4 de março de 2010

Pequenas notas linguísticas avulsas

Em vez dos nomes…

Chama-se normalmente pronomes a palavras que “substituem” nomes e muitas vezes também a palavras que antecedem nomes. Na realidade, os únicos pronomes que substituem os nomes são os pessoais da terceira pessoa, que referem nomes introduzidos anteriormente no discurso. De eu e tu não se pode dizer que substituam seja lá o que for. De aquele, no enunciado “Tu levas esse livro e eu levo aquele”, também não, porque o enunciado não se pode parafrasear por “*Tu levas esse livro e eu levo livro”. O que interessa é que os verdadeiros pronomes, os pessoais, se portam exactamente como um nome, sejam anafóricos (quer dizer, retomando uma referência feita antes a alguém) ou referenciais (indicando directamente as pessoas que participam na conversa). Quanto aos outros “pronomes” que aparecem sem o nome mas não em vez dele, como o aquele do exemplo, o que é lógico é considerar que são determinantes que têm a capacidade de suportar a omissão do nome, mas nunca, é claro, de o substituir…

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De anãos e castelãos…

Ainda bem que eu não sou picuinhas com as questões linguísticas e ortográficas. Ou, pelo menos, que não sou muito picuinhas. Porque, se uma pessoa for mesmo picuinhas com essas questões, tem forçosamente de fazer propostas que ninguém está preparado nem sequer para discutir, quanto mais para aceitar.... Por exemplo, se se insistir que é refrães que se deve dizer, porque é isso que decorre naturalmente da origem da palavra, tem de se defender que se diga não só aldeãos e anciãos, mas também anãos e verãos

Também se compreende mal porque se chama castelhana uma pessoa de Castela e castelhano a língua dessa região ibérica, a não ser por decalque impróprio dessa mesma língua. Para dizer as coisas da maneira natural em português, o picuinhas proporá que em português se diga castelã e castelão (plural castelãos, naturalmente…).

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Traços de que união, de facto?

Se o traço de união entre um verbo e um pronome serve para assinalar que o segmento átono depende foneticamente do segmento imediatamente anterior, então devia usar-se o mesmo hífen entre todas as palavras átonas e aquelas a que se ligam foneticamente. Por exemplo: “sei-que ninguém leva-a sério uma proposta assim”. Se é para assinalar a relação de dependência semântica entre o verbo e o seu complemento, então deveria escrever-se “não me-digas que propões mesmo uma coisa assim…”. É assim que escrevem, às vezes, os meus alunos estrangeiros – porque são pessoas (exageradamente?) lógicas…

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