24 de março de 2010

Não mata só as colheitas

A Karen, a minha mulher, chegou ontem desanimada do Dombe. A seca deu cabo de toda a colheita de gergelim. Aquela gente toda (em números redondos, 2000 produtores com 1 hectare cada um), que tinha tido bons resultados com o gergelim como cultura de rendimento na campanha passada e que tinha investido ainda mais em gergelim este ano, vai ter zero, literalmente zero, de produção, porque simplesmente não choveu até meados de Fevereiro. “Imaginas o que é passar um ano todo sem um tostão?”, perguntou-me a Karen quando chegou a casa. Eu não, por acaso não imagino mesmo. E vocês?

Nos países ricos, há seguros agrícolas e há fundos especiais para zonas de calamidade. Talvez os agricultores não vivam tão bem num ano de má ou nenhuma colheita como num ano bom, mas vão vivendo. Aqui, não há nada. É preciso desenvolver a agricultura e é preciso aumentar a produção e a comercialização. Muito bem. Mas, depois de um ano assim, quem se tinha disposto a lançar-se em mais do que mera agricultura de subsistência provavelmente desiste. Volta diversificar mais as culturas e a investir menos trabalho e dinheiro, porque assim, se voltar a perder, é menos trabalho e dinheiro que perde…

No mês passado, em Maputo, estive a ouvir Joseph Hanlon num seminário a que assisti. Não fiquei muito convencido com o grosso da sua palestra, mas houve uma proposta que ele fez que me parece interessante (e que é precisamente a que ele vai desenvolver no seu próximo livro, Just Give Money to the Poor, a ser publicado agora em Abril): Quando tantos modelos de cooperação para o desenvolvimento falharam e continuam a falhar, por que não dar simplesmente dinheiro às pessoas pobres, para activar um pouco as economias das zonas mais remotas, onde o dinheiro é pura e simplesmente inexistente? Até porque os primeiros produtos que as pessoas mais pobres compram quando têm algum dinheiro são, se não mesmo locais, pelo menos feitos no país. Evidentemente, Hanlon não propõe lançar de helicópteros sacos de notas de 20 meticais. O que ele propõe é que o dinheiro da cooperação vá directamente para pagar os diversos subsídios que são comuns nos países europeus e inexistentes em países como Moçambique (ou que, mesmo quando existem na teoria, não funcionam na prática): maternidade, reforma, desemprego, etc. E algum tipo de seguros agrícolas, digo eu. É que uma seca como a deste ano não mata só as colheitas...

2 comentários:

Nuno (@gmail) disse...

Um artigo interessante sobre a falta de informação e as concepções erradas que temos nos países desenvolvidos. E como isto de comprar produtos orgânicos só faz bem é ao ego.

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Muito obrigado, Nuno, pelo link. O artigo é de facto interessante, embora tenha muitas coisas muito discutíveis. Vou só citar aqui uma frase que podia, acho eu, ter sido a Karen a dizer: "Wherever the rural poor have gained access to improved roads, modern seeds, less expensive fertilizer, electrical power, and better schools and clinics, their productivity and their income have increased". E um ambiente de negócios favorável, com regulação e fiscalização, porque produzir sem vender não vale de muito... E seguros de colheitas, como nos países ricos, digo eu, para puxar a brasa ao meu texto. Evidentemente, a questão moral de base (é uma conversa já velha...) é esta: porque havemos de querer impor aos outros restrições que não tivemos nós quando nos desenvolvemos?