12 de abril de 2010

A cidade e o campo

Assino What’s new, de Robert Park, uma newsletter que, embora tenha o símbolo da Universidade de Maryland, apenas dá conta das opiniões do autor, que, segundo ele, “não são forçosmente partilhadas pela Universidade, mas deviam ser”. O segundo artigo da edição de 9 de Abril de What’s new chama-se “Beyond green: Borlaug’s two contending powers” e fala de um camponês zambiano, Elleman Mumbia, que a BBC tornou famoso (traduzo eu):
Segundo Kieron Humphrey, na BBC News, o camponês zambiano Elleman Mumbia rompeu com os costumes locais para praticar agricultura de conservação científica. A sua pequena machamba cresceu. Alguns vizinhos falaram à socapa de feitiçaria, mas Elleman Mumbia tornou-se um herói da imprensa zambiana. A reportagem da BBC acaba aqui, mas há um capítulo mais triste que está a ser escrito. No seu discurso da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz em 1970, Norman Borlaug disse: «Estamos a lidar com duas forças antagónicas, o poder científico de produção alimentar e o poder biológico da reprodução humana». K.H. von Hoffmann, que chamou a minha atenção para a reportagem da BBC, nota que Elleman Mumbia tem seis filhos (mais ou menos a média na Zâmbia). A machamba é demasiado pequena para ser subdividida. A maior parte dos seus filhos procurarão trabalho na cidade e acabará nos bairros periféricos, como está a acontecer aos jovens em toda a África.
É bem real o problema para que Robert Park chama a atenção. Um exemplo que eu conheço bem é o da Bolívia, onde foi feita uma reforma agrária nos anos 50 e onde todos os camponeses receberam uma porção de terra que, na altura, parecia suficiente, mas, passadas duas gerações, já a terra herdada por cada vez mais gente não chegava para ninguém.

Pode-se, claro está, tentar arranjar soluções para travar as migrações maciças para as cidades, mas também se pode pensar (é essa a minha tendência) que não há verdadeira solução, que o êxodo rural é provavelmente uma fase necessária de desenvolvimento – independentemente da taxa de natalidade, do sistema de heranças e inclusive da terra disponível…Será que num país como Moçambique, onde são raras as zonas onde há falta de terra para cultivar, o êxodo rural é menor por causa disso? Uma vez, publiquei aqui na Travessa do Fala-Só uma lista de dúvidas sobre as questões do desenvolvimento e uma dessas dúvidas dizia respeito, precisamente, à possibilidade de desenvolvimento assente na agricultura. Como não sei dizer melhor agora o que disse nessa altura, limito-me a repeti-lo: Não há prova nenhuma de que possa haver algum desenvolvimento alicerçado no sector primário, sobretudo não industrializado – nunca houve, em lado nenhum do mundo… Desenvolvimento significou sempre, onde ele se deu, uma redução enorme da percentagem de pessoas a trabalhar no sector primário, com movimentações enormes de populações do campo para a cidade e com enormes problemas imediatos que depois se foram resolvendo… Pessimismo, dizem vocês? Se calhar, é só realismo.

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