale a pena. E eles não estão interessados em continuar o nosso trabalho…”
Mas então, porque é que fica num país onde nada funciona, onde ninguém sabe fazer nada?
“Bem, eles têm coisas boas. Outras coisas. São pessoas muito boas e, sobretudo, têm tempo uns para os outros, que é uma coisa que nós não temos na Europa.”
Ao lado do Sr. C., está uma mulher dos seus trinta e tal anos, com um bebé ao colo.
“Esta é a minha senhora e esta é a minha filha mais nova. Estes são os meus filhos mais velhos.”
Aponta para dois adolescentes, o mais velho dos quais não deve ser filho biológico dele, porque não parece ter nada de mestiço.
“Sabem, um dia, cheguei à conclusão que não tinha vocação para ser padre. Cheguei à conclusão que a minha forma de espalhar a fé cristã havia de ser outra, através de uma família, de uma descendência… Voltei a Itália e renunciei aos meus votos. Fiquei lá uns anos a arranjar uns dinheiritos, para fazer esta casinha que aqui vêem e para comprar uns terrenozitos que me permitissem subsistir. E depois voltei, para constituir família. Fazemos um bocadinho de milho, um bocadinho de feijão, uns legumes, cá vamos vivendo… Mas agora estou com medo, sabem? Veio aí no outro dia um homem, um português, que disse que era irmão do senhor a quem eu comprei estas terras e que o irmão dele tinha vendido tudo sem autorização da família e que agora a família quer outra vez as terras.”
Evidentemente, não se pode saber se a história do português é verdade ou não. Mas é uma história que, com nuances de pormenor, se ouve de vez em quando: que tenha sido o irmão que vendeu sem autorização da família ou que tenham acabado de herdar de um avô colonial, aparecem portugueses a querer recuperar terras abandonadas há muito tempo. Sosseguei o Sr. C., explicando‑lhe os direitos dele, de acordo com a Lei da Terra. Comprámos o peixe para a Zia e fomos embora.
(…)
Em frente à baía onde ficam a Carrusca e a Cabaceira, é a Ilha de Moçambique. Não se assustem, não me vou lançar em mais um elogio nem em mais uma descrição da Ilha, ela aparece agora aqui como pretexto e contexto de uma anedota do Samora Machel. Aqui também as há, pois é claro, só que, como o Samora é uma figura consensualmente querida e respeitada em Moçambique, são ao contrário das suas congéneres portuguesas. Esta, dizem que verdadeira, é sobre os riquexós. Pouco tempo depois da independência, o presidente Samora (é assim que ele é normalmente referido pelos seus admiradores) disse que não queria ver mais moçambicanos a puxar riquexós, que acho que só existiam na Ilha, e que eram aí uma verdadeira instituição. “Riquexó é trabalho de escravo!,” declarou o presidente.
Uma jornalista portuguesa perguntou‑lhe nessa altura se ele não estaria a exagerar um pouco, acabando assim com uma coisa que fazia parte da tradição da Ilha e que era, além disso, o ganha‑pão de umas quantas famílias.
“Minha senhora, eu não acabei com nada. Eu apenas disse que puxar riquexó é trabalho de escravo, e que não quero ver moçambicanos a fazer isso. Nunca disse que não queria ver mais riquexós. Os portugueses, por exemplo, podem puxar riquexó à vontade…”
(…)
Não íamos passar o fim do ano na praia, pois não? Fomos ao bailarico. Era um grupo de baile de Nampula com muitos músicos, que se iam revezando e que tocavam todos bastante mal. Mas foi muito engraçado! Há uma altura que a banda ataca o Chico Fininho. Só que o vocalista não tinha, obviamente, percebido nada da letra (que não deve ser nada fácil para um moçambicano, convenhamos) e então inventava umas palavras mais ou menos aproximadas, tipo João Mendes em vez de joanetes e coisas assim. E as surpresas não ficaram por aí. A meio da soirée, no meio dos habituais clássicos angolanos e cabo‑verdianos e de umas quantas marrabentas, a banda ataca de repente o “Ai, cachopa, se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita!” do Conjunto de António Mafra. Eu deliro! A Karen, evidentemente, não percebe porquê. Mas vocês percebem, ou não? Eh pá, estamos nas Chocas‑Mar, distrito de Mossuril, África Austral, Oceano Índico!»

Ser ou não ser, eis a questão

Há quem diga que a língua tem uma lógica que lhe é própria e que é diferente da lógica propriamente dita, mas eu duvido muito dessa asserção. Penso que é possível encontrar na língua uma lógica que se enquadra perfeitamente na lógica da lógica, se se pode dizer assim. É claro, depende muito de como olhamos para a língua, de que princípios lógicos partimos ao analisá-la. Agora, como se diz na Wikipédia, este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Mas isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora, talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…
***
O verbo ser está longe de ser obrigatório em todas as línguas [1] ou pode, nalgumas delas, desdobrar-se em vários verbos. Muitas vezes, também as construções com o verbo ser correspondem directamente a construções com outros verbos (por exemplo “ensino no Barreiro” ou “dou aulas no Barreiro” corresponde a “sou professor no Barreiro”).
De facto, o verbo ser pode até ser dispensável em certos tipos de frases. Por exemplo, se quero dizer “eu sou português”, posso dispensar o sou e dizer “eu português” sem deitar fora nenhum bocado de significado. Deito fora é a gramaticalidade da frase em português, que é uma coisa diferente. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão da cópula é gramatical e é a maneira normal de construir a frase. Já o mesmo não acontece na frase “ele tinha sido soldado, quando o conheci”, porque, sem o tempo que vem agarrado ao verbo ser, não distingo esta frase de “ele era soldado, quando o conheci”, que tem um significado diferente. Na maior parte das vezes, é para isso que servem os chamados verbos copulativos: para incluir, na conjugação, marcas de tempo e outras. Mas não têm um significado específico eles próprios.
Podemos ser tentados a dizer que o verbo ser é como um sinal de igual apenas, mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, como tento demonstrar a seguir. Aliás, mais do que pouco rigorosa, é uma maneira de descrever o verbo ser que pode atrapalhar bastante a tentativa de analisar logicamente certas frases simples em que ele aparece.  
Para começar, é fácil constatar que a frase “o leão é um mamífero” não significa, como toda a gente sabe, que “um mamífero é o leão”. Da mesma forma, perante um grupo de seis professores, se, respondendo a quem me pergunta o que fazem dois deles, o Rui e a Ana, eu disser que “eles são professores”, isto não significa obviamente que “professores são eles”, que é uma frase que reservarei para quando quiser insinuar que os outros quatro não sabem ensinar.
Ser é então mais como uma seta do que como um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direcção. Há um sujeito de quem se diz alguma coisa e um nome predicativo que diz alguma sobre o sujeito (nunca percebi por que se chama sempre nome mesmo quando é um adjectivo ou um sintagma preposicional …). O sujeito e o seu nome predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis e têm casos diferentes: o sujeito é nominativo, como o sujeito sempre é, e o nome predicativo do sujeito é acusativo, como os complementos directos. Por isso é que houve até já quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo. Mas parece que não funciona, por que este nome predicativo tem características diferentes dos complementos directos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos “a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo” e não “a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo”. Além disso, é com este sintagma acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, “a vida são dois dias e o Carnaval são três” e não “a vida é dois dias e o Carnaval é três” (por muito que os correctores ortográficos nos queiram para aí puxar). Como se explicarão estas anomalias?
Há apenas um tipo de frases, ditas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: “a Ana é a professora de português da minha irmã” é o mesmo que “a professora de português da minha irmã é a Ana”. Mas então, nestas frases, o verbo ser é mesmo um sinal de igual, ou não? Creio que não. A verdade é que se torna extremamente difícil descrever frases deste tipo se partirmos do princípio que se trata de uma relação de igualdade entre duas expressões referenciais, considerando que “a professora de português da minha irmã” refere uma pessoa que é a mesma que o que é referida por “a Ana”[2].
De facto, é muito mais produtivo, na minha opinião, considerar que esta frase é o resultado de uma sequência de predicações anteriores, que, quando não enunciadas, são pelo menos forçosamente assumidas pelos intervenientes na conversa[3], a saber: “eu tenho uma irmã”, “essa minha irmã tem uma professora de português”, “essa professora de português chama-se Ana” e “nós conhecemos essa professora de português”. Na realidade, uma expressão definida nunca é uma expressão referencial simples, já que o artigo definido é uma anáfora, isto é, retoma forçosamente uma expressão introduzida previamente no discurso como expressão indefinida. Se isso não acontece no próprio enunciado oral ou escrito, é porque é implicitamente assumido por quem o diz/escreve e por quem o ouve/lê. Se eu, ao ouvir a frase “olha, encontrei ontem a Ana”, perguntar “a Ana?, qual Ana?” é porque não eu não tinha esse conhecimento prévio presumido pelo meu interlocutor (ou não conheço nenhuma ou conheço várias Anas que o meu interlocutor também conhece) e a Ana tem de ser apresentada ou individuada antes de o enunciado começar a significar o que deve.
Também são interessantes as frases, aparentemente equativas, em que um nome indefinido se identifica com ele próprio, como “um homem é um homem!”. À primeira vista, parece uma frase desprovida de informação (uma tautologia básica, x=x), mas a nossa intuição de falantes diz-nos que ela diz alguma coisa, por muito que não saibamos explicar com exactidão o que sentimos que ela diz. Uma maneira de explicar a frase, desfazendo a aparente taulogia sem isolar uma pretensa “lógica linguística” do resto da lógica, é postular que as duas ocorrências de homem na frase “um homem é um homem” são distintas. Parecem a mesma coisa, mas são de facto duas coisas que podem ser ditas com as mesmas palavras. Dito de uma maneira simplificada, o primeiro um homem, à esquerda do verbo, pode referir uma entidade específica do mundo real (se digo a frase referindo um amigo que começa a chorar, por exemplo) ou indicar cada uma das ocorrências possíveis da noção (todos os homens, cada homem); a segunda ocorrência de homem, à direita do verbo, refere a propriedade [ser] homem em abstracto, ou seja, o conjunto de traços abstractos definidores de homem. Perante essa relação, ou i) o verbo deixa de descrever a realidade apenas e ganha um sentido deôntico de deve ser e a frase significa, pois, “tu/os homens em geral devem ter as propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”; ou ii) a frase quer dizer “este homem está a ter ou teve propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”: que talvez sejam não chorar, ou não se rebaixar perante outros, ou talvez impor a sua vontade à mulher – o sentido da frase costuma ser bastante machista, mas o grau de machismo efectivo do seu uso depende da situação em que a frase é dita e do conceito de homem de quem a diz… Essa é que é essa!
Pois, essa é que é essa, eis a questão...
_____________
[1] Vários linguistas e pensadores afirmaram, na senda de Benveniste (ver “Catégories de pensée et catégories de langue”, in Les Études philosophiques 4, Out.-Dez. 1958) e levando bem longe a hipótese de Benjamin Lee Whorf de que o pensamento é determinado pela língua, que a ontologia ocidental é fundada por uma coincidência linguística: o facto de o grego ter um verbo ser, que nem todas as línguas têm, e de ter, além disso, a possibilidade de substantivar o infinitivo, que também é um fenómeno que está muito longe de ser universal. Não perfilho a ideia whorfiana (e muito menos esta sua versão mais forte) de que a estrutura linguística ou mesmo o léxico determinem o pensamento e não me parece em absoluto que a relação de causalidade defendida por Benveniste se possa provar.
[2] Usando como exemplo a frase “Scott foi o autor de Waverley”. Bertrand Russell expõe, no seu famoso texto On denoting, os problemas que surgem se se considerar que ambos os segmentos de uma frase equativa são referenciais e referem a mesma entidade do mundo real, e propõe uma solução para esses problemas. O texto de Russell é de leitura difícil, e não deve ser só para mim, porque o próprio Russell prevê que o texto assim seja considerado: “Só peço ao leitor que não se decida contra esta perspectiva – uma vez que pode ser tentado a fazê-lo, devido ao seu aparente excesso de complicação”. A razão dessa dificuldade porém, é a dificuldade intrínseca da questão tratada: [A] tentativa [de] construir uma teoria sua sobre o tema da denotação (…) convencê-lo-á de que, seja qual for a teoria, não pode ter a simplicidade que dela se poderia esperar à partida.” Não há dúvida de que estamos perante uma questão intrinsecamente complexa, talvez mais ainda para um lógico do que para um linguista, que não tem atrás dele toda uma tradição de discussão dos valores de verdade das proposições; mas também é possível que se possa evitar alguma complicação abandonando a ideia de que as expressões definidas são referenciais (expressões denotativas, na terminologia russelliana), como se propõe no último parágrafo deste texto…
[3] Uma predicação anterior a um enunciado, que não é dita pelos intervenientes na situação de enunciação mas que é pressuposta por ambos, chama-se um pré-construído na teoria do linguista Antoine Culioli. São dele as propostas apresentadas nos dois últimos parágrafos do texto, tendo-me eu limitado a tentar simplificar as suas explicações para leitores não familiarizados com a sua teoria ou com teorias linguísticas em geral.

12 de dezembro de 2010

O que nem a brincar se diz e o que a brincar nunca se sabe se se diz ou não

Tantas vezes que me tem acontecido: eu achar que uma piada é a troçar de uma coisa e a pessoa a meu lado julgar que é a troçar de outra. Até já vi gente zangar-se, e muito!, por não concordar sobre aonde pretende chegar uma graça: uma pessoa, que interpreta a graça de uma certa maneira, acha que graças assim não têm gracinha nenhuma; a outra, que a interpreta de outra maneira, diz-lhe que é patetice não achar graça à tal graça… Uma das questões que se coloca frequentemente em relação a cartoons, sketches de comédia e outras intervenções de sátira moral, de costumes ou directamente política, é que são, de facto, interpretados de diversas maneiras, algumas antagónicas entre elas...
O que é ao certo o humor, não sei dizer. Uma ideia que me parece produtiva, no entanto, para explicar o que nos faz rir é a de que o humor surge da quebra da ordem de coisas considerada natural pela pessoa que ri – contanto que essa quebra da ordem natural não cause real sofrimento: uma pessoa que escorrega numa casca de banana e cai faz rir, se não ficar desmaiada ou cheia de sangue.
Como a ordem natural de certas coisas não é a mesma para toda a gente, o que é, para alguns, quebrá-la não o é forçosamente para outros. Isto pode estar relacionado com a cultura de cada um, em sentido lato, mas também pode ter que ver exclusivamente com, por exemplo, os conhecimentos, a ideologia e os sentimentos do indivíduo – a cultural no sentido mais pessoal que a palavra possa ter. Um exemplo do que acabo de afirmar: o grupo Les Luthiers fez uma experiência interessante de humor musical: sobrepor, no tema “Concerto grosso alla rustica”, uma peça barroca, tocada com uma orquestra de cordas, e uma música de tipo popular andino, tocada com instrumentos tradicionais (não é, note-se, uma peça de humor em que se pretenda dar uma opinião, mas estou agora a falar de uma característica geral do humor).



As reacções que tenho observado à peça vão desde desatar à gargalhada (reacção de muita pouca gente, com alguma educação musical e que conhece bem os dois tipos de música que ali se fundem) até ficar perfeitamente impassível, sem perceber o que se pretende com aquilo (reacção da grande maioria das pessoas).  
Além disso, não basta que a obra humorística nos provoque estranhamento, temos de reconstruir a ordem pervertida para perceber a piada. Essa reconstrução pode levar também diferentes pessoas a diferentes ideias do que foi destruído, consoante os seus pressupostos ideológicos ou culturais, e a que compreendam, pois, a piada de diversas maneiras. Creio, por exemplo, que a leitura de alguns cartoons de Dan Pararo relacionados com questões religiosas depende da posição de quem vê o cartoon relativamente a estas questões.

Embora provavelmente certos cartoons deixem menos espaço para várias interpretações do que outros (não é o caso deste último, relativamente aos quatro anteriores pelo menos na resposta à pergunta: “Este cartoon é contra a religião ou contra o ateísmo?”), a ambiguidade nunca desaparece completamente. Não quero dizer com isto que o humor implique forçosamente, como nestes exemplos, a possibilidade de leituras plurais. Apenas que pode perfeitamente trazer agarrada a ele essa possibilidade – e a traz de facto muitas vezes agarrada.
Outra questão é a do limite da gravidade que bloqueia o humor. Para diferentes pessoas, situa-se em diferentes pontos a fronteira onde a gravidade dessa quebra da ordem natural deixa de fazer rir para provocar vários tipos de reacções negativas, desde o puro estranhamento ao incómodo ou à repulsa. Dito de outra forma, variam também ideológica e culturalmente os limites daquilo com que se pode brincar – ou daquilo que pode fazer parte de brincadeiras, mesmo que não seja o seu objecto central.
Estava no outro dia a ouvir o álbum Beleléu, leléu, eu, de Itamar Assumpção e a pôr-me esta questão relativamente à canção “Luzia”). 

A letra da canção é a seguinte:
[Falado, várias vozes de mulheres:] Olha aqui, Beleleú! Tá limpo coisíssima nenhuma, meu, não tô mais afins de curtir a tua e nem ficar tomando na cara, essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita, o Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo, que black navalha é você, Beleléu? Tá mais é parecendo chamariz de turista e isca de polícia, onde tá tua malícia, meu, onde tá tua malícia?
[Voz de homem, cantado:] Deixa de conversa mole Luzia  / Porque senão eu vou desconsertar a sua fisionomia / Porque senão eu vou desconsertar / Você quer harmonia mas que harmonia é essa Luzia? / Só me enche o saco (só chia, só chia) / Me obriga à mais cruel solução / Desço pro porão da vil covardia, mas te meto a mão / Chega de conversa mole, Luzia / Eu sei que tua mãe já dizia, é mais um / Malandro talvez ladrão / Já não chega a sogra e agora a cria, que decepção / Você nem vai ter o prêmio de consolação / Quando eu pintar, trazer a taça de tetracampeão / E uma foto no jornal / Chega pra lá Luzia, ainda vou desfilar / Tetracampeão Luzia, porta estandarte
O tom de música e letra leva nitidamente a/o ouvinte a interpretá-la como humorística. Mas o que diz esse humor? O primeiro problema é o da ambiguidade da sátira. O que é que está a ser satirizado? A personagem feminina da canção, a personagem masculina ou ambas? Em seguida, põe-se o problema dos limites do humor: só pode haver humor se a/o ouvinte não interpretar o machismo – e, principalmente, a violência doméstica – como algo tão grave que suspenda toda a possibilidade de fazer rir ou sorrir.
E onde quero eu chegar, então? Quero com isto dizer que não pode exprimir-se opiniões através de anedotas, cartoons e sketches de comédia? Não, pode. Mas, a não ser que sejam muito especiais, tem de se aceitar à partida que aquilo que se quis dizer pode ser – e vai ser, provavelmente… – interpretado também de outra maneira…
***
Nota final a propósito de uma obra recentemente lida, que de humorístico não tem nada:
O problema da ambiguidade da opinião que se quer fazer passar não é, obviamente, só do humor. Também o discurso literário pode ser interpretado de várias maneiras, possivelmente até muito diferentes umas das outras. A ideia é antiga e banal, e não vou repisá-la aqui; mas descreve, a meu ver, de forma eficaz, uma parte importante do fenómeno literário e artístico em geral. Não é esta, no entanto, a única razão possível para limitar a eficácia da literatura como meio de exprimir opiniões morais, políticas ou outras. Outra razão pode ser que a densidade psicológica das personagens ou das pessoas líricas, quando existe, interfira com a mensagem que se pretende transmitir. Dito doutra maneira, revelar a complexidade profunda dos sentimentos e das acções humanas torna-se muitas vezes incompatível com tomadas de posição sobre determinadas questões, porque dilui a distinção do que se apresenta como certo e errado.
Por exemplo, li recentemente The Power and the Glory, de Graham Greene. A história do livro passa-se no México dos anos trinta, na época das perseguições aos católicos por parte do governo de Plutarco Elías Calles, que foram especialmente violentas no Estado de Tabasco, governado pelo feroz anticlericalista Tomás Garrido Canabal. Não tenho dúvidas de que Graham Green tenha escrito a novela com intenções de denunciar as perseguições aos católicos e os crimes de que foram vítimas muitos padres. Apesar disso, como faz uma caracterização psicológica extremamente densa das personagens, vasculhando em contradições universais da mente humana, sejam quais forem as suas convicções, o livro não se pode usar como instrumento político nem a favor de nada nem contra coisa nenhuma. De facto, conforme esteja para isso predisposto ideologicamente, o leitor pode ler nele desde um panfleto contra o militantismo revolucionário anticlericalista até um panfleto contra a própria religião e, sobretudo, a religião católica.
[Escrevi isto antes de saber que, de facto, o cardeal Bernard Griffin tinha condenado a novela acusando-a de “paradoxal” e exigindo que Greene alterasse partes do texto. Deixo aqui um link para uma página com alguns excertos da autobiografia Ways of Escape, em que Greene fala sobre as personagens da novela.]

6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 4: Em que tempo está o verbo?

É uma história que um amigo meu gostava de contar: tinha um professor de português no liceu que uma vez disse isto ao entrar na sala:   
«Bom dia! Em que tempo está o verbo?»
A resposta que ele queria ouvir era que o verbo (que ele provavelmente consideraria “subentendido”, de acordo com a terminologia em voga na época) estava no presente do conjuntivo, porque, explicava ele, a frase completa seria “Que tenham um boa dia!”.
É claro, isto é muito discutível. Qualquer aluno poderia ter argumentado, se tivesse tido presença de espírito para tal e coragem para contradizer o professor, que o verbo “subentendido” estava no presente do indicativo: “Desejo(-vos) um bom dia!”
Agora, há outra maneira, mais complicada, mas talvez não menos lógica, de entender o “subentendido” da frase “Bom dia!”. Em vez de ser “Que tenham um bom dia!” ou “Desejo(vos) um bom dia!”, pode argumentar-se que a frase completa é, na realidade, “Quero que/Desejo(-vos) que tenham um bom dia!”, especificando quem deseja o quê a quem.   
Se assim for, a pergunta deixa de ser “Em que tempo está o verbo?” para passar a ser “Em que tempo estão os verbos?”. Resposta que agradaria ao professor do meu amigo: «Um no presente do indicativo, outro no presente do conjuntivo.» O que, segundo alguns, significa antes que o primeiro está no presente e o outro não tem tempo, porque também se pode considerar que o modo conjuntivo não tem propriamente tempo.
Não é bem esta a minha maneira de ver as coisas. Prefiro considerar que tempo e modo são categorias ambas forçosamente presentes em todas as frases de todos os enunciados. Aliás, vou ainda mais longe e considero que tempo e modo são de facto categorias presentes em todas as proposições de todos os enunciados e não apenas nas frases no seu todo. É que, se assim não for, não se pode explicar a diferença de sentido (de que creio que ninguém duvida) entre “Espero que não esteja a chover”, “Espero que não chova”, “Espero que não tenha chovido”, etc. Para mim, faz sentido perguntar em que tempo estão os verbos na frase “[Espero que/Desejo(-vos) que tenham um] Bom dia!” e a resposta é a seguinte: O primeiro está no presente e o segundo está no futuro – a não ser que a frase seja entendida como significando “Espero que/Desejo(-vos) que estejam a ter um bom dia”, caso em que estariam no presente os dois verbos…
A questão, estão a ver, é que não havia nada para fazer em Joanesburgo, uma cidade enorme onde eu não conhecia ninguém, e escrever um texto sobre a frase “Bom dia!” é um passatempo tão bom como outro qualquer.
No dia anterior a começar este texto, fui jantar com um amigo neerlandês, que estava, por coincidência, também de passagem por Joanesburgo, e uns colegas dele. Como os colegas dele eram franceses, surgiu, ao abordarmos a refeição, uma conversa sobre bom proveito e bon appétit.
«Como é que se diz em português “Bon appétit !”?», perguntaram eles.
«O que se diz antes de começar a refeição é “Bom proveito!”», disse eu. «Mas agora, quando vou a Portugal, ouço cada vez mais “Bom apetite!”. É isso que dizem as pessoas mais novas. Acho que “Bom proveito!” há-de acabar por desaparecer e há-de passar a dizer-se “Bom apetite!”»
Reflecti uns segundos e continuei:
«E eu acho mal, sinceramente – devia antes dizer-se “Bom proveito!”».
Os meus convivas são bem capazes de ter pensado o que alguns de vocês estão agora a pensar: Aqui temos mais um purista, que insiste que a língua deve ser sem negócios de import-export, daqueles que acha que as novas gerações enfeiam sempre o que era antes tão bonito… Nada disso, minhas caras e meus caros, não é de purismo conservador que se trata, mas sim de sentido lógico: o que eu expliquei depois foi que não é só em português que não se deveria dizer “Bom apetite!”; em francês também não se deveria dizer “Bon appétit !”.
Dizer “Bom apetite!” é, no fundo, dizer “Espero que esteja com um bom apetite”, com dois presentes. Bom, também pode significar “Espero que venha a ter um bom apetite”, com um presente e um futuro*, mas creio que não é assim que se entende normalmente a frase. Ora para quê desejar a alguém que esteja com apetite? Ou está ou não está e, se não se estiver, que não se obrigue a pessoa a comer contra vontade. A não ser que seja mesmo por doença que o apetite tenha desaparecido… “Bom apetite!” soa-me mais como coisa que se deseje a quem padeça de facto da algum mal que lhe tire o apetite…
Para a maior parte da comida que se come (e sobretudo se for num restaurante na África do Sul…) e para a maior parte das situações em que se come, “Bom proveito!” é que é o voto que faz sentido, o “Bom dia!” à refeição. “Espero que a comida lhe faça bem, que tire dela bom proveito; que lhe dê a energia de que precisa e que essa gordura toda que você para aí está a comer não lhe entupa os vasos sanguíneos, minha amiga ou meu amigo!” O segundo verbo está no futuro e é um futuro que se deseja saudável. Um futuro a que o tal professor do tal amigo meu havia de querer chamar presente do conjuntivo.      
__________
* Sobretudo se pensarmos que “o apetite vem quando se come” (“l’appétit vient en mangeant”), que é como os franceses dizem que “o comer e o coçar, a questão é começar”…

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 3: Toda a gente sabe dizer, mas ninguém sabe escrever

Em francês, há um exemplo famoso de uma frase que se pode dizer mas não se pode escrever: « Un sot avait pour mission de faire parvenir le sceau d'un seigneur à son roi. Il le mit dans un seau et partit à cheval. Le cheval fit un saut et les trois [so] tombèrent ! »
Para quem não saiba francês, aqui fica a tradução e a explicação: “Um pateta tinha como missão levar ao rei o selo do seu senhor. Pô-lo num balde e partiu a cavalo. O cavalo deu um salto e os três [so] caíram.” Como as palavras sot, “idiota, pateta, parvo”, sceau, “selo, carimbo, chancela” e seau, “balde” se pronunciam da mesma maneira ([so], como a palavra sou em português europeu standard), podem aglutinar-se na pronúncia as três, mas não há maneira de as aglutinar na escrita.
Passatempo de quem não tem mesmo nada para fazer a não ser passar o tempo: Como traduzir isto para português, sem o peso da explicação? O resultado é meio ingénuo e meio disparatado, mas enfim, mais longe que isto não consegui ir:
“S. começou a cozer ovos para o pequeno-almoço e Z. foi coser a alça da jardineira da miúda, que se tinha descosido no dia anterior. Demoraram os dois exactamente o mesmo tempo a [kuzer] o que tinham de [kuzer].”  

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 2: Um comportamento pouco racional


O meu celular não funcionava. Nada a fazer – nem mandar nem receber mensagens, nada. Talvez fosse o roaming que não funcionasse fora de Moçambique, talvez estivesse num naqueles dias em que a rede desaparece… O telefone do quarto de hotel também não queria funcionar. Tive de pedir para me fazerem a ligação da recepção, mas, por qualquer razão, também dos telefones da recepção não a conseguiram fazer. Desisti.
Quando terminei o que tinha de fazer, depois de almoço, fui ao centro comercial perto do hotel para comprar um cartão SIM sul-africano. Mas não havia: a loja de telefones estava fechada e nenhuma outra loja vendia cartões SIM.
Quando voltei ao hotel, a recepcionista que tinha tentado fazer-me a ligação de manhã perguntou-me se eu já tinha telefone. Contei-lhe da loja fechada e da impossibilidade de comprar um cartão SIM sul-africano ali nas redondezas.
“Também não quero meter-me agora num táxi para ir à procura de um cartão SIM, não vale a pena.”
“Eu arranjo-lhe um cartão SIM”, disse ela. “Aliás, já pedi um a um amigo. Quando chegar, eu entrego-lho.”
Agradeci, naturalmente, uma tão grande amabilidade e perguntei o preço.
“Não tem de pagar. Sou eu que ofereço.”
“O hotel oferece?”
“Não o hotel, eu pessoalmente. Eu ofereço-lhe o cartão SIM.”
“Não”, recusei eu, “não me vai agora oferecer o cartão SIM, tenho de lhe pagar!”
“Não tem de pagar. Eu quero oferecer-lhe o cartão. Não posso oferecer-lhe o cartão SIM?”
Quando, à noite, contei a história a um amigo meu, o comentário dele foi que a recepcionista estava a ter uma atitude pouco racional. Mas era, sem dúvida, uma atitude simpática.
“É claro que, se insiste mesmo, me pode oferecer o cartão SIM. E eu fico-lhe imensamente agradecido, é muito simpático da sua parte!”
Fiquei no hotel 6 dias. Todos os dias via a recepcionista e nos cumprimentávamos, mas ela nunca me deu nenhum cartão SIM, nem nunca voltou a falar-me do assunto.

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 1: Dos malefícios da medicina

Uma pessoa sente-se mal e vai ao médico. O médico faz umas análises e um electrocardiograma e diz à pessoa que ela teve um enfarte do miocárdio. Vem, aliás, escrito na fita de papel que sai da máquina: septal myorcadial infarction. A pessoa fica, é claro, muito assustada. Ao fim de muitas peripécias que não vale a pena aqui descrever e quase duas semanas de espera, é finalmente examinada por um cardiologista. E fica a saber que nunca tinha tido nenhum enfarte do miocárdio e que tem o coração a funcionar perfeitamente.
A moral da história pode ser que não vale a pena ir a médicos de cuja competência não se tenha um mínimo de garantias – não só não vale a pena como pode até ser perigoso; ou que quem não sabe ler electrocardiogramas não o deve fazer; ou que não devem ser nunca levadas a sério as interpretações das máquinas de eletrocardiografia. Muitas morais que vão dar, para a maior parte das pessoas, a uma moral já muito antiga: não se pode confiar nos médicos…
A incompetência dos médicos é motivo recorrente de sátira há já muito tempo: O médico? Que nos livre dele Nosso Senhor mais do que da doença, porque ele é bem pior! “Curado ontem da minha doença, morri a noite passada do meu médico”, escreveu o poeta setecentista Matthew Prior. Voltaire, décadas mais tarde, definiu os médicos como sendo “homens que receitam remédios de que sabem pouco para curar doenças de que sabem ainda menos em seres humanos de quem não sabem nada”. Já no século XIX, Jacob Bigelow, ele próprio médico e professor de medicina em Harvard, afirmou uma vez que “a opinião imparcial da maior parte dos médicos sensatos e experientes é que a quantidade de morte e de desastres no mundo seria menor se não se fizesse nada para curar a doença”. Outro pensador do século XIX, Oliver Wendell Holmes, que era também médico ele próprio, dizia acreditar firmemente que “se todas as substâncias actualmente usadas para fazer remédios fossem atiradas ao mar, seria melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes”. E claro, depois de passar por uma história como a descrita no início deste texto, muita gente não hesitaria em subscrever essa tradicional demonização da medicina e dos médicos… Poupando apenas, talvez, aquele médico que lhe disse a verdade, aquele que lhe revelou o disparatado erro do outro médico – e esse único médico que escapa à generalizada condenação pode, de facto, ser qualquer um…
Críticas à medicina como as que referi acima não são, na realidade, muito exageradas e têm uma razão simples, de que, pelo que percebo quando discuto o tema, muita gente não tem grande consciência: até há relativamente pouco tempo, os médicos não faziam, não podiam fazer, muito mais que limpar e coser feridas, e cortar partes doentes do corpo que não fossem vitais. As práticas médicas correntes e os “medicamentos” usados limitavam-se a ter, como único efeito benéfico, um efeito placebo – e tinham, muitas vezes, efeitos desastrosos que justificavam perfeitamente aforismos como os que citei. Até ao aparecimento da teoria dos germes, em meados do século XIX, não havia uma compreensão real das causas da maior parte das doenças e não me parece muito polémico afirmar que os primeiros grandes avanços na eficácia da acção médica são as vacinas, cujo uso se começa a alargar no século XIX, a anestesia em meados do mesmo século e a penicilina já em pleno século XX.
É interessante constatar que, desde os primórdios da humanidade, a esperança de vida pouco ou nada aumenta, à escala mundial, até meados do século XIX, para depois disparar até aos níveis actuais que, são, tendo em conta o que é o normal para a nossa espécie em todo o seu tempo de existência, perfeitamente sobre-humanos. É verdade que, por muito que o aumento da esperança de vida coincida de forma directa com o aumento dos conhecimentos da medicina, não se pode estabelecer entre esses dois aumentos uma relação causal simples. Há vários outros factores, sobretudo o aumento da higiene e a melhoria da alimentação, que contribuem muito provavelmente mais que os progressos da medicina para prolongar – e tornar, no geral, mais confortável – a vida humana. Ainda assim, ao contrário do que afirmava Bigelow, em qualquer lugar do mundo, e por piores que sejam as instalações, os meios de diagnóstico, a aparelhagem em geral e a formação dos técnicos de saúde, é sempre muito melhor ter hospitais e postos de saúde que não os ter e é sempre melhor utilizá-los que ir ao curandeiro ou esperar resignado que se cumpra o seu destino, disso não tenho eu dúvidas. Eu é que não vou mais ao médico, mas isso é outra história. Quer dizer: não vou mais ao médico, a não ser que a isso me obrigue a doença ou algum acidente, claro está…

15 de novembro de 2010

Melhorar o mundo: a moral e a ciência (um pequeno manifesto contra as filosofias new age e afins)

Foi em Sucre, na Bolívia, em 1999 ou 2000, não me lembro bem. A Karen e eu tínhamos sido convidados para jantar em casa de um casal amigo, ela chilena e ele dinamarquês, e havia mais dois convidados, ambos bolivianos e colegas de trabalho do nosso anfitrião dinamarquês. Depois do jantar, a conversa foi parar ao tema do desenvolvimento, como não podia deixar de ser. Tirante a minha pessoa, eram todos técnicos de cooperação e esta gente, mesmo nas horas vagas, fala sempre de desenvolvimento, de tão a peito que levam o seu trabalho.
“O trabalho de desenvolvimento”, disse a certa altura um dos bolivianos, “é como o trabalho político – bem poucos frutos dá. Tem contribuído mais para a melhoria da vida das pessoas o avanço da medicina e da ciência em geral do que todo o trabalho político e de desenvolvimento.”
O senhor, ex-militante da esquerda boliviana, era o que se chama um desiludido da política. Eu não. Sou um moralista e, por isso, continuava – e continuo – a acreditar no trabalho político como maneira de melhorar o mundo. E reagi, claro, a uma tão radical descrença na política – mais do que a uma tão radical apologia da ciência redentora. Não me lembro de como argumentei, mas sou capaz de ter ido ao ponto de dizer que, sem aumento da justiça e da igualdade, os outros progressos todos deixam muito a desejar, porque nada nos garante que sejam distribuídos equitativamente. 
Não é que tenha, desde essa altura, mudado radicalmente de opinião. Mas as muitas conversas que tenho tido ultimamente mais ou menos directamente relacionadas com este tema levaram-me a escrever este texto, como forma de reavaliar a minha própria posição sobre como se equilibram moral e conhecimento científico na melhoria do mundo.
Numa entrevista que dá a reddit.com (transcrição aqui), Noam Chomsky diz a certa altura o seguinte, numa resposta sobre o que pensa do movimento anarquista norte-americano:
A tendência anticiência no anarquismo, que existe mesmo, é completamente contraproducente no que respeita a [tentar resolver a crise ambiental emergente]. Ou seja, vai ser preciso tecnologia sofisticada e descobertas científicas para criar a possibilidade de a sociedade humana sobreviver – quer dizer, a não ser que decidamos que, bom, não tem de sobreviver, que devemos ficar reduzidos a, está a ver, 100 000 caçadores-recolectores ou uma coisa assim. Ok, tirando essa possibilidade, se se tiver uma atitude séria, bem vê, relativamente aos milhares de milhões de pessoa no mundo – e os filhos e os netos dessas pessoas –, vão ser necessário avanços científicos e tecnológicos.
Não sou anarquista (já assim me defini, mas foi há muitos anos…), nem sou fã incondicional de Chomsky (concordo muito com ele às vezes, outras vezes discordo bastante) e não faço de ideia de qual seja a situação do movimento anarquista americano. Se trago aqui a citação de Chomsky é porque acho que se aplica a bem mais do que apenas ao anarquismo americano. Não partilho o pessimismo de Chomsky relativamente à possibilidade de aniquilação do género Homo, mas partilho a sua crença de que precisamos mesmo da ciência. Ora, no meu círculo de amigos e relações (uns mais de esquerda, outros menos, mas que não são nunca conservadores e se assumem, por isso, como pessoas que gostariam de ver o mundo mudado – para melhor, naturalmente), observo às vezes essa mesma atitude anticiência – e pasmo. 
É claro que há muitas coisas a rever e a alterar no uso que actualmente se fez de conhecimentos científicos sob a forma de tecnologias. Há sempre. Mas é só mais uma razão para louvar e defender a ciência, porque sempre foi ela e só pode ser ela a fazer esse trabalho – a não ser que se acredite que bastam as intuições de cada um e não é precisa nenhuma evidência sólida que as valide. A crítica séria à ciência vem sempre do próprio meio científico. Uma das vantagens da ciência relativamente a outras formas de tentar conhecer o mundo é essa, a enorme capacidade de autocrítica e de incorporar nova evidência e novas teorias.
Mas não é só relativamente à sobrevivência do mundo como ele agora existe que importa realçar a importância da ciência. É também preciso insistir no papel fundamental que tem tido a ciência para termos hoje as melhores condições de vida de toda a História dos seres humanos. Ou antes: é preciso que entendamos a importância que a ciência teve no nosso progresso para percebermos a importância que não pode deixar de ter no progresso que daqui para a frente possa haver (mesmo que esse progresso não seja crescimento económico, que não deve – nem pode, provavelmente, continuar). E quero agora reconhecer que, se analisarmos a História do bem-estar, chamemos-lhe assim, a História da melhoria das condições de vida dos seres humanos, somos mesmo obrigados a dar alguma razão ao meu companheiro de jantar boliviano que referi no início do texto.
Não toda: O aumento das igualdades, a melhoria dos sistemas de justiça, as melhores condições de trabalho, o decréscimo da violência, o aumento dos direitos de um número cada vez maior de pessoas resultam de mudanças políticas fundamentais para a melhoria da vida das pessoas. É frequentemente subestimada, por exemplo, a influência dos movimentos sindicais na melhoria do bem-estar dos países ricos e estou convencido que uma das causas de atraso no desenvolvimento em países como Moçambique, por exemplo, é a ausência de uma tradição sindical (é só uma ideia vaga, a explorar, até porque nunca li nada sobre o assunto, mas parece-me um bom projecto de reflexão).
Muito bem. Mas outros avanços fundamentais são a descoberta dos microrganismos patogénicos, os antibióticos, as vacinas, a melhoria das técnicas de produção, de construção e de transporte – que resultam do avanço do conhecimento científico! Insisto: é inestimável o trabalho que sindicatos, associações e partidos fizeram para melhorar a vida das pessoas; mas um trabalho provavelmente tão importante como esse fizeram-no os antibióticos, as vacinas, os meios de diagnóstico e o controlo da qualidade e higiene dos produtos alimentares.
Tenho um bom exemplo, que tem sido ultimamente notícia nos jornais – a vacina antipalúdica. No que diz respeito à África subsaariana, toda agente concorda que há muito a melhorar politicamente, tanto ao nível dos seus próprios sistemas políticos como ao nível das políticas internacionais com impacto directo na vida sua gente. Mas uma vacina contra a malária (e campanhas mais eficazes de vacinação em geral) seria, em termos da melhoria da qualidade de vida da esmagadora maioria dos africanos, um progresso tão grande como desenvolvimentos políticos positivos.
Quem quis melhorar o mundo sempre defendeu o realismo baseado em observáveis e a tecnologia assente na ciência. Não há, a meu ver, nenhuma razão, para que deixe agora de o fazer.
À laia de complemento do que acabo de defender, deixo aqui uma palestra TED de Michael Specter: The danger of science denial (“O perigo de recusar a ciência”) – estão disponíveis legendas em português brasileiro, para quem não compreender inglês.
Algumas das posições de Michael Specter são discutíveis (é sempre assim em ciência e ainda bem!), mas a questão colocada pela palestra é precisamente a que coloco acima: qual o papel da ciência no progresso (ou em fazer do mundo um lugar melhor, se não gostarem muito da palavra  progresso)? Parece-me que, como Chomsky e muitos outros afirmam, deveria ser óbvio para toda a gente – mas infelizmente não é…. – que a recusa da ciência não leva a lado nenhum. É também chocante que a recusa da ciência, nomeadamente sob a forma da recusa das vacinas (ainda por cima por pessoas que se dizem progressistas...) esteja a matar tanta gente.
Desculpem a insistência, para rematar: para criar um mundo melhor, há, é claro, necessidade de mudança política. Muita e drástica. Todos estamos de acordo sobre isso, mesmo que não concordemos sobre qual a mudança necessária. Mas também precisamos de conhecimento racional, assente em observáveis, em vez de crenças dogmáticas e superstições. Uma banalidade, talvez, mas uma banalidade em que é necessário fazer finca-pé.

13 de novembro de 2010

Da ignorância das novas gerações, mais uma vez

Fizeram há alguns meses um teste à cultura geral dos jovens americanos. Já é um teste standard, desde 1998 que o fazem todos os anos; e este ano, mais uma vez, muita gente se escandalizou com os seus resultados: para os jovens americanos, apregoavam indignados vários jornais, Beethoven não é senão um cão [*] e Miguel Ângelo (Michelangelo, seja) não é nem sequer uma tartaruga ninja mas apenas um vírus informático. E eu pergunto-me: sinceramente, é um problema muito grande? Porquê? Porque é que as pessoas acham que eles deviam mesmo saber isso? «Faz parte da nossa cultura geral», respondem-me, «dos conhecimentos mínimos que qualquer pessoa deve ter. E depois, se fosse só isso que eles não sabem…», insistem, «Mas é que não sabem nada…»
 
***
Bom, a maior parte do teste é tão americano que não faz grande sentido para mim. Pelos vistos, parece mal não saber que o Dr. Kevorkian já teve licença para exercer medicina; que antigamente não havia automóveis coreanos nos Estados Unidos; que os insultos recíprocos de Leno e Letterman nem sempre existiram; que houve outros comissários da Liga de Beisebol antes de Bud Selig; que batata já se escreveu potato em Nova Jérsei, antes de um decreto vice-presidencial lhe apor um e final; que Ruth Bader Ginsburg nem sempre esteve no Tribunal Supremo; e que nem sempre houve Hondas a disputar as primeiras posições em Indianápolis. É claro, podia adivinhar que nem sempre existiram os tais Leno e Letterman, Bud Selig e Ruth Bader Ginsburg, mas os jovens inquiridos também sabem, com toda a certeza, que as pessoas nascem, crescem e morrem… Hmm, como lhes terão feito as perguntas – ou como estão a apresentar as respostas?...
Ok, mas conhecimentos mais gerais? É ou não uma vergonha não saber que John McEnroe jogou ténis, que Clint Eastwood foi um carismático actor antes de ser realizador, que houve uma altura em que nos supermercados Walmart se vendiam armas ao balcão? Taalvez, mas eu não sei, sinceramente, se acho que toda a gente devia saber História do Ténis, História do Cinema e História das Armas nos EUA.
 Mas vá, enfim, coisas mesmo importantes: os jovens americanos não sabem que houve um país chamado Jugoslávia, nem outro chamado Checoslováquia, nem sabem que a Alemanha nem sempre foi uma só [**]! É verdade que faz falta saber História e a Geografia política que lhe está associada e acho que fazia muito  bem aos jovens americanos terem uma ideia da História do mundo, pelo menos nos últimos cem anos; mas também é verdade que quem agora leva as mãos à cabeça perante a tão grande ignorância dos jovens é capaz de não ser o sabichão que pretende ser. 
 A maior parte das pessoas que acha ridículo não se saber que Beethoven foi um dos maiores compositores da tradição musical europeia (que depois se veio a transformar em ocidental), se eu lhe puser à frente um bocado de Schubert ou de Brahms, ou mesmo de Dvořak ou Prokofiev; e lhes disser que é Beethoven, aposto que acreditam… A maior parte dessas pessoas acreditava, não só se eu lhes mostrasse pinturas ou esculturas menos conhecidas de Leonardo da Vinci, Donatello ou Rafael (para ficarmos na onda das tartarugas ninja), e lhes dissesse que eram de Miguel Ângelo, mas era até bem capaz de aceitar também que era de Miguel Ângelo alguma estátua de Bernini, Thorvaldsen ou Frederic Leighton… A maior parte dessas pessoas que se queixam de a rapaziada nova já não saber o que era a Jugoslávia, e Checoslováquia e as Alemanhas de Leste e de Oeste tinha ela própria muito pouca ou nenhuma ideia de como era a Europa antes do seu tempo e era capaz de pensar que a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Alemanha tinham sempre existido. Aliás, essas pessoas eram muito capazes de dizer que Beethoven (o compositor, não o cão) tinha nascido na Alemanha, por nem sonharem que ele nasceu num Estado chamado Eleitorado de Colónia, antes de haver Alemanha; e de dizerem que o Miguel Ângelo nasceu em Itália, quando ainda vinha tão longe o país Itália no tempo do Miguel Ângelo… As mesmas pessoas que acham problemático os jovens portugueses não saberem nada no 25 de Abril (e quero sublinhar que eu sou uma delas!!!) sabem muito pouco ou nada do que aconteceu de importante na política portuguesa quinze anos antes de elas nasceram. Estou a exagerar? Acho que não. E onde quero eu chegar com isto? A que não acredito que haja nenhum défice de conhecimentos das novas gerações relativamente às gerações anteriores: cada geração sabe coisas diferentes e sempre assim foi. É bem provável até que, dado o aumento dos níveis de escolarização por todo o lado e do enorme aumento do acesso à informação, os jovens saibam de facto mais do que sabiam os seus pais. Não sabem as mesmas coisas, pois não, e porque haviam de as saber? Li algures que a finalidade deste inquérito Mindset era – e, provavelmente ainda é – alertar as autoridades na área da Educação para o facto simples de que as referências culturais se evaporam. Pois é, evaporam mesmo, mas isso toda a gente sabe, por muito que cada geração se esforce por preservar as suas referências culturais como as mais importantes… É isso que significa deitar as mãos à cabeça, não é? «Eles não sabem aquilo que eu sei!»
Imaginem o Mindset em Portugal, organizado por mim. Resultados: já ninguém sabe o que é fava-rica, quanto mais um moço de fretes; Carlos Seixas e Joly Braga Santos devem ser apresentadores de televisão ou ciclistas profissionais. Barahona da Fonseca? “Não era aquele gajo que fazia sketches humorísticos?
***
Agora, se perguntassem aos jovens americanos sobre Kepler? Será que diziam que Kepler também era um cão? De facto, William e Margaret Huggins tinham um cão chamado Kepler, que ficou famoso por adivinhar os números em que as pessoas pensavam (é a lenda, que quereis?, é a lenda...). Não sei se os jovens americanos teriam respondido que Kepler era um cão, mas o facto é que ninguém lhes perguntou nada sobre Kepler. E muitos menos sobre William e Margaret Huggins. Serão menos importantes que McEnroe e o Dr. Death? Kepler também? Ok, admitamos que mesmo Kepler não é muito importante (???), mas, sei lá, Steve Jay Gould, Stephen Hawking, Jared Diamond ou Richard Dawkins, um desses nomes mais conhecidos, enfim, da ciência e sua divulgação, não é mais importante conhecê-los do que conhecer Snoop Doggy Dogg?
A cultura que se deve ter é música e artes plásticas clássicas, desporto americano e cinema americano, muitas outras coisas americanas e um bocadinho de História e Geografia europeia. Também podiam fazer tudo americano, já agora: Charles Ives, William Grant Still e Aaron Copeland eram cães ou compositores? E Jean Ritchie e Alex Chilton, quem eram? Alexander Calder era um escultor ou um vírus de computador? A Califórnia sempre foi um estado dos Estados Unidos?
 ***
Brincadeiras à parte, acho bom saber quem eram Beethoven, Bruckner, Varèse, Respighi, Joly Braga Santos e Schnittke, sim senhor (ou, pelo menos, não acho mal), e quem eram Miguel Ângelo, Maillol, Modigliani e Mirò. Mas não acho menos importante saber qual é a diferença entre um vírus, uma bactéria, um fungo e um parasita, como fazer uma pesquisa eficaz na Internet, como se organiza o sistema político e judicial do seu país, para onde vão os impostos que se paga, a quem compete administrar e reparar estradas, bibliotecas e espaços públicos em geral e aprovar construções, o que é uma alimentação equilibrada e quais os malefícios da obesidade, o que é preciso para uma estatística ter valor ou se dar por razoavelmente provada uma experiência científica, quais as diferenças políticas reais entre os partidos políticos, como vive a maioria das pessoas nos países pobres do terceiro mundo e o que se passa de facto no conflito entre israelitas e palestinianos, como se amanha peixe e como não repetir todos os dias as mesmas receitas desenxabidas   coisas básicas todas elas, mas, por isso mesmo, indispensáveis [***]. Agora McEnroe e Snoopy Dogg, doces e carros de corrida, o que é que isso importa mesmo para o bem-estar dos jovens americanos no teste?…
***
Ah, uma curiosidade final: perguntei há bocado ao meu filho Alex, de 11 anos, quem eram Beethoven e Miguel Ângelo e ele respondeu-me que o primeiro era um gajo que fazia música e que o segundo era um desenhador. Não está mal. É sinal de que vive, o rapaz, num lar onde se gosta de música e artes plásticas, dois agradáveis passatempos para quem deles se agrada mas que não servem para grande coisa a quem por eles se não interesse…
_____________
[*] E não explicavam mais nada, partindo do princípio que o leitor, como os jovens americanos, conheceriam esse Beethoven que é cão. Como não era o meu caso, tive de investigar; e fiquei a saber que há uma série de comédias, iniciadas em 1992, cujo protagonista é um cão chamado Beethoven. É este o Beethoven conhecido dos jovens nascidos no mesmo ano em que a comédia nasceu; o outro, nascido duzentos e vinte e tal anos antes, não sabem quem seja…
[**] Bom, se isso significa que eles sabem que há agora uma Eslováquia e uma República Checa, e conhecem a Bósnia e Herzegovina, a Croácia, o Cossovo, a Macedónia, o Montenegro, a Sérvia e a Eslovénia, não é nada mau – sabem mais do que muita gente que se admira com a ignorância deles. Mas não deve significar nada disso…
[***] Ora aqui está um apelo à colaboração dos leitores: contribuam lá com perguntas que faltam no Mindset sobre conhecimentos tão importantes como saber quem foi Beethoven ou Miguel Ângelo.

7 de novembro de 2010

Uma velha nota descoberta no sótão: Livre-arbítrio? Que remédio…

Noutro dia, pus no meu mural do Facebook o seguinte texto:
Há algumas horas, pus aqui a canção “Cérebro eletrônico”, de Gilberto Gil, um tradicional elogio romântico dos das nossas dúvidas e dos nossos sentimentos “humanos”, comparando-os com a fria racionalidade de um cérebro electrónico. Estava a ouvir essa canção enquanto estava a lavar a louça depois do jantar e tive de repente a ideia de que tinha de a pôr aqui
Depois disso, pus aqui um link para uma palestra TED (“Gero Miesenboeck reengineers a brain”). É uma conversa sobre uma abordagem mecanicista da mente, mas é também, de certa maneira, sobre controlo do cérebro com um raio de luz (?)... Tinha visto a palestra ontem, mas só hoje tive o impulso de aqui pôr o link.
Depois, escolhi um filme para ver. Escolhi Shutter Island. O filme já ali estava na sala há algum tempo, mas só hoje decidi vê-lo. Não fazia ideia do que tratava. Já viram esse filme?...
Agora (teoria da conspiração!...), isto não é tudo demasiada coincidência? Bom, tenho o sentimento claro e intenso de que, de facto, não escolhi nenhuma destas três coisas, Mas deixo-vos decidir porquê: haveria alguém a controlar-me a mente com um raio de luz ou, em ultima análise, o conceito de livre-arbítrio não faz muito sentido, se se aceitar que cada estado mental é o único resultado possível do estado mental anterior e que, além dessa sequência de estados mentais, não há mais nenhum “eu” que decida? A única resposta que não aceito é o disparate dualista de que os meus sentimentos (ou cérebro ou mente…) me enganaram, porque me recuso a aceitar que eu e os meus sentimentos claros e intensos (ou cérebro ou mente…) sejamos duas entidades diferentes…
Não houve comentário nenhum. E que comentário podia haver? De facto, a ideia do texto era mais causar estranhamento do que lançar discussão – se bem que a discussão do livre-arbítrio seja, para mim, das mais fascinantes que há.
Por coincidência (mais uma, a teoria da conspiração vai-se robustecendo…), fui logo a seguir dar com uma velha nota escrita por mim há quase 25 anos:
 A eterna questão do determinismo versus livre-arbítrio deixa de se pôr quando tomamos consciência de que somos, por um lado, completamente determinados (o que cada um de nós é foi forjado do princípio ao fim, biológica, social, cultural, individual e etceteramente) e, por outro, livres, ainda assim, de agir como formos decidindo em cada momento: somos máquinas programadas para escolher e é a escolha permanente que constitui, afinal, o nosso fado.
Não me lembro do que me teria levado a escrever uma coisa assim. Não creio que, na altura, tivesse muita informação sobre a questão e nem sequer que tivesse reflectido muito sobre ela. Foi, provavelmente, umas daquelas inspirações de que só os nossos cérebros são capazes e não os cérebros electrónicos – porque são os nossos cérebros e não os cérebros electrónicos que para isso estão programados, não é assim?
Rodolfo Llinás postulou que o cérebro evoluiu para controlar movimentos complexos, para os organismos vivos não chocarem constantemente uns com os outros ou com objectos. A hipótese é, no mínimo, muitíssimo razoável, até porque é para controlar movimentos, precisamente, que mais o usamos. Aceitando esta lógica, pode aceitar-se a seguir sem grande dificuldade que, para os organismos se moverem, o cérebro precisa de estar permanentemente a tomar decisões, que deverão, na sua forma mais simples, ser a escolha entre duas possibilidades.
Dizia lá atrás que a discussão do livre-arbítrio é, para mim, das mais fascinantes que há. Eis uma pequena contribuição para ela: creio que uma boa maneira de encarar a questão é, precisamente, negar a oposição entre livro arbítrio e determinismo como o fazia na minha nota de há vinte anos: somos determinados para escolher, não podemos decidir não o fazer.   

27 de outubro de 2010

Silabadas e cantigas: o que eu podia argumentar e não argumento

Vi no outro dia um anúncio a um curso de escrita de canções em português, em que o formador anunciava que se aprenderia, entre outras coisas, a fazer corresponder os acentos tónicos da letra com as acentuações da melodia. Achava um erro as silabadas, que é o que em gramática se chama às acentuações tónicas incorrectas, como [rúbrica] em vez de [rubrica], e que, aplicado às canções, definia como “sílabas acentuadas que não o deviam ser (…), por exemplo, preposições que aparecem com tempos fortes da música…”.
Há muita gente que pensa o mesmo. Até há uma canção que, como eu a entendo (mas ela não é tão transparente que eu tenha total confiança na minha interpretação), parece criticar precisamente isso: “Arrocachula”, de José Mário Branco, em que parece afirmar-se que as silabadas são uma prática nova e corrente na música moderna cantada em português:
São as mesmíssimas palàvrâs, só os acentus é que mudàrão / o agudo é esdruxulu e o esdruxulu agora é gràve (pronunciado [gra’vɨ])
A verdade é bem diversa: as silabadas são normais em português há muito tempo e eu até podia, se estivesse para aí virado, defender as silabadas, porque nunca percebi que delas venha algum mal às canções…
Podia começar, por exemplo, por argumentar que o acento tónico é irrelevante quando as melodias são cantadas numa língua com redução vocálica, em que o timbre das vogais marca o seu carácter átono*; mas, além de demasiado técnica, a objecção é tão discutível que nem eu próprio tenho a certeza de acreditar nela – bem vistas as coisas, isso tem apenas a ver com a eventual pertinência fonológica do acento tónico e, nas canções, como veremos claramente mais à frente, nos exemplos que dou de canções em francês e em castelhano, tudo isso se pode ignorar…
Ou podia argumentar antes com a tradição. Não com a tradição enquanto norma a seguir, que eu não sou propriamente um tradicionalista e nunca me lançaria num argumento dessa natureza, mas com a tradição enquanto fonte de experiência – muitos anos a ver como soa melhor alguma coisa nos hão-de ensinar. E podia constatar que as silabadas são comuns na chamada canção tradicional. Poder-se-ia, é claro, considerar que isso acontece por ela ser popular, precisamente, por ser feita por gente sem grandes conhecimentos de composição de canções, e defender que o que se admite aos autores das canções folclóricas é inadmissível aos cultos autores de canções de autor. Independentemente das muitas questões que levanta essa postura (haverá mesmo quem a tenha?), quero fazer notar que esta distinção é, em grande medida, artificial, porque muitas canções populares são tão sofisticadas como as canções de autor. Aliás, dizer de uma canção que é tradicional significa apenas que não se sabe quem é o autor da canção**. Tom Paxton contava, num concerto que fez com Annie Hills em Chicago em Maio de 2005, uma história bastante instrutiva que se passou com a sua filha Kate, num pub na Escócia: quando Kate agradeceu ao cantor de serviço ter cantado uma canção do pai dela, “The last thing on my mind”, o cantor respondeu-lhe que isso era impossível, porque o que ele tinha cantado era uma canção tradicional escocesa… Mas que excursões, maldita tendência… Onde eu quero chegar é que uma canção como “Não me mandeis à segada”, de autor desconhecido, é uma canção, lírica e musicalmente pelo menos tão rica como qualquer canção de Frederico de Freitas/Júlio Dantas, e ter silabadas (exemplo: a negrito a sílaba átona acentuada, com repetição da vogal, ainda por cima) não lhe tira em nada essa riqueza;
Não me mandeis à segada / que eu não sei talhar o eito, ai!
E depois, a famosa canção “Timpanas”, da dupla de compositor e poeta consagrados referida no parágrafo anterior, também tem silabada, pelo menos na voz da não menos consagrada Amália Rodrigues, porque ela acentua “a reinar com toda a malta” em vez de cantar “a reinar com toda a malta” e eu acho que faz bem, porque fica melhor assim a melodia...
Pois, poderia argumentar tudo isto, se para aí estivesse virado, e poderia até acrescentar, nem que à laia de curiosidade enciclopédica, que há uma tradição de canções numa língua quase igual à nossa que leva ao extremo a acentuação das sílabas átonas. Em muita música popular sul-americana, vai-se ao ponto de fazer rimar as vogais átonas finais das palavras:
Papel de plata tuvie / Tinta de oro compra / Para escribirle a mi ama / La amarga vida que yo lle (Papel de plata tuviera / Tinta de oro comprara / Para escribirle a mi amado / La amarga vida que yo llevo)
Mas não é nada que os sul-americanos tenham inventado, com certeza, porque, embora sem chegar ao ponto de fazer rimar vogais átonas, se encontra o mesmo fenómeno na música tradicional espanhola:
En la Sierra de Aroche, sierra de florés, / donde cantan los mozos coplas de amorés (En la Sierra de Aroche, sierra de flores, / donde cantan los mozos coplas de amores)
E poderia também, se quisesse defender as silabadas, invocar a meu favor cantautores que, em vez de se revoltarem contra essa tradição, a seguem, mesmo quando não precisam dela. As rimas de Violeta Parra são suficientemente perfeitas para não precisarem de “rimar” nas vogais postónicas, mas, mesmo assim, ela não desdenha fingir essas falsas rimas populares com óbvias silabadas, por exemplo, na célebre canção “Volver a los diecisiete”:
Se va enredando, enredan, / como en el muro la hiedrá, / y va brotando, brotan, / como el musguito en la piedrá (Se va enredando, enredando, / como en el muro la hiedra, / y va brotando, brotando, / como el musguito en la piedra)
E não só ela. O exemplo extremo de abuso do condenado processo é Brassens que faz rimar a conjunção átona que com o pronome (átono? hmmm…) eux***:
Non, les braves gens n’aiment pas que / L’on suive une autre route qu’eux.
E vai mais longe até, em “Tempête dans un bénitier”, ao fazer rimar mère de (assim mesmo, um de em fim de verso no fim do refrão!) com emmerdent:
O très Sainte Marie, mère de / Dieu, dites à ces putains / de moines qu’ils nous emmerdent / sans le latin
Mas é natural que o façam em francês, responderiam alguns, se eu fosse buscar tais argumentos. É uma língua de acento fixo e, sem silabadas, era muito difícil fazer letras para cantigas. Pode ser. Mas é o mesmo em português, poderia eu contra-argumentar. E poderia até explicar: é que isso é normal quando se trabalha com métricas curtas, como costumam ter as letras em português, em que predominam as redondilhas maiores e menores, porque é muito difícil acertar as acentuações interiores de versos tão pequenos.
Tenho alguma experiência de escrita de versos com métrica certa, também para canções, e, da única vez que experimentei acertar ao pormenor os acentos interiores num número razoável de versos em redondilha maior, tive de desistir. Tinha-me sido encomendado um libreto para uma ópera e tinha assentado com o compositor que a acentuação havia de ser rigorosíssima e que daria à fala de cada personagem uma métrica determinada. Não tive problemas com os versos mais compridos (alexandrinos, clássicos ou românticos; decassílabos, heróicos ou sáficos; e mesmo octossílabos), mas quando se tratou de manter o acento interior de versos de sete sílabas, ponhamos, sempre na quarta sílaba, foi tão difícil que acabei por desistir… Quando comuniquei a minha desistência, respondeu-me logo o compositor que com versos de sete sílabas não havia problema – eram pequenos demais para se poder exigir essa regularidade. Pessoa de bom senso.
Poderia então explicar, dizia eu, que, se a melodia da estrofe mantiver uma rítmica certa e o acento interno do verso hesitar entre, por exemplo, a quarta e a quinta sílaba, bem pode haver silabada, se não houver muitos monossílabos. E poderia terminar insistindo que, seja por esta razão, seja por outra razão qualquer que agora não descortino, não são só bons fazedores de canções em francês e em espanhol que acentuam sílabas átonas com as suas melodias; que o mesmo fazem, claro está, alguns dos melhores cantautores portugueses. José Afonso, por exemplo. Nunca repararam que “Grândola, vila morena” tem silabadas?
En ca / ‘squina um amigo / em ca/ rosto i/gualdade / Grando/ Vila morena
Será que é mais feia por causa disso? Não me parece… Segue apenas o que é natural nas canções em português…
...
Silabadas, portanto: Eu podia argumentar muita coisa para as defender, mas não argumento nada. Quem não gosta, não gosta, e acabou-se. Agora que seja um erro
Ah, só mais uma coisa: Cada cabeça sua sentença, como costuma dizer-se, e o que eu acho que fica realmente feio é encavalitar a melodia para evitar uma silabada…
___________
* A hipótese da irrelevância fonológica da acentuação tónica no português europeu é uma hipótese, no mínimo, digna de consideração; e é por causa deste fenómeno simples que a letra de José Mário Branco falha o alvo, porque, desde que o primeiro a de mudaram se pronuncie [á], a palavra será sempre entendida como um pretérito perfeito simples e não como futuro; e a palavra grave, independentemente de onde seja acentuada, entende-se sempre como ela própria, se o e final for pronunciado [ɨ] como os ee átonos são em português...
** Se se tratar de uma canção antiga e muito “gasta” pelo uso, pode a versão original ter sido alterada e/ou fragmentada em muitas variantes, mas isso é outra história.
*** O resto da canção, já agora, também está cheio de acentuações deslocadas, como muitas canções em francês… E assinale-se que, com o mesmo à-vontade e com a mesma elegância, Paco Ibañez retoma o radical processo de Brassens na sua versão castelhana da canção, que Brassens chegou também a gravar: no, a la gente no gusta que / uno tenga su propia fe.

24 de outubro de 2010

Recomendações

Em princípio, não tenho nada contra recomendações. Bom, sei que gosto que os amigos me recomendem coisas e também sei que às vezes fico um bocadinho irritado quando o Google Reader ou a Amazon me vêm lá com as recomendações deles, mas o facto é que às vezes utilizo essas recomendações. E acho que é uma pena que essas recomendações automáticas sejam feitas para corresponder ao que os programas que as fazem pressupõem ser o nosso gosto. Não tenho a certeza de que as pessoas reagiriam bem se lhe fosse recomendado o contrário daquilo de que gostam («estou a ver que vai a muitos sites religiosos, daqui para a frente só lhe recomendo sites ateístas», ou vice-versa), mas seria muito mais enriquecedor  que lhe fossem recomendadas coisas sem relação com as suas preferências: «Música, banda desenhada e ciência? Porque não experimenta alguns sites sobre xadrez, criação de avestruzes ou automóveis antigos?»

19 de outubro de 2010

Eu acredito nas bruxas, mas que não existem, não existem

Nas notas finais a Land of mist, de 1926, escreve Arthur Conan Doyle o seguinte:
A história do Pithecanthropus [uma fantástica e aterrorizadora criatura ectoplásmica que aparece na história] é tirada do Bulletin de l'Institut Métapsychique. Uma senhora conhecida descreveu-me como se sentia a pressão da criatura entre ela e a pessoa que estava ao lado dela e como pôs a mão na pele peluda do ser. Pode encontrar-se um relato desta sessão em L'Ectoplasmie et la Clairvoyance de Geley (Felix Alcau), p.345. Na página 296, há uma fotografia de uma estranha ave de rapina sobre a cabeça do médium. Seria necessária a credulidade de um MacCabe para imaginar que tudo isto é impostura. Estes vários tipos de animais podem assumir formas muito estranhas. Num manuscrito por publicar do Coronel Ochorowitz, que tive o privilégio de ver, descrevem-se algumas evoluções que não só são formidáveis como também diferentes de qualquer criatura que conheçamos. Dado que formas animais desta natureza se materializaram na presença dos médiuns Kluski e Guzik, a sua formação parece antes depender de um dos presentes na sessão do que dos médiuns, a menos que os possamos desligar completamente do círculo. Costuma ser axioma entre espiritualistas que os espíritos que visitam um círculo representam de alguma forma a tendência mental e espiritual do círculo. Assim, em quase quarenta anos de experiência, nunca ouvi uma palavra obscena ou blasfema numa sessão, porque essas sessões têm sido realizadas de uma forma reverente e religiosa. Pode então surgir a questão: as sessões que sejam realizadas para fins puramente científicos e experimentais, sem o menor reconhecimento da extrema religiosidade do seu significado, não podem evocar manifestações menos desejáveis de força psíquica?
Quem não conheça esta faceta de Arthur Conan Doyle ficará com certeza espantado – então ele acreditava em espiritismo? Creio que há que compreender o espírito da época e a crença difundida entre vários intelectuais desse tempo que os fenómenos paranormais, nomeadamente a existência de entidades espirituais sob a forma de ectoplasmas eram, afinal, fenómenos naturais e a que a ciência podia vir a dar uma explicação razoável. Mas interessa-me notar, no discurso de Conan Doyle, esta interessante observação: Não será que, se quisermos só estudar racionalmente o além, sem a reverência religiosa que se deve aos espíritos, o além nos tentará dissuadir de tal atitude blasfema mandando-nos o que de mais perigoso e assustador lá tem? Há alguma originalidade neste raciocínio. A asserção mais comum entre cultores do paranormal quanto à dificuldade do seu estudo científico é, estou eu em crer, que os espíritos não se manifestam a quem não creia neles – a eventuais cientistas presentes para medir energia psíquica ou para os filmar, por exemplo.

A crença na possibilidade de estudo científico do paranormal nasceu em meados do séc. XIX com as teorias espíritas de Kardec e conseguiu atrair gente ilustre e intelectual e até alguns cientistas, como Charles Robert Richet, Nobel de Medicina. Creio não me enganar muito se disser que veio depois a popularizar-se mais no âmbito da chamada contracultura dos anos 60, através de vários best-sellers que difundiam ideias sobre a possível origem extraterrestre de formas “alternativas” de conhecimento e de energia, e teorias afins. O mercado de livros foi inundado por obras que punham outra vez a tónica no paranormal (só a expressão paranormal merece uma análise filosófica cuidada, mas deixo-a às minhas leitoras e aos meus leitores, que a farão sem dúvida tão bem como eu…) como área de investigação científica. E porque não havia de o ser? Bem vistas as coisas, tudo é passível de estudo científico. As conclusões dos estudos rigorosos é que podem ser decepcionantes para muita gente... Pode chegar-se à conclusão, por exemplo, de que não há ali nada a estudar que não sejam crenças e superstição e que deve ser, portanto, a antropologia ou a sociologia a fazer o seu trabalho e não a física nem a biologia…

Uma história exemplar, que acho que toda a gente devia conhecer e que por isso, aqui divulgo, é a de Susan Blackmore, a psicóloga que escreveu Consciousness: An Introduction. Digo divulgo, porque não sou eu que a conto, limito-me a dar a palavra à própria Susan Blackmore. O texto que se segue é uma tradução do texto originalmente publicado como resposta à pergunta anual do World Question Center de Edge.org para 2008 "What have you changed your mind about?", “Sobre que mudou de opinião?”.
Ora imaginem-me lá no Oxford de 1970; acabada de entrar para a faculdade, vibrando com o ambiente intelectual, a roupa freak, quartos a cheirar a incenso, noitadas, aulas de manhãzinha, e a abertura de espírito que a cannabis me dava.

Entrei para a Sociedade de Pesquisa Psíquica e fiquei fascinada como ocultismo, os médiuns e o paranormal – ideias que chocavam perturbadoramente com a fisiologia e a psicologia que eu andava a estudar. Uma noite, aconteceu então uma coisa muito estranha. Estava sentada com amigos, a fumar, a ouvir música e a curtir a vívida imagem de descer muito depressa por um túnel escuro em direcção a uma luz brilhante, quando um amigo meu falou comigo. Não consegui responder.

"Onde estás tu, Sue?", perguntou ele, e, de repente, parecia que eu estava no tecto a olhar cá para baixo.

"Projecção astral!", pensei e foi então que eu (ou algum eu voador imaginado) parti em viagem sobre Oxford, sobre o país e bem mais além. Durante mais de duas horas, mergulhei por estranhas cenas e estados místicos, livre do tempo e do espaço e acabando por me perder a mim própria. Foi uma experiência extraordinária, dessas que mudam a vida de uma pessoa. Tudo aquilo parecia mais luminoso, mais real e com mais sentido do que as coisas da vida normal e eu queria compreendê-lo.

Mas tirei de repente todas as conclusões erradas. Duma forma talvez compreensível, parti do princípio que o meu espírito tinha saído do corpo e que isso provava tudo e mais alguma coisa – a vida depois da morte, a telepatia, a clarividência e muito, muito mais. Decidi, com aquele esplêndido excesso de confiança típico da juventude, tornar-me parapsicóloga e provar que todos os meus tacanhos professores de ciências estavam enganados. Arranjei um lugar para doutoramento, comecei a ganhar dinheiro para o pagar dando aulas e comecei a testar a minha teoria da memória de Percepção Extra-Sensorial. E foi aí que mudei de ideias – e de sentimentos e de tudo o mais.

Fiz as experiências. Testei telepatia, precognição e clarividência; só obtive resultados aleatórios. Formei outros estudantes em técnicas de visualização mental e testei-os de novo; resultados aleatórios. Testei gémeos aos pares; resultados aleatórios. Trabalhei em infantários com crianças muito jovens (as mentes naturalmente telepáticas das crianças ainda não foram deformados pela educação, estão a ver?); resultados aleatórios. Aprendi a ler o tarot e testei as leituras; resultados aleatórios.

De vez em quando, tinha algum resultado significativo. Oh que excitação! Reagia, como penso que qualquer cientista reage, verificando possíveis erros, voltando a calcular as estatísticas e repetindo as experiências. Mas acabava sempre por encontrar o erro responsável ou não conseguia reproduzir os resultados. Quando o meu entusiasmo esvanecia ou começava a duvidar das crenças de que partira, havia sempre mais qualquer coisa a tentar – sempre alguém me dizia "Mas deves tentar xxx". Demorei provavelmente três ou quatro anos a gastar todos os xxx.

Lembro-me do momento exacto em que tive esse clique (ou devo antes dizer "Parece que me lembro…", não vá tratar-se se uma falsa recordação de uma revelação). Estava deitada na banheira a tentar fazer encaixar os meus últimos resultados nulos na teoria do paranormal, quando me ocorreu pela primeira vez que podia estar completamente enganada e terem razão os meus professores. Talvez não houvesse nenhuns fenómenos paranormais.

Ao que me lembro, demorei algum tempo a aceitar este assustador pensamento. Fiz mais experiências e obtive mais resultados aleatórios. Os parapsicólogos chamavam-me uma experimentadora psi-inibitória, querendo com isso dizer que não obtinha resultados paranormais porque não acreditava o suficiente.
Aqui temos, mais uma vez, a estranha ideia que referi atrás de que, embora os fenómenos paranormais sejam reais e observáveis, só o são de facto se acreditarmos neles, ou seja, são só observáveis por aqueles a quem eles não precisam de ser provados, porque crêem neles à partida. A fé é mais bela do que Deus, como dizia Claude Nougaro (e Lutero era capaz de quase concordar…). Mas voltemos à história de Susan Blackmore, para a concluir:
Estudei os resultados de outras pessoas e encontrei mais erros, e fraude pura e simples. Quando acabei o meu doutoramento, já me tinha tornado céptica.

Até àquela altura, toda a minha identidade estava ligada ao paranormal. Tinha posto de lado um bom doutoramento e tinha dado cabo da possibilidade de fazer carreira na Academia (como o meu orientador em Oxford gostava de dizer). Tinha andado à caça de fantasmas e poltergeists, tinha estudado para bruxa, tinha frequentado igrejas espiritualistas e tinha ficado a cismar diante de bolas de cristal. Agora, isso era tudo para deitar fora.

Depois de tomada a decisão, até foi de facto bastante fácil. Como muitas grandes mudanças na nossa vida, esta era assustadora antes de realizada mas revelou-se simples. Rapidamente me tornei "céptica de aluguer" e comecei a aparecer na televisão a explicar como funcionam as ilusões, porque é que não existe telepatia e como explicar experiência de quase-morte através do que se passa no cérebro.

O que mantenho até hoje é um tipo de abertura às provas. Por muito que acredite firmemente numa teoria (sobre a consciência, os memes ou seja lá o que for); por muito que me identifiquem com uma determinada posição ou determinado postulado, sei que o mundo não se desmorona se tiver de mudar de ideias.
Num estudo realizado há relativamente pouco tempo, demonstrava-se que, nos Estados Unidos, os ateus sabem mais sobre religião dos que os crentes. A explicação dada ao New York Times por Dave Silverman, presidente da associação American Atheists, é que é porque sabem de religião que as pessoas se tornam ateias: "Dei uma Bíblia à minha filha e agora ela há-de tornar-se ateia", diz ele. É capaz de haver um fundo de verdade na brincadeira. E o raciocínio parece aplicar-se bem ao domínio do paranormal: a melhor maneira de deixar de acreditar nele é começar a estudá-lo. Ou, dito de outra maneira: basta observar um pouco à nossa volta e é claro que as pessoas que ainda acreditam nas várias paranormalidades que por aí adejam nunca fizeram tentativas de demonstrar a sua existência de forma organizada e convincente.

Além disso, se se pode mesmo provar a existência do paranormal, quem é capaz de o fazer é muito desligado dos bens materiais. Há prémios no valor total de mais de 2,6 milhões de dólares, oferecidos por associações de cépticos e racionalistas a quem apresente estas provas, mas estão todos por receber. É claro, pode-se sempre argumentar que os ectoplasmas não se rebaixam ao ponto de se deixar fotografar para fins tão vilmente materiais…