24 de março de 2010

Inglês, inglês, mais uma vez

A entrada Antoine Culioli da Wikipédia em francês diz, e muito bem, que os trabalhos deste grande teórico têm «um lugar de destaque na linguística francesa e que abrem, além disso, perspectivas para outros campos de pesquisa, desde a antropologia às neurociências», mas que a sua teoria «não é, porém, divulgada e estudada em muitos países», nomeadamente nos países anglófonos. É significativo que a página Antoine Culioli da Wikipedia em inglês não chegue a duas linhas. E é uma grande pena, porque o conhecimento do extraordinário trabalho de Culioli poderia ser de grande utilidade para todos os linguistas do mundo anglo-saxónico.
Aquilo com que eu não posso concordar é com a explicação que a já referida página da Wikipédia em francês dá para o facto de Culioli não ser mais conhecido fora de França e no mundo de língua inglesa em especial: «Isso deve-se sem dúvida, em grande parte, ao carácter dificilmente traduzível para inglês de muitas noções essenciais que [a teoria de Culioli] utiliza: ela assenta, com efeito, numa terminologia francesa, concebida por Culioli, cuja própria abstracção condiz mal com o carácter muitas vezes mais concreto dos “equivalentes virtuais” ingleses». É obviamente um disparate, e um disparate com uma forte componente de delírio que fica mal no que se pretende que seja uma enciclopédia. Acho que, a escrever alguma coisa sobre esta questão (de facto, não se devia escrever nada deste tipo), ficava muito melhor escrever que isso se deve sobretudo ao facto de Culioli não ter feito conferências e publicado trabalhos em inglês – ou só muito raramente o ter feito –, sem mais.

Também já vi e ouvi dizer de Louis Hjelmslev (isto para continuar na Linguística) que o facto de ele ter escrito em dinamarquês tinha prejudicado muito a difusão da sua obra. Não tenho maneira de verificar até que ponto isso é verdade, mas não me surpreenderia. Agora, se este estado de coisas foi, infelizmente, normal – e provavelmente inevitável –, num determinado período, hoje já não o é. Evitemo-las, então.

Como já aqui disse uma vez, a propósito de uma coisa completamente diferente, pode bem ser que as razões para o inglês se ter tornado a língua internacional não sejam as mais louváveis, (nem há razões louváveis para um língua se tornar dominante!), mas o facto é que, por pura coincidência, é uma língua com algumas das características que têm naturalmente as línguas que surgem para comunicação, como seja a pouca flexão morfológica. É sorte! Além disso, independentemente de tudo o resto, o que é realmente bom para todos é haver uma língua que permite comunicar com uma percentagem maior da população mundial do que alguma outra língua alguma vez permitiu. No campo restrito da Academia, é também de um valor inestimável que haja, finalmente, uma língua que se vai tornando cada vez mais comum a toda ela (no chamado mundo ocidental, o latim teve já essa função, provavelmente também o francês, mais tarde, mas em menor escala).

Nunca encontrei bons argumentos de ordem moral para tentar convencer a escrever numa língua estrangeira alguém que o não quer fazer. Mas há bons argumentos de ordem prática. Não tenho nenhuma proposta muito concreta a fazer, até porque podem coexistir e complementar-se várias soluções; mas, sejam as faculdades ou outras unidades de investigação a organizá-lo e a fazê-lo, sejam apenas os próprios autores das obras, seja outra instância qualquer, deve começar-se a traduzir para inglês e a informatizar os trabalhos de investigação escritos apenas noutras línguas – pelo menos, os considerados de óbvia importância. Não o fazendo, muito desses trabalhos correm o risco de não participarem como deviam na discussão de ideias e até, provavelmente, de cair definitivamente no esquecimento.

E então, se é preciso escrever em inglês para ser lido, que por que tenho eu blogue em português e não em inglês? Bom, não é que não tenha já pensado escrever antes em inglês, mas não merece a pena. Referia-me atrás a coisas importantes, como as obras de Antoine Culioli, não a estas coisitas que para aqui vou escrevendo.

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