26 de janeiro de 2010

Pidgin divino

Quando os seres divinos criaram os seres humanos, quiseram dar-lhes uma língua e reuniram-se em conciliábulo para decidir que língua havia de ser.

«O melhor é dar-lhes a nossa própria língua», propôs um dos deuses mais respeitados, «porque uma coisa para que deve servir a língua que lhes dermos é comunicarem connosco.»

«Não creio que isso se possa realizar», contestou outro deus importante, «porque é demasiado pequena a mente que têm. Se lhes couber na mente – que é algo de que não estou certo –, a nossa língua ocupá-la-á por completo, e não poderão ter outra capacidade que não seja a de falar. É condenar à morte essas nossas criaturas.»

«Podemos então», propôs outro dos deuses maiores, conhecido pela sua sabedoria e pelo seu carácter conciliador, «dar-lhes uma língua que se pareça com a nossa o suficiente para nós os compreendermos quando eles se nos dirigirem, mas suficientemente simples para não lhes atafulhar a mente limitada que têm.»

Todos concordaram e foi dado aos homens um pidgin da língua dos deuses. É numa das variantes desse pidgin que estou a escrever isto. A nós, que não conhecemos mais nada, parece-nos este pidgin uma faculdade maravilhosa, com que se podem dizer quantidades e qualidades, proezas épicas e tratados de zoologia; mas está para a língua divina de que deriva como o tosco pidgin que falavam os pescadores noruegueses com os comerciantes russos de Kola está para a linguagem de Ibsen ou de Tchekhov.

Informadas pelos seres divinos de que eram muito limitadas as possibilidades de os seres humanos comunicarem com os seus deuses, e sem compreenderem o que implicava ao certo essa limitação, os fundadores das religiões humanas restringiram ao mínimo o conteúdo das suas orações – aos deuses, decretaram eles, só se pode dizer “gosto de ti”, “dá-me chuva” [ou “dá-me saúde”, ou “dá-me riqueza”] e mais meia dúzia de proposições muito básicas.

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