4 de março de 2010

Do kitsch a sério e do kitsch de imitação

Um apontamento de uma viagem à Suécia, de há 17 anos, que eu encontrei ontem e a que achei graça (sobretudo porque agora, acho eu, não me passaria pela cabeça escrever uma coisa assim...):

É um coração numa barraca de tiro, numa feira. De facto, é quase um espelho, mas, em vez de um espelho único, são rectangulozinhos pequenos de espelho, como aqueles que cobrem colunas ou paredes de boîtes farsolas, de modo que não se distingue nada do que reflecte. A moldura cordiforme é cor-de-rosa, não se percebe se de madeira se de plástico, e está cravejada de pequenas lâmpadas multicolores.

O coração na barraca de tiro é um símbolo de uma parte da Escandinávia, aquela que a gente conhece do festival da Eurovisão. Não há nada a fazer, nenhum sistema de educação, nenhum Estado-providência, nenhum bem-estar social, nenhuma tradição democrática, o kitsch é uma instituição tão inabalável como a fama dos Abba.

Nós em Portugal também temos kitsch, e muito, mas não é sério. O quê, a gaiola de plástico do periquito ou a Rute e o Nelson do Poço da Morte? Ora... Falta o brilho, faltam as lâmpadas às cores. Está tão baço e gasto, o nosso kitsch, que já nem kitsch é, é mais miséria. Vou dizer de outra maneira – kitsch a sério é o deles, o nosso kitsch é de pechisbeque.

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