19 de fevereiro de 2010

Língua, identidade e empréstimos

[Nota prévia: Este texto não foi escrito para fazer publicidade ao meu glossário de moçambicanismos, mas tenho de aconselhar, a quem não conhecer os muitos moçambicanismos que nele aparecem, que o consulte, pois então…]

Normalmente, vamos buscar uma palavra a outra língua, quando ela descreve algo que não sabemos descrever com a nossa língua (ou que não sabemos descrever bem com a nossa língua) ou quando há uma pressão linguística muito grande à nossa volta: de facto, uma minoria linguística acaba sempre por incorporar palavras da língua da maioria circundante. No primeiro caso, cabem subcasos: a palavra que tomamos emprestada pode designar um objecto ou um ser cuja designação não existe na nossa língua, como uma matchessa ou um alacavuma; ou pode ser que designe um tipo especial de coisa que nós podemos designar na nossa língua, mas que, numa realidade cultural diferente, sentimos que não designamos adequadamente. Por exemplo, quando vivia na Bolívia, conhecia alguns jovens americanos do Peace Corps e constatei que, falando entre eles no seu inglês materno, diziam sempre mercado em vez de market, porque, obviamente os mercados bolivianos eram tão diferentes dos americanos que lhes soava falso referir os mercados bolivianos com o termo market.

O que fica dito atrás justifica bem o uso, no português de Moçambique, de palavras como ocanho, cacana, quizumba ou macaiaia, e mesmo banja, madala ou muquero, se se pensar que uma banja é outra coisa que não exactamente uma assembleia, ou se se sentir que há no termo madala uma carga cultural que ultrapassa a da referência à idade ou que o vaivém para a Suázi não é exactamente contrabando. Mas há outros factores além da necessidade de designar ou de designar com mais rigor que podem ter influência na incorporação de termos doutras línguas no português falado em Moçambique*. Um desses factores é a criação de identidade.

Diria que uma parte da adopção de léxico banto pelos falantes nativos do português em Moçambique (ou que o usavam como sua principal língua de comunicação ou como língua literária) é ideológica, no sentido em que visa, conscientemente ou não, contribuir para estabelecer uma identidade distinta através da criação de uma maneira de falar sua, ligada à terra com que se querem identificar por palavras que eles consideram como sendo realmente dessa terra. Quero esclarecer que uso aqui ideológico sem qualquer valorização positiva ou negativa e num sentido lato, cobrindo um leque amplo de espaço ideológico no sentido mais comum do termo – não só o relacionado com as ideias africanistas, autonomistas, nacionalistas, mas provavelmente também, por exemplo, com a criação de identidade colonial moçambicana.

Não conheço suficientemente bem o assunto para poder ter uma opinião muito firme, mas parece-me óbvio que, nas últimas décadas, se alterou muito a relação do português com as línguas bantas. Se houve um tempo em que uma grande percentagem dos utilizadores do português em Moçambique eram pessoas que o tinham como língua materna, que o dominavam muito bem ou que, não o dominando tão bem, o utilizavam sobretudo para contactar com falantes nativos da língua, hoje há uma muito maior percentagem dos seus utilizadores que o tem como língua segunda, e que o aprendeu e o fala sobretudo com pessoas que o têm também como língua segunda. O que resulta desta situação é a normal influência das línguas bantas no português, uma influência de substrato canónica, digamos assim. Se no falar destas pessoas continua a haver, naturalmente (em qualquer sentido da palavra naturalmente…), empréstimos às línguas bantas, o valor simbólico desses empréstimos como afirmação de identidade parece ter dominuído ou até desaparecido. Curiosamente, para as novas gerações de moçambicanos, a criação da sua identidade linguística parece já não passar tanto pelo cultivar da inclusão de termos bantos no seu discurso.

É interessante comparar dois textos, ambos relativamente recentes, de autores não identificados, que circulam pela net (do segundo que aqui transcrevo, conheço até várias versões) e que talvez já tenham recebido na vossa caixa de correio electrónico: um sobre o acordo ortográfico, escrito quase de certeza por alguém que conheceu o português de Moçambique noutra era e que se esforçou muito por bantizar o seu texto como forma de afirmar a sua moçambicanidade; e outro em que a moçambicanidade se afirma cotejando o português de Moçambique com o que o/a autor/a assume como sendo português (europeu) standard.

Texto 1
Eh Oena, Lhe Can,

Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bulabula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário. Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!

Hambanine.
Texto 2
São 6 da manhã. Moçambicano não dorme, ferra. O despertador toca. Ele não se levanta cedo, madruga. E não vai tomar duche, vai duchar. E não se arranja, grifa-se bem. Depois, não toma pequeno-almoço, mata-bicha. E não bebe café solúvel e pão com doce, toma café batido e bread com jam.

Não sai de casa para ir trabalhar, vai no serviço. E quando chega ao local de trabalho não pede desculpa por ter atrasado, diz sorry lá, que tive problema de transporte. E não trabalha até ao meio dia, djoba até àquela hora das 12. E aí não pede ementa, pede menu. E não come, tacha. Não come batata frita, come chips. Não come salsichas, come vorse. Não come costeleta, come t-bone. E não bebe uma laurentina preta, toma uma escura.E não fala com o amigo sobre a namorada, bate papo "brada, minha dama". E não gosta muito, grama maningue. E na saída do restaurante não vê as mulheres que passam, aprecia as damas. E não seduz, paquera. E não faz convite, pede contacto. E não a segue, vai à sua trás. E não encontra um conhecido mais velho, apanha um jon cota. Na rua não compra cajú, compra castanha. E não tira fotografias, fota.

No escritório, a empregada não despeja o lixo, no ofice trabalhadora vai deitar. E não traz o jornal, leva. E não põe insecticida, baygona. E não tem reuniões, tem meetings. E no computador ele não escreve, taipa. E depois não faz impressão, printa. E não trabalha as fotografias em Photoshop, fotoshopa. E para fazer um intervalo não vê o patrão, tcheka o boisse. E não sai para dar uma volta, dá um djiko. E não escreve sms para a amiga colorida, manda mensagem para a pita. E não mente dizendo que está ocupado, mafia que tá bizi.

Moçambicano não trai, cornea. Não caminha, estila. Não se faz de difícil, jinga. Não acaba uma tarefa, ultima. E no fim do trabalho não vai, baza. E com os amigos não tem negócios, tem bizne com bro. E ao fim do dia não vai ao ginásio, djima. E não está musculoso, tá big. E não tem bicicleta, tem bikla. E não faz saudação batendo na mão do amigo, deketa. E não gosta de aproveitar a vida, enjoya laifa.

De tarde não bebe chá e come pão com manteiga e queijos, toma chá. E não vai buscar a namorada que está num cabeleireiro distante, a arranjar as unhas e a fazer tranças no cabelo, vai apanhar dama que faz unha e entrança láaaaaaa no salão. E não bebem um refrigerante, tomam refresco. E a namorada não usa mini-saia e saltos altos e anda descapotável, põe sainha e uns saltos e tá descartável. E não lhe diz que é bonita, diz "tens boas". Isto é o verdadeiro moçambicano!
Dois breves comentários:

No comentário ao primeiro texto, como ele aqui está por causa da forma e não do conteúdo, passo por cima do que ele diz com o comentário apenas de que para recusar o acordo ortográfico não é preciso chamar nomes a ninguém. Quanto a como diz o que diz, é de notar que, se a intenção do texto é, muito provavelmente, ser difícil de compreender para não-moçambicanos, o facto é que são nele utilizadas várias expressões que são também incompreensíveis para a maioria dos moçambicanos (já fiz a experiência…). Mas tem também algumas que são efectivamente de uso corrente e atestado no discurso em português desde pelo menos o início do séc. XX, como canganhiça, milando e mufana, por exemplo.

O segundo texto, se bem que dê uma imagem mais realista do português de Moçambique actual, apresenta como moçambicanismos muitas palavras que o não são. É sempre assim, aliás: a consciência da nossa identidade é sempre distorcida e é normal pensarmos que são exclusivamente nossas determinadas características que partilhamos com outros. De facto, neste último texto, há angolanismos, como cota e bazar (incorporados também pelo português europeu e muito provavelmente chegados a Moçambique através dele), há brasileirismos, como paquerar, há calão do português europeu, como ferrar ou tachar, e há expressões cuja origem desconheço, mas que sei serem comuns a várias variantes do português, como mafiar e bicla. E há até português muito canónico, como madrugar e menu… («Menu, português canónico, xô Santos? Então mas menu não é francês?»)
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* E noutros lugares, evidentemente, mas aqui é de Moçambique que se trata. Também os empréstimos às línguas moçambicanas não são a única maneira de criar identidade linguística. Sempre houve e continua a haver outros processos de moçambicanização do português, como a criação de moçambicanismos de raiz portuguesa, para não referir inovações de pronúncia e de sintaxe, mas deixo agora de lado essas questões.

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