18 de janeiro de 2010

Falta sempre um som…

Fraquejei ontem e falei de literatura, que é uma coisa de que tinha prometido não falar, porque não sei falar de tal coisa e porque duvido que valha a pena falar disso… Para me redimir, falo hoje de algo de que sei falar melhor, se bem que também só tenha interesse para meia dúzia de cismáticos como eu...; e digo uma coisa que, por muito que seja provável que alguém a tenha já dito, nunca vi dita em lado nenhum: falta sempre um som nas listas de sons do português!

O normal é considerar que existem, em português, 5 vogais nasais: [ã], grafada an (antes), am (ambas) ou ã (manhã); [ẽ], grafada en (dente) ou em (sempre); [ĩ], grafada in (tinta) ou im (simples, sim); [õ], grafada on (ontem), om (pomba, com) ou õ (só em ditongos, como em põe); e [ũ], grafada un (mundo) ou um (chumbo, atum). [Podem ver, por exemplo, esta descrição das vogais nasais do português aqui ou aqui.]

E falta sempre uma (pelo menos, em português europeu): a que se encontra nas partes destacadas a negrito do sintagma “a antiga antagonista da Antónia” [ã'tiɣãtɐɣu'niʃtɐðã'tɔnjɐ], ou seja, uma vogal nasal aberta, que escrevi [ã], para a distinguir do [ɐ̃] de manhã e que resulta – sempre e só – da contracção de um [a] fechado com um [ɐ̃] nasal.

É uma vogal especial, reconheço, porque, quando experimento, tenho dificuldade em pronunciá-la sozinha, ao contrário do que acontece com as outras vogais nasais. Como duvido da minha percepção e não tenho maneira de analisar o som com rigor, isto é, usando um aparelho em vez dos meus ouvidos, ponho até a hipótese de não se tratar efectivamente de uma vogal nasal e de que, no contexto referido e apenas nele, se pronuncie em português uma consoante nasal [ŋ] (como no inglês sing) a seguir a um [a] aberto. Se assim for, porém, continua a faltar um som nas listas de sons do português…

Não sei, o que acham vocês? Cismáticos da língua ou não, deixem, por favor, nos comentários, a vossa opinião – ou o que souberem sobre a questão.

2 comentários:

Ushpelhu disse...

Bem, já pronunciei o teu exemplo umas quantas vezes mas, como tu sabes, para além de ser (no que diz respeito à pronúncia) um bocado "anormal", sou um bocado surda (o que deve explicar a primeira afirmação)...

A sério, Vítor, eu pronuncio um (a) fechado e outro nasal no início da frase (não sei como grafá-los com o meu teclado).

Já no resto do exemplo, tens toda a razão, até eu os pronuncio...

Vou dar uma volta a pensar no assunto :-)

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Não sei explicar por que razão não pronuncias a primeira sequência da mesma forma que as outras, que lhe são em tudo iguais. Parece que te estou a ouvir, a pronunciar tudo muito bem pronunciadinho, som por som: "A - an - ti ...". Mas enfim, percebes onde eu quero chegar. Se até tu, às vezes, pronuncias o som que nunca é listado...