7 de fevereiro de 2010

Pão fresco

[É um texto um bocado atrasado, porque as férias já vão longe, mas tarde é melhor que nunca, ao que oiço dizer]


Foto de Søren Madsen

Se o pão nosso de cada dia nos for dado hoje – sendo hoje cada dia, precisamente –, é sempre pão fresco; o tal que, segundo uma famosa adivinha, quanto mais o é (fresco, quero eu dizer), mais quente está. Em Morrungulo, um sítio turístico da província de Inhambane, há um anúncio de uma padaria artesanal, que diz pão fresco em 26 línguas. Os turistas que lá vão, porém, são, na sua grande maioria, sul-africanos, pelo que lhes são especificamente dirigidos os anúncios nº 8 [inglês] do poste da (vossa) esquerda e 2º [afrikaans] e 7º [zulu] do poste da (vossa) direita. É claro, também há alguns zimbabueanos, e é a eles que se dirige, além da mesma 8ª placa do poste da esquerda, a 8ª do poste da direita, em chona (ou cishona, se preferirem, a mesma língua que se fala aqui na região de Chimoio). Na língua que se fala em Morrungulo, tsua (ou xitshwa, se preferirem), pão fresco diz-se pão ya kuhissa, 4ª placa do poste da direita.

Agora, eu que pensava que, em cinco minutos na Internet, descobria logo em que línguas estavam escritas todas as placas… Nada! Tirando o que eu reconheço sem grandes problemas (alemão, castelhano, dinamarquês, finlandês, francês, italiano, neerlandês e sueco, grande poliglota do pão fresco que eu vos saí, não foi?), foi fácil descobrir que tarm hats é arménio, mas o resto já foi mais complicado. Tenho dúvidas relativamente a friss kenyér e a verske leib, que creio que são húngaro e estónio, respectivamente, mas sem o conseguir confirmar; e quanto a frśkí kru, estou convencido de que é croata mal escrito, e que devia ser friški kruh, mas também não tenho a certeza (talvez o nosso correspondente na Croácia se queira pronunciar sobre isso…). E mais misteriosas são ainda, para mim, as expressões cērstuý chlēb e frisk brud. A primeira é com certeza eslava, mas não consigo identificar ao certo que língua será; e a segunda é obviamente germânica, mas em que idioma?

Pois… Diz que Deus diz que dá o fresco pão nosso de cada hoje… E se Deus não dá? Ainda bem que há o padeiro. Ah, e outra coisa: isso do pão nosso de cada dia também é uma mania, porque o pão que eu faço dura-me uma semana!

5 comentários:

Relvas disse...

ora lá vai o comentário do correspondente na Croácia: o friski kruh (só não ponho aquele circunflexo maroto porque estou a escrever com teclado português, faz o som ch que faz naturalmente o nosso s às vezes, senão seria sempre ss) seria croata para "fresco pão", em que friski não me parece muito eslavo e kruh (kru-rrrr)já me soa mais a isso (o "eslavo" destas zonas tem alemão, italiano e sobretudo muito latim, vidi e idi são dois dos exemplos mais gritantes), mas as variantes desta zona (balcânica muito lato sensu)podem dar coisas do género de frski kru, que até podia ser esloveno, se bem que esteja a estranhar o acento agudo, ou até frisk brud, o que vendo bem as coisas talvez seja mesmo esloveno. Quanto ao cerstuy chleb, soa-me a língua turca.

Lamento que os meus conhecimentos linguísticos não cheguem para mais.

Um abraço
R

Paulo Soriano disse...

O último parágrafo me fez lembrar Chico Buarque:
"Diz que Deus, diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega
Diz que Deus, diz que dá
E se Deus negar, ó nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará
Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
Eu sou do Rio de Janeiro
Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica
Como é que pôs no mundo esta pobre coisica
Vou correr o mundo afora, dar um canjica
Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca
E aquele abraço pra quem fica
Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio
Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia
Deus me deu muitas saudades e muita preguiça
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
Pra correr atrás de bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia"

Abraços,
Paulo

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Caro Paulo Soriano,

A minha ideia era precisamente essa, piscar o olho à canção "Partido Alto", de Chico Burque.

Aproveito para lhe agradecer todos os seus os comentários. A lengalenga brasileira que deixou em "Uma velha tinha um gato" é um excelente apêndice ao post; o poema de Cassiano Ricardo no post "Tic tac tic tac" é, de facto, muito bonito; e fica bem ter aqui a letra completa de "Partido Alto". Muito obrigado!

Paulo Soriano disse...

Olá, Lucas!
Sou eu quem agradece a atenção às minhas postagens!
Mas gostaria, apenas de inserir, aqui, uma curiosidade. Talvez você tenha conhecimento, mas certamente alguns de seus leitores não saibam.
Em "Partido Alto", obra composta e tornada pública em pleno regime militar, a censura meteu os seus bedelhos. A letra original seria esta:

"Na barriga da miséria nasci brasileiro"

E, não, "batuqueiro", como se vê no texto que postei.

Chico chegou a gravar com a letra correta, num magnífico xou que fez com Caetano, no Teatro Castro Alves em Salvador, cidade donde escrevo; mas a versão que realmente tocava nas rádios - se não me engano com o MPB4 -, trazia a letra alterada.
Sim, outra coisa: percebi muitas coisas similares, quando não coincidentes, entre o falar brasileiro e moçambicano, ao me deleitar com o dicionário. Se for de seu agrado, podemos conversar mais tarde.
Muito grato.

Paulo

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Caro Paulo,

Eu tenho esse disco, Caetano e Chico juntos e ao vivo, no Teatro Castro Alves, em 1972, e é essa versão de “Partido Alto”, cantada por Caetano, aliás, a que conheço melhor. A versão que eu tenho também é censurada. Não se ouve nada entre “nasci” e “Eu sou do Rio de Janeiro”. Mas acho graça às opções da censura dessa época. Não era só a contestação política que não passava, era também, e muito, tudo o que fosse considerado imoralidade ou despudor, pois claro… Por exemplo, censuram “duas”, em Bárbara, na frase “Vamos ceder enfim à tentação / Das nossas bocas cruas / E mergulhar no poço escuro de nós duas”, porque é a palavra que torna explícito que se trata de um amor entre mulheres. Em “Fado tropical” (mas essa não é deste disco) acharam que o mais subversivo da canção era a palavra sífilis, naquela parte declamada “Todos nós herdamos do sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)”. Um dia, ainda escrevo um texto sobre canções censuradas.

Quanto aos moçambicanismos que são parecidos com brasileirismos ou iguais a eles, pois é claro que teria muito gosto em saber quais são. O que eu tento fazer no glossário é, precisamente, não pôr lá as expressões que são importadas do Brasil, de Angola ou de Portugal, que há muitas, mas, é claro, é capaz de haver algumas de cuja origem eu não tenho consciência.

E muito obrigado pela sua colaboração, que é sempre bem vinda!