26 de janeiro de 2010

E o que é fascinante é isto...

Se seguirmos a nossa intuição, podemos facilmente acreditar que a água sai em curva de uma mangueira enrolada, que o Sol gira à volta da Terra e a Lua se faz e se desfaz, ou que todo o evento que presenciamos no mundo deve ser produzido por um agente dotado de vontade… Por que será que nos engana a nossa mente? Não é um perigo para nós termos uma mente que nos engana? Para que desenvolvemos uma mente assim?

Bom, a evolução, por muito que, de certa forma, se possa compreender como um mecanismo de aperfeiçoamento, não garante, nem de longe, perfeição nenhuma. E também podemos pensar que as nossas intuições e a nossa percepção são, ainda assim, altamente adaptadas à vida que os hominídeos tinham quando a sua mente evoluiu e ao meio natural em que a viviam; que os enganos da nossa intuição e percepção (ou, pelo menos, alguns deles) nos foram muito úteis nessas condições de vida – e podem ser ainda, naturalmente, em condições ou situações do mesmo tipo. Mas é uma discussão comprida e complicada, e não a quero (nem sei!…) ter aqui.

O que é facto é que as nossas intuições e a nossa percepção são altamente enganadoras. As categorias e operações mentais com que nascemos e que nos permitem organizar o mundo levam-nos, pura e simplesmente, a concluir mentiras sobre esse mundo. E o que é fascinante é que o nosso cérebro tem, apesar disso, a capacidade de ir além das nossas intuições e da nossa percepção naturais e compreender a realidade de formas mais sofisticadas – e eficazes –, que são perfeitamente contra-intuitivas. E este mundo em que vivemos (instrumentos de alta precisão, transplantes, aviões e computadores, milhares, milhões, de importantíssimos etcéteras...) é, em grande parte, construído a partir, precisamente, dessa capacidade de conhecimento – ciência, como se lhe costuma chamar.

Sejamos agora claros: viver no mundo moderno sem utilizar a capacidade de conhecimento contra-intuitiva e mais rigorosa que fomos criando, limitarmo-nos, no mundo do século XXI, a continuar a pensar com as ferramentas mínimas desenvolvidas para sobrevivência na savana africana, é franca desadaptação, para não dizer acção suicidária. Limitar-se ao nosso “conhecimento” natural e às superstições que dele resultam pura e simplesmente não funciona. E nunca é demais insistir nisto, para fazer frente a alguns simplismos de grande fortuna com que somos amiúde bombardeados: ao contrário do que muitos pretendem, a religião e as “formas de conhecimento” intuitivo não são apenas “outra maneira de compreender o mundo”, mas antes uma maneira de não o compreender.

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