27 de janeiro de 2010

Conversa de cháchara

Diz Silva Carvalho, no seu livro Que Estupidez! (não li – ainda – o livro, notem, apanhei a citação na Internet): «Ninguém sabe, se a estatística existisse para estudar e computar o problema, o que significa este "chacha", qual a sua possível ortografia e a sua não menos impossível etimologia, e no entanto ele existe como um dos termos mais lídimos da nossa linguagem actual.»

Silva Carvalho tem toda a razão. Tenho aqui acesso a poucos dicionários, um de papel e os que encontro online, mas é verdade que nenhum deles tem nada a propor sobre a origem da palavra. Uma pesquisa que fiz na Internet, fora dos dicionários, também não me deu nenhuma pista. E é pena, acho eu, que se diga (ou se saiba…) tão pouco de uma palavra tão bonita e tão útil.

Agora, não foi só para me lamentar que aqui vim; quero apresentar uma hipótese sobre a origem da palavra chacha: parece-me provável que ela derive do termo espanhol cháchara – ou tenha a mesma origem. Do ponto de vista da evolução fonética, parece-me que não há muito a discutir, de tão plausível que parece, numa palavra assim, o desaparecimento de uma sílaba final átona. Quanto ao resto, vejamos:

Cháchara, em castelhano, é também uma palavra de uso corrente, com um significado muito próximo do da nossa chacha, se não mesmo coincidente com ele. Segundo o Diccionario de la lengua española da Real Academia Espanhola, cháchara significa “1. f. Conversación frívola 2. f. coloq. Abundancia de palabras inútiles 3. f. pl. Baratijas, cachivaches” (para quem não saiba o que são baratijas e chachivaches, são “bagatelas”, “ninharias”, “coisas de… chacha”.).

E a etimologia, então? Bom, se os dicionários portugueses não propõem um étimo para chacha, o dicionário da Real Academia Espanhola (que é, em princípio, fiável, embora, claro, estejamos num terreno algo movediço…) diz que cháchara vem do italiano chiacchiera, pronúncia informal, por ciacciare. Se formos mais longe na pesquisa, e consultarmos o Vocabolario Etimologico della Lingua Italiana, de Ottorino Pianigiani, veremos que ciacciàre, significa “atarefar-se muito, ou com palavras ou com actos, e com pouco proveito, em coisas que não lhe dizem respeito” e é uma forma alternativa a acciacciàre (definido como “meter-se nas conversas todas; ingerir-se sem consideração”), que, por sua vez, seria formado a partir do mesmo tema de acciaccinàrsi (ou, segundo alguns, de origem onomatopaica).

É então esta a minha proposta. Acham uma proposta de chacha? Bom, de chacha, chacha, não será, mas concordo que, como muitas vezes nestas coisas de etimologia, não há nada provado…

[Acciaccinàrsi, já agora, derivaria, segundo Pianigiani, do agerē latino: agerē, “empurrar para a frente; fazer”; agina e aina (arcaísmos), “rapidez”; ainàrsi, aginársi, “esforçar-se”; accianàrsi, “id.” (assimilação do i pretónico ao a tónico com reforço e redobro do g por troca do a inicial pela partícula ad); acciaccinàrsi (redobro da segunda sílaba). É uma possibilidade, e não deixa de ter a sua lógica, mas é uma hipótese, reconheço, que não prima pela elegância da simplicidade… Rejeitar esta proposta, claro está, não significa rejeitar a hipótese de que chacha derive de cháchara (ou tenham as duas palavras um origem comum) e que cháchara derive de ciacciare/acciacciare.]

26 de janeiro de 2010

Pidgin divino

Quando os seres divinos criaram os seres humanos, quiseram dar-lhes uma língua e reuniram-se em conciliábulo para decidir que língua havia de ser.

«O melhor é dar-lhes a nossa própria língua», propôs um dos deuses mais respeitados, «porque uma coisa para que deve servir a língua que lhes dermos é comunicarem connosco.»

«Não creio que isso se possa realizar», contestou outro deus importante, «porque é demasiado pequena a mente que têm. Se lhes couber na mente – que é algo de que não estou certo –, a nossa língua ocupá-la-á por completo, e não poderão ter outra capacidade que não seja a de falar. É condenar à morte essas nossas criaturas.»

«Podemos então», propôs outro dos deuses maiores, conhecido pela sua sabedoria e pelo seu carácter conciliador, «dar-lhes uma língua que se pareça com a nossa o suficiente para nós os compreendermos quando eles se nos dirigirem, mas suficientemente simples para não lhes atafulhar a mente limitada que têm.»

Todos concordaram e foi dado aos homens um pidgin da língua dos deuses. É numa das variantes desse pidgin que estou a escrever isto. A nós, que não conhecemos mais nada, parece-nos este pidgin uma faculdade maravilhosa, com que se podem dizer quantidades e qualidades, proezas épicas e tratados de zoologia; mas está para a língua divina de que deriva como o tosco pidgin que falavam os pescadores noruegueses com os comerciantes russos de Kola está para a linguagem de Ibsen ou de Tchekhov.

Informadas pelos seres divinos de que eram muito limitadas as possibilidades de os seres humanos comunicarem com os seus deuses, e sem compreenderem o que implicava ao certo essa limitação, os fundadores das religiões humanas restringiram ao mínimo o conteúdo das suas orações – aos deuses, decretaram eles, só se pode dizer “gosto de ti”, “dá-me chuva” [ou “dá-me saúde”, ou “dá-me riqueza”] e mais meia dúzia de proposições muito básicas.

A lã bezul

Há um poema meu online sem ter sido eu que o lá pus. Um único, estou eu em crer, e já não é chita! Nada de mal, nenhum abuso – apareceu numa revista e é a revista que puseram na Internet. Mas só o consigo apanhar, em más condições, no cached de Google. E então, como é um poema a que acho graça (pelos vistos, estava inspirado no dia 1 de Novembro de 1988), deixo-o aqui em melhores condições.

A lã bezul

Ei-lã

que se carda e fia
que se novela
e romança

que se tricota
se calha
ou se decota
de malha

se de bebezinha, rosa
se de bebezinho, azul

virgulã
a lã bezul

E o que é fascinante é isto...

Se seguirmos a nossa intuição, podemos facilmente acreditar que a água sai em curva de uma mangueira enrolada, que o Sol gira à volta da Terra e a Lua se faz e se desfaz, ou que todo o evento que presenciamos no mundo deve ser produzido por um agente dotado de vontade… Por que será que nos engana a nossa mente? Não é um perigo para nós termos uma mente que nos engana? Para que desenvolvemos uma mente assim?

Bom, a evolução, por muito que, de certa forma, se possa compreender como um mecanismo de aperfeiçoamento, não garante, nem de longe, perfeição nenhuma. E também podemos pensar que as nossas intuições e a nossa percepção são, ainda assim, altamente adaptadas à vida que os hominídeos tinham quando a sua mente evoluiu e ao meio natural em que a viviam; que os enganos da nossa intuição e percepção (ou, pelo menos, alguns deles) nos foram muito úteis nessas condições de vida – e podem ser ainda, naturalmente, em condições ou situações do mesmo tipo. Mas é uma discussão comprida e complicada, e não a quero (nem sei!…) ter aqui.

O que é facto é que as nossas intuições e a nossa percepção são altamente enganadoras. As categorias e operações mentais com que nascemos e que nos permitem organizar o mundo levam-nos, pura e simplesmente, a concluir mentiras sobre esse mundo. E o que é fascinante é que o nosso cérebro tem, apesar disso, a capacidade de ir além das nossas intuições e da nossa percepção naturais e compreender a realidade de formas mais sofisticadas – e eficazes –, que são perfeitamente contra-intuitivas. E este mundo em que vivemos (instrumentos de alta precisão, transplantes, aviões e computadores, milhares, milhões, de importantíssimos etcéteras...) é, em grande parte, construído a partir, precisamente, dessa capacidade de conhecimento – ciência, como se lhe costuma chamar.

Sejamos agora claros: viver no mundo moderno sem utilizar a capacidade de conhecimento contra-intuitiva e mais rigorosa que fomos criando, limitarmo-nos, no mundo do século XXI, a continuar a pensar com as ferramentas mínimas desenvolvidas para sobrevivência na savana africana, é franca desadaptação, para não dizer acção suicidária. Limitar-se ao nosso “conhecimento” natural e às superstições que dele resultam pura e simplesmente não funciona. E nunca é demais insistir nisto, para fazer frente a alguns simplismos de grande fortuna com que somos amiúde bombardeados: ao contrário do que muitos pretendem, a religião e as “formas de conhecimento” intuitivo não são apenas “outra maneira de compreender o mundo”, mas antes uma maneira de não o compreender.

Um pequeno aparte sobre democracia directa

Talvez a situação ideal em democracia fosse que toda a gente soubesse muito dos assuntos que se podem discutir no espaço público e relativamente a ele – que são muitos. Mas a realidade é bem diferente, e o que temos na prática – e que havemos de continuar sempre a ter – são pessoas que sabem umas mais e outras menos dos assuntos discutidos. É evidente que, nas decisões sobre a vida pública, é necessário, às vezes, ter em conta aspectos técnicos desconhecidos da grande maioria dos que participam na discussão; mas, para acreditar que a democracia é possível com algum sucesso, é preciso acreditar que as questões que mais importa discutir devem ser discutidas por todos, independentemente do seu grau de conhecimento técnico dessa questão ou da área em que ela se insere. Que é o que eu acredito.

Mas nem toda a gente acredita nisso. Há quem postule que a democracia se deve limitar a ser a escolha dos governantes pelos cidadãos, precisamente porque os próprios cidadãos não têm conhecimentos ou capacidade para governarem. Por outro lado, também há quem, mesmo não tendo da democracia esta visão “minimalista”, considere que uma há distinção essencial entre democracia participativa ou directa e democracia representativa ou indirecta. E o que quero defender aqui é que a ideia de democracia minimalista é paradoxal; e que não dois tipos de democracia, uma directa e outra indirecta. Por outras palavras, a “democracia” minimalista não é democracia, da mesma forma que, por exemplo, a “democracia” da Grécia clássica o não é, e toda a verdadeira democracia é, por definição, directa.

A questão de base é esta: se há cidadãos com capacidades para governar e outros apenas com capacidade para eleger os que governam, quem decide quem são uns e os outros? Que garantia tenho eu de que o facto apenas de se candidatar a um cargo público serve para definir essa capacidade? E em que é que a capacidade de escolher alguém que apresenta um programa de governação da coisa pública se distingue da capacidade de governar a coisa pública? Quer dizer, se eu duvido que alguém tenha a capacidade de governar, por que não hei-de também duvidar que essa pessoa tenha a capacidade de escolher quem o governe?

A resposta a estas interrogações parece-me tão óbvia que nem vou mais longe na argumentação que poderia ser extensa: não há solução senão assumir, como eu assumo, que toda a gente tem o mesmíssimo direito (já que a questão da capacidade, como vimos, não se pode pôr, a não se ser que se assuma alguma antidemocrática prerrogativa a priori) de participar na vida política a todos os níveis; que a democracia ou é total ou não é. O sentido último da democracia é ser directa: todos podem participar exactamente ao mesmo nível na tomada de decisões.

A democracia, para o ser de facto, só pode assumir formas representativas por necessidade de ordem prática, não porque a representatividade seja desejável por si. Se, numa associação de, digamos, 5 mil membros, já é difícil realizar uma assembleia-geral, é óbvio que numa associação com vários milhões deles, como costumam ser os estados, há que eleger representantes. Mas é muito diferente a representatividade ser uma necessidade da democracia em instituições muito grandes de a representatividade ser um traço essencial da democracia. Para o dizer com as palavras de André-Pierre Taguieff, que o diz muito bem, “a ideia de democracia directa deve ser conservada como horizonte, ou até mesmo como ideia reguladora, de toda a prática democrática.”

25 de janeiro de 2010

Uma velha tinha um gato

Não me alongo em arengas, nem me delongo em molengas: hoje o tema é lengalengas. Ou melhor, não lengalengas, uma lengalenga só: a da velha que, coitada, tinha debaixo da cama um monte de bicharada, que, a zurrar e a ganir, não na deixava dormir…

A versão que me ensinaram em miúdo e que, por isso mesmo, eu provavelmente nunca me hei-de livrar, mil raivas me persigam!, de considerar a versão “original”, mesmo tendo plena consciência de que não tenho para isso qualquer boa razão, era assim (ponho só a última estrofe e, como sabemos que o gato é referido na primeira estrofe e se vai sempre acrescentando, em cada estrofe, um bicho aos da estrofe anterior, as outras deduzem-se dela):
Uma velha tinha um velho, debaixo da cama o tinha; o velho falava, o boi berrava, o burro zurrava, o porco roncava, o galo cantava, o cão ladrava, o gato miava, a velha dizia: «Só só, só só, só só duma banda só.»
É claro, a bicharada que se inclui é um bocado à vontade do freguês, e a lengalenga tem óbvios méritos didácticos, para ensinar as palavras que referem “vozes de animais”. Mais, aliás, do que um poema de Pedro Dinis, que havia num livro da minha escola primária, em que a informação era obviamente excessiva: 32 sons de bichos duma vez só!
Descobri agora, depois de uma pequena pesquisa na Internet, diversas variações à minha versão original. Por exemplo, em vez de apenas “só só, só só, só só duma banda só” podemos ter “estou só, estou só, estou só de uma banda só”, o que dá ao refrão um tom bastante mais grave. Outra variação menor que vi muda em e diz assim:
A velha tinha um carneiro, debaixo da cama o tinha; o carneiro berrava, o galo cantava, o gato miava, o cão ladrava e a velha dizia: «Dó, dó, dó numa banda só.»
E também vos digo: se o era bastante misterioso, o não o é menos… O que quererá isto dizer? E a banda, que banda será esta? Perguntas patetas, se assentarmos que o encanto das lengalengas é serem poesia pura, interessando pouco o que querem mesmo dizer… Agora, se repararem bem, nesta versão não se muda só o para , aparece também um cão no fim da lengalenga. Podem pensar, então, que começa com um cão em vez de começar com um gato, mas não, o cão nunca aparece sozinho antes do gato – a primeira estrofe é: A velha que tinha um gato, debaixo da cama o tinha; o gato miava, o cão ladrava e a velha dizia: «Dó, dó, dó numa banda só.»
Outra coisa digna de nota é que, nesta versão se diz “a velha” e não “uma velha”. Parecendo que não, é estratégia estilística arrojada (muito moderna, diria eu, para uma coisa tradicional) a utilização de um artigo definido para introduzir uma velha que ninguém sabe quem é…
Mais bonita, na minha opinião, é outra variante da lengalenga que encontrei:
Uma velha tinha um gato, debaixo da cama o tinha; o gato miava, o pinto piava e a velha dizia: «Mil raivas vos persigam – que não vos posso aturar!»
Gosto muito da expressão “mil raivas vos persigam”, que me soa arcaica e que quero ver se não me esqueço de começar a utilizar no meu quotidiano, em vez de invocar descargas eléctricas… (Aliás, para praticar, já a comecei a utilizar neste texto, não sei se repararam, lá em cima no início do segundo parágrafo.)
Outra variante engraçada da lengalenga, mais complicada porque implica uma dupla enumeração de bichos e vozes, é a seguinte:
Era uma velha que tinha uma vaca e debaixo da cama a tinha; a vaca mugia, o burro zurrava, o porco roncava, o galo cantava, o cão ladrava, o gato miava e a velha dizia: «Mal haja o teu mugir, mal haja o teu zurrar, mal haja o teu roncar, mal haja o teu cantar, mal haja o teu ladrar, mal haja o teu miar, que não me deixam dormir nem tão pouco descansar.»
E mais sofisticada ainda – a mais sofisticada de todas as que encontrei – é esta outra versão que aqui trago, que acrescenta à anterior outra dupla enumeração, primeiro dos bichos e a seguir dos barulhos que eles fazem, e também uma solução violenta, como acontece muitas vezes em coisas ditas tradicionais:
E vê-se a velha obrigada a tomar a decisão: mata a vaca, mata o burro, mata o porco, mata o galo, mata o cão, mata o gato, e então dizia: «Acabou-se o teu mugir, acabou-se o teu zurrar, acabou-se o teu roncar, acabou-se o teu cantar, acabou-se o teu ladrar, acabou-se o teu miar, agora posso dormir, agora posso descansar.»
Percebo perfeitamente: uma pessoa sem dormir não pode viver e o dormir pouco torna-nos violentos, de modo que é natural (humano porque animal…) dar cabo, enraivecido, de meia dúzia de bichezas para poder enfim repousar... (A propósito, não terá contribuído para a diminuição da violência ao longo dos séculos o facto de as pessoas descansarem cada vez mais?)
E agora, para terminar (se bem que, de facto, tudo tenha começado aqui), deixo-vos a versão de Pierrot le Pan de Pan, que reza assim:
Uma velha tinha um velho e debaixo da cama o tinha; o velho assobiava, o xaile bailava, o cuco cucava, a galinha galinhava, a bengala bengalava, o penico penicava, o gato miava e a velha dizia: «Só só, só só, só só de uma banda só».
Uma velha teve uma trombose e em cima da cama a teve; ficou meio apanhada e paralisada só só, só só, só só de uma banda só.
Assim, sim, já faz o estribilho mais sentido, não é? Mas coitada da senhora!

19 de janeiro de 2010

Que bom que deve ser ser-se já velho

La vejez (tal es el nombre que los otros le dan) / puede ser el tiempo de nuestra dicha. / El animal ha muerto o casi muerto. / Quedan el hombre y su alma. (....)Jorge Luis Borges, "Elogio da la sombra"

Que bom que deve ser ser-se já velho,
do mundo ter já visto que no mundo
aquilo que há para ver ou não é muito
ou então – noutro olhar... – sempre demais,

ter alcançado já não desejar
nem o sexo de ninguém, nem alegria,
escusar o que não há e, ainda assim,
continuar a querer – e querer sem ânsias –

mais justo o tempo todo que há-de vir,
por muito que ele já seja pouco seu...
O que deve ser triste é se ser velho
nos traz em vez de paz só o temor:

da morte que se acerca, ou de ter
p’ra pouco servido a vida, de o mal
que por aqui espalhámos contar mais
do que algum bem que fizemos – se fizemos.

Que triste deve ser ser-se já velho,
e do mundo ter já visto que no mundo
aquilo que há para ver ou não é muito
ou então – noutro olhar... – sempre demais

18 de janeiro de 2010

Falta sempre um som…

Fraquejei ontem e falei de literatura, que é uma coisa de que tinha prometido não falar, porque não sei falar de tal coisa e porque duvido que valha a pena falar disso… Para me redimir, falo hoje de algo de que sei falar melhor, se bem que também só tenha interesse para meia dúzia de cismáticos como eu...; e digo uma coisa que, por muito que seja provável que alguém a tenha já dito, nunca vi dita em lado nenhum: falta sempre um som nas listas de sons do português!

O normal é considerar que existem, em português, 5 vogais nasais: [ã], grafada an (antes), am (ambas) ou ã (manhã); [ẽ], grafada en (dente) ou em (sempre); [ĩ], grafada in (tinta) ou im (simples, sim); [õ], grafada on (ontem), om (pomba, com) ou õ (só em ditongos, como em põe); e [ũ], grafada un (mundo) ou um (chumbo, atum). [Podem ver, por exemplo, esta descrição das vogais nasais do português aqui ou aqui.]

E falta sempre uma (pelo menos, em português europeu): a que se encontra nas partes destacadas a negrito do sintagma “a antiga antagonista da Antónia” [ã'tiɣãtɐɣu'niʃtɐðã'tɔnjɐ], ou seja, uma vogal nasal aberta, que escrevi [ã], para a distinguir do [ɐ̃] de manhã e que resulta – sempre e só – da contracção de um [a] fechado com um [ɐ̃] nasal.

É uma vogal especial, reconheço, porque, quando experimento, tenho dificuldade em pronunciá-la sozinha, ao contrário do que acontece com as outras vogais nasais. Como duvido da minha percepção e não tenho maneira de analisar o som com rigor, isto é, usando um aparelho em vez dos meus ouvidos, ponho até a hipótese de não se tratar efectivamente de uma vogal nasal e de que, no contexto referido e apenas nele, se pronuncie em português uma consoante nasal [ŋ] (como no inglês sing) a seguir a um [a] aberto. Se assim for, porém, continua a faltar um som nas listas de sons do português…

Não sei, o que acham vocês? Cismáticos da língua ou não, deixem, por favor, nos comentários, a vossa opinião – ou o que souberem sobre a questão.

17 de janeiro de 2010

Areia, mar e sol, tradução e espanhol…

Como disse ontem, li nas férias 2666, de Roberto Bolaño. Nas últimas férias, tinha lido The pope’s rhinoceros, de Lawrence Norfolk (comprado, vejam lá vocês ao que chegou a globalização, numa livraria de uma dinamarquesa na Ilha de Moçambique…). Só nas férias é que se pode ler romances assim, de muitas (muitas!) centenas de páginas. Agora, que recomecei a trabalhar, comecei a reler o que tenho de Borges cá em casa, que são 4 livros de contos. Um formato mais adequado à quotidiana falta de tempo: um conto hoje, outro amanhã…

Ignacio Echevarría disse uma vez de Los detectives salvajes (o penúltimo romance de Bolaño, imediatamente anterior a 2666) que era “o romance que Borges teria escrito” [se tivesse escrito algum romance] (ou “o tipo de romance que Borges teria acedido a escrever”, já vi diferentes citações das palavras de Echevarría...). Com todo o respeito que devo ao senhor Echevarría, e sem ter lido Los detectives salvajes, acho que não faz grande sentido pensar que Borges, que sempre se recusou, ponto!, a escrever romances (“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros”, dizia ele), os escreveria assim ou assado se os quisesse escrever… Mas não é ele o único, essa é que é essa, a relacionar os dois escritores. A malograda Aura Estrada (só encontro a tradução inglesa do seu ensaio sobre “Borges, Bolaño e o retorno do épico”, na revista online Words without borders), embora concorde que “Borges pura e simplesmente não é o precursor que nos vem naturalmente à ideia quando lemos Bolaño”, considera que os une o facto de verem ambos na épica a essência do literário.

Assim à primeira impressão (só li uma obra de cada autor), tendo mais a comparar a escrita de Roberto Bolaño com a de Lawrence Norfolk, sobretudo pelas digressões fogosas, às vezes capazes de deixar o leitor literalmente ofegante, e pela mistura de registos, em que o calão e outras formas menos cerimoniosas de linguagem convivem com uma “literariedade” que revela um domínio convincente de muitas linguagens literárias. Por outras palavras, a feliz expressão bawdy baroque-punk prose of marvellous fluency, “prosa barroco-punk impudica de maravilhosa fluência”, que William Dalrymple, um crítico de The Independent usa para descrever a escrita de Norfolk pode aplicar-se, acho eu, à escrita de Bolaño – pelo menos, às vezes... E se no caso de Norfolk, tudo isto é, como diz Dalrymple, “recoberto com uma camada lustrosa de grande erudição, que abrange tudo desde obscuras práticas sexuais renascentistas até às minúcias do direito canónico” com “apartes eruditos sobre a enxertia de rainhas-cláudias, os movimentos de glaciares e o simbolismo sagrado do camaleão”, um livro de Bolaño pode, por exemplo, revelar, com a mesma amplitude de erudição, “conhecimentos de medicina legal, Panteras Negras, divisões do exército alemão, cultura das prisões, ficção científica soviética, boxe, algas marinhas e formas obscuras de adivinhação” – e eu acrescentaria ainda fobias (há uma impressionante enumeração de medos patológicos em 2666) a esta lista de Natasha Wimmer, tradutora das duas últimas obras de Bolaño para inglês.

Jorge Luis Borges acreditava na tradução. Afirmou-o peremptoriamente ainda jovem, em 1926 [“Quanto a mim, creio nas boas traduções de obras literárias (das didácticas e especulativas, nem falemos) e opino que até os versos são traduzíveis” (Textos recobrados 1919.1930)] e, ao que eu sei, nunca mudou de opinião ao longo da vida. Para ele, mais do que um mal necessário, a tradução era um bem necessário e uma das componentes da literatura.

Chegou até a afirmar que as suas próprias obras podiam ganhar ao ser traduzidas para outras línguas, porque o castelhano era, às vezes, uma língua pobre. E dava o exemplo de pesadilla, que não passa de “um pequeno peso”, ao passo que palavras como cauchemar ou nightmare são muito mais expressivas, mais cheias de significados. Desculpar-me-ão eu não vos dizer onde é que Borges afirma isto, mas não consigo encontrar esse texto em lado nenhum. Lembro-me bem de o ter lido e lembro-me até de que era em francês, porque me lembro de que Borges explicava a ideia da palavra pesadilla como “une petite lourdeur”, mas claro, sem encontrar o texto, como podemos, eu e vocês, ter a certeza de que eu não sonhei isto? Uma coisa é certa, porém: Se sonhei, não foi um sonho irrealista por aí além, porque Borges diz (e isto, sei onde: no seu ensaio “La pesadilla”, incluído em Siete Noches) que “o nome espanhol [do pesadelo] não é muito afortunado: o diminutivo parece tirar-lhe força. Noutras línguas, os nomes são mais fortes.”

[É claro, tudo depende da palavra a que se dê importância: mancuernillas, por exemplo, a maravilhosa palavra centro-americana para botões de punho, mesmo com o diminutivo na cauda é centenas de vezes mais expressiva do que boutons de manchette ou cufflinks, que não são, precisamente, mais do que cuff links…]

Já Lawrence Norfolk desconfia dramaticamente da tradução: “Os leitores acreditam na tradução. Para os escritores, no entanto, o processo é mais complicado”, escreve ele em “Being translated, or the Virgin Mary's hair”. E continua o autor de Lemprière's dictionary: “Eis, à laia de ilustração, uma lista de livros que eu não escrevi: Lemprière's Wörterbuch, Le Dictionnaire de Lemprière, Slownik Lemprièra'a, Lempriere's Ordabók, Lemprières Lexicon, El Diccionario de Lemprière, A Lemprière-lexicon, Het Woordenboek van Lemprière, Kabbalin Kulta (porque Lemprière é impronunciável em finlandês), Dictionarului Lemprière, Lemprière's Ordbog e diversas outras variações em línguas (hebreu, cantonês, coreano, russo, japonês) cujos alfabetos são, pelo menos para mim, ilegíveis.”

A mim, parece-me mais produtivo afirmar muito simplesmente que traduzir nem sempre é fácil e que há obras muito mais difíceis de traduzir do que outras. No geral, concordo muito mais com Borges do que com Norfolk, mas às vezes tenho de dar o braço a torcer ao pessimismo deste último. Há que aceitar que, na literatura ou fora dela, se há muitos textos que se traduzem sem grandes problemas, também há, paciência!, coisas literalmente intraduzíveis.

Do que pensava Bolaño da tradução literária em geral e, mais especificamente, da tradução da suas próprias obras, não faço ideia. Mas eis o que pensa a sua tradutora e o que pensei eu quando li 2666: Diz Natasha Wimmer que “tanto Los detectives salvajes como 2666 colocam óbvios desafios ao tradutor. Los detectives salvajes é o romance mais coloquial de Bolaño, narrado nas vozes de mais de cinquenta personagens e cheio de calão, real e inventado, seleccionado em vários países.” Pode bem ser que 2666 tenha menos coloquialismos e mais vocabulário especializado do que Los detectives…, mas tem, ainda assim, essa mesma característica interessante (tanto nos coloquialismos como nas formas não coloquiais), que o torna, nalguma medida, intraduzível, que é estar escrito naquilo em que se poderia chamar pancastelhano, o tal espanhol “seleccionado em diversos países”: há espanhol europeu e centro-americano, sobretudo, mas também bocadinhos de espanhol sul-americano. Como faz quem traduza, por exemplo, para português? Mistura na tradução português europeu e português americano, conforme traduza expressões de espanhol europeu ou de espanhol americano? É uma possibilidade, provavelmente menos emprobrecedora do que outra qualquer…, mas haverá tradutor disposto a fazê-lo – e capaz de o fazer de forma competente, convincente?

O melhor, acho eu, é ler 2666 em castelhano. Aliás, ler em castelhano os livros originalmente escritos nessa língua é o que deviam fazer todos os falantes do português. Ou talvez não, não sei… Mas é uma aventura que eu recomendo – mesmo a quem não conheça esse idioma!...

16 de janeiro de 2010

Sol, areia e mar, igualdade e bem-estar

Regresso de férias. A minha avó dizia sempre: «A 2000 chegarás, de 2000 não passarás». Morreu a 3 de Abril de 2001, com 81 anos, de maneira que, como o mundo acaba, para cada um de nós, no exacto momento em que cada um de nós acaba, foi só por um triz (que foi de facto um trimestre, ou seja, foi só por um triz-mestre) que não se cumpriu a sua insistente profecia. Nós outros, que por cá ainda andamos, a 2010 já chegámos, e que o ano vos corra bem!
Pode parecer à primeira vista que a tese de Wilkinson e Pickett, na medida em que é uma defesa científica das vantagens das sociedades mais igualitárias, é um novo socialismo científico, mais científico do que o outro que houve antes. Mas é muito discutível que o seja de facto.
É verdade que os autores se identificam explicitamente com os ideais igualitaristas dos primeiros socialistas: “Os primeiros socialistas e outros acreditavam que a desigualdade material era um obstáculo a uma harmonia humana mais ampla, a uma fraternidade, sorelidade ou camaradaria humana universal. Os dados que apresentamos (…) sugerem que esta intuição estava correcta”. Esta intuição, porém, era de “socialistas e [de] outros”, e, sejam lá quem forem os outros, não há no livro nenhuma referência nem a Marx nem a Proudhon nem a Jaurès – mas há referências a Tocqueville e a Adam Smith… De facto, “em vez de sugerir uma via específica ou um conjunto de políticas para diminuir as diferenças de rendimento”, Wilkinson e Pickett preferem apontar que “há muitas maneiras de chegar ao mesmo destino”: “pode ser obtida maior igualdade usando impostos e regalias para redistribuir rendimentos muito desiguais ou através de maior igualdade nos rendimentos brutos antes de impostos e regalias”, de forma que “grandes governos podem nem sempre ser necessários para usufruir das vantagens de uma sociedade mais igual”. Dito de outra maneira, “a maneira como uma sociedade se torna mais igualitária é menos importante do que se é de facto igualitária ou não”.
Quanto às aspirações científicas da tese, bom, é claro que as tem – e é isso, precisamente, que a torna tão interessante. Os autores, porém (talvez para evitar conotações indesejáveis da palavra no campo sociológico, não sei), evitam usar o adjectivo científico e preferem dizer que é assente em provaspolítica assente em provas, eis como chamam eles à demonstração das vantagens do igualitarismo económico.
Agora, alguém se deixa convencer por provas? Como lembram Wilkinson e Pickett no capítulo introdutório, a verdade, sobretudo quando é uma verdade nova, parece não ter grande capacidade persuasiva… Uma pequena história tão dramática como moral tirada de The Spirit Level:
Em 1874, Ignaz Semmelweiss descobriu que, se os médicos lavassem as mãos antes de assistirem a partos, reduzir-se-ia drasticamente as mortes causadas por febre puerperal. Mas, antes de o seu trabalho poder ser de alguma utilidade, ele tinha de convencer as pessoas – principalmente os seus colegas médicos – a mudar de comportamento. A sua verdadeira luta não foi tanto a descoberta, mas o que se lhe seguiu. A sua opinião foi ridicularizada (…). Uma grande parte dos médicos não levou a sério o seu trabalho, até Louis Pasteur e Joseph Lister terem desenvolvido a teoria microbiana da doença, que explicava por que é que a higiene é importante.
Uma moral desta história é que não basta constatar que as coisas se passam de um determinada maneira, é preciso saber por quê. A ciência nunca se contenta com a descrição dos fenómenos, quer sempre explicá-los. Pode ser esse um dos problemas da epidemiologia, por exemplo, que é a área de trabalho fundamental dos autores do livro e onde surgiram as constatações da relação directa entre desigualdade e problemas sociais: pode-se constatar um fenómeno sem saber explicá-lo. Não que, no livro, Wilkinson e Pickett não proponham explicações plausíveis. Mas, (e entra aqui outra moral desta história) é preciso mais do que bons argumentos para convencer as pessoas: mesmo classes que, devido ao seu elevado nível de educação formal, são julgadas progressistas, como é o caso da classe médica, são de facto extremamente conservadoras. E, quando é de pôr em causa certezas tão arreigadas nas pessoas, haverá muita gente que não seja igualitarista à partida a discutir de facto as propostas do livro e a aceitá-las?
Uma das constatações do livro que muitos se negarão cegamente a aceitar, por mais provas que lhe apresentem, é a seguinte: se uma pessoa ganha, ponhamos, 10 vezes o salário mínimo nacional e tenta melhorar a sua vida tentando ganhar 15 vezes o salário mínimo nacional, está obviamente a escolher a estratégia errada – a melhor maneira de melhorar a sua vida é tentar conseguir que quem ganha o salário mínimo ou apenas 2 vezes o salário mínimo passe a ganhar mais. O crescimento do rendimento económico de uma pessoa é relativamente irrelevante quando comparado com as vantagens que lhe podem advir de um nivelamento de toda a sociedade.
Trata-se de uma constatação fundamental por várias razões: para além de insistir, com provas na mão, nas clássicas propostas da esquerda (de que a igualdade é o valor fundamental e de que a resolução dos problemas de cada um passa sempre pelo nível social, pela resolução dos problemas de todos), mostra-nos também que, ao contrário do que quase toda a gente afirma, à esquerda e à direita (ou quando não afirma insinua…) “há maneiras de melhorar a qualidade de vida nos países ricos sem mais crescimento económico”. De facto, tudo parece indicar que se pode até diminuir o nível de riqueza dos países ricos sem que ninguém viva pior por causa disso. Paralelamente a esta constatação de que, quando se é rico, não é mais dinheiro que dá a felicidade, outra constatação fundamental (relativamente marginal no livro, que se centra apenas nas sociedades ricas, mas fundamental na discussão da ajuda ao desenvolvimento) é que, sem dinheiro não há felicidade: até um nível de PIB da ordem dos 25 000 USD anuais per capita, a qualidade de vida e o bem-estar estão directamente relacionadas com a capacidade económica. Uma coisa óbvia, dirão muitos, e é provável que o seja, mas então por que é tão frequentemente esquecida?
Como dizia o meu amigo Seth Jenkinson na sua recensão de The Spirit Level que publiquei aqui na Travessa, o livro merece uma ampla discussão. A mim, que não sou propriamente sociólogo nem epidemiologista, surgiram-me várias dúvidas relativamente a algumas explicações para os fenómenos constatados, que me parecem algo ralas. Mas enfim, o grosso dos dados apresentados é sólido e, no mínimo, impressionante.
É claro, como li o livro na praia, perguntei-me logo que influência teriam o sol e o mar, precisamente, na minha apreciação das teses de Wikinson e Pickett. E estou convencido de que continuaria achar da maior importância as ideias defendidas no livro se o tivesse lido no desconforto do comboio suburbano a caminho do trabalho…
Li também nas férias um livro chamado 2666 (a 2010 chegámos quase 7 milhares de milhões, pois, mas a 2666, quantos chegarão?), mas disso falo amanhã.